Os 50 Melhores Discos Brasileiros de 2019 [30-21]


Qual é o seu disco favorito de 2019? De YMA à Lia de Itamaracá, de Jair Naves à Tássia Reis, é hora de relembrar alguns dos principais trabalhos que abasteceram o cenário brasileiro nos últimos meses. São registro que transitam por diferentes sonoridades, gêneros e propostas essencialmente distintas, indicativo da completa pluralidade que define a nossa música.


#30. Bruna Mendez
Corpo Possível (2019, Independente)

Boca, mãos, olhos, dedos e o arrepio leve causado pelo toque na pele. Em Corpo Possível (2019, Independente), segundo e mais recente álbum de estúdio da cantora e compositora Bruna Mendez, o corpo se transforma em um território misterioso, feito para ser explorado. Obra de sensações, como tudo aquilo que artista goiana vem produzindo desde a estreia com O Mesmo Mar que Nega a Terra Cede à sua Calma (2015), o trabalho essência minimalista encontra na versatilidade da voz um estímulo natural para a composição dos versos e todo o conjunto de experiências a serem compartilhadas com o ouvinte. Um lento desvendar de ideias e sentimentos, como a passagem para um ambiente dominado em totalidade pela própria artista. Misto de sequência e lenta desconstrução do material entregue no disco anterior, Corpo Possível encontra no uso de elementos do R&B o princípio de um novo direcionamento estético. São fragmentos de vozes, retalhos instrumentais e a fina sobreposição das batidas, como se cada elemento exercesse uma função específica para o crescimento da obra. Parte dessa mudança de direção vem da forte interferência do co-produtor do trabalho, Gianlucca Azevedo, além, claro, de membros da Tuyo, principalmente Lilian Soares e Machado, que parecem transportar para dentro do álbum parte da atmosfera detalhada no agridoce Pra Curar (2018). Leia o texto completo.

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#29. Jair Naves
Rente (2019, Independente)

O breve período em que esteve afastado dos estúdios nos últimos anos em nada parece ter prejudicado o trabalho de Jair Naves. Pelo contrário, poucas vezes antes a poesia entregue pelo cantor e compositor mineiro radicado em São Paulo pareceu tão necessária e forte quanto nas canções de Rente (2019, Independente). Terceiro álbum de estúdio do também vocalista da Ludovic em carreira solo, o álbum segue exatamente de onde o artista parou há quatro anos, durante o lançamento de Trovões a Me Atingir (2015). Um minucioso catálogo lírico que traduz as emoções e, principalmente, a completa descrença de seu realizador. “Que força é essa que te cega / Te emburrece e te enche de raiva / De quem ousa ter menos que você? … Minha terra é uma bomba a ponto de explodir / Minha fé é uma bomba a ponto de explodir / Minha gente é uma bomba a ponto de explodir“, canta logo nos primeiros minutos do disco, em Veemente. São versos em que discute a atual situação política e social do Brasil, estrutura que se completa pelo dedilhado tímido do violão de Naves e a fina tapeçaria melódica orquestrada pelo violoncelo de Raphael Evangelista. Leia o texto completo.

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#28. Bárbara Eugênia
Tuda (2019, Independente)

O amor está no ar! Em Tuda (2019, Independente), primeiro álbum de estúdio de Bárbara Eugênia desde o colaborativo Vida Ventureira (2017), bem-sucedido encontro com Tatá Aeroplano, a cantora e compositora carioca utiliza das próprias emoções como um estímulo para a composição dos versos. São confissões românticas, instantes de profunda vulnerabilidade e entrega sentimental, proposta que resgata o lirismo melancólico detalhado durante a produção do também sensível É o Que Temos (2013), há seis anos, mas que ganha ainda mais destaque frente ao explícito desejo da artista em ampliar musicalmente os limites da própria obra. Como indicado logo nos primeiros minutos do disco, na inaugural Saudação, encontro com as mulheres do Bloco Pagu, Eugênia utiliza de elementos do axé, referências regionais e ritmos latinos como alicerce criativo para a formação do disco. São variações instrumentais que preservam o mesmo romantismo brega que tem sido explorado pela artista desde a estreia com Journal de BAD (2010), porém, em um sentido menos formatado e, consequentemente, amplo, estrutura que faz do presente álbum um dos registros mais completos da cantora carioca. Leia o texto completo.

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#27. Juliana Perdigão
Folhuda (2019, Circus)

O incerto é parte substancial do trabalho de Juliana Perdigão em Folhuda (2019, Circus). Inaugurado pela poesia sarcástica de Mulher Limpa (“Uma mulher brava / Não é uma mulher boa / E se ela é uma mulher boa / Ela é uma mulher limpa“), composição que se abre para o coro de vozes femininas orquestrado por nomes como Tulipa Ruiz, Ava Rocha e Iara Rennó, o registro de 12 faixas muda de direção a todo instante. Frações de ideias que se convertem em atos grandiosos, sempre turbulentos, ou mesmo blocos instrumentais que se esfarelam de forma a revelar um conjunto de experiências melódicas, sempre sensíveis. Exemplo disso está na segunda música do álbum, Torresmo, colaboração com Arnaldo Antunes que se revela ao público em pequenas doses. São camadas de guitarras e versos sobrepostos que servem de alicerce para o fechamento caótico da composição, proposta que vem sendo aprimorada pela cantora e compositora mineira desde o disco anterior, Ó (2016). Arranjos e vozes que encolhem e crescem a todo momento, como retalhos conceituais que se amarram dentro de uma mesma faixa, versatilidade que se reflete também na colorida Máquinas Líquidas, música composta a partir de fragmentos da obra de Paulo Leminski (1944 – 1989). Leia o texto completo.

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#26. Moons
Dreaming Fully Awake (2019, Balaclava Records)

Delicada, a fotografia que estampa a imagem de capa de Dreaming Fully Awake (2019, Balaclava Records), trabalho do artista belga Yannick Falisse, funciona como um precioso indicativo do som produzido para o terceiro e mais recente álbum de estúdio do coletivo mineiro Moons. De essência acolhedora, como um ponto luminoso em uma noite escura, o registro de nove faixas ganha forma aos poucos, sem pressa, cercando e confortando o ouvinte em uma trama de melodias minimalistas e versos sempre confessionais, leveza que tem sido aprimorada pela banda desde o primeiro álbum de estúdio da carreira, o bucólico Songs of Wood & Fire (2016). Feito para ser desvendado aos poucos, conceito evidente desde o antecessor Thinking Out Loud (2018), Dreaming Fully Awake diz a que veio logo nos primeiros minutos disco, em Creatures of The Night. Concebida em meio a sintetizadores atmosféricos, a canção convida o ouvinte a mergulhar em um universo de experiências oníricas, versos descritivos e instantes de doce contemplação, produto do esforço coletivo entre André Travassos (letras, voz, guitarra e violão), Jennifer Souza (voz e guitarra), Bernardo Bauer (voz e baixo), Digo Leite (gaita, guitarra e lap steel), Felipe D’Angelo (voz, teclados, piano e guitarra) e Pedro Hamdan (bateria). “Algo dentro me diz para não ter medo / Meus demônios se foram, só por um tempo / Eles podem estar de volta com os primeiros raios de luz / O que mais eu poderia querer?“, questiona Souza, indicando o caminho misterioso que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra. Leia o texto completo.

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#25. Tássia Reis
Próspera (2019, Independente)

O mundo tem que melhorar / Eu já mudei minha percepção / Agora eu sou preta demais / Mas, não na sua conotação … Eu sou incrível, eu sou demais / Eu sou preta demais“. A celebração explícita nos versos de Preta D+, uma das 16 faixas de Próspera (2019, Independente), funciona como eficiente síntese do material produzido para o terceiro álbum de estúdio de Tássia Reis. São versos marcados pelo enfrentamento ao racismo, a força do feminismo negro e, principalmente, as conquistas diárias de qualquer indivíduo minorizado, conceito que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra. “Esse disco surgiu da necessidade de acreditar que podemos ser melhores do que somos agora e prosperar em todos os sentidos: pessoais, amorosos, espirituais e, também, financeiros”, explica a rapper no texto de apresentação da obra. De fato, do momento em que tem início, em Amora, até alcançar a derradeira Myriam, cada fragmento do disco parece pensado de forma a transformar as conquistas de Reis em um estímulo para o próprio ouvinte. Não se trata de autoajuda ou afirmação barata, mas de uma celebração ao domínio de diferentes símbolos, elementos e marcas que historicamente estiveram contidos nas mãos de uma minoria branca. Leia o texto completo.

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#24. Jorge Mautner
Não Há Abismo Em Que o Brasil Caiba (2019, Deck Disc)

Ouvir as canções de Não Há Abismo Em Que o Brasil Caiba (2019, Deck Disc), primeiro trabalho de inéditas de Jorge Mautner em mais de uma década, evoca uma doce sensação de acolhimento. É como chegar em casa depois de uma longa e exaustiva viagem. O reencontro com um velho amigo, sempre cheio de histórias e experiências a serem compartilhadas. Estranho perceber isso justamente em um dos trabalhos em que a essência política e crueza dos versos assinados pelo músico carioca pareça destacada. Um misto de conforto e constante provocação, estrutura que orienta a experiência do ouvinte durante todo o desenvolvimento da obra. Entre versos semi-declamados, Mautner canta sobre um Brasil ora fantástico e esperançoso, ora realista e perturbador. Composições montadas a partir de figuras religiosas, seres mitológicos e, principalmente, pessoas reais. São nomes como Marielle Franco, Anderson Gomes, José Bonifácio, Dona Catulina e Joaquim Nabuco. Personagens que surgem e desaparecem a todo instante, ampliando o campo de atuação da obra, sempre centrada no forte discurso político do compositor. Leia o texto completo.

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#23. Nego Gallo
Veterano (2019, Independente)

Inaugurado em meio a fragmentos de You Set My Heart On Fire (1975), de Tina Charles, e versos declamados que passeiam por referências como Os Mutantes, Maria Bethânia e Gonzaguinha, Veterano (2019, Independente) diz a que veio logo nos primeiros minutos do interlúdio Venha em Chamas. São versos e batidas cadenciadas que se entrelaçam sem pressa, indicando o caminho assumido pelo rapper Nego Galo desde a boa fase no coletivo Costa a Costa. Um misto de reggae, rap, funk e trap que se articula de forma ainda mais precisa na segunda composição do disco, a política No Meu Nome. Trata-se de uma colaboração com o velho parceiro Don L e uma narrativa crua da violência policial, criminalidade e caos social que toma conta da periferia de Fortaleza, ponto de conexão entre as músicas do álbum. Passada a rima sóbria de No Meu Nome, batidas quentes arremessam o ouvinte para dentro de O Bagui Virou. Uma clara reflexão sobre o trabalho do próprio Gallo e a importância da música como agente transformador na carreira do artista cearense – “Coisas nas ruas que fazem de você um homem / Grana, gramas, moças, armas, dramas, mortes / Quando eu canto, meus pecados somem“. Inserções contemplativas que encontram nas ruas, personagens e acontecimentos reais o principal componente criativo para o fortalecimento dos versos, direcionamento também explícito na faixa seguinte, Onde Há Fogo Há Fumaça – “A TV fala mal, tá dizendo nada / Gente de bem mora aqui / Eu cresci com esses caras“. Leia o texto completo.

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#22. YMA
Par de Olhos (2019, Matraca / YB Music)

Em um universo de artistas embriagados pelo espírito nostálgico da década de 1980, Yasmin Mamedio parece seguir um caminho particular. Sem pressa, a cantora e compositora paulistana passou os últimos meses presenteando o público com uma série de composições inéditas. Fragmentos, como a curiosa e propositadamente irregular Sabiá, ou mesmo o rock empoeirado de Summer Lover, colaboração com Gab Ferreira e um esboço claro do material que se revela por completo no primeiro álbum de estúdio da artista, o delirante Par de Olhos (2019, Matraca / YB Music). Misto de passado e presente, o trabalho dança pelo campo das ideias de forma a extrair os principais sentimentos, angústias e confissões românticas que invadem a mente da cantora. “Vamos fugir juntos / Que o tempo é curto / E eu não quero mais morrer / Eu quero dançar com você”, clama na já conhecida Vampiro, um dream pop fantasmagórico que parece apontar parte da direção seguida pela artista durante toda a execução da obra. São versos confessionais, sensíveis, estímulo para a fina base instrumental que se revela ao público em pequenas doses, proposta que força uma audição atenta por parte do ouvinte, convidado a se perder pelo imenso labirinto de ideias que serve de sustento ao registro. Leia o texto completo.

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#21. Lia de Itamaracá
Ciranda Sem Fim (2019, Somax)

Imersa em meio a sintetizadores e ruídos atmosféricos, a voz forte de Lia de Itamaracá rompe com o silêncio, ganha forma e cresce. “Eu amo a falta / De silêncio / Do mar / Odoyá / Na maré cheia / Eu canto / Pra levantar / Na maré seca / Eu deito / Odoyá“, canta, na introdutória Falta de Silêncio, delicada composição que aponta a direção seguida no quarto e mais recente álbum de estúdio da cantora e compositora pernambucana, Ciranda Sem Fim (2019, Somax). São faixas de essência regionalista, ainda íntimas da mesma ciranda que revelou o trabalho da artista há mais de quatro décadas, mas que se permitem provar de novas possibilidades, como um delicado ponto de ruptura e fina renovação. Parte dessa mudança de direção vem da escolha da própria artista em estreitar a relação com um time seleto de jovens compositores e músicos. Com produção assinada pelo experiente DJ Dolores e a produtora cultural Ana Freitas, Ciranda Sem Fim, a exemplo de Elza Soares, em A Mulher do Fim do Mundo (2015), e Jards Macalé, no ainda recente Besta Fera (2019), costura passado e presente de forma sempre provocativa, estrutura que naturalmente preserva a a sonoridade detalhada nos antecessores Rainha da Ciranda (1977), Eu Sou Lia (2000) e Ciranda de Ritmos (2010), porém, se permite avançar criativamente. Leia o texto completo.

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