Os 50 Melhores Discos Brasileiros de 2019 [40-31]


Qual é o seu disco favorito de 2019? De Jaloo a Marcos Valle, de Brvnks à Lulina, é hora de relembrar alguns dos principais trabalhos que abasteceram o cenário brasileiro nos últimos meses. São registro que transitam por diferentes sonoridades, gêneros e propostas essencialmente distintas, indicativo da completa pluralidade que define a nossa música.


#40. Marcos Valle
Sempre
(2019, Conecta)

Poucos representantes da cena brasileira parecem tão ativos e ainda musicalmente relevantes quanto Marcos Valle. Mesmo sem lançar um novo álbum de estúdio há quase uma década, o cantor e compositor carioca manteve firme o diálogo com diferentes nomes da nossa música, vide o recente encontro com Edu Lobo e Dori Caymmi, no bom Edu, Dori & Marcos (2018), além, claro, da evidente relação de proximidade com outros nomes da produção estrangeira. É o caso da cantora e compositora norte-americana Stacey Kent, com quem comemorou cinco décadas de carreira em um delicado registro ao vivo que passeia por faixas como Preciso Aprender a Ser Só e Samba de Verão. Em Sempre (2019, Conecta), primeiro álbum de inéditas desde o elogiado Estática (2010), Valle estabelece um criativo resgate de ideias e experiências há muito consolidadas em estúdio. Trata-se de uma obra claramente ancorada pelo pop ensolarado que embala a discografia do artista entre o final dos anos 1970 e início da década de 1980. Melodias refinadas, batidas e versos marcadas pela mesma leveza explícita em obras como Vontade de Rever Você (1981) e outros clássicos assinados pelo músico. Leia o texto completo.

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#39. Larissa Luz
Trovão (2019, Independente)

Três anos após o lançamento do político Território Conquistado (2016), obra em que discute empoderamento negro, racismo e ancestralidade feminina, Larissa Luz está de volta com um novo e necessário trabalho de estúdio. Em Trovão (2019, Independente), a cantora, compositora e atriz baiana segue exatamente de onde parou no último registro autoral, mergulhando na composição de um material dominado pelo peso das batidas, versos fortes e essência ritualística. “Macumba pop”, como resume o texto de apresentação, produto da criativa desconstrução estética que vem sendo aprimorada pela artista desde o primeiro álbum em carreira solo, Mudança (2012). Concebido em parceria com o produtor Rafa Dias, o trabalho de 13 faixas é, como a própria cantora explicou em entrevista, “um convite a conexão com a natureza mesmo partindo da vivência nos grandes centros urbanos“. Melodias, batidas e vozes que se projetam como “um chamado para a percepção e identificação das claves rítmicas que nasceram na África dentro de um contexto atual e futurista. Um elo entre passado e futuro. Algo novo sem ignorar o que fomos ou de onde partimos. Um manifesto contra qualquer prática violenta na direção das religiões de matriz africana“, completa. Leia o texto completo.

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#38. Giovani Cidreira
Mix$take
(2019, Risco)

Giovani Cidreira pode ser tudo, menos um artista previsível. Depois de amadurecer criativamente durante o lançamento de Japanese Food (2017), trabalho em que dialoga de forma particular com a obra de Milton Nascimento e até Legião Urbana, o cantor e compositor baiano desconstrói a própria identidade artística nas canções de Mix$take (2019, RISCO). São sete faixas e pouco mais de 20 minutos em que o ouvinte passeia em meio a diferentes gêneros e possibilidades de forma sempre curiosa, provocativa. Frações poéticas e instrumentais que vão do pop atmosférico ao R&B em uma linguagem íntima apenas do músico. Concebido em parceira com o experiente Benke Ferraz (Boogarins), Mix$take diz a que veio logo nos primeiros minutos, em Oceano Franco. Trata-se de uma delicada reflexão sobre as incertezas da vida e uma versão para a também atmosférica Nikes, música originalmente composta por Frank Ocean para o álbum Blonde (2016). “Tem fogo em nossa porta, amor / Talvez eu não te veja, mas eu tô indo pra guerra / Me dê um beijo, estamos indo sem velas“, canta em meio a versos e ruídos eletrônicos que se completam pela presença de Jadsa Castro, parceira de longa data de Cidreira. Leia o texto completo.

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#37. Jonnata Doll e os Garotos Solventes
Alienígena
(2019, Risco)

Não fosse pelo anuncio óbvio de que Alienígena (2019, Risco) foi produzido e gravado nos últimos meses, seria fácil encarar o terceiro álbum de estúdio de Jonnata Doll e os Garotos Solventes como uma obra esquecida dos anos 1980. Da composição dos versos à formação dos arranjos, tudo parece apontar para o passado em uma criativa reciclagem de tendências. São temas, guitarras e vozes que vão do punk brega de veteranos como Os Replicantes à vanguarda paulista, do pós-punk da extinta Fellini a personagens descritivos, típicos da fluminense Picassos Falsos. Letras e melodias que se espalham de maneira incerta, torta, reforçando a essência caótica do trabalho. Ambientado no centro de São Paulo, conceito reforçado logo nos primeiros minutos da obra, Alienígena, como o próprio título indica, mostra o olhar curioso de Jonnata Doll, um artista cearense, sobre o cotidiano noturno da capital paulista. “É noite de inverno no vale do Anhangabaú / As pessoas cheiram thinner, os nóias procuram no chão / Roberta disse ao Paulo: “Menor vai entregar o oitão” / E eu vi o esqueitista caindo / Se lascar / No rosto dos seus amigos eu vi a morte passar“, canta em Vale do Anhangabaú, música que sintetiza a ambientação urbana do trabalho, detalhando o encontro com personagens mundanos que surgem e desaparecem a todo instante. É como se Doll vivesse seu próprio Ziggy Stardust, sufocando em meio a delírios lisérgicos e momentos de breve contemplação. Leia o texto completo.

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#36. Torre
Pág. 72 (2019, Independente)

Mesmo posicionado próximo ao encerramento do disco, o verso que inaugura a derradeira Página 72, última composição do segundo e mais recente álbum de estúdio da banda Torre, funciona como uma delicada síntese do lirismo nostálgico que invade o trabalho. “A memória é sopa escaldante na tigela / É o cheiro de café na infância / É coisa natural“, canta Felipe Castro (guitarra e voz) enquanto incontáveis paisagens instrumentais se revelam ao público em pequenas doses. Instantes de evidente transformação e ruptura estética, como um avanço claro em relação ao material entregue há poucos meses, durante o lançamento do também sensível Rua I (2018). “Comecei a escrever sobre saudade, daí o assunto foi criando forma na memória. A partir daí, os temas da infância foram surgindo”, respondeu o vocalista em entrevista ao Jornal do Commercio. De fato, do momento em que tem início, na lúdica Tinta (“Até que você machucou o pé / Correndo do policial / Que vinha de sandálias havaianas / E pose de cowboy do mal / Ele era a lei / Mas voamos dali“), até alcançar a já citada faixa de encerramento, cada fragmento do disco encontra no passado, real ou imaginário, o principal componente criativo para a formação dos versos. Leia o texto completo.

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#35. Jeremaia
Jeremaia (2019, Independente)

Estranho, porém, difícil de ser ignorado. Essa talvez seja a melhor forma de traduzir o som incorporado por André Faria, vocalista e um dos principais articuladores Aldo, The Band, no primeiro álbum em carreira solo. Com produção assinada em parceria com o próprio irmão, o músico Murilo Faria, o registro que leva o título de Jeremaia (2019, Independente), mesmo nome escolhido para o projeto, mostra um artista de essência versátil, por vezes, delirante. Composições que apontam para diferentes campos da música, como se cada fragmento do registro transportasse o ouvinte para dentro de um universo completamente novo. Não por acaso, Faria escolheu a versátil O Trabalho da Rua Mato Grosso como faixa de abertura do disco. Concebida em pequenas doses, a canção se espalha em meio a guitarras carregadas de efeitos e sintetizadores borbulhante, estrutura que sintetiza parte da sonoridade incorporada pelo artista e seus parceiros de estúdio, entre eles, o baterista Daniel Setti (ex-Jumbo Elektro). Nos versos, memórias entristecidas e versos descritivos, componente fundamental para o crescimento da obra. “O que era tão bonito / amaldiçoado agora está“, canta enquanto paredões de ruídos encolhem e crescem a todo instante, reforçando a dramaticidade em torno da canção. Leia o texto completo.

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#34. Jaloo
ft (2019, Elemess)

Seja nos momentos de maior melancolia ou doce celebração, o amor foi feito para ser compartilhado. E Jaloo parece entender bem isso. Não por acaso, o cantor, compositor e produtor paraense decidiu se cercar de colaboradores para a produção do segundo e mais recente álbum de estúdio da carreira, ft (2019, Elemess). Sequência ao elogiado #1 (2015), obra que revelou ao público faixas como InsightA Cidade e Chuva, o novo disco utiliza de sentimentos e memórias de um passado ainda recente como o principal componente criativo para a formação dos versos. Instantes de evidente carência sentimental e busca por um novo relacionamento que se completa pela interferência direta de um time seleto de instrumentistas, produtores e vozes da nossa música. Concebido em um intervalo de mais de um ano, o trabalho que teve parte expressiva de suas faixas reveladas nos últimos meses, ganha ainda mais destaque quando observado em unidade. Do momento em que tem início, em Dom, bem-sucedida colaboração com Karol Conká e Pedrowl, até alcançar a atmosférica Último Recado, parceria com Charles Tixier (Luiza Lian) que adapta a canção de mesmo nome lançada no primeiro disco de MC Tha, Rito de Passá (2019), tudo se projeta como parte de um mesmo universo conceitual. Canções que vão do isolamento à exaltação romântica de um mesmo personagem. Leia o texto completo.

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#33. Iconili
Quintais (2019, YB Music)

Com o lançamento de Piacó (2015), os integrantes do coletivo mineiro Iconili alcançaram um novo estágio criativo. Em um intervalo de mais de 70 minutos de duração, composições marcadas pelo uso de metais, texturas e camadas detalhistas pareciam expressar o completo amadurecimento da banda – hoje formada pelos músicos André Orandi (teclados e saxofone alto), Chaya Vazquez (percussão), Gustavo Cunha (guitarra e sintetizadores), Henrique Staino (saxofone tenor e soprano), Josi Lopes (voz), João Machala (trombone), Lucas Freitas (saxofone barítono e clarone), Rafa Nunes (percussão), Fernando Monteiro (bateria), Rafael Mandacaru (guitarra e teremim) e Willian Rosa (baixo). Quatro anos após a entrega do registro, o grupo mineiro não apenas resgata parte das experiências detalhadas durante a produção de Piacó, como convida o ouvinte a se perder em um universo marcado pela constante transformação. Em Quintais (2019, YB Music), mais recente trabalho de estúdio da Iconili, cada composição aponta para uma nova direção conceitual, indicativo da completa versatilidade do álbum que ainda conta com a interferência do produtor Leonardo Marques (Moons, Transmissor). Leia o texto completo.

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#32. BRVNKS
Morri de Raiva (2019, Sony Music)

Em Morri de Raiva (2019, Sony Music), primeiro álbum de estúdio da cantora e compositora Bruna Guimarães, a BRVNKS, há espaço para tudo, menos para o amor. Produto das experiências, memórias recentes e conflitos que embalam o cotidiano de qualquer jovem adulto, o trabalho de apenas dez faixas se espalha em meio a versos angustiados que refletem com naturalidade a essência da artista goiana. “Sou uma pessoa muito irritada e brava. Tem várias faixas sobre ódio, frustração, preguiça e coisas que eu passo sendo mulher e tocando em banda“, respondeu em entrevista à Capricho, apontando a direção seguida em parte expressiva da obra. Exemplo disso está em I Am My Own Man, oitava composição do disco. São versos rápidos que discutem cenas e acontecimentos reais, revelando a angústia do eu lírico frente ao comportamento machista de outros produtores e músicos. “Eu sou meu próprio homem / Eu tenho minha própria banda / Eu sou namorada de ninguém / Você não devia ser tão burro / Eu estou carregando a minha guitarra, você está cego?“, questiona enquanto guitarras e batidas aceleradas cobrem toda a superfície da canção, estrutura que se repete em músicas como I Hate All Of You e na já conhecida F.I.J.A.N.F.W.I.W.Y.T.B (Freedom Is Just a Name For What I Want You To Be). Leia o texto completo.

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#31. Lulina
Desfaz de Conta (2019, YB Music)

Poucos artistas parecem entender e retratar com tamanha naturalidade o cotidiano triste de qualquer jovem adulto quanto Lulina. Seja por meio da comicidade impressa em Cristalina (2009), semi-coletânea em que amplia parte do material produzido em CD-Roms e arquivos digitais no começo dos anos 2000, ou no direcionamento sóbrio que embala os versos do sucessor Pantim (2013), tudo parece trabalhado de forma profundamente honesta, sempre sensível. Um misto de amargura, clareza e constante provocação, estrutura que ganha contornos políticos e busca por novas possibilidades nas canções do terceiro e mais recente álbum de estúdio da cantora e compositora pernambucana, Desfaz de Conta (2019, YB Music). Misto de sequência e lenta desconstrução do material entregue pela artista há seis anos, o novo disco parte de uma estrutura talvez minimalista na composição dos arranjos, porém, deliciosamente complexa, por vezes imensa, na formação dos versos. Um esforço criativo entre a cantora e seu principal parceiro de produção, o músico Maurício Tagliari, em eliminar o uso da bateria, investir no reducionismo dos instrumentos e, de maneira sutil, alavancar o lirismo agridoce que serve de sustento ao disco até o último instante da obra, na atmosférica Sorriso. Leia o texto completo.

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