Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2014 [40-31]

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#40. Anelis Assumpção
Amigos Imaginários (2014, Independente)

A julgar pela estrutura dos temas e ritmos explorados em Amigos Imaginários, pouco se modificou na proposta lançada por Anelis Assumpção em Sou suspeita, estou sujeita, não sou santa (2011). De fato, mesmo o time de instrumentistas que cercam a cantora no novo álbum – Bruno Buarque, Cris Scabello, MAU e Zé Nigro – ainda o mesmo do registro anterior. Surpresa que desse cenário tão estável floresça uma obra ao mesmo tempo cômoda e irrestrita, encharcada pela novidades. Como uma versão “adaptada” do mesmo plano complexo de Metá Metá, Passo Toro e outros coletivos próximos – sempre distantes do “grande público” – Anelis abraço com acerto o descompromisso. Não por acaso o álbum derruba todas as barreiras levantadas no disco anterior, premissa para a fluidez de boas melodias em Eu Gosto Assim e demais faixas acessíveis que recheiam o álbum. Contudo, não espere tropeçar no mesmo palco de Tulipa Ruiz, Bárbara Eugênia e outras “divas” da atual cena paulistana. O propósito de Assumpção aqui é outro. [+]

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#39. Pato Fu
Não Pare Pra Pensar (2014, Rotomusic)

Vocais brandos, melodias encorpadas pela leveza e serenidade. Longe da euforia exposta no primeiro álbum de estúdio, Rotomusic de Liquidificapum (1993), com o lançamento do álbum Daqui Pro Futuro (2007), o Pato Fu parecia sustentar o ato final de um extenso processo de amadurecimento e filtragem dentro dos próprios conceitos. Não por acaso, passado a entrega do oitavo registro da carreira, todos os esforços da banda foram apontados para fora, em projetos paralelos – como os discos solo de Fernanda Takai e Ricardo Koctus -, um álbum de versões – Música de Brinquedo (2010) -, e até mesmo no diálogo de John Ulhoa com a produção de outros artistas. O evidente encerramento de uma jornada. Em um exercício elétrico, como um reboot, ao pisar no território instável de Não Pare Pra Pensar, nono e mais recente álbum de inéditas do grupo mineiro, todo o “descontrole” incorporado na década de 1990 volta a movimentar o trabalho da banda. Colagens eletrônicas, guitarras insanas e a tradicional desconstrução do pop convencional. Ainda que a voz de Takai pareça tão macia e confortável quanto no debut solo Onde Brilhem os Olhos Seus (2009), em se tratando dos arranjos e temas a direção é outra. [+]

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#38. seixlacK
Seu Lugar é o Cemitério EP (2014, 40% Foda/Maneiríssimo)

Base para o projeto de alguns dos produtores mais atentos – ou seria excêntricos? – do cenário musical carioca, o selo 40% Foda/Maneiríssimo aos poucos começa a expandir seus domínios. Primeiro grande lançamento além do catálogo de artistas do Rio de Janeiro, Seu Lugar é o Cemitério EP apresenta o trabalho do mineiro residente em São Paulo seixlacK. Figura já conhecida do cenário eletrônico “alternativo” da capital paulista, o produtor usa das composições do registro como um ponto de afastamento daquilo que DJ Guerrinha e outros nomes relacionados ao selo carioca trouxeram recentemente. A relação com a música Techno ainda é a mesma dos colaboradores, porém, tratada de forma menos hermética. Com três criações inéditas – Seu Lugar é o Cemitério, Bart e Tele-Sexo -, o produtor assume na faixa de encerramento (com mais de oito minutos de duração) seu melhor momento. Condensando base e beats em uma ambientação musicalmente atrativa e experimental, seixlacK esbarra na estética de estrangeiros como Laurel Halo e Actress, aproximação que em nada distancia a composição autoral do projeto

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#37. Lucas Santtana
Sobre Noites e Dias (2014, Dignois)

A mudança de direção a cada novo trabalho talvez seja a única constante dentro da obra de Lucas Santtana. Da colagem de ritmos nos dois primeiros discos – Eletro Ben Dodô (2000), Parada de Lucas (2003) -, passando pelo dub em 3 Sessions in a greenhouse (2006) e bossa nova em Sem Nostalgia (2009), há sempre renovação nos álbuns lançados pelo baiano – “confortável” apenas na melancolia sóbria de O deus que devasta, mas também cura (2012). Em Sobre Noites e Dias, mais recente trabalho em estúdio de Santtana, curioso notar que a proposta do artista passa a ser outra. Ainda que álbum seja desenvolvido a partir de um novo tema/gênero específico – neste caso, a “música eletrônica” -, é evidente como grande parte da obra pode ser encarada como um atento resumo de toda a discografia do cantor.Os arranjos de cordas na inaugural Human Time – típicos do álbum de 2012 -, o atmosfera pop de Funk dos bromânticos – com elementos resgatados de Parada de Lucas -, e até a travessia pelo dub em Let The Night Get High, cada canção amarra passado e presente com verdadeira naturalidade. Um imenso “remix” de cada porção instrumental lançada pelo artista nos últimos 14 anos. [+]

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#36. Lurdez Da Luz
Gana Pelo Bang (2014, YB Music)

Lurdez da Luz está longe de ser uma iniciante. Mesmo que o primeiro trabalho solo da rapper paulistana seja apresentado somente agora, Gana Pelo Bang, são quase duas décadas de projetos em parceria, colaborações e toda uma bagagem imensa de composições – experiência raramente igualada dentro do produção brasileira. Da parceria com Rodrigo Brandão no Mamelo Sound System, passando pela série de faixas ao lado de diferentes nomes do rap nacional – ou mesmo além dele, como Lucio Maia e Garotas Suecas -, maturidade é o que não falta para a presente “debutante”, aspecto refletido na segurança do novo lançamento de estúdio. Norteado pela mesma composição do EP homônimo de 2010, o trabalho de 10 faixas aos poucos se distancia da atmosfera inicial lançada por Da Luz, revelando ao público um material totalmente inédito. Mais do que um olhar atento sobre a periferia de São Paulo, Gana Pelo Bang dialoga de forma explícita com diferentes cenários, pessoas e principalmente ritmos nacionais. Uma espécie de passeio pela periferia brasileira sem necessariamente fugir do território urbano/cinza há décadas sustentado pela rapper – liricamente versátil em toda a construção do álbum. [+]

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#35. Duplodeck
Verões (2014, Pug Records)

O lançamento de Brisa no começo de junho serviu para “alertar” sobre a presente fase da mineira Duplodeck. Mais do que uma alteração de idioma – o grupo havia deixado a língua inglesa do primeiro EP para cantar em português -, o uso leve das guitarras, letras menos introspectivas, bem como a imposição “tropical” dada aos arranjos serviu de passagem segura para o primeiro álbum “de estúdio” do coletivo: Verões. Espécie de praia conceitual, o registro lentamente acomoda o ouvinte em um cenário paradisíaco de sonhos, canções de amor e doses controladas de ruídos tão íntimos da cena atual, como do rock indie dos anos 1990. Em um plano afastado daquele lançado há três anos em Duplodeck EP (2011), o debut cresce como uma colisão de temas autorais. Ainda que ecos da cena alternativa concebida há duas décadas recheiem todo o conteúdo da obra – como Pavement, Yo La Tengo e Pixies -, basta a inaugural Saint-Tropez para perceber que a direção assumida pela banda agora é outra, muito mais ampla e até mesmo “curiosa” em relação ao trabalho sustentado por outros artistas de essência próxima. Uma tentativa do grupo em delinear com acerto a própria identidade. [+]

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#34. Holger
Holger (2014, Balaclava)

Pouco parece ter sobrevivido da euforia gerada em Sunga (2010) e excessos concentrados no cenário tropical de Ilhabela (2012). Seguindo a lógica inaugurada em The Green Valley EP, de 2008, a banda paulistana Holger alcança o terceiro álbum de estúdio investindo com naturalidade em um som transformado e hoje parcialmente melancólico. Na contramão dos dois trabalhos que o antecedem – uma possível trilha para o final de semana -, a peça autointitulada aos poucos mergulha o coletivo em um ambiente sóbrio, como o cenário típico de uma segunda-feira. A julgar pela constante aproximação entre as faixas, versos em português e canções que chegam com facilidade até o ouvinte, talvez este seja o trabalho mais acessível já lançado pelo grupo até aqui. A voz tribal e cíclica em Monolito – ampliando o experimento vocal de Beaver -, as guitarras suingadas em Cidade Perdida e até mesmo os tímidos passos de dança que crescem ao longo de Bruto. Em um exercício atento, o quarteto parece sintetizar (e aprimorar) os principais elementos apresentados nos dois primeiros discos de estúdio, abandonando o rótulo de “Vampire Weekend brasileiro” de forma a reforçar identidade. [+]

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#33. Ian Ramil
IAN (2014, Escápula)

Imagine um cabo de aço esticado de um canto a outro de um cômodo. De um lado dessa linha reta, no chão, está tudo o que há de mais excêntrico e desafiador em relação aos padrões “comerciais” da música popular. Ruídos, incertezas e experimentos a serem aproveitados. No outro lado, o oposto: versos fáceis, melodias pegajosas e uma vastidão (quase) infinita de possibilidades que há décadas sustentam as faces da música pop. Sob o olhar atento do público e no meio dessa divisória está IAN, registro de estreia de Ian Ramil e uma obra que usa dos pés firmes para manter o equilíbrio ou perdê-lo de vez. Filho do cantor/escritor Vitor Ramil, sobrinho da dupla Kleiton e Kledir e parceiro de longa data dos “garotos” da Apanhador Só, o jovem Ian está longe de desfilar pelo disco como um completo desconhecido. Mais do que um cartão de visitas – como o resgate das já conhecidas Rota e Nescafé parece anunciar -, IAN é uma obra de fechamento. Trata-se de um conjunto amarrado de todas as ideias, versos, sons e experiências conquistadas ao longo dos anos pelo artista. Um exercício que flui com jovialidade por conta do fluxo dinâmico das músicas, mas fixa maturidade em cada azulejo sombrio do álbum.

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#32. Onagra Claudique
Lira Auriverde (2014, Independente)

Canções avulsas, versos prontos, obras descartáveis. Em um contexto sempre dinâmico de registros feitos para o compartilhamento imediato, avaliados apenas pelo número “likes” do usuário, a simples ideia de um disco que “exige tempo” ao ser apreciado parece causar um frio enorme na espinha do espectador. Como administrar composições que ultrapassam os limites do “radiofônico”, apelam para seis, sete, oito minutos de versos descritivos e nenhum refrão? Onde estão as rimas óbvias, o encaixe usual das vozes, além do solo rápido de guitarra? Detalhes plásticos, feitos para grudar como chiclete. Longe de ser encarado como uma obra anti-comercial, hermética, este é exatamente o plano a ser desbravado pelo ouvinte em Lira Auriverde, registro de estreia do grupo paulistano Onagra Claudique. Montado em um conjunto de faixas extensas, lírica não apelativa e temas que mergulham no existencialismo natural de jovens adultos, cada segundo do trabalho de dez faixas parece feito para ser explorado pelo espectador, durante todo o percurso da obra, afastado de respostas prontas e temas emergenciais.

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#31. Constantina
Pelicano (2014, Independente)

Parte da imposição doce que abriga as faixas do disco surge como um efeito natural ao número reduzido de integrantes na banda. Enquanto Haveno, ou mesmo os demais registros da banda vinham do fluxo versátil dos sete integrantes, em Pelicano os cinco membros assumem no minimalismo uma proposta. São arranjos econômicos, travessias naturais pelo pós-rock dos anos 1990 (principalmente Tortoise e Mogwai), além de uma série de atributos acústicos que parecem típicos dos singles da banda. Como chegar em casa depois de uma longa viagem, o presente disco borbulha tranquilidade. Ainda que o esforço pacato das canções se concentre na suavidade, Pelicano está longe de parecer um registro compacto ou monótono. Enquanto o miolo do trabalho absorve as métricas pontuais das guitarras, dialogando com o Math Rock em uma linguagem particular, tanto a faixa de abertura quanto a canção de encerramento enveredam para um som “aventureiro”. Crescentes, Salva Vidas e a faixa-título transportam o ouvinte para um cenário de detalhes. Um pequeno catálogo de ruídos, distorções e colagens de sons ambientais capazes de fazer a mente do ouvinte passear. Há serenidade, mas em Pelicano ela é tratada como um mecanismo versátil. [+]

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