Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2015 [10-01]

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#10. Courtney Barnett
Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit (2015, Mom & Pop)

O ano é 1995. No campo da música, o grunge dá seus últimos suspiros, deixando o caminho livre para o duelo “pomposo” do Britpop entre Blur e Oasis. Depois de meia década de “domínio masculino” dentro das rádios, programação da MTV e revistas de música, um time de vozes femininas – inspiradas por PJ Harvey, Kim Deal e Liz Phair – começaram a ocupar território. De Alanis Morissette ao trabalho da islandesa (e já veterana) Björk, dos gritos de Gwen Stefani no No Doubt aos berros de Shirley Manson na estreia do Garbage, há 20 anos, todos os holofotes se voltaram para elas. Curioso perceber que mesmo passadas duas décadas desde a explosão de novos representantes do “rock feminino”, Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit, estreia solo da australiana Courtney Barnett, ainda preserva parte da mesma essência de músicas lançadas durante o período. Versos temperados com sarcasmo, guitarras tratadas com euforia, além de um universo de temas tão joviais e descomplicados, que Barnett parece até cantar sobre o cotidiano do espectador. Passo além em relação ao material apresentado em The Double EP: A Sea of Split Peas, de 2013, a estreia solo de Courtney Barnett se liberta de possíveis amarras para flutuar em um plano leve, como uma transcrição de pensamentos recentes da artista. []

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#09. Vince Staples
Summertime ’06 (2015, Def Jam)

Caso Summertime ’06 (2015, Def Jam) fosse apresentado ao público como filme, seria impossível desviar o olhar da tela, mesmo que por alguns poucos segundos. Com quase uma hora de duração, o álbum duplo que marca a estreia do rapper Vince Staples não apenas prende a atenção como perturba, transportando sem dificuldades a mente do ouvintes para o mesmo cenário em preto e branco dominado por gangues, assassinatos e conflitos do personagem (real) vivido por Staples durante a adolescência nas ruas de Long Beach, Califórnia. Na trilha de Kendrick Lamar em Good Kid, M.A.A.D City (2012) e Earl Sweatshirt em Doris (2013), álbum que conta com a participação do rapper na faixa Hive, Summertime ‘06 sustenta na rima precisa de Staples uma passagem descomplicado para a rápida aproximação do ouvinte. Como o protagonista de uma película, Staples é o personagem que acompanha o público pela narrativa cinza da obra, um retrato nostálgico (e amargo) do anunciado “Verão de 2006”, período em que Staples, aos 13 anos, fez parte de uma gangue composta apenas por adolescentes. Ao mesmo tempo em que cria uma narrativa obscura da própria juventude, Staples, de forma talvez propositada, lentamente articula uma obra que reflete a passagem de qualquer indivíduo para a vida adulta. Medo da morte, desilusões amorosas, convivência e depressão; elementos que escapam do ambiente temático da obra, abraçando com naturalidade os tormentos de qualquer indivíduo. []

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#08. Deerhunter
Fading Frontier (2015, 4AD)

Gritos, ruídos e distorções. A julgar pelo som incorporado pelo Deerhunter em Monomania, de 2013, a busca por um som cada vez mais agressivo, visceral, parecia orientar o trabalho da banda original de Atlanta, Georgia. Surpresa encontrar em Fading Frontier, sétimo registro de inéditas do coletivo comandado por Bradford Cox e Lockett Pundt, uma proposta completamente distinta em relação ao último projeto de estúdio. Em uma espécie de regresso ao ambiente montado para Halcyon Digest (2010), vozes e arranjos se articulam de forma letárgica, encaixando instantes de maior euforia sem necessariamente romper com o som cósmico assumido pela banda em grande parte das faixas. Com produção assumida por Ben H. Allen, Fading Frontier é o trabalho em que a busca de grupo por novas possibilidades abraça com delicadeza a essência ruidosa projetada desde a estreia com Turn It Up Faggot (2005). Não se trata de uma curva brusca como o álbum lançado há dois anos, mas um resgate atento (e remodelado) de boa parte do acervo projetado pelos integrantes dentro e fora da banda. Diferente dos outros trabalhos, Fading Frontier é o álbum em que as influências de cada integrante se manifestam com maior naturalidade. Não por acaso Bradford Cox desenvolveu um mapa de referências no site da banda, indicando grandes parte dos elementos que serviram de inspiração para o presente trabalho. De artistas como Caetano Veloso, Al Green, R.E.M. e Tom Petty, passando pelo cinema de Pedro Almodóvar e Robert Bresson, até alcançar os poemas de Pablo Neruda e telas de Henri Matisse, uma imensa colcha de retalhos culturais se estende da abertura ao fechamento do disco. []

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#07. Kamasi Washington
The Epic (2015, Brainfeeder)

Imenso. Não existe palavra que melhor sintetize o trabalho de Kamasi Washington em The Epic(2015, Brainfeeder) do que esta. Em um longo exercício orquestral que se estende por três discos, 17 faixas e quase três horas de duração, o saxofonista californiano não apenas se mostra capaz de prender a atenção do ouvinte, como ainda transporta a mente (e alma) do espectador para diferentes décadas, campos e experiências sustentadas pelo Jazz. Um caminho – ou mundo? – de possibilidades irrestritas, crescendo desde a raiz plantada no campo fértil de Herbie Hancock, John Coltrane e Miles Davis, até alcançar a copa da árvore compartilhada com diferentes membros do selo Brainfeeder – caso de Steve Ellison (Flying Lotus), Stephen Bruner (Thundercat). Convidado a integrar o time de instrumentistas que deram vida ao último álbum de Kendrick Lamar, o clássico imediato To Pimp a Butterfly (2015), Washington, músico profissional desde a década de 1990, brinca de forma curiosa com os mesmos temas políticos, culturais e sociais ressaltados pelo conterrâneo no presente disco. A diferença? Enquanto o rapper sustenta nas rimas e pequenos recortes sampleados um acervo de referências extraídas em mais de cinco décadas de transformações dentro da cultura afro-americana, Kamasi vai ainda mais longe, brincando com arranjos e adaptações instrumentais que costuram diferentes campos da música estadunidense – principalmente o Funk e o Jazz -, abraçam a essência da cultura africana e borbulham como novidade em cada ato isolado do trabalho. []

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#06. Julia Holter
Have You In My Wilderness (2015, Domino)

Julia Holter nunca é a mesma a cada álbum de estúdio. Do som experimental testado em Tragedy(2011), passando pela Ambient Music/Dream Pop retratada no etéreo Ekstasis (2012) até alcançar o jazz sombrio do clássico moderno Loud City Song (2013), difícil encarar o trabalho da artista norte-americana como uma obra de natureza estável. Vozes, arranjos e pequenos fragmentos instrumentais que mudam de direção com naturalidade, a cada novo registro autoral da musicista, em Have You In My Wilderness (2015, Domino) mais uma vez renovada, íntima de um novo acervo de possibilidades. Parte de um explícito processo de “filtragem” e melódica adaptação do material incorporado por Holter nos últimos anos, com o quarto disco de inéditas, a artista de Los Angeles, Califórnia abraça de vez a delicadeza da música de câmara dos anos 1960 e 1970. Do uso de temas orquestrais, típicos da obra de Scott Walker entre 1967 e 1969, passando pelo pop ensolarado de veteranos como The Beach Boys e The Zombies, cada ato do presente álbum estreita com naturalidade a relação de Holter com o grande público, convidado a mergulhar nas confissões e arranjos doces detalhados pela artista. Como explícito desde o lançamento de Feel You, faixa de abertura e primeiro single do trabalho, nunca antes Julia Holter pareceu tão acessível quanto em Have You In My Wilderness. []

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#05. Grimes
Art Angels (2015, 4AD)

Em agosto de 2013, convidada a participar de uma das edições da série Boiler Room, Grimes causou polêmica por conta do repertório apresentado ao público. Entre canções autorais e faixas de outros artistas, o que de fato chamou a atenção foi a avalanche de composições pop que preencheram o set da artista canadense. Taylor Swift, Mariah Carrey, Skrillex e até o “clássico”We’re Going to Ibiza, do grupo holandês Vengaboys. Acusada de trollar o projeto, no Twitter, a cantora se defendeu: “Eu não acho que exista um ‘livro de regras’ dos DJs. Nada do que eu faço é irônico”. Ainda que a apresentação não tenha sido publicada no canal do Boiler Room, no Youtube, mesmo sob o pedido e petição do público, com a “curiosa” performance, Grimes parecia indicar o caminho que seria musicalmente incorporado após a divulgação do etéreo Visions (2012). Em busca de um som cada vez mais pop, a artista se mudou para Los Angeles, acabou se envolvendo com figurões da música local, lançou a pegajosa Go – faixa originalmente composta para Rihanna -, e, poucos meses depois, insatisfeita com o resultado do material produzido, decidiu abandonar tudo e trabalhar sozinha no Canadá. Fruto desse universo de novas experiências, mudanças e relações conturbadas, Art Angels reforça a busca da artista canadense por um som completamente distinto em relação ao material entregue há três anos. Esqueça as bases enevoadas de Geidi Primes (2010), as quebras bruscas e experimentos de Halfaxa (2010) e, principalmente, todo o cardápio de melodias cósmicas detalhadas em Visions. Da abertura ao fechamento do álbum, Grimes brinca com o pop em uma estrutura essencialmente particular. []

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#04. Jamie XX
In Colour (2015, XL / Young Turks)

Jamie Smith lançou a primeira música em carreira solo. Durante uma rápida entrevista à rádio inglesa XFM, em setembro de 2010, o jovem produtor não apenas revelava ao público o autoral single Far Nearer, como ainda sussurrava de forma tímida e claramente indecisa o nome escolhido para esse novo projeto: Jamie XX. Seis anos mais tarde, a timidez do músico londrino permanece evidente em cada ato, canto ou sample reciclado no interior de In Colour (2015, XL / Young Turks), todavia, o mesmo não pode ser dito sobre a suposta indecisão do artista. Do ritmo crescente que abre o trabalho na faixa Gosh, seguindo pelo cruzamento de ritmos que vai do Pós-Dubstep (Hold Tight) ao Hip-Hop (I Know There’s Gonna Be Good Times), passando pelo minimalismo de Girl, já conhecida faixa de encerramento do disco, o britânico sabe exatamente onde quer chegar. Confortável e rodeado por colaboradores de longa data – entre eles o produtor Kieran Hebden (Four Tet) e os parceiros do The XX, Romy Madley Croft e Oliver Sim -, Smith revela em essência o universo de referências coloridas que há tempos ocupa sua mente. []

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#03. Tame Impala
Currents (2015, Modular / Interscope)

Obra de sentimentos, Currents sustenta nos versos uma rara exposição de Kevin Parker. Trata-se do álbum mais intimista, doloroso e, ainda assim, acolhedor já montado pela banda. Canções marcadas por pedidos de desculpas (‘Cause I’m A Man), relacionamentos fracassados (Eventually) e até mesmo versos costurados pelo mais profundo sofrimento (The Less I Know The Better). Uma constante sensação de que todo o arsenal melancólico do álbum anterior – caso de She Just Won’t Believe Me e Why Won’t They Talk To Me? – “floresceu” dentro do campo fértil de sintetizadores que se espalha do primeiro ao último instante da obra. Próximo e ao mesmo tempo distante da sonoridade incorporada até o último disco, Currents sustenta durante toda a execução pequenas pontes instrumentais para o álbum de 2012. É o caso de Disciples, uma rápida passagem pelo mesmo rock psicodélico (e nostálgico) das primeiras canções da banda. E o que dizer de The Less I Know The Better, composição que poderia facilmente ser encontrada dentro do primeiro álbum do grupo. No restante da obra, o completo domínio dos sintetizadores, instrumento que não apenas oculta (temporariamente) as guitarras, como aproxima o grupo de todo um novo mundo de possibilidades eletrônicas (Let It Happen), além de diálogos com a música pop (The Moment) e até Hip-Hop (Past Life). []

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#02. Sufjan Stevens
Carrie & Lowell (2015, Asthmatic Kitty)

Sufjan Stevens sempre me pareceu um grande contador de histórias. Por trás do inofensivo dedilhado de violão lançado pelo artista de Michigan, uma tapeçaria imensa de personagens, recortes fictícios, acontecimentos políticos que marcaram a história norte-americana ou mesmo contos transformados em música doces e envolventes. Basta voltar os ouvidos para o clássicoIllinois, de 2005, onde a vida do palhaço/assassino serial John Wayne Gacy, Jr. foi explorada com sensibilidade única, constante temática na obra do músico, um habilidoso artesão no controle dos sentimentos, capaz de converter detalhes (e temas) tão particulares, em peças facilmente absorvidas por qualquer ouvinte. Mas e as histórias do próprio Stevens, suas angústias, medos e desilusões: onde elas estão? Ainda que tenha atravessado os últimos 15 anos em meio a delicadas confissões românticas, tormentos e temas cotidianos, poucas vezes o universo particular do cantor estadunidense foi apresentado com tamanha clareza e sensibilidade quanto em Carrie & Lowell. Sétimo trabalho de inéditas do artista, o álbum vai além de um regresso aos planos acústicos que lançaram o instrumentista no começo dos anos 2000, revelando um mergulho soturno na conturbada estrutura familiar do cantor – a base temática que se espalha em cada faixa do registro.

Da imagem desgastada que estampa a capa do álbum – o casal (real) formado por Carrie e Lowell, mãe e padrastro de Stevens – passando pelos versos, sussurros e histórias entristecidas da obra, todas as peças do projeto se juntam para contar a história e, de certa forma, homenagear a mãe do cantor, Carrie, morta em 2012 depois de passar por meses de tratamento contra um câncer no estômago. Esquizofrênica, depressiva e alcoólatra, a “protagonista” deixou o filho e o ex-marido em meados dos anos 1970, voltando a revê-los anos mais tarde, quando se casou com Lowell, acolhendo o pequeno Stevens durante cinco férias de verão. Um história simples, porém, explorada de forma atenta, a matéria-prima para o retrato sorumbático que começa (pelo fim) em Death with Dignity e se estende até Blue Bucket Of Gold. []

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#01. Kendrick Lamar
To Pimp a Butterfly (2015, Interscope / Aftermath / Top Dawg)

Kunta Kinte, Wesley Snipes, escravidão, capitalismo, apropriação de cultura, preconceito racial e morte. Antes mesmo que a quarta faixa de To Pimp a Butterfly chegue ao final, Kendrick Lamar assume com o novo álbum de estúdio – o segundo sob o aval de uma grande gravadora, a Interscope -, um dos retratos mais honestos sobre o conceito de “dois pesos, duas medidas” que sufoca a comunidade negra dos Estados Unidos. Uma interpretação amarga, ainda que irônica, capaz de ultrapassar o território autoral do rapper de forma a colidir com o universo de Tupac Shakur, Michael Jackson, Alex Haley e outros “personagens” negros da cultura norte-americana. Como explícito desde o último trabalho do rapper, o bem-sucedido good kid, m.A.A.d city (2012),To Pimp a Butterfly está longe de ser absorvido de forma imediata, em uma rápida audição. Trata-se de uma obra feita para ser degustada lentamente, talvez explorada, como um imenso jogo de referências e interpretações abertas ao ouvinte. Da inicial citação ao ator Wesley Snipes – preso entre 2010 e 2013 por conta de uma denúncia de fraude fiscal -, passando por referências ao cantor Michael Jackson, Malcom X, Nelson Mandela, exaltações à comunidade negra, além de trechos da obra do escritor Alex Haley –  Negras Raízes (1976) -, cada faixa se espalha em um acervo (quase) ilimitado de pistas, costurando décadas de segregação racial dentro e fora dos Estados Unidos.

Não por acaso a “estrutura narrativa” do álbum segue de forma distinta em relação ao trabalho de 2012. Enquanto good kid, m.A.A.d city foi vendido como um “roteiro de cinema” – conceito reforçado na utilização de diálogos e pequenas “cenas” encaixadas no interlúdio de cada composição -, com o novo disco é possível observar a formação de uma pequena base episódica, como um seriado, estrutura arquitetada com naturalidade no decorrer das faixas. São recortes precisos, temas pessoais ou mesmo histórias adaptadas, como se a cada novo capítulo “da série”, Lamar e convidados (como George Clinton, Pharrell Williams e Snoop Dogg) analisassem aspectos distintos de um mesmo universo temático. []

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