Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2014 [10-01]

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#10. A Sunny Day In Glasgow
Sea When Absent (2014, Lefse)

Flexibilidade é uma palavra que define com acerto o trabalho da banda A Sunny Day In Glasgow. Livre da redundância e excessivo conforto que orienta parte dos “herdeiros” de Kevin Shields e outros veteranos do Shoegaze/Dream Pop, o coletivo orquestrado pelo guitarrista Ben Daniels sustenta no diálogo entre diferentes gêneros e sonoridades a base para uma continua reformulação. Com o lançamento do quarto álbum de estúdio, Sea When Absent, mesmo a prevista versatilidade do grupo parece insuficiente para explicar tamanha mudança. Ruídos e blocos imensos de distorções ainda ocupam todos os espaços da obra, entretanto, são os vocais etéreos e delicadas ambientações melódicas – típicas do Pop/R&B -, que realmente fortalecem o trabalho. Em um enfrentamento criativo, a voz doce de Jen Goma investe contra a onda suja levantada pelos parceiros da banda. Uma colisão engenhosa nas mãos do produtor Jeff Zeigler (The War on Drugs, Kurt Vile), responsável por organizar e encaixar as diferentes peças que sustentam In Love with Useless, Golden Waves e todo o catálogo do disco.  [+]

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#09. Sharon Van Etten
Are We There (2014, Jagjaguwar)

Em meio aos escombros corroídos de I Know, Sharon Van Etten esconde uma confissão: “Eu canto sobre o meu medo, o amor e o que eles trazem“. Mesmo curto, um fragmento quando comparado ao acervo da cantora, o pequeno verso resume a essência triste de Are We There, um agregado de estilhaços sentimentais. Embora soe uma continuação do antecessor Tramp, de 2012, com o quarto disco a nova-iorquina ultrapassa o presente cercado autoral, resgatando confissões empoeiradas desde o primeiro registro em estúdio, Because I Was in Love (2009). Em um ambiente familiar, ainda que melancólico, a musicista encontra o conforto necessário para desafogar os próprios conflitos, encaixando versos de imediata comunhão com o público. Não por acaso, a boa repercussão em cima de Taking Chances, Your Love Is Killing Me e Our Love serviu para catapultar o trabalho da cantora, visível nas principais paradas norte-americanas e, pela primeira vez, acolhida pelo público médio. Na mesma prateleira de Blue (1971), You Are Free (2003) e outros clássicos “da fossa”, Van Etten acaba de conquistar um merecido espaço. [+]

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#08. Swans
To Be Kind (2014, Young God/Mute)

Em 1983, quando apresentou Filth, o primeiro álbum do Swans, Michael Gira (na época com 29 anos), refletia a imagem de um homem amargurado, cansado e velho, evidencia declarada em cada peça do obscurecido debut. Três décadas depois, ao alcançar os 60 anos, fascinante notar a completa desconstrução dessa “postura” do músico. Esbanjando jovialidade, o veterano atravessa os mais de 120 minutos de To Be Kind como uma criança hiperativa e curiosa. Ruídos insanos, gritos e arranjos tomados pela completa experimentação. Longe de parecer o último suspiro criativo do compositor, a boa forma ostentada em The Seer (2012) serve de estímulo para um registro ainda mais desafiador. Para o ouvinte despreparado, o caminho mais rápido para “entender” o universo complexo do Swans se esconde em A Little God in My Hands – possivelmente a canção mais “simples” de todo o trabalho. Entretanto, quem deseja mergulhar de vez na insanidade de Gira, o percurso torto de Bring the Sun / Toussaint l’Ouverture – com mais de 30 minutos de duração – se revela como uma experiência hipnótica, louca e necessária. [+]

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#07. Grouper
Ruins (2014, Kranky)

Ruins, como indicado no título da obra, está longe de ser um projeto recente de Liz Harris. Boa parte das canções que abastecem o décimo álbum do Grouper foram produzidas em 2011, durante um período de isolamento da artista no vilarejo de Aljezur, em Portugal. Outras composições são ainda mais antigas, caso da empoeirada Made of Air, originalmente gravada em 2004. Porém, mais do que uma titulação técnica, as “ruínas” que equilibram o nome do trabalho também aparecem nos versos e sentimentos ressaltados em cada faixa. Explicito no coaxar dos sapos em Made of Metal, apito de um microondas no encerramento de Labyrinth e toda a soma de ruídos que ecoam pela obra, em Ruins somos convidados a explorar um refúgio particular e profundamente isolado de Harris. Mesmo enevoadas, com versos protegidos pela captação rústica de um estúdio caseiro, faixas como Holding, Clearing e Lighthouse detalham uma série de amarguradas desilusões da musicista, tão acomodada pelo sofrimento, como em busca da própria libertação. [+]

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#06. Run The Jewels
Run The Jewels 2 (2014, Mass Appeal)

É difícil atravessar a trincheira de Run The Jewels 2 sem ser atingido pelas 11 faixas disparadas por El-P e Killer Mike. Durante quase 40 minutos, temas relacionados ao Hip-Hop de 1980/1990, faixas tomadas pela sexualidade, humor negro, drogas, referências à cultura pop, criminalidade e beats enérgicos acertam o ouvinte de forma precisa, sem tropeçar em exageros ou faixas descartáveis. Mais do que ampliar os conceitos explorados no primeiro registro da parceria, lançado em 2013, nomes como Zack de la Rocha (Close Your Eyes [And Count to Fuck]), BOOTS (Early) e Travis Barker (All Due Respect) interferem de forma assertiva na estrutura da obra, por vezes livre do rótulo de “Hip-Hop Alternativo”. Ainda assim, todo o sustento da obra sobrevive da plena comunicação entre El-P e Killer Mike. Parceiros desde a troca de experiências em R.A.P. Music e Cancer 4 Cure, ambos de 2012, a dupla se desprende do caráter fragmentado que orientava o primeiro álbum para atuar em unidade. O resultado desse encontro? A completa precisão das rimas e arranjos sustentados até o último segundo de Angel Duster. [+]

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#05. Beyoncé
Beyoncé (2013, Parkwood/Columbia)

Lançar um disco de inéditas em um mês considerado instável comercialmente, ignorando possíveis faixas de apresentação, clipes ou mínimo comunicado ao público e imprensa seria uma estratégia suicida para qualquer artista, correto? Não para Beyoncé. Quinto registro solo da cantora, a obra homônima não apenas ignorou de todo o planejamento tradicionalmente imposto pela indústria da música, como ainda estabeleceu uma série regras próprias. Em meio a flertes com o R&B dos anos 1990, arranjos voluptuosos e faixas marcadas pelo discurso feminista, Knowles e o produtor BOOTS, encontram a fórmula exata para uma obra marcada pelo equilíbrio – comercial e provocativa na mesma medida. Acompanhada por Frank Ocean, Drake e pelo marido Jay-Z, Beyoncé conseguiu transformar músicas como Drunk In Love, Flawless e Partition em verdadeiras ferramentas de domínio, vendendo mais de 1 milhão de cópias do trabalho apenas na primeira semana de lançamento, além de roubar a cena em diversas premiações, vide a imponente performance no VMB de 2014. Em um processo de amadurecimento iniciado no álbum 4 (2011), a Beyoncé utiliza do quinto disco para reforçar o domínio em um reinado há tempos conquistado no pop atual. [+]

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#04. The War On Drugs
Lost In The Dream (2014, Secretly Canadian)

Fonte inesgotável de inspiração, Adam Granduciel sempre encarou a música americana dos anos 1980 como a principal engrenagem para o trabalho do The War On Drugs. Herdeiro confesso de Tom Petty, Bruce Springsteen e Dire Straits, em Lost in the Dream o músico estadunidense parece ultrapassar todos os limites de uma obra referencial ou possível reciclagem de conceitos, detalhando com notoriedade uma série de marcas pessoais, sutilmente aprimoradas. Da extensa faixa de abertura, Under the Pressure, passando pelas guitarras ascendentes em An Ocean in Between the Waves e Burning, todos os elementos inicialmente testados em Slave Ambient (2011) assumem uma nova formatação, crescente, íntima de clássicos do rock de arena. Protagonista da própria obra, ao discutir temas como depressão, morte e saudade, Granduciel aos poucos transforma o álbum em uma espécie de refúgio sentimental. Isolado, parte expressiva das faixas foram concebidas de forma solitária pelo artista, responsável pela composição dos versos, arranjos, instrumentos e produção da obra. Em um turbilhão de sentimentos dolorosos, a julgar pelos versos que preenchem o trabalho, Granduciel encara cada faixa como excertos de uma extensa carta de despedida. [+]

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#03. How To Dress Well
“What Is This Heart?” (2014, Domino/Weird World)

Delicadamente, a ruidosa nuvem de poeira que ocultava os versos em Love Remains (2010) parece soprada para longe dos trabalhos de Tom Krell. Em um polimento sereno, evidente desde a chegada de Total Loss (2012), o músico se distancia da atmosfera caseira dos primeiros registros, aproximando o How To Dress Well de um plano cada vez mais limpo e acessível. Passagem segura para esse novo cenário, “What Is This Heart?” distorce de forme expressiva o ambiente acolhedor lançado na estreia do projeto, entretanto, carrega na clareza dos arranjos e vozes em falsete a real melancolia que há tempos perturba mente do compositor. Dramático, mergulhado em tormentos amargos e desilusões amorosas, o artista confessa o próprio sofrimento, arrastando o ouvinte para dentro de um imenso lago sentimental em faixas como Precious Love e Word’s I Don’t Remember. Longe de sufocar pelo excesso, apoiado em referências como Janet Jackson, Mariah Carey e Diana Ross, Krell carrega no uso controlado de versos e harmonia adocicadas um evidente compromisso com o pop, tempero essencial para o equilíbrio do registro e completa aproximação do ouvinte, sempre íntimo das lamúrias costuradas de forma particular em cada canção.

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#02. Real Estate
Atlas (2014, Domino)

O cricrilar dos grilos ao fundo de The Bends funciona como sutil representação da som explorado em Atlas pelo Real Estate. Diferente da estrutura planejada no interior de Days (2011), o quinteto de New Jersey substitui os arranjos ensolarados e clima matinal de faixas como It’s Real e Easy para visitar um ambiente sombreado, próximo ao entardecer. Mais do que uma transformação estética, a mudança de cenário reforma todo o arsenal lírico da banda, hoje imersa em temas como a solidão, desespero e medo da morte. Curioso perceber no uso de vozes em coro e melodias acústicas, típicas do R.E.M. na década de 1980, um instrumento de contraste, filtrando a melancolia do álbum de forma a solucionar um registro acolhedor. Em um contínuo resgate de referências, faixas como Crime, Primitive e Talking Backwards aos poucos replicam a mesma jovialidade encontrada no clássico Pet Sounds (1967), dos Beach Boys, além de outras peças melódicas dos anos 1960, soterrando o ouvinte com uma avalanche de versos românticos, essencialmente simples. Esquivo da complexidade e variações psicodélicos do homônimo álbum de estreia, Atlas transborda frescor, como se os mais amargurados conflitos da vida adulta fossem explicados em um exercício de doce espontaneidade.

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#01. FKA Twigs
LP1 (2014, Young Turks)

Ao pontuar Ultraviolet, última composição de EP2 (2013), todas as pistas lançadas por Tahliah Barnett indicavam a construção de uma sonoridade cada vez mais complexa dentro dos limites do FKA Twigs. Levando em consideração o cruzamento de mídias em Water Me e Papi Pacify, investir em um projeto tomado pelo uso de experimentos audiovisuais talvez fosse a resposta mais indicada sobre o futuro da jovem britânica, curiosamente remodelada e acessível no primeiro álbum em carreira solo, LP1. Ainda que a estética adotada para o encarte do disco – trabalho assinado pelo velho parceiro Jesse Kanda – seja capaz de assustar o ouvinte tradicional, ao abrir as portas do disco em Lights On, todos os esforços da cantora se concentram no cortejo ao pop.

Da eletrônica minimalista confeccionada em Breathe, ainda sob o título de twigs, pouco sobreviveu. Até a relação com o Trip-Hop de conterrâneos como Portishead e Tricky parece sufocar em relação ao completo domínio do R&B, gênero moldado de acordo com as regras de cada produtor convidado – entre eles, Arca, Devonté Hynes, Clams Casino, Sampha e Paul Epworth. Tendo no próprio sofrimento a base para o argumento lírico da obra, Barnett se espalha melancólica em meio a versos sufocados (Numbers), sexualidade realçada (Two Weeks) ou simples diálogos com o pop comercial (Video Girl). Lenta desconstrução dos mesmos conceitos que apresentaram a artista, LP1 sutilmente parece apontar o trabalho de FKA Twigs para o grande público. Entretanto, ao resgatar o breve histórico da cantora, talvez seja melhor perguntar: para onde vamos agora?

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Veja também:

Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

16 thoughts on “Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2014 [10-01]

  1. Real Estate recebeu nota 9 na resenha e FKA Twigs recebeu 8,5, mas ficou na frente nesta lista. YOU USED TO BE ALRIGHT, WHAT HAPPENED?

  2. Gostei do top 10, mas senti falta do ‘Carnival of Souls’ do Pere Ubu na lista… pra mim seria um dos 20 primeiros

  3. Sou só eu que sinto falta de Temples nestas listas de fim de ano? Achei um discaço!

  4. péssimo top 10, superou o da pitchfork em ruindade. os únicos álbuns decentes desses ai são o To Be Kind, Are We There e Lost in The Dream. esse disquinho do real estate extramente genérico e a cantorzinha de “r&b contemporâneo” encabeçando uma lista, qualquer que seja, chega a ser triste (sem contar o How To Dress Well, que não passa de um Bruno Mars pra hipsters).

  5. Entendo a necessidade intrínseca a sites como NME, Pitchfork e Miojo de venerarem a “lógica indie”: negócios são negócios. Não entendo, porém, como há tanta gente disposta a aplaudir tal veneração. Pois é preciso fazer muita, mas muita força mesmo para, num ano fraco como 2014, montar um top 50 (cinquenta!!) sem os nomes de Jack White e The Black Keys. Vá lá, vocês podem dizer que não gostaram do U2 ou do Foo Fighters, é mainstream demais, não combina com a pose, tá tocando no rádio e tudo! Mas White e Black keys? eles não eram o máximo até cinco anos atrás? o que mudou? Eu digo: Nada. é exatamente a mesma lógica de “descobrir”, endeusar e descartar. Foi assim que os Strokes e seu Is This It (um disco legalzinho, até) se transformaram em lendas do rock, Que o morno LCD Soundsystem se enfiou em listas de melhores ano após ano, e é assim que o Arcade Fire (uma das melhores bandas dos últimos tempos) dentro em breve será desprezado.

    Gosto do Miojo e já descobri muita coisa interessante aqui (algo que provavelmente acontecerá com esse top 50), mas já deu no saco essas listinhas forçadas.

  6. Parabéns Lucas Rocha, foi uma das criticas mais sóbrias que li ultimamente, verdade nua e crua.
    De certa forma eu já sabia que “SONIC HIGHWAYS” e “SONGS OF INNOCENCE” seriam equivocadamente esquecidos aqui… Que pena

  7. Como assim não entrou No Mythologies To Follow? Gente!!! :O MØ é fácil o top 10 da vida.

  8. Lucas, essa lógica que você diz existir, muito provavelmente não se aplicará ao Arcade Fire, que a cada disco tem se mostrado mais inventivo. Isso a gente já não pode dizer do Foo Fighters, Strokes, U2 ou Black Keys (que você usou como exemplo). Essas bandas tem ficado monótonas e repetitivas, e no final das contas, esses aspectos são de extrema relevância para os críticos. A gente não pode considerar que todo trabalho de um artista deva ser endeusado, somente por sua trajetória de glória no passado. Artistas erram a mão em alguns trabalhos. Se você verificar discografias de artistas como Animal Collective, Vampire Weekend ou Grizzly Bear (só citando alguns), você verá que desde seus primeiros projetos já eram aclamados pela crítica e continuam sendo até seus trampos mais recentes. Então a questão não é tão descartável como parece, é uma questão de criatividade e manutenção (ou superação) da qualidade de seus trabalhos. Eu como ouvinte ou fã, não quero ser tapeado pelo meu artista favorito com meia dúzia de canções meia boca, quero que ele cresça, experimente e seja mutável. 🙂

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