Os 50 Melhores Discos Brasileiros de 2019 [50-41]


Qual é o seu disco favorito de 2019? De Clarice Falcão a Marcelo Jeneci, de Drik Barbosa a Yung Buda, é hora de relembrar alguns dos principais trabalhos que abasteceram o cenário brasileiro nos últimos meses. São registro que transitam por diferentes sonoridades, gêneros e propostas essencialmente distintas, indicativo da completa pluralidade que define a nossa música.


#50. Clarice Falcão
Tem Conserto
(2019, Chevalier de Pas)

Em um intervalo de poucos anos, Clarice Falcão foi do pop agridoce que embala as canções de Monomania (2013), primeiro álbum de estúdio em carreira solo, para o refinanciamento político detalhado em Problema Meu (2016), obra que revelou ao público músicas como Eu Escolhi Você e Vagabunda. Um lento processo de amadurecimento criativo e profunda entrega sentimental, estrutura que alcança novo e bem-sucedido resultado em Tem Conserto (2019, Chevalier de Pas), terceiro registro de inéditas na carreira da artista pernambucana e princípio de um novo direcionamento estético. Com produção de Lucas de Paiva (Mahmundi, Opala) e mixagem de Savio de Queiroz (Teto Preto, Ceticências), o trabalho de nove faixas encontra no uso de temas eletrônicos, sintetizadores e ambientações dançantes a base para a poesia tragicômica de Falcão. “Já quebrei a cara na sua porta / Desde então, visivelmente, a minha cara nunca foi a mesma … Cola um aviso do Ministério / Na sua testa, feito cigarro / Advertindo pra geral: Você faz mal pra saúde“, canta em Mal Pra Saúde, música que se aprofunda na temática de um relacionamento abusivo, porém, preservando a leveza que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra. Leia o texto completo.

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#49. Luísa e os Alquimistas
Jaguatirica Print (2019, Rizomarte)

Luísa Nascim sempre soube como transformar as próprias desilusões, romances e conflitos sentimentais no principal componente criativo para o fortalecimento de cada novo registro de inéditas. Basta uma rápida passagem pelo material entregue em obras como Cobra Coral (2016) e Vekanandra (2017), dois primeiros álbuns de estúdio como Luísa e os Alquimistas, para perceber a forma como a cantora e compositora potiguar utiliza de experiências particulares como um elemento de imediato diálogo com o ouvinte. São fragmentos de vozes, sempre confessionais, estrutura que se completa pela rica base instrumental que passeia por entre ritmos abrasivos e referências extraídas de diferentes campos da música. Terceiro e mais recente álbum de estúdio da cantora norte-rio-grandense, Jaguatirica Print (2019, Independente) talvez seja o trabalho em que Nascim melhor desenvolve todos esses elementos dentro de estúdio. Do momento em que tem início, na colorida Descoladinha, colaboração com Jéssica Caitano, até alcançar o brega futurístico de Like Attack, uma crítica à superficialidade do Instagram e outras redes sociais, cada fragmento do disco reflete a capacidade da artista em transitar por entre gêneros de forma sempre provocativa, proposta em que nenhum momento perverte a identidade criativa da compositora. Leia o texto completo.

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#48. Papisa
Fenda (2019, Independente)

O peso da passagem do tempo, a relação com a morte e a essência mística da alma feminina. Em Fenda (2019, Independente), primeiro álbum de estúdio de Rita Oliva como Papisa, cada fragmento do disco reflete a sensibilidade e profunda entrega emocional da cantora e compositora paulistana. Mais conhecida pelo trabalho como ex-integrante das bandas Cabana Café e P A R A T I, a artista, que desde 2016 vem investindo no trabalho em carreira solo, utiliza das próprias vivências como estímulo para a composição dos versos. São poemas musicados que se espalham em meio a memórias recentes, estrutura que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra. “Há cinco anos, presenciei o momento da morte do meu avô e isso me tocou profundamente. Enquanto escrevia o disco, fui tocada por outras mortes, literais e simbólicas, e isso reabriu algumas feridas, possibilitou que outras fossem se curando”, resume no texto de apresentação do trabalho. De fato, do momento em que tem início, na lúgubre Moiras, até alcançar a faixa de encerramento do disco, Espelho, Oliva parece flutuar em meio a canções que utilizam da morte como um precioso elemento de ruptura, transformação e recomeço, partindo de metáforas e elementos simbólicos para a consolidação da própria identidade criativa. Leia o texto completo.

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#47. Livia Nery
Estranha Melodia (2019, Máquina de Louco)

Difícil ouvir as canções de Estranha Melodia (2019, Máquina de Louco), álbum de estreia da cantora e compositora baiana Livia Nery, e não perceber nessa estrutura contida a passagem para um refúgio conceitual arquitetado pela própria artista. Concebido em uma medida própria de tempo, sem pressa, o registro de essência bucólica estabelece um propositado distanciamento de possíveis excessos e temas urbanos, dialogando com outros exemplares recentes da Nova Bahia, como Um Corpo no Mundo (2017), de Luedji Luna, e a bem-sucedida estreia de Xênia França, em Xenia (2017). Curioso pensar que tamanha leveza e atmosfera brejeira parta justamente de uma obra concebida no centro de São Paulo. Para a produção do disco, Nery, que já havia colaborado com Rafa Dias, do ÀTØØXXÁ, no primeiro EP de inéditas da carreira, Vulcanidades (2017), decidiu estreitar a relação com o cantor e compositor paulistano Curumin. O resultado desse encontro está na entrega de um registro perfumado pelo cheiro de mato, porém, marcado pelo groove, como uma extensão natural de tudo aquilo que o artista vem produzindo desde o colorido Arrocha (2012). Leia o texto completo.

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#46. Drik Barbosa
Drik Barbosa (2019, Laboratório Fantasma)

A versatilidade talvez seja a principal marca do primeiro álbum de Drik Barbosa em carreira solo. Da rima crua e esperançosa que inaugura o álbum, em Herança (“A fé sempre foi minha bússola / Não vim pra ser sozinha / Minhas irmãs, pedaços meus / Missão é ser colo pra elas“), passando pelo diálogo breve com a música pop, no encontro com Glória Groove e Karol Conká, em Quem Tem Joga (“Com a sagacidade que a Shuri tem / Corto falsidade igual Shuriken / Botei cor na cabeça do gueto / Que nem Ariel Barbeiro, só joga quem tem“), cada fragmento do disco reflete a capacidade da rapper paulistana em transitar por entre gêneros de forma bem sucedida, como uma natural extensão de tudo aquilo que a artista vem produzindo desde o início da carreira. Perfeita representação dessa criativa fluidez de ideias ecoa com naturalidade logo nos primeiros minutos do álbum, na colorida Liberdade. Mesmo guiada pela leveza das batidas, efeito direto da produção cuidadosa de GROU, a canção, completa pela presença da rapper britânica R.A.E. e Luedji Luna, sustenta nos versos um importante reflexão sobre machismo, empoderamento feminino e abuso sexual. “Garotos se perdem, esquece a hora de dormir / Falando de mais, quem fala não faz / Já percebi que / Tem muita ideia e pouca ação“, rima, preparando o terreno para a chegada do refrão destacado: “Menino, atenção, menino / Não é à toa que liberdade é no feminino“. Leia o texto completo.

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#45. Marcelo Jeneci
Guaia (2019, Slap)

Mesmo que pareça imersa em preceitos ecológicos, ao ouvir Emergencial, faixa de abertura do terceiro e mais recente álbum de estúdio de Marcelo Jeneci, Guaia (2019, Slap), fica evidente o desejo do cantor e compositor paulistano em resgatar elementos que definem a própria essência. “É emergencial a gente se conectar com a terra“, canta de forma reflexiva. Um misto de passado e presente, efeito da poesia nostálgica que aponta para memórias da infância na região de Guaianases, Zona Leste de São Paulo, onde o músico cresceu. Canções que preservam a identidade do artista responsável por obras como Feito pra Acabar (2010) e De Graça (2013), porém, partindo de um novo direcionamento estético e conceitual. Não por acaso, passado o atmosférico ato de abertura que ainda conta com fragmentos do canto Ikashawhu, da tribo acreana de Yawanawa, Jeneci mergulha de cabeça no regionalismo de Oxente. Trata-se de uma parceria com Chico César, com quem começou a carreira tocando sanfona no início dos anos 2000. É dentro desse ambiente familiar e acolhedor que o músico paulistano orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra. Fragmentos de vozes, melodias e versos consumidos pela força dos sentimentos, como um passeio por diferentes fases e memórias acumuladas pelo artista ao longo dos anos. Leia o texto completo.

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#44. Fafá de Belém
Humana (2019, Joia Moderna)

A forte dramaticidade explícita logo nos primeiros minutos de Ave do Amor, colaboração entre Arthur Nogueira e Ava Rocha, diz muito sobre o caminho assumido por Fafá de Belém em grande parte de Humana (2019, Joia Moderna). Primeiro álbum de estúdio da cantora e compositora paraense desde o regional Do Tamanho Certo Para o Meu Sorriso (2015), o trabalho que conta com produção assinada pelo já citado Nogueira encontra na profunda entrega sentimental explícita nos versos a base para um registro grandioso e tocante. Frações poéticas que se projetam como um regresso inevitável aos instantes de maior sensibilidade na carreira da artista. “Quando a gente tenta / De toda maneira dele se guardar / Sentimento ilhado, morto, amordaçado / Volta a incomodar / Um dia vestido de saudade viva / Faz ressuscitar“, canta em Revelação, música que ganha forma aos poucos, sem pressa, detalhando cada fragmento de voz lançado pela cantora. Um doloroso exercício poético que resgata o clássico originalmente composto em 1978 por Clésio Ferreira e Clodo Ferreira, mas que se completa pela minúcia dos arranjos assinados coletivamente por Allen Alencar (guitarra), João Paulo Deogracias (baixo e sintetizadores), Richard Ribeiro (bateria e percussão) e Zé Manoel (pianos). Leia o texto completo.

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#43. Saskia
Pq (2019, QTV)

Pq (2019, QTV) é uma verdadeira bagunça. Da construção das batidas ao uso instrumental da voz, da sobreposição irregular das melodias ao jogo torto das rimas, tudo se revela de forma propositadamente instável, confusa, como uma constante perversão do óbvio. São fragmentos de ideias que se entrelaçam sem ordem aparente, de forma deliciosamente imprecisa, estrutura que vai da lenta desconstrução do rap em seu formato tradicional ao puro experimentalismo eletrônico, proposta que não apenas apresenta o trabalho de Saskia, como convida o ouvinte a se perder em um universo de formas delirantes. E isso se reflete logo nos primeiros minutos do disco, na autointitulada faixa de abertura. São pouco mais de três minutos em que os versos lançados pela rapper gaúcha se espalham de forma irregular, detalhando conflitos políticos, questões existencialistas e até citações à obra de Anitta. Um lento desvendar de ideias e experiências sensoriais que vai da música industrial ao jazz, fluidez que ganha ainda mais destaque na canção seguinte do disco, Pressssa. Parceria com Leo Pianki, a faixa concebida a partir de uma antiga entrevista com a atriz Dercy Gonçalvez (1907 – 2008), utiliza de improváveis abstrações como um estímulo natural para a formação dos versos. Leia o texto completo.

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#42. Bernardo Bauer
Pássaro-Cão (2019, Under Discos)

Paisagens urbanas, instantes de profunda contemplação e a melancolia dos dias. Em Pássaro-Cão (2019, Under Discos), primeiro álbum de estúdio do cantor e compositor mineiro Bernardo Bauer, cada fragmento do disco parte de experiências particulares para mergulhar em um universo dominado pela força dos sentimentos e inquietações íntimas de qualquer jovem adulto. São poemas ora metafóricos, ora descritivos, como se o músico belo-horizontino jogassem com a incerteza da própria obra. Delírio e realidade, medo e aceitação. Uma delicada sobreposição de ideias que parte misteriosa da criatura mística anunciada no título do álbum e segue até o último verso do trabalho. “Quando cê nasceu em mim / Pássaro / Tive muito medo … O meu medo era eu me atirar / Abismo abaixo / Cão que sonha tem razão / Pra desejar / Um par que voa“, canta logo nos primeiros minutos do disco, na autointitulada faixa de abertura. São versos em que reflete sobre a incerteza das relações e o permanente desejo de mudança que move qualquer indivíduo. Um lento desvendar de ideias que dialoga com tudo aquilo que Bauer vinha explorando desde o último registro de inéditas, o também doloroso Pelomenosum EP (2017). Leia o texto completo.

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#41. Yung Buda
Músicas Para Drift, Vol. II / True Religion (2019, Sound Food Gang)

Em um ano de grandes lançamentos para quem acompanha o trabalho do selo Sound Food Gang, vide o retorno do rapper nill, com Lógos (2019), Yung Bud decidiu presentear o público com não apenas um, mas dois grandes registros. Seja em Músicas Para Drift, Vol. II ou nas canções do ainda recente True Religion, o rapper paulista segue exatamente de onde parou no último ano, durante a produção do excelente Halloween o Ano Inteiro (2018). São faixas de essência atmosférica, sempre detalhistas e marcadas pelo uso minucioso dos samples que vão de elementos da cultura oriental à trilha sonora de jogos de videogame. Um colorido catálogo de ideias e referências que sutilmente pervertem os principais clichês e fórmulas prontas do trap nacional. O resultado desse criativo processo de produção está na entrega de músicas como Ninja, Autumn Ring Mini (Sozinho no Touge), 7K e toda uma sequência de faixas que refletem a completa versatilidade do artista dentro de estúdio. Canções que convidam o ouvinte a se perder em um universo urbano, noturno e deliciosamente lisérgico.

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