Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2012

Os 50 melhores discos internacionais de 2012

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Mac Demarco

#40. Mac DeMarco
2 (Captured Tracks)

Entre a sonoridade ensolarada do litoral e os anseios obscuros do romantismo de Christopher Owens (ex-Girls), o canadense Mac DeMarco deu vida a um dos trabalhos mais entusiasmados e apaixonantes do ano, 2. Sem se desligar em nenhum instante das aproximações com o rock da década de 1960, o músico traz no primeiro grande álbum de sua carreira uma sequência bem concebida de composições velozes (Freaking Out The Neighborhood) e outras profundamente românticas (My Kind Of Woman e Still Together), músicas que se aproximam de um percurso particular em relação ao que o Real Estate alcançou dentro do álbum Days, e uma resposta menos dolorosa ao que encontramos em Father, Son, Holy Ghost. Sempre em busca de sintetizar todas as percepções individuais (positivas ou negativas) em forma de versos, DeMarco alcança um resultado deveras amplo, convertendo as próprias dores, paixões, incertezas e celebrações de forma a se aproximar dos mais diversos públicos.

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John Talabot

#39. John Talabot
ƒin (Permanent Vacation)

O fim pode servir de recomeço para a obra de John Talabot. Álbum de estreia do produtor espanhol, ƒin parece continuar exatamente de onde Lindstrøm parou em 2008, com o lançamento de Where You Go I Go Too. Estabelecendo um gancho curioso entre a House Music do começo da década de 1990 e a Space Disco dos anos 2000, Talabot consegue em pouco mais de 50 minutos nos afastar de qualquer experiência terrena para embarcar o ouvinte em um cenário etéreo, mágico e novo a cada recente audição. Apostando tanto em composições climáticas (Depak Ine) como em faixas que mantém os dois pés na pista de dança (Destiny), o espanhol firma uma medida coerente ao trabalho, que mesmo atmosférico em toda a extensão, jamais barra a entrada dos desavisados ou não preparados a esse tipo de sonoridade. A cena Balearic reinventada  para a nova geração.

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Julia Holter

#38. Julia Holter
Ekstasis (RVNG)

Ekstasis é um trabalho que deixa clara sua proposta logo no título. Mágico, instrumentalmente etéreo e perfumado pelas experimentações de forma mística, o segundo registro em estúdio da multi-instrumentista californiana Julia Holter é um passeio pelo espaço sem tirar os pés do chão. Cuidadoso na forma como cada melodia é trabalhada com precisão, o álbum revela em cada composição um resultado conscientemente suavizado, puxando o espectador tanto para o céu, como para um espaço bucólico e matinal. Com os conceitos do álbum Tragedy (2011) em mãos, Holter aprimora cada reação instrumental de forma a prender o ouvinte em um jogo de vozes, teclados e parcas guitarras que parecem simplesmente se desfazer no decorrer da obra. É como se toda a discografia de Kate Bush fosse traduzida em um estado de extrema leveza, ou talvez se as batidas esquizofrênicas de Björk fossem pensadas dentro de uma estrutura delicada e acolhedora. Tudo é sutil e efêmero, como um sonho tranquilo que você não pensa em acordar.

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Burial

#37. Burial
Kindred EP/Truant/Rough Sleeper (Hyperdub)

William Bevan já provou no último ano que não precisa de um novo disco do Burial para mais uma vez inverter a cena eletrônica a seu favor. Em 2012 não foi diferente. Contando apenas com um EP de três faixas (Kindred) e dois novos singles (Truant e Rough Sleeper), o produtor inglês mais uma vez comprovou sua relevância em uma sequência bem planejada de encaixes eletrônicos e acréscimos instrumentais que aperfeiçoam tudo que fora alcançado previamente nos dos trabalhos de estúdio – Burial (2006) e Untrue (2007). Enquanto o conjunto de composições em Kindred puxam inevitavelmente a sonoridade proposta pelo artista para um resultado muito mais amplo e dançante, os dois recentes singles trazem de volta as experiências climáticas ressaltadas pelo britânico há mais de meia década. A composição das faixas resulta em um invento quase perfeito, livre de prováveis erros e ressaltando os mesmos experimentos eletrônicos que Bevan domina como poucos. Em tempos de Skrillex e a expansão do famigerado “Brosetp”, Burial prova que ainda é o rei da cena que ajudou a construir.

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Pink

#36. Four Tet
Pink (Text)

Depois de There Is Love in You (2010), Kieran Hebden só tinha duas opções: repetir as referências eletrônicas alcançadas no melhor trabalho de sua carreira, ou recomeçar. Uma única audição de Pink e fica claro que o britânico não pestanejou em escolher a segunda opção. Menos climático e doce que o registro que o precede, o sexto álbum da carreira do produtor inglês traz um verdadeiro arsenal de encaixes eletrônicos prontos para as pistas. O álbum começa de maneira reduzida na faixa de aquecimento Locked, assume um melhor resultado em Jupiters, arrasta o ouvinte para as pistas em 128 Harps até explodir no gigantismo de Pyramid. Nada tímido Hebdan se desdobra em uma sucessão de samples e batidas estonteantes que crescem de forma ilimitada, principalmente ao vivo – aqueles que viram a apresentação dele no Sónar São Paulo sabem bem disso. Quem já estava habituado aos realces delicados do trabalho passado provavelmente levou uma enorme sacudida (um tapa talvez), e um provável convite para ir até o centro da pista para se divertir.

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Purity Ring

#35. Purity Ring
Shrines (4AD)

Desde as primeiras composições Megan James e Corin Roddick já sabiam exatamente qual seria a proposta do Purity Ring. Donos de um pop sintético que passeia pelo hip-hop e o experimentalismo eletrônico em excesso, a casal faz do complexo Shrines um fino exemplar do que há de mais criativo na nova música canadense. Misto de Grimes, Animal Collective e Clams Casino, o disco usa de melodias sombrias e batidas não convencionais para que os vocais açucarados da vocalista simplesmente se derretam, resultando em um disco misterioso e atrativo na mesma intensidade. Pop nos versos, experimental no som, o álbum ocupa um espaço totalmente próprio dentro do que atualmente conduz a música independente em suas mais variadas formas, resultando em músicas de apelo radiofônico como Lofticries, Obedear e Fineshrine que em nenhum momento se perdem em acertos básicos ou tradicionais. Um disco capaz de fisgar logo no primeiro ato, mas que vai parecer ainda melhor passadas algumas audições.

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DIIV

#34. DIIV
Oshin (Captured Tracks)

O verão ganhou uma sobrevida quando o Real Estate apresentou em meados de 2011 o ensolarado Days. Segundo registro em estúdio da banda, o trabalho trouxe de volta toda a sensação calorosa firmada por bandas como The Beach Boys há mais de quatro décadas, transportando o ouvinte imediatamente para junto das ondas e da areia quente da praia. Se o trabalho representava o dia, e toda a beleza de cores em torno dele, Oshin, estreia do grupo nova-iorquino DIIV apresenta outro lado da mesma proposta. Mesmo íntimo da mesma proposta, o álbum ecoa referências “noturnas”, afastando o grupo das preferências unicamente litorâneas e pintando um toque urbano em cada nova música. Como resultado, faixa após faixa a banda se divide entre o clima soturno (típico de trabalhos relacionados ao Pós-Punk) e o garage rock em moldes rústicos, porém melódicos. Lembrando um Joy Division de sunga, o trabalho brinca com as distorções de forma entusiasmada, antecipando o que a banda pode vir a desenvolver em um futuro próximo.

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The Walkmen
#33.The Walkmen
Heaven (Fat Possum)

A impecabilidade da extensa carreira do The Walkman é algo simplesmente invejável. Desde a formação do grupo no começo de 2000, poucos foram os registros de fato desprovidos de qualidade – apenas “Pussy Cats”, o álbum de covers lançado em 2006 se mantém inferior em relação aos demais lançamentos da banda. Com Heaven, sétimo trabalho de estúdio do grupo não é diferente. Menos caseiro que o anterior Lisbon (2010) e completamente distante da raiva descomunal que acompanhava o quinteto em começo de carreira, o registro vai da primeira à última faixa se desdobrando em um conjunto doce de melodias harmônicas e bem estruturadas. Com um pé bem firme na década de 1960, ao mesmo tempo em que conceitos particulares são aperfeiçoados, o novo disco amplia os acertos e a beleza sonora do grupo, que mais uma vez presenteia o público com uma sequência de músicas acessíveis e apaixonadas – Heartbreaker e a faixa-título são duas das grandes composições do ano. Sem dúvidas um disco para os amantes do rock clássico e um presente para quem já estava cansado das redundâncias do rock indie.

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Nootropics

#32. Lower Dens
Nootropics (Ribbon Music)

Hoje é possível dividir a “cena shoegaze” em dois grupos de artistas bem definidos. O primeiro busca por uma sonoridade mais leve, desaguando no Dream Pop bem representado por grupos como Beach House e outros amantes das texturas sobrepostas. Já o segundo é adepto da experimentação, estabelecendo uma sonoridade aproximada do noise e até da eletrônica. Nootropics da banda Lower Dens parece estar bem no meio dessas duas frentes distintas, pendendo vez ou outra para as amenidades do primeiro grupo. Segundo álbum do quinteto de Baltimore, o registro se divide do princípio ao fim entre criações mais voltadas ao rock e outras tomadas pela delicadeza etérea, dicotomia necessária para barrar uma continuação repetitiva de Twin-Hand Movement (2010) e um ponto de renovação para os seguidores da banda. Líder do grupo, Jana Hunter assina o trabalho com perfeição, deixando que sua voz passeie em meio a distorções leves, faixas de formatação volumosa e experiências cobertas pelos detalhes. A sequência entre as faixas Brains e Stem representa um dos instantes mais belos da curta discografia da banda e de tudo que ouvimos durante o ano.

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Daughn Gibson

#31. Daughn Gibson
All Hell (White Denim)

Desde que James Blake conseguiu sensibilizar a todos com o primeiro registro solo, a busca pela melancolia instrumental tem crescido em uma variedade de outros projetos musicais. Assumindo uma proposta de fato particular e rara, o norte-americano Daughn Gibson faz do primeiro registro solo um encontro curioso entre o Country e a eletrônica recente. Contra qualquer tipo de preconceito, All Hell funciona tão bem que parece impossível imaginar os dois estilos caminhando de forma separada. Com vocais fortes que remetem a Ian Curtis – ou algum obscuro cantor de música sertaneja -, Gibson usa do coração partido para concluir os versos amargos que flutuam em cada uma das faixas do álbum. Dissolvido em pouco mais de 30 minutos de duração, o registro vem como um aquecimento para os futuros projetos do compositor, que ainda se mantém demasiado preso a uma tonalidade Lo-Fi, quando parece pronto para algo maior e ainda mais doloroso. Por enquanto a dor vem em pequenas doses, camadas tristes e amarguradas que servem para confortar ou ampliar ainda mais a tristeza em torno do ouvinte.

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