Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2012

Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2012 - Pt. 1

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Death Grips

#10. Death Grips
The Money Store/NO LOVE DEEP WEB (Epic)

Do submundo da internet aos excessos com as drogas, das batidas eletrônicas ao uso de rimas sujas que entopem os ouvidos. Nenhum artista em 2012 alcançou um resultado tão caótico e incerto quanto o Death Grips. Primeiro veio The Money Store, uma continuação aprimorada do que o grupo comandado por Stefan “MC Ride” Burnett e Zach Hill já haviam alcançado anteriormente com Exmilitary. Depois veio o anárquico NO LOVE DEEP WEB, disco que surpreendeu para além das letras obscuras e da capa ousada – a imagem de um pênis ereto com o título do álbum escrito nele -, afinal, foi lançado sem a autorização da gravadora do grupo, a Epic, o que rendeu alguns dos debates mais divertidos e “polêmicos” do ano. Musicalmente os trabalhos se completam, tanto nos versos (velozes e sujos) como na sonoridade (rápida e densa). Enquanto o primeiro assume uma temática comercial – vide o resultado coeso sob o qual cresce I’ve Seen Footage -, o segundo possibilita que as experimentações predominem de maneira cuidadosa, ampliando tudo que já havia sido testado no último ano. Dois registros que parecem ter nascido em meio a goles saborosos de cerveja, sexo e ingestões descontroladas de drogas baratas.

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Fiona Apple

#09. Fiona Apple
The Idler Wheel… (Epic)

Um coração partido e pronto, Fiona Apple deu vida a uma das obras mais amarguradas da música recente. Com o título imenso de The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do, o quarto registro em estúdio da compositora nova-iorquina traz uma infinidade de referências conquistadas pela artista em quase duas décadas de atuação. Construído no decorrer de um imenso hiato – Extraordinary Machine, último disco da cantora foi apresentado em 2005 -, o álbum aproxima os vocais amargurados de Fiona com a instrumentação sutil que movimenta as faixas, proporcionando uma sequência de batidas, respiros, gritos e harmonias instáveis que apenas ampliam o toque desesperador da obra. Ponta do iceberg doloroso que Appla deixa flutuar no oceano de lamentos que é o álbum, Every Single Night abre de forma colossal espalhando de forma confessional a dicotomia agridoce que decide os rumos da obra – trabalho que parece acalentar e sufocar o ouvinte durante toda a extensão. Obrigado a quem quer que tenha partido o coração dela.

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Japandroids

#08. Japandroids
Celebration Rock (Acephale)

Não poderia existir um título mais coeso para o segundo álbum da dupla Japandroids do que Celebration Rock. Tão logo o álbum tem início, e os canadenses se perdem em uma sucessão entusiasmada de riffs fáceis, versos que precisam ser cantados aos berros, além de uma sucessão quase redundante de “OH OH OH OH OH OH OH OH”s que grudam sem esforços nos ouvidos – mesmo os mais “preparados”. Esqueçam a novidade, o invento constante e a experimentação, nada do que encontramos no desenvolvimento do álbum vai além do rock alternativo da década de 1990 em uma medida meio adolescente, meio desesperada e sempre intensa. É como se a dupla canadense elevasse o mesmo resultado alcançado em Heart Sweats(do disco Post-Nothing) à milésima potência, prendendo o ouvinte em uma trama simples, porém explosiva de berros, acordes e distorções leves que tingem os tímpanos com ruídos. Celebration Rock é o mais puro caos, controlado e convertido em música, um mini-apocalipse feito para dançar.

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Lonerism

#07. Tame Impala
Lonerism (Modular)

Divertida é a lógica de quem afirma com veemência que “não se faz mais rock como antigamente”. E ainda bem que não se faz. Embora mantenham constante a aproximação com o rock psicodélico da década de 1960/70, em Lonerism o Tame Impala deu um passo além das redundâncias típicas do gênero, apresentando um trabalho que é profundamente nostálgico ao mesmo tempo em que intensamente inovador. Digno de figurar no topo de uma boa lista de clássicos do rock, o segundo álbum da banda australiana é um verdadeiro presente aos ouvidos e, provavelmente, um deleite aos ouvintes mais antigos. Em pouco mais de 50 minutos de duração Led Zeppelin se encontra com My Bloody Valentine, The Beatles fumam um baseado com Bradford Cox, tudo isso enquanto efeitos diversos surgem como uma labirintite instrumental. Estão lá pérolas da lisergia como Feels Like We Only Go Backwards, guitarras ásperas no melhor estilo rock clássico em Elephant, e até uma canção no melhor enquadramento indie dos anos 2000 (Why Won’t They Talk to Me?). Não importa a direção, a sonoridade ou a proposta: cada faixa dentro de Lonerism é um acerto garantido e uma viagem de destino incerto.

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Chromatics

#06. Chromatics
Kill For Love (Italians Do It Better)

É necessário tempo até que a real compreensão de Kill For Love tome forma. Climático e funcionando dentro de uma medida muito particular de tempo, instrumentação e versos, o mais recente trabalho da banda norte-americana Chromatics é tudo, menos um registro feito para ser apreciado às pressas. Rodeado por composições extensas e essencialmente atmosféricas, o disco dá continuidade a tudo que fora definido no ano anterior, dentro da trilha sonora do filme Drive. Aos comandos vocais de Ruth Radelet, e contando com a instrumentação intimista de Adam Miller, Nat Walker e Johnny Jewel, o registro funciona como uma trilha sonora paralela, não apenas para a película em si, mas para o próprio ouvinte – figura que se converte em personagem e acaba inevitavelmente imerso no composto amargurado do trabalho. Ainda que rodeado por composições amplas e conceituais, quanto mais mergulhamos no Dream Pop sintético do trabalho, mais os hits vão aparecendo, transformando Back from the Grave, These Streets Will Never Look the Same e a própria faixa-título em criações de acerto e preciosidade inegável. Embora difícil de perceber, temos no decorrer do disco a mais simples manifestação da música pop, apenas enquadrada de forma distinta e inteiramente hipnótica.

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Grimes

#05. Grimes
Visions (4AD)

Mesmo longe de ser o melhor disco de 2012, Visions é provavelmente a obra mais influente que tivemos registro ao longo do ano. Fundindo elementos da música pop com experimentações que tendem inevitavelmente ao etéreo, a canadense Claire Boucher, Grimes, transcendeu os limites do trabalho passado, abrindo as portas da nova música canadense e influenciando uma centena de novos nomes. Do pop radiofônico de Ellie Goulding aos inventos da dupla conterrânea Purity Ring, diversos foram os artistas que encontraram na obra da norte-americana um novo caminho para as repetições da música comercial – agora excêntrica e ainda assim acessível. Sempre melódica e capaz de brincar com a mente do ouvinte, Grimes se divide em uma sequência bem arquitetada de faixas pegajosas (Oblivion e Genesis), hits para as pistas (Circumambient), até composições que se desfazem como um sopro (Vowels = Space and Time). Não presa apenas ao som, a artista perverteu o visual que tanto lhe caracteriza, sendo a responsável por um dos figurinos mais copiados de 2012 – quem não se lembra dos bizarros Pussy Rings lançados pela artista? Boucher está além de uma simples cantora, é o melhor exemplo de um artista independente que sabe como poucos a arte de vender a própria música de forma inventiva e lucrativa sem esquecer do mais importante: a boa música.

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Kendrick Lamar

#04. Kendrick Lamar
Good Kid, M.A.A.DCity (Interscope/Aftermath/Top Dawg)

Em dezembro de 1992 o Hip-Hop norte-americano alcançava o que parecia ser seu ápice. Estreia solo do ex-N.W.A. Dr. Dre, The Chronic é o ponto final de grande parte dos inventos relacionados ao gênero, referências construídas com o passar dos anos e aprimoradas no decorrer da obra. Recheado pelos versos descritivos e uma produção que apresenta o subúrbio californiano de maneira crua ao grande público, o hoje clássico álbum serviu como inspiração centenas de artistas, entre eles Kendrick Lamar. Vindo do mesmo subúrbio californiano de Dre, Lamar usa de Good Kid, M.A.A.D City, primeiro registro oficial de sua carreira, como uma continuação particular do que o conterrâneo alcançou há duas décadas. Autobiográfico, o disco acompanha a trajetória do rapper, indo da infância, adolescência até o presente instante. Pensado como um filme rimado – a temática cinematográfica é expressa logo na capa do disco -, o trabalho posiciona Kendrick no centro da obra, ainda que a formatação ampla dada ao registro transfira tais referências ao próprio ouvinte. Se o Rap havia alcançado seu ápice, Kendrick Lamar provou que poder ir além, muito além. “Bitch Don’t Kill My Vibe”.

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Grizzly Bear

#03. Grizzly Bear
Shields (Warp)

Não há limite ao trabalho do Grizzly Bear. Do lançamento do primeiro disco em 2004, Horn of Plenty, ao presente momento, o quarteto nova-iorquino torna pública a capacidade constante de crescimento, um exercício que (por enquanto) parece não ter fim. Se o ápice da trajetória da banda parecia ter sido alcançado em 2006 com a chegada de Yellow House, três anos mais tarde Veckatimest romperia com esse suposto limite, resultado que se repete com Shields, álbum que mais uma vez reinventa a trajetória da banda. Ainda imersos na nuvem acústica de experimentos – que vão do folk a psicodelia -, o quarteto nova-iorquino faz do mais recente disco o trabalho melhor estabelecido – pelo menos até aqui. Mesmo que a constante transformação das formas instrumentais ainda sirva de base para cada faixa, em Shields o grupo parece confortável na execução de músicas mais leves, ainda complexas, porém capazes de atingir um público maior. Por vezes épicas, como em A Simple Answer, em outros instantes caindo no experimento honesto, vide Yet Again, as canções que recheiam o álbum mantém firme a continuidade do álbum, que ao alcançar a última música, já se condensa de maneira totalmente distinta do que quando começou. Um disco de infinitas percepções.

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Bloom

#02. Beach House
Bloom (Sub Pop)

Victoria Legrand e Alex Scally pareciam não ter mais o que fazer alcançado o ápice do Beach House com o álbum Teen Dream (2010). Mais completa obra do casal norte-americano até então, o disco conseguiu aperfeiçoar tudo que havia de mais assertivo na proposta iniciada ao final da década passada – quando o duo surgiu imerso em passagens instrumentais mágicas e vocais perfumados pelo etéreo. Entretanto, como o título do quarto álbum logo aponta, Bloom se anuncia como uma verdadeira transformação na sonoridade da dupla, um florescimento no sentido mais justo e coerente da palavra. O que antes era tímido e aplicado de maneira controlada nas guitarras de Scally, agora explode em sons essencialmente melódicos, abertos ao grande público e ainda mais emocionantes do que em um passado recente. Um verdadeiro pop dos sonhos ou Dream Pop como o trabalho da dupla é costumeiramente definido.

Como se não bastasse a soma descomunal de novas temáticas instrumentais, Bloom se entrega ao surgimento de músicas mais acessíveis. Myth, Wild, Lazuli ou Wishes, da abertura ao encerramento da obra tudo é preenchido com visível cuidado, resultando em uma sucessão quase interminável de melancolias capazes prender o ouvinte durante toda a extensão do álbum. Ainda apostando em referências que vão de Galaxie 500 a Slowdive, pela primeira vez na discografia do casal temos o surgimento de um projeto que mesmo íntimo de outras experiências se derrama em ineditismos poéticos e instrumentais. Enquanto os vocais de Legrand surgem límpidos e audíveis, a sonoridade artesanal de outrora passa por uma transformação. Com um destaque maior para as guitarras (bem executadas em Wild), mas sem abandonar os sintetizadores (deliciosos em Lazuli), a dupla faz de Bloom um disco que prima pela delicadeza e os detalhes quase inexpressivos, mas que ao final explode em um gigantismo orquestral que o transformam em uma obra única. Há dois anos todos afirmaram que a dupla apresentava ao público o melhor trabalho de suas carreiras. Nunca foi tão bom estar enganado.

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Frank Ocean

#01. Frank Ocean
Channel, ORANGE (Def Jem)

Calcular a transformação atual de Frank Ocean tendo como base a mixtape lançada no último ano resulta em exercício inimaginável. De fato, pouco sobreviveu da sutileza caseira que guiava Nostalgia, ULTRA, o primeiro registro solo do (possivelmente) ex-integrante do OFWGKTA. Talvez apenas o sofrimento abordado em Novacane e There Will Be Tears ou os falsetes que se estendiam vez ou outra tenham sobrevivido, no restante, apenas novidade. Quase ausente de samples e construído em cima de uma base instrumental que abre espaço para os vocais cada vez mais cantados de Ocean, o álbum arremessa o ouvinte para uma diversidade de campos. Em sua maioria retratos poéticos temperados pela solidão, seja ela a sentimental (Thinkin Bout You) ou a existencial (Bad Religion). Mas Frank vai além, desenvolvendo composições que vão além do drama pessoal (Pyramids), tratam sobre personagens (Lost), brincam com as metáforas (Forrest Gump) e simplesmente tocam o ouvinte de maneira sincera.

Do resgate do R&B aos versos emocionados que revelaram sua homossexualidade, Frank Ocean se manteve como ponto central de uma centena de revoluções que conduziram o mundo da música durante o ano. Se há poucos meses ele rimava em cima de samples de MGMT, Coldplay e Radiohead, hoje Ocean merece ser sampleado. Dividido do princípio ao fim entre os versos que tendem ao Hip-Hop e o sentimentalismo que deságua na Soul Music, o norte-americano entrega ao público um trabalho de importância tão grande quanto outros registros do gênero apresentados há algumas décadas. Entretanto, é preciso notar que Channel, ORANGE está longe de ser o What’s Going On de nossa geração – como vem sendo apontado por uma série de publicações. A estreia de Frank Ocean nada mais é do que um retrato de pura originalidade presente, grandeza criativa e brilho próprio, referências que não a transformam em um clássico temporário ou mero registro passageiro, mas em um disco de grandeza atemporal e de validade incontestável. Se Ocean vai alcançar outro registro tão bom quanto este? Não tenha dúvidas que sim.

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