Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2011 [10-01]

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#10. Wild Beasts
Smother (Domino)

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O que esperar de uma banda que já havia dado tudo de si, parecendo incapaz de superar suas próprias criações? Ora, espere por um próximo disco. Quem já estava satisfeito quando em 2009 o Wild Beasts apresentou Two Dancers provavelmente deve ter se surpreendido com a mais nova evolução da banda assim que Smother foi apresentado, em maio deste ano. Sustentado por uma sonoridade muito mais voltada para a música eletrônica, o registro reverbera novas experiências, com o grupo abandonando as predisposições aos espetáculos de Vaudeville e se concentrando em todo um novo grupo de referências. O minimalismo sombrio vem diretamente da obra do compositor Steve Reich, que aliado aos experimentos do Fuck Buttons faz com que o álbum acabe recebendo um toque de inovação e originalidade. Nos versos de Hayden Thorpe (sempre marcados por um lirismo existencialista) a literatura ganha formas, com o compositor se apoiando na obra da brasileira Clarice Lispector, nos textos de Mary Shelley e todo um panteão de autores britânicos, transformando Smother em um trabalho sério, enquanto utiliza da instrumentação cerebral da obra como uma espécie de mecanismo hipnótico que lentamente absorve o ouvinte.

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#09. The Rapture
In The Grace Of Your Love (DFA)

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Embora o The Rapture tenha demorado cinco anos para sair do longo recesso implantado ao final da turnê de Pieces Of The People We Love, o tempo necessário para que o grupo nova-iorquino retornasse com um trabalho de peso similar ao clássico Echoes de 2003 foi muito maior. De fato, desde o lançamento do elogiado registro – provavelmente uma das maiores obras da década passada – que a banda (hoje um trio) não fora capaz de desenvolver um trabalho tão marcante quanto o que é proposto agora com o adulto In The Grace Of Your Love. Intensamente conectado com a cena house do começo dos anos 90 e ainda assim relacionado com o dance punk que caracterizou toda a estreia da banda, o álbum aproxima a tríade nova-iorquina de um resultado que beira a perfeição, algo evidente tanto nos versos pulsantes de Sail Away, faixa de abertura do álbum, como na calmaria que encerra o disco ao som de It Takes Time To Be A Man. Permeado por constantes hits – entre eles Children, Never Die Again e a própria faixa título – o destaque acaba ficando nas mãos de How Deep Is Your Love, uma das melhores canções do ano e grande síntese de tudo que é o presente trabalho: um misto de sintetizadores alucinados, batidas ascendentes, saxofones e refrões marcados pela facilidade, sobrando até para que algumas palmas e gritos de aleluia ecoem pelo meio.

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#08. The Weeknd
House Of Balloons (Independente)

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Contra todas e quaisquer convenções que pudessem classificar o R&B como uma fórmula datada e pensada exclusivamente para as massas, um desconhecido Abel Tesfaye surgiu em meados de março não apenas com um belo tratado sobre o gênero, mas uma das grandes obras musicais do ano. Nada de letras embriagadas por um romantismo tosco e irrelevante. Nada do ritmo enfadonho ou fórmulas instrumentais que há anos se apoderam do estilo. Na mente do produtor canadense que se apresenta sob o nome de The Weekend tudo é sujo, sombrio e sexualmente provocador. A cada instante dentro de House of Balloons somos mergulhados em um ambiente cada vez mais sufocante, samples melancólicos e um estranho toque de erotismo, como se mesmo em meio a versos carregados de pessimismo e abusos com drogas, Tesfaye ainda assim fosse capaz de encontrar o lado mais obscuro e erótico de cada ouvinte, seduzindo e se aproveitando do espectador sem grandes esforços.

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#07. Fleet Foxes
Helplessness Blues (Sub Pop)

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Quem talvez duvidasse da genialidade de Robin Pecknold provavelmente acabou surpreso quando os acordes finais de Helplessness Blues acabaram chegando ao fim logo após uma primeira audição do mais novo álbum do Fleet Foxes. Assim como no épico tratado de 2008, o músico norte-americano e os parceiros que o acompanham conseguiram mais uma vez gerar outra formidável obra, um registro em que harmonias de vocais, uma instrumentação sublime e toda uma soma de versos geram algo inteiramente honesto e quase bucólico. Mais do que uma continuação (melhorada) das anteriores experiências musicais da banda, com o segundo álbum Pecknold aponta uma série de prováveis experimentos e novas possibilidades para o trabalho com o FF, algo visível no toque quase freak folk de The Shrine/An Argument (que ainda puxa o grupo para um ambiente próximo da música progressiva) ou mesmo na própria faixa título, que acaba aproximando o grupo do cancioneiro folk norte-americano. Independente das direções, a banda segue coberta de beleza e um primor instrumental poucas vezes observável.

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#06. Fucked Up
David Comes To Life (Matador)

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Se para você o título de ópera rock pode parecer algo assustador mediante a quantidade vergonhosa de lançamentos que fervilharam ao longo da última década – entre eles o péssimo America Idiot do Green Day, o constrangedor The Black Parade do My Chemical Romance ou mesmo o fraco The Hazards of Love do The Decemberists -, então é bem provável que David Comes To Life acabe mudando essa perspectiva. Terceiro álbum da banda canadense Fucked Up, o trabalho dividido em quatro atos acaba garantindo renovadas possibilidades ao famigerado rótulo, transformando o que seria uma simples história de amor em um dos discos mais conceituais e surpreendentes do ano. Centralizado no romance (sem final feliz) entre David Eliade e Veronica Boisson, o álbum transparece toda a maturidade do grupo canadense, que tem nos versos do líder Damian Abraham (ou Father Damian para os íntimos) e nas guitarras de Mike Haliechuk uma enorme evolução quando voltamos os olhos para The Chemistry of Common Life, segundo registro da banda lançado em 2008. Melódico, gritado e capaz de surpreender o espectador até os últimos segundos, o álbum é um caminho fácil aos que nunca desbravaram esse tipo de som, sejam as guitarras firmes e aceleradas do hardcore ou as fundamentações de qualquer ópera rock.

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#05. James Blake
James Blake (ATLAS/A&M/Polydor)

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Olhando atentamente para os primeiros singles e EPs lançados por James Blake ao longo de todo ano de 2010, provavelmente não encontraremos neles quaisquer conexões com o presente trabalho do músico britânico, um registro que pende muito mais para a soul music do que para o dubstep (ou pós-dubstep, como queiram) que acompanhou o inglês nos registros iniciais. Talvez seja exatamente aí que se esconda (ou se revele) o grande acerto que envolve o primeiro trabalho de Blake. É como se o artista viesse ocultando o real potencial de sua obra até o presente momento, quando de maneira incrivelmente inesperada resolveu apresentar ao público o real tesouro que vinha escondendo. Trabalhando versos e vocais marcados pela melancolia e dissolvendo tudo em contornos honestos e incrivelmente envolventes, Blake vai aos poucos construindo todo o plano de fundo do registro, costurando batidas assíncronas, teclados opcionalmente sujos e toda uma atmosfera macambúzia que se estabelece no início do disco e segue até o final dele. Entre nomes como Adele, The Vaccines, PJ Harvey e Metronomy, quem realmente contribuiu para a música britânica em 2011 foi um jovem magricela oculto em programações, beats e teclados intimistas.

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#04. M83
Hurry Up, We’re Dreaming (Mute)

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É algo quase inexplicável a maneira como Anthony Gonzalez costura em uma mesma frequência sintetizadores harmônicos, voz e toda uma profusão de elementos que poderiam facilmente estar fadados ao erro, mas que nas mãos do músico se dissolvem em sinceros acertos. Música pop e conceitual caminham em uma mesma via nas mãos do artista francês, que ao alcançar o sexto álbum à frente do M83 desenvolve o trabalho mais rico de toda a carreira da banda, não apenas pela extensão do projeto – 22 músicas concentradas em dois discos -, mas pelo grandioso número de elementos que passeiam no interior de tão memorável obra. Enquanto em Saturdays = Youth de 2008, anterior trabalho de Gonzalez havia a constante busca por um som linear, como se todos os instrumentos e materiais presentes no registro partissem de um mesmo princípio e alcançassem um mesmo fim, em Hurry Up, We’re Dreaming temos um oposto, com todos os elementos apontando para diversas direções, sem que isso tenhamos em mãos um trabalho desnorteado ou confuso. Há desde músicas voltadas para um som climático (Splendor e Train To Pluton), canções marcadas por uma aura pueril (Raconte-Moi Une Histoire), até composições montadas para todos os possíveis campos de absorção (Midnight City e Reunion). Independente da direção, guiados por Anthony Gonzalez teremos sempre a certeza de um caminho seguro e mágico.

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#03. Destroyer
Kaputt (Merge)

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Para uma parcela mais do que expressiva dos ouvintes, Kaputt deve ter sido a primeira grande obra do Destroyer com que estes acabaram se deparando. Por mais que seja algo injusto com a vasta discografia da banda canadense – encabeçada e comandada por Dan Bejar, também integrante do The New Pornographers -, não há como contestar o quanto a beleza e a maneira como as canções são abordadas no interior do registro acabam por evidenciar um conceito todo novo ao grupo, que parece tomar um rumo completamente distinto do proposto nos oito (sim, tudo isso) registros anteriores da banda. Envolvente e encorpado por uma camada de soft rock que inclui solos exóticos de trompetes, teclados movidos de forma delicada e toda uma ambientação quase jazzística, o álbum deturpa qualquer conexão com os antigos inventos de Bejar, preenchendo todo o registro com uma carga monumental de ineditismo que lava os mais de oito minutos de Suicide Demo For Kara Walker ou o romantismo crescente de Blue Eyes. Sublime, minucioso e se perdendo em pequenos minimalismos, o álbum explora a temática orquestral de maneira peculiar, afinal, é como se todos os integrantes presentes no interior do registro assistissem de perto os momentos íntimos de um casal, trabalhando a música por eles exaltada de maneira a compactuar suavemente com todos os movimentos, toques e carícias assistidas.

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#02. Girls
Father, Son, Holy Ghost (True Panther)

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Até novembro de 2010, quando o EP Broken Dreams Club fora lançado, Christopher Owens e Chet “JR” White do Girls pareciam partidários de uma temática musical bastante específica. Entre versos românticos e melancólicos, uma soma de sons instrumentais realçava de forma particular a surf music da década de 1960 bem como um fino toque do rock alternativo dos anos 90 ou mesmo o garage rock de épocas anteriores. Em setembro deste ano, quando veio ao mundo Father, Son, Holy Ghost tudo parecia diferente. Os versos românticos e a melancolia ainda estão por lá, talvez até mais intensos do que nos registros anteriores, a diferença está na maneira como eles vêm acompanhados, com o duo californiano quebrando as barreiras musicais de outrora e revelando todo um novo emaranhado de variantes instrumentais.

Das guitarras meteóricas de Die (evocando toda a paixão de Owens pelo Guns ’n’ Roses), passando pela música bossa nova compactada nos momentos iniciais de Just A Song aos passeios rápidos pelo rock clássico e até pela música gospel em Vomit, cada uma das 11 composições do álbum parecem feitas para romper expectativas, tanto dos seguidores da banda como da crítica, afinal, o disco se mantém do princípio ao fim como um completo oposto dos anteriores trabalhos do Girls. Dentro desse caráter de inovações e reformulações que prossegue até os momentos finais de Jamie Marie (faixa de encerramento do álbum), Owens e White deixam mais uma marca expressiva no cenário musical, utilizando do romantismo e da dor como mecanismos iniciais para todo um mundo de diversidades líricas, sonoras e até mesmo espirituais.

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#01.  Bon Iver
Bon Iver (Jagjaguwar)

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Em meados de 2006 um músico norte-americano de Eau Claire, Wisconsin enfrentaria um dos piores momentos de sua vida. A banda em que ele tocava chegou ao fim e para completar, a descoberta de que estaria com Mononucleose o obrigou a se isolar por três meses em uma cabana, descansando por obrigações médicas e vendo o universo em que estava confortavelmente inserido desabar. Isolado, o músico aproveitou do tempo ocioso para registrar em um velho gravador um pequeno conjunto de canções lamuriosas que ressaltavam justamente a solidão que o acompanhava naquele momento, bem como o resgate de pequenas crises amorosas que o haviam acompanhado em um passado ainda recente. O personagem em questão era ninguém menos que Justin Vernon, naquele momento ex-integrante do DeYarmond Edison e desenvolvedor de um repertório que posteriormente daria vida ao primeiro álbum do Bon Iver, For Emma, Forever Ago de 2008.

Passados três anos desde que o melancólico álbum apresentou ao mundo o trabalho de Vernon, o cantor e compositor retorna com a aguardada continuação de seus memoráveis e sinceros lamentos, não mais embriagado pela melancolia folk de outrora, mas experimentando novas possibilidades. Entre cruzamentos de formas acústicas e o eletrônicas, overdubs de vocais trabalhados como se fossem instrumentos e todo um novo grupo de versos macambúzios, o músico alcança um novo patamar, rompendo os próprios limites e fazendo nascer um dos mais comoventes registros das últimas duas ou três décadas. Da visão melancólica de si próprio em Michicant, ao cotidiano que o cerca em Holocene, passando pelo lirismo único de Calgary, tudo se projeta de forma confessional, com Vernon partilhando suas dores e fazendo delas um pesar do próprio ouvinte.

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