Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2011 [20-11]

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#20. Nicolas Jaar
Space Is Only Noise (Circous Company)

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Assim como parte das grandes estreias de 2011, o debute de Nicolas Jaar surgiu sem qualquer aviso prévio. Diferente de outras bandas que lançam uma espécie de prévia no ano antes, o jovem de 21 anos pareceu ter surgido no exato momento em que Space Is Only Noise foi lançado em 31 de janeiro deste ano, mesmo que alguns EPs e singles já circulassem com relativo destaque nas mãos de um público totalmente específico. Talvez por isso, por conta desse caráter de ineditismo e espera do desconhecido que ouvir o primeiro álbum do produtor nova-iorquino seja uma experiência incrivelmente deleitosa, estranha e rara. Em poucos minutos Jaar arrasta suavemente o espectador para um mundo de sensações marcadas pela delicadeza e um quase misticismo. Cada ruído, piano ou batida que se concentra no interior da obra invade imediatamente os ouvidos do espectador, transformando o caráter inédito do disco imediatamente. É quase possível imaginar que o músico sabe exatamente o que queremos ouvir. No fim das contas, talvez ele até saiba.

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#19. The Pains Of Being Pure At Heart
Belong (Slumberland)

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Em um ano em que a música propagada na década de 1990 voltou à tona, saiu-se bem aquele que começou primeiro. Seguindo os mesmos passos iniciados no trabalho de 2009, os nova-iorquinos do The Pains Of Being Pure At Heart transformam o segundo registro em estúdio em uma continuação suja dos ensinamentos ministrados há dois anos, ensinamentos estes vindos de duas décadas atrás, quando My Bloody Valentine e tantos outros reforçaram o uso de guitarras marcadas por efeitos e distorções, algo que o jovem quinteto soube ministrar com total propriedade nos quase 40 minutos do recente álbum. Sujo, melódico e repleto de refrões grudentos, Belong é um delírio jovial que qualquer fanático por rock alternativo deveria conhecer. Da abertura colossal da faixa título, passando pelo romantismo doloroso de Heart in you Heartbreak e a melancolia sublime de The Body, todo se ordena em um estágio próximo da perfeição. Abram os olhos (e os ouvidos): o futuro é sujo e distorcido, e este álbum representa exatamente isso.

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#18. Panda Bear
Tomboy (Paw Tracks)

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A tarefa ingrata de superar o insuperável fez com que a mente de Noah Lennox alcançasse outro nível sob o nome de Panda Bear. Longe dos samples orgânicos que garantiram vida ao surpreendente Person Pitch de 2007, Lennox acaba cercado por um caráter muito mais criacionista, transformando as colagens de sonos e sobreposições constantes que caracterizam Tomboy em uma sequência de criações próprias e inimitáveis. Se por um lado o trabalho parece mais hermético em relação ao vasto disco anterior, por outro lado o registro abriu todo um novo mundo de possibilidades, aproximando o registro das conexões com o Animal Collective, ao mesmo tempo em que o músico opta por um universo de cores cinzas e sensações sombrias. Dentre desse ambiente distinto, Noah conseguiu captar as melhores experiências, algo facilmente identificável quando observamos Surfer’s Hymn (uma das melhores faixas do ano), Benfica e Last Night At The Jetty, canções que reforçam as velhas experiências do músico ao mesmo tempo em que entregam um artista renovado, quase inexistente até certo tempo. Panda Bear ainda é um gênio e no terreno em que caminha, dificilmente superável.

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#17. The Antlers
Burst Apart (Frenchkiss)

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Da melancolia incontrolável de Hospice para a aceitação espiritual e musical de Burst Apart, este foi o caminho percorrido por Peter Silberman e os parceiros do The Antlers ao longo dos últimos dois anos. Cada vez mais distante da loucura musicada e amargurada de 2009, o músico e os dois colegas de banda partem em busca de renovação, tanto na maneira como os novos versos são propostos como (sobretudo) a maneira como a sonoridade é conduzida ao longo do trabalho. Se antes Silberman ia da calmaria à loucura em questão de segundos, fazendo nascer um dos registros mais amargos e dolorosos da última década, hoje o artista parte em busca de sobriedade, talvez por isso a linguagem buscada dentro do presente disco foque menos no exterior do músico e mais no interior tenebroso que ele carrega, desenvolvendo um projeto que mesmo centrado em sua figura parece dialogar com os seres internos de cada ouvinte, como se as melancolias, pesadelos e medos do nova-iorquino fossem as mesmas de todos que o cercam.

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#16. Atlas Sound
Parallax (4AD)

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Bradford Cox se posicionando como um crooner de algum clube de jazz, essa é a primeira percepção de Parallax, um trabalho que para além das ironias planejadas de seu idealizador acaba revelando um pouco mais daquele que é um dos maiores gênios da música contemporânea. Mesmo distante da psicodelia shoegaze do Deerhunter (banda do qual é vocalista e o principal compositor), Cox não abandona o apelo ao uso de sons sujos e ruidosos que parecem funcionar como uma chave para a mente distorcida do músico, que mais uma vez nos surpreende com um material tão rico quanto anteriores projetos por ele elaborados. Nada caseiro – talvez um dos erros dos anteriores trabalhos lançados através do Atlas Sound -, Parallax revela um artista maduro, contando com uma produção competente e fazendo disso um mecanismo para o desenvolvimento do eficiente trabalho. Seja falando de amor ou nos conduzindo em meio ao ambiente inóspito que escapa de sua cabeça, Bradford apenas evidencia o fato de que não é mais um simples personagem do cenário alternativo, mas um dos gigantes do mundo da música.

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#15. Shabazz Palaces
Black Up (Sub Pop)

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Em meio a incontáveis lançamentos do rap norte-americano e mundial, estranho observar que o melhor deles seja justamente um trabalho que vá contra todas as obviedades ou fórmulas fáceis que cercam o estilo. Fruto das bizarras experiências do rapper Ishmael Butler e do multi-instrumentista Tendai Maraire, Black Up, primeira obra do Shabazz Palaces não é apenas um trabalho experimental e desenvolvido de maneira totalmente alheia aos padrões da indústria musical, como é também uma mostra do que provavelmente será o gênero no futuro. Longe das ostentações aos luxos que compreendem nove em cada dez lançamentos, além de concentrar grande parte de seus esforços nas batidas (e não mais nos versos), o disco se anuncia como um projeto de extrema vanguarda, surgindo como uma espécie de síntese do que Clams Casino, Death Grips ou em menor escala o que a autodestruição de Tyler, The Creator tenta explicar. O Shabazz Palaces criou novas regras e é bom aprendermos a jogar com elas.

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#14. Oneohtrix Point Never
Replica (Software)

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Ninguém faz música experimental como Daniel Lopatin. Espécie de gênio único de um universo musical completamente próprio, o músico norte-americano transforma o recente Replica naquela que parece ser a obra máxima de sua carreira e provavelmente um dos mais obscuros registros da presente década. Desde 2009 se envolvendo em um processo musical alquímico, quando lançou o também excelente Rits, Lopatin vem destilando incontáveis tipos de sons, ruídos e recortes instrumentais, alcançando um resultado mais do que aceitável em 2010, com o álbum Returnal, e fechando o que parece ser uma trilogia bizarra com o último trabalho. Diferente dos álbuns anteriores, o presente disco – a pedra filosofal do músico – se desdobra em acertos do princípio ao fim, pervertendo a música ambiente, o drone e a própria música experimental de maneira poucas vezes antes vista. É como se Fenesz tivesse exagerado na bebida e vomitado em cima da obra de Tim Hacker, da poça viscosa que ondula pelo chão veio Oneohtrix Point Never e junto dele este disco.

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#13. St. Vincent
Strange Mercy (4AD)

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Com Strange Mercy Annie Erin Clark fez o que parecia ser impossível: superar o próprio brilhantismo aplicado em Actor de 2009. Cercada de guitarras ruidosas, a cantora acaba transformando a si própria na principal matéria do registro, afinal, grande parte das letras que solidificam o álbum parecem vidas dos anseios particulares da musicista, que parece brilhar solitária ao longo do trabalho, destilando solos cacofônicos enquanto passeia com sua voz de maneira obviamente formidável por todos os espaços da obra. Dividido em duas partes – uma marcada pelas guitarras e os versos pulsantes, enquanto a outra segue pela calmaria -, o álbum reverbera uma solidez inigualável no rock alternativo atual, com Clark bebendo goles reforçados da música dos anos 90 ao mesmo tempo em que mantém a linearidade do registro do presente momento.

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#12. Real Estate
Days (Domino)

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Em 2011 Pet Sounds, obra máxima do The Beach Boys completou 45 anos de lançamento, entretanto, nenhuma edição especial ou comemorativa do trabalho conseguiu igualar o presente deixado pelos conterrâneos norte-americanos do Real Estate. Menos inspirados pela herança deixada por Brian Wilson ao Chamber Pop e muito mais concentrado nas harmonias de vocais e guitarras, o trabalho evoca com habilidade e distinção o mesmo espírito musical deixado pelo grupo californiano há quase cinco décadas. Movidos por uma energia pop despretensiosa a banda de Ridgewood, New Jersey dá um salto nada previsível em relação ao álbum anterior de 2009, transformando os mais de 40 minutos de Days em um invejável catálogo de versos fáceis, riffs graciosos e todo um vigor praticamente impossível de ser encontrado na música alternativa contemporânea. Do princípio ao fim o registro é uma fuga da realidade, um universo onde manhãs ensolaradas e indivíduos de sorrisos estampados circulam, dialogam e se cumprimentam amigavelmente enquanto a trilha gerada pelo Real Estate rola magicamente ao fundo.

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#11. tUnE-yArDs
W H O K I L L (4AD)

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Música pop, freak folk, experimental, afrobeat e indie rock, tudo moído em um enorme liquidificador posicionado na mente inventiva (e excêntrica) de Merrill Garbus. Do caldo final gerado a partir dessa estranha mistura, surge uma sequência incrível de versos bizarramente comerciais, radiofônicos e pegajosos, poesias sobrepostas em uma camada densa de sons multidirecionais e concentrados em um único objeto magicamente classificado como W H O K I L L. Vasto e estranho na mesma medida, o segundo trabalho do tUnE-yArDs é algo simplesmente grandioso, um trabalho tão amplo que nem parece uma dissidência do que Garbus desenvolveu em 2008, quando timidamente apresentou BiRd-BrAiNs, uma espécie de prelúdio temeroso do que a cantora (talvez uma criatura vinda de outro mundo) viria a desenvolver. Feito para ser cantado em coro e concentrando algumas das melhores faixas do ano, o registro se evidencia como uma enorme encruzilhada, um ponto onde tudo se encontra, e nas mãos de Garbus, acaba ganhando novo sentido.

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