Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2014 [50-41]

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#50. Arca
Xen (2014, Mute)

Xen é uma verdadeira vitrine de tendências sonoras e visuais. Hip-Hop encontra a música Techno, ruídos estranhos dançam ao som de pequenas bases atmosféricas e criaturas disformes caminham livremente em cenário de constantes alterações rítmicas. Como representado no ser perturbador que estampa a capa do disco – trabalho assinado pelo velho parceiro Jesse Kanda -, para a estreia como Arca, o venezuelano Alejandro Ghersi apostou todas as fichas na incerteza. Mesmo longe de produzir uma obra original – trata-se de um imenso registro de colagens, encaixes e pequenas apropriações musicais -, difícil escapar do jogo hipnótico que orienta de forma (torta) a direção das faixas. De adaptações do trabalho desenvolvido ao lado de FKA Twigs e Kanye West ao diálogo com veteranos como Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never) e Actress, a reciclagem de conceitos é permanente. São 15 faixas delineadas em uma atmosfera particular, sujo e estranha. Para Ghersi, um versátil cartão de visita que cresce na sutileza de Now You Know, mergulha nas pistas com Thievery e só volta a respirar nos fragmentos eletrônicos da derradeira Promise. Sejam bem vindos ao mundo de Arca. [+]

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#49. Mr Twin Sister
Mr Twin Sister (2014, Infinite Best / Twin Group)

O título renovado está longe de ser a única transformação significativa em relação ao (novo) trabalho da banda norte-americana Twin Sister. Com o lançamento do autointitulado segundo registro em estúdio, além do “Mr” que agora acompanha a banda, temas jazzísticos, diálogos detalhados com a Disco Music e todo um novo catálogo de referências nostálgicas abastecem o trabalho do coletivo do Brooklyn – tão maduro e jovial hoje quanto no debut In Heaven, de 2011. São apenas 37 minutos e oito composições inéditas, material suficiente para os arranjos ambientais de Gabe D’Amico abracem de vez uma estrutura minimalista, sombria e romântica, como um passeio melancólico pelas pistas de dança em diferentes épocas. Soft Rock, R&B, Dream Pop e a essência fracionada de grupos como Cocteau Twins e ABBA. Fragmentos conceituais para que a voz de Andrea Estella se acomode de forma precisa em meio a canções esfareladas como In The House Of Yes, Blush e Sensitive, faixas desenvolvidas a partir de pequenos cacos sentimentais e suspiros apaixonados de personagens distintos. [+]

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#48. Mark McGuire
Along The Way (2014, Dead Oceans)

Você já teve a sensação de viajar enquanto aprecia as canções de um disco? Este é exatamente o propósito de Along The Way, mais recente trabalho solo de Mark McGuire – o primeiro desde o fim das atividades do Emeralds, antiga banda do compositor. Paisagens coloridas, o vento balançando os cabelos lentamente, sentimentos, personagens e uma constante sensação de leveza invadem todas as brechas da obra. E um plano onírico, o guitarrista interpreta cada mínimo traço musical do registro em uma ferramenta de imersão, hipnotizando e ao mesmo tempo confortando o espectador iniciado. São faixas curtas, como Astray (de apenas dois minutos) e canções extensas, caso de The Instinct (com mais de 12 minutos) que parecem funcionar como trilha sonora natural para qualquer excursão real ou imaginária. Visível extensão do material apresentado pelo músico em Living With Yourself (2010) e  Get Lost (2011),  o presente disco expande as ambientações de McGuire, distorcendo acordes sutis e apresentando pequenos fragmentos de voz de forma a criar um plano imenso de novas experiências. [+]

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#47. Charli XCX
Sucker (2014, Neon Gold/Atlantic)

Quem esperava encontrar em Sucker a mesma Charli XCX do “eletrônico” True Romance (2013) vai esbarrar em uma artista transformada. Ainda que os temas dançantes de Superlove e Boom Clap estabeleçam uma inevitável conexão com o álbum lançado no último ano, bastam as guitarras de Break The Rules e o ritmo acelerado, quase cru, de London Queen para sentir a completa alteração no trabalho assinado pela cantora. A julgar pela coerência e forte relação entre cada uma das faixas – esforço do produtor Patrik Berger-, Sucker é o primeiro registro em que a artista britânica parece livre do som “caseiro” explorado nas primeiras canções, marca explícita no álbum (ou seria mixtape?) de 2013. Acompanhada de um bem resolvido time de produtores – entre eles Cashmere Cat, Ariel Rechtshaid e Rostam Batmanglij (Vampire Weekend) -, Charli logo abraça o mesmo pop nostálgico de HAIM e Sky Ferreira, deslizando em uma verdadeira avalanche hits. Das melodias estranhas de Need Ur Luv ao flerte com a New Wave em Body of My Own, não importa a direção: o acerto está em todas as partes.

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#46. Pharmakon
Bestial Burden (2014, Sacred Bones)

Poucos artistas parecem capazes de replicar a mesma ambientação perturbadora que preenche o trabalho de Margaret Chardiet. Dois anos depois de ser oficialmente apresentada como Pharmakon em Abandon, de 2012, a artista norte-americana encontra no próprio corpo a matéria-prima para cada uma das faixas de Bestial Burden, o desconcertante segundo álbum da carreira. Em 2013, depois de passar semanas internada em um hospital – os médicos retiraram um cisto imenso do corpo da artista –, Chardiet passou a compor inspirada por temas que se relacionassem com a fragilidade e iminente falha do corpo humano. O resultado dessa orientação temática se faz evidente em cada uma das composições registradas no trabalho, invadindo com naturalidade a imagem que pinta de forma orgânica a capa do disco. Ruídos que emulam a experiência do vômito em Primitive Struggle, respiração sufocada na inaugural Vaccum e o completo descontrole do corpo em músicas como Intent or Instinct. Um composto denso de ruídos e samples que se dividem abertamente entre a música e a necessidade de provocar o ouvinte. [+]

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#45. Perfect Pussy
Say Yes To Love (2014, Captured Tracks)

Pouco mais de 23 minutos de duração, este é o tempo necessário para que o grupo norte-americano Perfect Pussy possa dar vazão aos som caótico que impera em Say Yes To Love. Abraçando o Punk “Alternativo” do Hüsker Dü, na década de 1980, mas sem fugir das melodias que guiaram o Sleater-Kinney e outros grupos próximos até o começo dos anos 2000, o quinteto de Syracuse, Nova York tranca o ouvinte em uma sequência de riffs crus e vozes essencialmente berradas. Um ambiente de desordem, mas que serve como ferramenta básica para o universo em plena desconstrução do grupo. Com a desesperada Meredith Graves à frente dos vocais, Ray McAndrew (guitarra), Garrett Koloski (bateria), Greg Ambler (baixo) e Shaun Sutkus (sintetizadores) promovem um registro em que tudo parece fugir ao controle do espectador. Vozes que batem desgovernadas em acordes sujos, sintetizadores que edificam verdadeiros monumentos do noise pop e toda uma sequência de músicas que apostam na urgência sem qualquer chance de equilíbrio. A ordem aqui é perturbar, e qualquer tentativa de conforto é soterrada por doses anárquicas de distorção. [+]

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#44. Andy Stott
Faith In Strangers (2014, Modern Love)

Andy Stott levou quase dois anos para finalizar todo o universo de ruídos, vozes enevoadas e sons abafados que recheiam o interior de Faith In Strangers. Ao lado de Alison Skidmore, parceira desde o álbum Luxury Problems (2012), o artista parece ter encontrado a base para a construção dos vocais e natural movimento do disco, entretanto, são as colagens, edição apurada e lenta desconstrução dos próprios arranjos que prendem a atenção do ouvinte. Brincando com um catálogo de referências particulares, o produtor visita temporariamente o ambiente rústico dos EPs Passed Me By e We Stay Together, de 2011, sustentando na voz da colaboradora uma espécie de ponte frágil para o registro de 2012. Dessa forma, Stott estimula pequenos choques de referências, colisões sujas e adaptações que revelam ao ouvinte um cenário parcialmente novo e inexplorado. Com base em um detalhamento quase hipnótico, a formação do álbum se divide em faixas brandas – Violence, On Oath – e aceleradas – No Surrender, Damage -, como se caos e ordem coexistissem de forma harmônica dentro dos domínios autorais de Stott. [+]

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#43. Wild Beasts
Present Tense (2014, Domino)

Com o lançamento de Smother, em 2011, os membros do Wild Beasts apresentaram uma completa mudança estrutural em relação ao som explorado em Two Dancers, de 2009. Imerso em um ambiente sombrio, delineado por bases minimalistas e referências ao trabalho da brasileira Clarice Lispector, Tom Fleming e os parceiros de banda pareciam ter encontrado um novo espaço para melhor interpretar e musicar os próprios sentimentos, esbarrando vez ou outra em temas existencialistas. Em Present Tense, todos esses elementos não apenas foram compreendidos de forma precisa, como detalhados por cada integrante. Seja nos versos melancólicos de Mecca (“Nos movemos no medo, nos movemos no desejo / Agora eu sei como você se sente”) ou no brilho pop que preenche os arranjos de Wonderlust e Swet Spot, ao alcançar o quarto álbum, o grupo de Kendal, Inglaterra define os limites da própria obra, confirmando identidade. Mesmo a confessa referência ao trabalho de veteranos como Talk Talk e Radiohead parece desconstruída pelas canções, como um tempero (ainda mais) saboroso e adaptado aos conceitos que regem o coletivo. [+]

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#42. Ought
More Than Any Other Day (2014, Constellation)

As mão sobrepostas na capa de More Than Any Other Day, estreia do Ought, funcionam como uma perfeita representação do som montado pela banda canadense. Da década de 1970, nascem as guitarras e todo o conjunto de vozes sujas que apresentaram nomes como Talking Heads, Wire e Television; dos anos 1990, a essência de grupos como Pavement, Cap’n Jazz e Sonic Youth, inspiração e ao mesmo tempo uma ponte para os anos 2000, casa do rock dançante e fôlego renovado pelos recentes “salvadores do rock”, principalmente a nova-iorquina The Strokes. Dentro desse ambiente referencial, o quarteto comandado pelo vocalista Tim Beeler aos poucos adapta e estabelece os próprios conceitos, polindo faixas que crescem serenas, por vezes declamadas, mas que logo arrastam o ouvinte para dentro de um turbilhão ruidoso e caótico. Sobram colagens jazzísticas, flertes com o Math Rock, um resgate bem-humorado da obra de The Velvet Underground, além do constante senso de descoberta, como se a banda transformasse Habit, Forgiveness e demais canções espalhadas pelo registro em uma inevitável (e criativa) passagem para o próprio universo. [+]

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#41. Cymbal Eat Guitars
LOSE (2014, Barsuk)

Os arranjos testadas pelo Cymbal Eat Guitars em Lenses Alien (2011) parecem reforçados com preciosismo nas canções de LOSE, terceiro álbum de estúdio da banda de Nova York. Em uma nítida demonstração de amadurecimento, Joseph D’Agostino, Andrew Dole, Matt Whipple e Brian Hamilton (finalmente) abandonam a herança de grupos como Pavement, Modest Mouse e Built To Spill para construir um material próprio – ainda mais amplo. Mesmo que a inaugural Jackson sirva como funcional exemplo para ressaltar todas as transformações que envolvem o trabalho do quarteto, ao longo do álbum, o atento aprofundamento das melodias e contato temporário com elementos do rock progressivo revela ao ouvinte uma série de surpresas. Romantismo à la The Beatles em Child Bride, ensaios psicodélicos nos mais de oito minutos de Laramie ou apenas ruídos melódicos no terreno “sujo” de LifeNet. Mais do que nítido ponto de aprimoramento, em LOSE cada faixa aproxima o grupo de um cenário rico, cercado por novas possibilidades, prova de que o exercício iniciado (com acerto) em Why There Are Mountains (2009) segue de forma curiosa e atenta por parte da banda. [+]

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