Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2014 [30-21]

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#30. Tinashe
Aguarius (2014, RCA)

“Inexperiência” é uma palavra que não se aplica ao trabalho de Tinashe. Mesmo que Aquarius (2014, RCA) seja vendido ao público como o primeiro disco da cantora, bastam os minutos iniciais da própria faixa-título para sentir a plenitude da obra. Álbum de estreia dentro de uma grande gravadora – a RCA -, o coeso arsenal de estúdio se divide entre o passado ainda recente da artista e um futuro em plena construção. Uma síntese declarada de cada faixa ou mixtape assinada individualmente na última meia década e, ao mesmo tempo, um princípio de renovação autoral. De fato uma surpresa, Aquarius explora de forma minuciosa a transposição do meio independente para um grande selo. Oposto de Banks, The Weekend e demais artistas que sofreram recentemente com o mesmo processo de adaptação, “forçados” a abraçar um som moldado para o grande público, Tinashe encontra no mesmo cenário uma soma ilimitada de possibilidades. Ruídos, melodias esquivas do pop tradicional, além da constante interferência de Cashmere Cat, DJ Mustard e outros nomes de peso do R&B/Hip-Hop “alternativo”; ainda imersa em um plano comercial, cercada de músicas “fáceis”, Tinashe consegue provocar. [+]

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#29. Parquet Courts
Sunbathing Animal (2014, What’s Your Rupture?)

É difícil encarar Light Up Gold (2012), obra que apresentou a nova-iorquina Parquet Courts, como um registro conceitualmente próximo do recém-lançado Sunbathing Animal (2014, What’s Your Rupture?). Se há dois anos Andrew Savage e os parceiros de banda pareciam inclinados a promover um álbum raivoso musicalmente, ainda que descompromissado em sua poesia, hoje pouco dessa atmosfera parece ter sobrevivido. Talvez apenas o desapego lírico e os versos bêbados/nonsenses prevaleçam ao longo da obra, que se espalha pelo tempo sem saber ao certo se está em 1977 ou idos de 1991. Libertador e atento, o presente álbum é a passagem de Savage – além do trio Austin Brown, Sean Yeaton e Max Savage – para a consolidação de um universo próprio da banda, ainda iniciante e em busca de um público cativo. Livre do caráter tolo que vinha guiando o outro projeto do vocalista/guitarrista, o Fergus & Geronimo, Savage presenteia o ouvinte com uma obra decididamente madura, mesmo bem-humorada. Capaz de encontrar graça no lado mais sóbrio do cotidiano, o músico contorce o tédio (Into The Garden), fala de amor (Dear Ramona) ou quer apenas se divertir como qualquer jovem de 20 e poucos anos (Always Back In Town). Canções para ouvir a qualquer hora do dia, sem que necessariamente o ouvinte precise desvendar uma solução filosófica com o passar dos versos. [+]

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#28. Future Islands
Singles (2014, 4AD)

Não haveria de existir um título mais exato para o quarto trabalho em estúdio da banda Future Islands do que Singles. Catálogo extenso de composições avulsas e melodicamente delineadas, o sucessor do já maduro On the Water (2011) é uma passagem direta do grupo de Greenville, Carolina do Norte para o grande público – ou pelo menos um último estágio antes desse ponto. Cravejado de hits e boas canções, o disco incorpora uma assertiva desconstrução do Synthpop, marca que acompanha a banda da faixa de abertura até a último harmonia sintetizada. Em um sentido de aprimoramento ao trabalho que Gerrit Welmers, William Cashion e Samuel T. Herring desenvolvem desde o meio da última década, o novo disco fixa na completude das canções um posicionamento evidente da fase adulta. É como se o ambiente em construção, representado pelas capas dos discos – antes esboços, depois coloridas e, por fim, a presente ilustração – finalmente fosse finalizado. Mais do que entregar um disco seguro, a carga de detalhes e versos confessionais ampliam o estágio de ordem do trio, capaz de brincar com a própria essência com segurança. [+]

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#27. Perfume Genius
Too Bright (2014, Matador)

Mike Hadreas é um especialista em brincar com os contrastes. Desde o primeiro álbum como Perfume Genius, Learning (2010), o enquadramento sutil dos arranjos segue em oposição ao lirismo grandioso, quase cênico, incorporado em cada verso. Não diferente é a estrutura abordada em Put Your Back N 2 It, obra entregue dois anos mais tarde e uma espécie de extensão (ainda mais) dolorosa do ambiente construído no disco de estreia. Contudo, ao abrir as cortinas do terceiro álbum da carreira, Too Bright, o compositor revela ao ouvinte uma série de elementos surpresa. Imenso palco iluminado pelo experimento, o presente registro é uma obra que se expande grandiosa, seduzindo com naturalidade o espectador, sem elementos opositivos. Ainda que marcado por sóbrios instantes de minimalismo, referências típicas do músico, grande parte das canções surgem de forma intensa, “brilhantes” e espalhafatosas, fazendo valer o título do álbum. Mais uma vez acompanhado pelo produtor Ali Chant e Adrian Utley, do Portishead – responsável pelos sintetizadores do disco -, Hadreas soluciona uma obra em que arranjos e temas funcionam paralelamente, tratando na fluidez dos elementos uma espécie de espetáculo triste. [+]

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#26. Ben Frost
A U R O R A (2014, Mute/Bedroom Community)

A inexatidão obscura dos ruídos e fórmulas “instrumentais” sempre foi encarada por Ben Frost como um mecanismo básico para cada registro em estúdio. Curioso pensar que em A U R O R A, mais recente obra do australiano residente em Reykjavík, Islândia, a premissa seja outra, quase opositiva. Parcialmente linear, o disco usa das tradicionais ambientações do artista como um princípio de movimento entre as faixas, gerando uma obra que mesmo complexa e etérea em suas definições, reflete uma linha temática que praticamente padroniza e orienta as canções. Sequência (quase) imediata ao exercício lançado em By the Throat, de 2009, o novo álbum é uma obra de perversão em se tratando dos conceitos limitadores da Ambient Dark. Longe de promover um registro minimalista e hermético, como boa parte dos trabalhos do gênero, Frost parece inclinado a desconstruir a essência do estilo – além, claro, da própria discografia. Do momento em que tem início, em Flex, até a canção de encerramento, A Single Point Of Blinding Light, o músico usa dos ruídos para “contar uma história”. Um resumo caótico pré ou pós-apocalíptico, mas que revela sua essência mesmo sem esboçar palavras ou mínimas emanações vocais. [+]

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#25. Caribou
Our Love (2014, City Slang/Merge)

Como indicado na capa sutil e título do trabalho, Our Love é um registro orquestrado pelos sentimentos. Partindo de uma exposição romântica que vai das melodias ao verso cíclico da inaugural Can’t Do Without You, Snaith revela ao público o trabalho mais confessional e sensível de toda a carreira. Mesmo que não seja um projeto conceitual, linear, difícil não encarar o “amor” e diferentes sentimentos próximos como as principais engrenagens do álbum. Dor, inveja, carinho e declaração; interpretações pessoais que interferem em cada peça da obra. Não por acaso, toda essa “exposição sentimental” resulta no componente de maior encanto do disco: os versos. Ainda que músicas de peso como Can’t Do Without You e a própria faixa-título resgatem a mesma fórmula pronta de Snaith nos últimos discos – um verso simples trabalhado em loop -, letras extensas, delicadas e íntimas do público lentamente ocupam o interior do trabalho. Um reforço para o contexto doce da obra, algo explícito com naturalidade nos versos de All I Ever Need (“Ter você de volta é tudo que eu sempre precisei“) e demais peças líricas do canadense. [+]

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#24. Lykke Li
I Never Learn (2014, LL)

“A tristeza é uma benção“, disse Lykke Li em uma das faixas mais dolorosas e honestas de Wounded Rhymes, segundo trabalho em estúdio da cantora sueca e registro apresentado há três anos. Se observarmos o teor amargo que define a estética de I Never Learn, mais recente lançamento da artista, pouco parece ter se transformado dentro do universo particular de Li. Pelo contrário, em um sentido de explícita continuação ao trabalho alavancado em Youth Novels, de 2008, o novo disco revela a completa entrega de sua autora, cada vez mais interessada na fórmula dolorosa das canções de separação e mergulhada da cabeça aos pés em um ambiente essencialmente melancólico. Continuando exatamente de onde parou há poucos anos, o novo álbum – registro que fecha a trilogia iniciada em 2008 – conforta a cantora (e o público) dentro de um cenário em que a tristeza é a única resposta. Da autointitulada canção de abertura, ao isolamento que preenche os versos e arranjos de Sleeping Alone, no encerramento do disco, todos os aspectos do terceiro álbum solo da cantora emanam abandono, recolhimento e a mais profunda tristeza. Aspectos redundantes nas mãos de outros artistas, mas ainda inéditos dentro da saga macambúzia de Li. [+]

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#23. Bing & Ruth
Tomorrow Was The Golden Age (2014,Rvng Intl )

David Moore passou os últimos anos tecendo delicadas harmonias de pianos e temas ambientais em diferentes esferas da música estadunidense. De coletivos obscuros da cena folk a projetos centrados na música erudita – clássica ou contemporânea -, o currículo do pianista parece espalhado em um território amplo, como se o músico centrado na região do Brooklyn, em Nova York, coletasse conceitos dos mais variados gêneros e tendências ao longo da última década em busca da própria essência. Todavia, mesmo o rico acervo registrado no Bandcamp do compositor em nada supera a beleza condensada no interior de Tomorrow Was The Golden Age, último disco do músico à frente do Bing & Ruth. Posicionando os pianos ao fundo de pequenas distorções e bases drone, Moore cria um cenário marcado em totalidade pelo contraste. São melodias delicadas, como as de Just Like The First Time e Reflector, que logo sufocam em meio a doses consideráveis de distorções, fragmentos tímidos da música clássica e confissões silenciosas que trocam versos óbvios pelo minimalismo dos ruídos.

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#22. White Lung
Deep Fantasy (2014, Domino)

Deep Fantasy é uma porrada. Mesmo. Em uma ascendente estrutura agressiva que parece aprimorada disco, após disco, o White Lung alcança o terceiro registro da carreira esbanjando boa forma, acordes sujos e, claro, a voz (sempre) perturbada de Mish Way. Obra mais coesa desde a estreia da banda canadense com It’s the Evil (2010), o trabalho de míseros 22 minutos usa da colisão dos arranjos como um mecanismo de acerto para o grupo, capaz de falar/cantar sobre sentimentos complexos de forma simples e sempre intensa. Na trilha melódica do que o segundo disco, Sorry, apresentou em 2012, o presente registro inverte a formatação crua dos primeiros inventos da banda para reforçar coerência e certa dos de complexidade em estúdio. Ainda que o alinhamento “Punk” seja a base para cada uma das 11 canções que recheiam o álbum, da abertura com Drown With the Monster, ao fechamento, todos os esforços do grupo se concentram em montar uma obra que se abastece de detalhes e referências pouco convencionais para bandas do gênero. [+]

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#21. Spoon
They Want My Soul (2014, Loma Vista)

Com mais de duas décadas de carreira e uma produção quase homogênea de registros em estúdio, é fácil catalogar toda uma variedade de traços autorais dentro da extensa obra do Spoon. Da característica bateria seca de Jim Eno, aos acordes sujos de Britt Daniel – perfeitos para a voz rasgada do vocalista -, cada referência sonora ou lírica serve de base para uma inevitável zona de conforto. Um ambiente musicalmente previsível, porém, envolvente dentro da estética simples que o grupo assina desde a chegada do debut Telephono, em 1996. Ao apresentar They Want My Soul, oitavo registro em estúdio, a proposta do grupo do Texas não poderia ser diferente. Seja pelo uso de acordes restritos em Rent I Pay, o romantismo leve de Let Me Be Mine e até mesmo a sonoridade pop-chiclete de hit Do You, cada elemento da obra tropeça em um cenário há muito desvendado e aperfeiçoado em álbuns referenciais como Kill the Moonlight (2002) e Ga Ga Ga Ga Ga (2007). Entretanto, ao investir em bases detalhistas e melodias carregadas de gracejos pop, típicos da década de 1960 e 1970, o ineditismo reforça a atuação do grupo, revelando uma obra tomada pela jovialidade.

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