Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2014 [40-31]

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#40. Behemoth
The Satanist (2014, Nuclear Blast)

Reflexão, acolhimento ou simplesmente perdão pelos pecados. Há quem encontre no contato com a morte um incentivo natural para se aproximar de Deus. No caso de Adam “Nergal” Darski, vocalista e líder da banda polonesa Behemoth, a plena confirmação do oposto: um catálogo de temas satíricos, profanos e íntima comunicação com o demônio. Em The Satanist, primeiro trabalho do grupo depois de um longo processo de recuperação do guitarrista – diagnosticado com leucemia em 2010 -, a raiva acumulada nos últimos anos explode em meio a rajadas orquestrais de distorções e canções marcadas por temas ocultistas, cênicos, ampliando a boa fase do grupo estacionada em Evangelion, de 2009. Como um exercício de regresso aos primeiros anos em estúdio, o músico e os parceiros de banda trazem de volta todo o acervo de ambientações sombrias e bases testadas no começo dos anos 1990, íntimas do Black Metal, transformando faixas como Blow Your Trumpets Gabriel, In The Absence Ov Light e Messe Noire em uma visita inevitável ao inferno pessoal do próprio compositor. [+]

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#39. Future
Honest (2014, Epic/A1/Free Bandz)

Até o lançamento de Pluto, em 2012, Future parecia atuar apenas como um coadjuvante dentro da presente safra do rap estadunidense. Dono de um cardápio bem servido de Mixtapes, singles e faixas em colaboração com nomes de peso do Hip-Hop (Lil Wayne) e até da música pop (Miley Cyrus), o artista de Atlanta, Geórgia transformou o bem recebido debut em algo mais do que um mero cartão de visita. Passagem direta para um lugar de destaque dentro do panorama “alternativo”, ou mesmo além dele, Future usa do disco como uma ponte para Honest, segundo registro solo e sua verdadeira obra de apresentação. Em um exercício explícito de continuação aos inventos lançados há dois anos, porém, em busca de construir um cenário particular, cada segundo do registro se organiza dentro de faixas grandiosas, orquestradas para quase tirar o fôlego do espectador. Ainda que a fluidez ascendente, por vezes épica, não esbarre no mesmo ambiente de exageros conceituais de Yeezus (2013), último álbum de Kanye West, seja ao falar de amor (I Be U), ou brincar com as experiências com as drogas (Move That Dope), Future trilha um cenário de grandezas e pequenas vitórias particulares. [+]

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#38. Marissa Nadler
July (2014, Sacred Bones)

Dez anos se passaram desde que Ballads of Living and Dying (2004), álbum de estreia da cantora e compositora Marissa Nadler, foi apresentado ao público. Se ao longo da última década pouco se modificou na atmosfera sombria exposta pela artista, em se tratando dos versos instalados em cada composição, Nadler fez do próprio sofrimento um princípio de abastecimento criativo. São obras inteiras consumidas pela atmosfera soturna da artista (Little Hells, 2009), ou mesmo registros que se perdem no lirismo quase onírico da cantora (Songs III: Bird on the Water, 2007). Tratamento que ao alcançar o sexto disco da norte-americana mais uma vez expõe transformação. Partindo exatamente de onde parou no álbum homônimo de 2011, July é uma imposição segura de tudo o que Nadler vivenciou em seus anos mais recentes. De relacionamentos fracassados (Firecrackers) ao passeio por versos de pura libertação (Was It A Dream), cada peça instalada no disco atravessa o universo particular da cantora de forma a dialogar com as experiências mais amargas do público. Como uma mente atormentada em uma noite de insônia, a cantora utiliza do que há de mais triste nas impressões humanas de forma a manipular as melodias. Uma divisão constante entre o acolhedor e o desespero. [+]

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#37. Shabazz Palaces
Lese Majesty (2014, Sub Pop)

Para onde seguir depois de mergulhar na escuridão de Black Up? Em Lese Majesty, segundo álbum e mais recente álbum do Shabazz Palaces, a direção encontrada por Ishmael Butler e Tendai Maraire parece clara: o espaço. Em um ambiente de formas psicodélicas, colagens de voz e pequenas variações de temas próximos, o duo norte-americano encontra no uso de arranjos abstratos a passagem para um cenário essencialmente mágico e ilimitado conceitualmente. Ainda que músicas como They Come In Gold e #CAKE sejam capazes de distorcer a ordem serena do registro, ao pisar no território flutuante de Dawn In Luxor, faixa de abertura da obra, todo o esforço da dupla está em acomodar e conduzir suavemente o espectador. Como um livro ou filme clássico de ficção científica, o álbum se divide em sete capítulos bem amarrados, transformando cada composição – de dois ou três minutos – em uma espécie de visita a estranhos corpos astrais, civilizações alienígenas ou mesmo fenômenos cósmicos ainda inexplorados. Façam os últimos ajustes e apertem os cintos, a viagem começa em 3… 2… 1… [+]

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#36. Pallbearer
Foundations of Burden (2014, Profound Lore)

Em julho, quando entrevistado para a seção Show No Mercy do site Pitchfork, o baixista Joseph D. Rowland resumiu as extensas faixas de Foundations of Burden , segundo álbum de estúdio do Pallbearer, como uma interpretação do próprio grupo sobre o pop tradicional. Composições de dez minutos – três vezes a duração de uma música comercial -, ou como ele próprio resumiu em tom jocoso: “a nossa maneira de escrever canções pop”. Por mais sarcástica que seja a resposta de Rowland, ao finalizar a audição do segundo álbum do quarteto de Little Rock, Arkansas, é justamente essa sonoridade “pop”, tão ironizada pelo instrumentista, que se permanece em eco na cabeça ouvinte. Acessível quando comparado ao som de outros representantes do Doom Metal – antigos ou atuais -, o disco é mais do que uma extensão do material lançado em Sorrow and Extinction, trabalho de 2012, mas uma versão refinada e melódica de toda a essência do grupo.

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#35. Todd Terje
It’s Album Time (2014, Olsen)

Mulheres, drinks e Space Disco. Há mais de uma década o norueguês Todd Terje passeia pela cena eletrônica como um boêmio, se esquivando das palavras e investindo nos arranjos sintéticos para retratar de forma autoral a vida noturna. Mergulhado nas experiências que ocuparam a década de 1970, o produtor original de Mjøndalen, parece amarrar as pontas soltas entre a música que ocupou as pistas há quase quatro décadas e as emanações que detalham os excessos no presente. Entre lá e aqui, Terje abre as portas do primeiro álbum de estúdio, o aguardado It’s Album Time, um registro tão nostálgico e empoeirado, quanto voluptuoso e atual. Descompromissado, mas não menos detalhista que os últimos inventos em estúdio do artista, o disco vai além de dançar pelas harmonias hipnóticas lançadas por Terje desde o começo dos anos 2000. Enquanto os primeiros singles ou mesmo o último EP do produtor, It’s the Arps (2012), pareciam reforçar experimentos musicais fragmentados, cada instante do presente álbum evoca uma tonalidade sequencial. É como se o norueguês contasse uma história, um tipo de desaventura romântica em um paraíso tropical que cresce ao som dos sintetizadores. [+]

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#34. Strand Of Oaks
HEAL (2014, Dead Oceans)

Mesmo para quem nunca se interessou pelo trabalho do Strand Of Oaks, perceber a versatilidade do projeto comandado por Timothy Showalter não é uma tarefa muito difícil. Em um sentido quase oposto ao teor melancólico (e arrastado) que orienta grande parte dos grandes lançamentos da cena Folk/Country estadunidense, o músico de Indiana sempre apostou na expansão, sustentando trabalhos que mesmo complexos e autorais, não parecem bloquear a passagem para o espectador novato ou qualquer visitante atento. Com a apresentação de HEAL (2014), quarto álbum de estúdio da banda/cantor, Showalter não apenas consegue ampliar o caráter melódico e musicalmente dinâmico da própria obra, como ainda sustenta um dos grandes exemplares do Romantismo-Folk lançado recentemente. Em um cenário dominado pela maturidade de Mark Kozelek (Sun Kil Moon), além de vozes femininas guiadas por corações partidos – caso de Sharon Van Etten e Angel Olsen -, Timothy substitui a homogeneidade dos temas e arranjos para ziguezaguear pelos próprios sentimentos.

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#33. Freddie Gibbs & Madlib
Piñata (2014, Madlib Invazion)

Passado e presente do Hip-Hop norte-americano se encontram no interior de Piñata, obra assinada de forma colaborativa entre o rapper de Indiana Freddie Gibbs e o produtor californiano Madlib. Ainda que a dupla seja capaz de sintetizar grande parte das transformações que alimentaram o gênero em mais de duas décadas de produção, são os convidados que cortam grande parte das faixas do disco os verdadeiros responsáveis pela expansão do conceito. Enquanto Madlib orquestra de forma nostálgica as bases do álbum, esbarrando no Soul e R&B dos anos 1970, Gibbs puxa as rimas e abre espaço para uma frente versátil de convidados. De novatos como Domo Genesis, Earl Sweatshirt e Mac Miller ao trabalho de artistas já maduros como Danny Brown, Ab-Soul e Raekwon, cada composição espalhada pelo disco cresce em um continuo estágio de leveza, equilibrando com naturalidade versos sujos – como em Deeper, High e Thuggin’ – com arranjos tão acolhedores quanto aqueles lançados por Madlib há uma década dentro do clássico Madvillainy (2004). [+]

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#32. Angel Olsen
Burn Your Fire For No Witness (2014, Jagjaguwar)

Mais de quatro décadas separam Blue (1971), obra-prima da compositora canadense Joni Mitchell, de Burn Your Fire for No Witness, segundo e mais doloroso trabalho de estúdio de Angel Olsen. Ainda que os caminhos assumidos pelas duas artistas sejam bastante particulares – e quase opositivos em determinados aspectos líricos -, o princípio de orquestração temática de cada obra permanece o mesmo: a melancolia escancarada de um coração partido. Apoiada em elementos lançados há décadas pela veterana, Olsen, longe de se afundar no martírio alcoólico das palavras, tenta sobreviver a qualquer custo, ensaio pontuado nos gritos de desespero que percorrem toda a obra. Menos tímido que o exercício proposto há dois anos com Half Way Home (2012), trabalho de estreia da novata, o presente álbum é um projeto que encontra nos arranjos clássicos – principalmente o Folk da década de 1970 -, um instrumento atento de comunicação com as palavras. Bases convencionais e pequenas fagulhas Lo-Fi que apenas reforçam a grandeza sóbria dos versos impostos pela cantora. [+]

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#31. Flying Lotus
You Are Dead! (2014, Warp)

É difícil prever o comportamento de Steve Ellison a cada novo álbum do Flying Lotus. Pouco depois de visitar o mundo dos sonhos em Until the Quiet Comes (2012) e assumir a construção das rimas no projeto paralelo Captain Murphy, o produtor californiano encontrou no Jazz principal base e reforço para as 20 faixas que sustentam o quinto álbum solo. Em um diálogo natural com a própria herança familiar – o artista é sobrinho-neto de Alice e John Coltrane -, cada música do disco se espalha em meio a climatizações inexatas, bases sobrepostas e toda uma variedade de temas resgatados dos primeiros discos do produtor – principalmente Cosmogramma (2010). Tão experimental quanto acessível, Ellison encontra no relacionamento com outros produtores e artista um reforço necessário para o disco. Kendrick Lamar em Never Catch Me, Angel Deradoorian com Siren Song, Thundercat em Descent Into Madness e até veteranos como Ennio Morricone (Turtles) e Herbie Hancock (Tesla). Vozes e instrumentistas responsáveis por “adaptar” (ou expandir) parte do som complexo assinado pelo produtor.

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