Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2015 [30-21]

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[30-21]

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#30. Holly Herndon
Platform (2015, 4AD)

Vozes recortadas de forma abstrata e encaixadas sem ordem aparente; sintetizadores ambientais, ruídos eletrônicos e batidas movidos pelo etéreo; gritos, sussurros e provocações. Quem acompanha o trabalho de Holly Herndon sabe que o “óbvio” passa longe dos arranjos assinados pela artista. Misto de personagem e matéria-prima da própria obra, ao alcançar o recente Platform(2015, 4AD), segundo trabalho em carreira solo, a compositora norte-americana dá um passo além em relação aos últimos lançamentos de estúdio, colidindo melodias, conceitos e até imagens dentro de um cenário que parece modificado a todo o instante. Primeiro registro de Herndon lançado por um selo de médio porte – 4AD Records, casa de Grimes, St. Vincent e Ariel Pink -, Platform pode até seguir a trilha do álbum antecessor Movement, de 2012, entretanto, aos poucos revela evidências sobre os novos interesses da artista. Ainda que a voz seja o principal ingrediente da obra, refletindo a mesma temática orgânica do disco passado, cada ato, canto ou melodia torta de Herndon encontra no uso de temas eletrônicos um sustento renovado. Ruídos, manipulações e até batidas eletrônicas que apontam a lenta “digitalização” da artista – preferência que se estende da faixa de abertura ao visual futurístico que aparece na capa do álbum. Sem começo, meio ou final, Platform parece brincar com a linearidade de um registro comum. []

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#29. Viet Cong
Viet Cong (2015, Jagjaguwar/Flemish Eye)

Vozes parcialmente ocultas pela ambientação caseira das gravações; guitarras sujas, talvez extraídas de algum registro esquecido do pós-punk nova-iorquino. No interior das canções, o aproveitamento “matemático” das palavras, como se a sobreposição cacofônica dos versos servisse de estímulo para a tsunami de distorções que chega em ondas, corroendo a mente do ouvinte ao longo do registro. Descrição de alguma obra (clássica) do Swans, Suicide ou mesmo Sonic Youth no início de 1980? Não, apenas a estrutura caótica que alimenta o primeiro álbum de estúdio da banda canadense Viet Cong. Nascido da separação do Women, em 2012, de onde vieram Matt Flegel (vocal/guitarra) e Mike Wallace (baterista), a banda completa por Soctt Munro (guitarra) e Daniel Christiansen (baixo) ecoa como natural surpresa mesmo para aqueles que acompanharam o trabalho do extinto coletivo de Calgary. Acomodado em um território (musical) amplo, tão íntimo da presente cena norte-americana como do rock sujo do final dos anos 1970, o quarteto brinca com as possibilidades em cada peça do autointitulado debut, transformando arranjos tão autorais em criações íntimas de gigantes do Art Rock. []

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#28. FKA Twigs
M3LL155X

Pouco mais de dois anos, esse foi o tempo necessário para que FKA Twigs se transformasse na nova queridinha da música pop. Destaque em capas revista, publicações especializadas e até novo “ícone da moda”, a cantora, compositora e produtora britânica parece longe de alcançar uma possível zona de conforto, reformulando a própria imagem a cada trabalho em estúdio. Prova disso está no lançamento de M3LL155X (2015, Young Turks), mais recente registro de inéditas e álbum em que somos apresentados ao novo “personagem” criado pela artista: Melissa. Alter ego feminista da cantora, a personagem parece ser a forma encontrada por Twigs para discutir diferentes aspectos (e tormentos) do universo feminino. Um catálogo curto, cinco composições que, mesmo orquestradas por arranjos e batidas íntimas do R&B/Pop, mantém firme o discurso e a sobriedade da artista britânica, tão provocativa e comercial quanto no último registro de inéditas, LP1 (2014). Canções marcadas por abusos (I’m Your Doll), sexualidade (In Time) e abandono (Glass & Patron). []

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#27. Miguel
Wildheart (2015, ByStorm / RCA)

Com o lançamento do single Coffee, no começo de maio, Miguel dava fortes indicativos de que as mesmas experiências musicais testadas em Kaleidoscope Dream (2012) serviriam de base para o terceiro registro de inéditas do cantor. Batidas lentas, solos de guitarras provocantes e o vocal sempre limpo, quente, estímulo para a poesia erótica que orienta a sonoridade do músico norte-americano. Elementos talvez previsíveis, também base natural de Wildheart(2015, ByStorm / RCA), porém, encaixados em uma estrutura completamente torta dentro de cada faixa do trabalho. Pulsante, o álbum segue a mesma trilha iniciada pelo cantor desde o debut All I Want Is You(2010): um compilado de faixas marcadas pela obsessão sexual, loucura e agressividade. Um catálogo de 12 composições que lentamente escapam do domínio lírico de Migual, visitam a intimidade de qualquer casal e convertem em melodias íntimas do R&B alguns dos tormentos mais sujos de qualquer indivíduo – “pervertido” ou “puritano” – embaixo dos lençóis. A diferença em relação aos dois últimos discos do cantor está na “urgência” que movimenta as canções. Ainda que Wildheart seja o trabalho mais extenso já lançado por Miguel – com quase 50 minutos de duração -, perto de Kaleidoscope Dream e  All I Want Is You , a ferocidade que movimenta os versos e arranjos parece catapultar o ouvinte da primeira para a última música. []

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#26. Tobias Jesso Jr.
Goon (2015, True Panther)

Emoção“, “tristeza“, “sofrimento“. Palavras que invadem a mente do ouvinte tão logo a enxurrada sentimental de Goon (2015, True Panther) tem início em Can’t Stop Thinking About You. Harmonias tímidas de piano, uso controlado, quase imperceptível, de temas percussivos; vocal limpo, esculpido pela angústia do cantor; conceitos, personagens e pequenas confissões redundantes, há décadas desgastadas em diferentes campos da música. Os mesmos versos tristes de amor e separação, o mesmo coração partido, porém, retratado de forma honesta e estranhamente acolhedora por Tobias Jesso Jr. “Mary Ann, eu perdi você em um sonho / Em seguida, o sonho se tornou realidade“. Os versos que inauguram o primeiro registro solo do músico canadense apontam a direção triste que define o restante da obra. São quase 50 minutos em que tormentos pessoais, personagens (femininos) e incontáveis delírios alcoólicos brincam com a percepção amargurada de Jesso Jr, em poucos minutos, uma representação compatível de qualquer ouvinte sofredor. Ainda que vocais “sorridentes” tentem sobreviver ao longo do trabalho, é a tristeza que sustenta e ocupa as brechas de cada canção. []

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#25. Sleater-Kinney
No Cities To Love (2015, Sub Pop)

Havia uma sensação de “dever cumprido” quando o hiato do Sleater-Kinney foi anunciado em junho de 2006. Além do fortalecimento no discurso/poesia em relação aos primeiros trabalhos em estúdio, um ano antes, com a entrega de The Woods (2005), o grupo parecia ter alcançado mais do que um “refinamento estético” na próprio som. Depois de uma década de experiência e continua renovação, o trio conseguiu delimitar um influente cercado autoral; uma espécie ambiente seguro, compartilhado e base para crescimento de projetos também inspirados pela mesma temática progressista do grupo. Em No Cities to Love (2015, Sub Pop), oitavo álbum em estúdio da banda, Corin Tucker, Carrie Brownstein e Janet Weiss regressam ao mesmo território criativo de 2006, entretanto, uma leve alteração no lirismo da obra indica a explícita ruptura no discurso do grupo. De forma lenta, porém expressiva, o trabalho parece sufocar em uma atmosfera de forte incredulidade, frieza e pessimismo, conceito inicialmente ressaltado de forma simbólica nas flores murchas que estampam a capa do disco. []

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#24. Kurt Vile
B’lieve I’m Goin Down… (2015, Matador)

A boa fase de Kurt Vile parece longe de chegar fim. Em um ascendente sequência de registros autorais, entre eles os recentes Smoke Ring for My Halo (2011) e Wakin on a Pretty Daze (2013), o compositor e cantor norte-americano encontra no sexto álbum de inéditas uma espécie de fuga da psicodelia bucólica testada nos últimos cinco anos. Versos e arranjos detalhados de forma sempre intimista, passagem para o catálogo de temas sombrios que define cada uma das composições deB’lieve I’m Goin Down… (2015, Matador). Ainda que temas como abandono, isolamento e depressão sejam encarados com naturalidade dentro dos trabalhos de Vile, marca explícita desde o inaugural Constant Hitmaker (2008), poucas vezes antes o artista original da cidade de Filadélfia, Pensilvânia pareceu abraçar a (própria) tristeza com tamanha delicadeza e comoção quanto no presente disco. Da abertura com Pretty Pimpin – “Eu acordei esta manhã / E não reconheci o homem no espelho” – ao ato final de Wild Imagination – “Eu estou com medo de que estou sentindo muitos sentimentos”, difícil não ser arrastado pela lírica triste e solitária do cantor. “Canto uma canção triste quando estou só / Às vezes você precisa estar só para descobrir as coisas / Seja solitário, mesmo em uma multidão de amigos”, canta Vile na melancólica (e ainda sóbria) Wheelhouse. Quinta faixa do disco, a canção de versos lentos, quase declamados, parece apontar a direção assumida pelo músico em cada uma das 12 faixas que sustentam o disco. []

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#23. Donnie Trumpet & The Social Experiment
Surf (2015, Independente)

Quantos artistas em carreira solo você conhece que seriam capazes de abandonar o próprio domínio autoral, nome e sonoridade para investir em um projeto coletivo? Poucos, correto? E se alterarmos o foco, apontando em direção o universo de egos e personagens reais que define o Hip-Hop norte-americano, quantos desses artistas teriam a coragem mudar a direção dos holofotes, atuando em segundo plano, como um possível “coadjuvante”? A resposta é apenas uma: Chance The Rapper. Depois de ser oficialmente apresentado ao mundo com a excelente mixtape Acid Rap, de 2013, o artista original da cidade de Chicago, Illinois, não apenas foi acolhido por parte da imprensa norte-americana, como partiu em direção ao grande público. Entre composições ao lado de James Blake, Lil Wayne, Skrillex e Madonna, o destaque acabou ficando por conta da parceria com Justin Bieber em Confident, uma das melhores criações do músico teen e a ponte para o imediato reconhecimento do rapper, cada vez mais disputado, cercado de colaboradores. Em Surf, primeiro álbum do artista dentro do projeto Donnie Trumpet & The Social Experiment, nada disso parece importar. Ainda que o nome do rapper seja utilizado para atrair a atenção do público, da abertura ao fechamento da obra, Chance assume apenas um “papel secundário”, como um coadjuvante funcional junto ao time de instrumentistas, cantores e outros responsáveis pelas rimas que interferem no processo criativo do trabalho. []

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#22. Deafheaven
New Bermuda (2015, ANTI-)

Com exceção do público que acompanhava o Deafheaven desde a estreia com Roads to Judah(2011), foi difícil não se espantar com a explosão criativa do grupo em Sunbather. Segundo registro de inéditas da banda de São Francisco, Califórnia, o álbum apresentado em junho de 2013 sustenta quase 60 minutos de guitarras instáveis, gritos e delicadas melodias instrumentais, proposta que distancia o coletivo comandado por George Clarke e Kerry McCoy de outros representantes do Black Metal, mergulhando o ouvinte para um cenário cada vez mais próximo do Pós-Rock e outros campos da música experimental. Em New Bermuda (2015, ANTI-), terceiro álbum de estúdio do grupo californiano, todos os elementos incorporados há dois anos assumem novo e detalhado encaminhamento. São pouco mais de 40 minutos de duração e cinco faixas extensas – Brought to the Water, Luna, Baby Blue, Come Back e Gifts For The Earth -, material e tempo suficiente para que as guitarras de McCoy e do parceiro Shiv Mehra passeiem por diferentes décadas, preferências instrumentais e ruídos, ampliando o rico leque de referências que definem o trabalho da banda desde o começo da presente década.

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#21. Destroyer
Poison Season (2015, Merge / Dead Oceans)

Poison Season é um verdadeiro espetáculo. Atos marcados, instantes de euforia, recolhimento e explosão. Quatro anos após o lançamento do jazzístico Kaputt (2011), obra que apresentou o trabalho de Dan Bejar a uma nova parcela de ouvintes, o artista canadense encontra no décimo registro de inéditas do Destroyer um espaço para explorar conceitos adormecidos desde a estreia com We’ll Build Them a Golden Bridge, em 1996. Um acervo de faixas marcadas por referências literárias, personagens históricas e sentimentos que abraçam a mesma sonoridade arrojada e interpretação cênica dos últimos trabalhos do grupo. Questionado sobre a estrutura e conceito que rege o novo álbum, Bejar respondeu ao The New York Times: “Eu passei a ouvir mais discos de jazz“. De fato, o Jazz ecoa em todas as canções do novo disco. Do time de instrumentistas que acompanham o cantor – Ted Bois (piano), Nicolas Bragg (guitarra), David Carswell, (guitarra), JP Carter (trompete), John Collins (baixo), Joseph Shabason (saxofone) e Josh Wells (bateria) -, o uso de arranjos sofisticados e faixas que se completam, Bejar passeia pelo disco como um verdadeiro crooner, resgatando a essência de nomes como Frank Sinatra – personagem reverenciado pelo artista em diversas entrevistas recentes.

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[40-31] [20-11]

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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