Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2016 [10-01]

Categories Listas, Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2016

[10 – 01]

_

#10. Chance The Rapper
Coloring Book (Independente)

A grande beleza no trabalho de Chance The Rapper sempre esteve na proximidade entre o artista e o coletivo de vozes, produtores e instrumentistas convidados a atuar dentro de cada registro de estúdio. Da bem-sucedida apresentação em Acid Rap, de 2013, passando pelo colaborativo Surf, álbum lançado em parceria com o grupo Donnie Trumpet & The Social Experiment, em 2015, cada projeto assumido pelo rapper de Chicago, Illinois parte da criativa interferência de ideias e nomes vindos de diferentes campos da música negra. Em Coloring Book (Independente), terceira e mais recente mixtape de Chance, uma detalhada continuação desse mesmo conceito colaborativo explorado nos últimos trabalhos do rapper. Mais do que um registro assinado individualmente, um espaço que se abre para a completa interferência, canto e colagem de rimas assinadas por diferentes artistas. São 14 composições que autorizam a passagem de nomes como Kanye West, Lil Wayne, Future, Justin Bieber, Young Thug e Ty Dolla $ign. [Resenha]

_

#09. Solange
A Seat at The Table (Saint / Columbia)

Acompanhada de perto pelos produtores Dev Heynes (Blood Orange) e Ariel Rechtshaid (Haim, Sky Ferreira), além, claro, de um time seleto de instrumentistas e compositores, em 2012, Solange Knowles deu vida ao maduro True EP. Uma delicada seleção de sete faixas cuidadosamente polidas pela voz firme da cantora, pela primeira vez, livre de possíveis comparações ao trabalho da irmã mais velha, a cantora Beyoncé, e dona de uma verdadeira coleção de músicas essencialmente pegajosas como Losing You e Lovers on Parking Lot. Quatro anos após o lançamento do elogiado registro, Knowles está de volta não apenas com um novo álbum de inéditas, mas com uma extensão aprimorada do mesmo material anteriormente testado em estúdio. Pouco mais de 20 canções — parte expressiva composta por vinhetas e interlúdios atrelados ao núcleo central da obra —, ponto de partida para o político A Seat at The Table (Saint / Columbia), uma fuga declarada do som comercial anteriormente explorado nos iniciais Solo Star, de 2003, e Sol-Angel and the Hadley St. Dreams, lançado em 2008. [Resenha]

_

#08. Kanye West
The Life of Pablo (Def Jam / G.O.O.D. Music)

The Life of Pablo (Def Jam / G.O.O.D. Music) é uma obra imperfeita. A melodia suja que escapa dos sintetizadores de Feedback, um descompassado toque de celular ao fundo de 30 Hours, o falso canto gospel que “amarra” as canções, ou mesmo a indecisão de Kanye West na escolha do título e faixas que seriam apresentadas na edição final do disco. Elementos que sintetizam a permanente sensação de descontrole que acompanha o ouvinte durante os mais de 50 minutos do trabalho. Um cenário essencialmente instável, passagem torta para um dos registros mais confuso e ao mesmo tempo brilhantes de toda a curta discografia do rapper norte-americano. Imerso em uma egotrip que ultrapassa a autoafirmação expressa no antecessor YEEZUS(2013) – obra em que o próprio rapper se compara a Deus -, West discute a própria divindade (Ultralight Beam), exalta novas conquistas (Highlights) e até brinca com o egocentrismo do álbum na cômica (ou profundamente realista) I Love Kanye – “E se Kanye fizesse um som sobre Kanye?”. [Resenha]

_

#07. ANOHNI
HOPELESSNESS (Secretly Canadian / Rough Trade)

ANOHNI, anteriormente conhecida como Antony Hegarty, sempre manteve um forte interesse pela música eletrônica. Ainda que a cantora e compositora norte-americana tenha passado a última década mergulhada em elementos do folk e chamber pop, sobrevive na sequência de faixas assinadas de forma colaborativa o real fascínio da musicista pelo gênero. Experimentos como o som dançante de Blind, clássico em parceria com o grupo nova-iorquino Hercules and Love Affair, e até canções “menores”, como Tears for Animals, ao lado da dupla Cocorosie, além da série de faixas divididas com a islandesa Björk – vide Dull Flame Of Desire e Atom DanceEm Hopelessness (Secretly Canadian / Rough Trade), primeiro trabalho sob o título de ANOHNI, é onde essa relação com os temas eletrônicos se intensifica e cresce. Primeiro registro de inéditas desde o delicado Swanlights, de 2010, o novo álbum altera não apenas a paisagem sonora que cerca a musicista, mas a própria figura da ANOHNI, violenta e fortemente influenciada por temas políticos a cada novo movimento do trabalho. Uma versão angustiada da mesma personagem que subiu ao palco para gravar o disco ao vivo Cut the World, em 2012.

[Resenha]

_

#06. David Bowie
★ (RCA / Columbia)

A negativa sequência de versos espalhada nos instantes iniciais de Blackstar apontam a direção do 25º álbum de estúdio de David Bowie. Em ★ (RCA / Columbia), segundo registro de inéditas do cantor e compositor britânico desde o regresso com The Next Day, de 2013, um catálogo de temas sombrios, pessimistas e essencialmente cotidianos se agrupam de forma a sufocar o ouvinte. Um misto de reverência e reinvento que passeia por elementos da discografia do cantor, mas que em nenhum momento ecoa como uma gasta reciclagem de ideias. Imerso em uma solução de temas “jazzísticos” e experimentos anteriormente testados em obras como Station to Station (1976) e Heathen (2002), ★ mostra um artista que conseguiu alcançar a maturidade, porém, continua em busca de novas ferramentas, ritmos e possibilidades a serem exploradas em estúdio. Da sonoridade flexível e detalhista de ‘Tis a Pity She Was a Whore aos entalhes eletrônicos de I Can’t Give Everything Away, poucas vezes o título de “camaleão do rock” de Bowie pareceu tão coeso. [Resenha]

_

#05. Bon Iver
22, A Million (Jagjaguwar)

A ambientação eletrônica aprimorada por Justin Vernon em Beth/Rest, faixa de encerramento do segundo álbum de estúdio do Bon Iver, lançado em 2011, está longe de parecer um exercício isolado dentro da curta discografia do músico de Wisconsin. Em 22, A Million (Jagjaguwar), terceiro registro de inéditas do cantor e compositor norte-americano, cada composição presente no interior do disco se revela como uma detalhada continuação do mesmo arsenal de temas minimalistas, colagens e experimentos sintéticos originalmente testados pelo músico desde o EP Blood Bank, de 2009. Produzido em um intervalo de quase quatro anos, o sucessor do elogiado disco de 2011, casa de músicas como Holocene e Calgary, mostra a fuga de Vernon de uma possível zona de conforto. No interior de cada composição, um imenso quebra-cabeça de referências, vozes maquiadas pelo uso de auto-tune, sintetizadores, melodias entristecidas, ruídos e samples que vão de um clássico vídeo de Stevie Nicks no Youtube, em 10 d E A T h b R E a s T, ao uso detalhado de pequenos retalhos instrumentais. [Resenha]

_

#04. Radiohead
A Moon Shaped Pool (XL)

Originalmente apresentada em 1995, durante a turnê de lançamento do álbum The Bends e, posteriormente, registrada como parte da coletânea ao vivo I Might Be Wrong: Live Recordings (2001), a derradeira True Love Waits nasce como o símbolo do novo registro de estúdio do Radiohead. Sucessor do eletrônico The King of Limbs (2011), A Moon Shaped Pool (XL) chega ao público como uma obra segura, essencialmente precisa. Um regresso (in)voluntário ao imenso acervo de composições e temas instrumentais produzidos pelo quinteto inglês nas últimas duas décadas. Das 11 faixas que recheiam o disco, pelo menos seis foram executadas em apresentações ao vivo ou exploradas em diferentes fases e projetos do grupo inglês. Escolhida para a abertura do disco, Burn The Witch, por exemplo, teve fragmentos da própria letra publicados na contracapa do álbum Hail To The Thief, de 2003. A mesma canção ainda foi objeto de discussão entre os integrantes durante as sessões de Kid A(2001) e In Rainbows (2007), sendo finalizada há poucos meses. Mesmo ancorado no passado, A Moon Shaped Pool está longe de parecer uma preguiçosa reciclagem de conceitos antigos. Prova disso está na busca do quinteto por uma som remodelado, orquestral, estímulo para a série de colaborações com os músicos da London Contemporary Orchestra. [Resenha]

_

#03. Beyoncé
Lemonade (Parkwood / Columbia)

Coreografias transformadas em atos de enfrentamento à violência policial, símbolos e fotografias reforçando a luta da comunidade negra, o cabelo crespo em oposição ao alisamento, New Orleans embaixo d’água. Em fevereiro deste ano, quando apresentou ao público o clipe de Formation, Beyoncé parecia revelar apenas a ponta do imenso iceberg de referências do novo registro de inéditas. Em Lemonade (Parkwood / Columbia), sexto álbum de estúdio da cantora e compositora norte-americana, um mundo de detalhes, citações, personagens e histórias que dialogam diretamente com o passado e a cultura negra dos Estados Unidos. Do título inspirado em uma fala da avó de Jay-Z – “eles me serviram limões, mas eu fiz uma limonada” –, passando pelo clássico discurso de Malcolm X – “quem te ensinou a se odiar?” – e versos assinados pela poetisa queniana Warsan ShireLemonade se projeta como uma obra a ser desvendada de forma atenta. Seja na estrutura musical que orienta o disco – repleta de bases extraídas de clássicos do soul, blues Hip-Hop e R&B –, até alcançar o registro visual que sustenta o trabalho – uma parceria entre a cantora e diretores como Jonas Åkerlund, Mark Romanek e Melina Matsoukas -, uma rica tapeçaria conceitual se desenrola da abertura do disco, com Pray You Catch Me, ao fechamento em Formation. [Resenha]

_

#02. Frank Ocean
Blonde (Boys Don’t Cry)

Quatro anos após o lançamento do bem-sucedido Channel Orange – obra que rendeu ao artista um Grammy no ano de 2013 –, Ocean está de volta não apenas com um novo álbum de estúdio, mas com uma verdadeira “experiência” a ser compartilhada com o público. Além de Blonde, trabalho que conta com 17 faixas inéditas e distribuição em duas versões em diferentes, o cantor ainda entrega o “álbum visual”Endless, uma coletânea de sobras, versões e faixas produzidas por outros artistas. No mesmo pacote, a inusitada apresentação de uma revista intitulada Boys Don’t Cry. Uma espécie de “complemento” ao restante do material produzido em estúdio. Junto de Ocean, um time imenso de colaboradores. Jamie XX e Rostam Batmanglij assumem a produção da delicada Ivy. Kendrick Lamar surge discretamente em Skyline To, música que conta com a produção do velho parceiro de Odd Future, Tyler, The Creator. Beyoncé passeia ao fundo de Pink + White, canção produzida por Pharrell Williams. Em White Ferrari e Seigfried, fragmentos de músicas originalmente compostas por Elliott Smith e The Beatles, e que acabam se encontrando dentro do ambiente montado pelo britânico James Blake. Pequenas brechas que servem de passagem para nomes como Arca, Jonny Greenwood, Jazmine Sullivan, Sampha e André 3000. [Resenha]

 

_

#01. Blood Orange
Freetown Sound (Domino)

Inspirado pela série de acontecimentos que levaram à morte trágica da norte-americana Sandra Bland dentro de uma prisão, em outubro de 2015, Dev Hynes deu vida a uma de suas composições mais tocantes: Sandra’s Smile. “Fechamos os olhos por um tempo / mas eu ainda vejo o sorriso de Sandra”, canta o músico britânico enquanto detalha uma sequência de versos que dialogam com a temática do racismo, os abusos cometidos pela polícia estadunidense e a opressão sofrida pela população negra nos Estados Unidos. Um suspiro melancólico, talvez isolado na época em que foi lançado, mas que acaba servindo de base para o terceiro álbum de estúdio do Blood Orange, Freetown Sound (Domino). Sucessor do elogiado Cupid Deluxe (2013), trabalho em que Hynes explora o cotidiano de diferentes marginalizados da cidade de Nova York – como desabrigados e membros da comunidade LGBT –, com o presente álbum, o cantor, compositor e produtor inglês amplia ainda mais o campo de alcance da própria obra. São músicas que analisam diferentes aspectos da comunidade negra, dialogam com referências da cultura africana, resgatam conceitos do R&B dos anos 1980/1990, além de estreitar a relação com o universo feminino, efeito da ativa interferência de um time de mulheres durante a construção do álbum.

Longe de parecer o protagonista do disco, Hynes atua apenas como um condutor para que um grupo de vozes e compositoras femininas se encontrem no interior do trabalho. Responsável por uma série de canções produzidas para nomes como Solange (Losing You), Sky Ferreira (Everything Is Embarrassing) e, mais recentemente, Carly Rae Jepsen (All That), Hynes faz do presente disco um ponto de encontro para diferentes vozes, ampliando o conceito anteriormente testado em em Cupid Deluxe, trabalho em que firmou uma série de parcerias com Caroline Polachek (Chairlift) e Samantha Urbani (ex-Friends). [Resenha]

_

[50 – 41] [40 – 31] [30 – 21] [20 – 11]

Veja também:

Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

8 thoughts on “Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2016 [10-01]

  1. Olá, muito boa a seleção. Só preciso registrar, como alguém que estuda e pesquisa relações de gênero, que Hopelessness não é um novo trabalho “sob o título de Anohni”. Anohni não é título, é seu nome agora, depois da transição de gênero que ela fez. Aliás, em respeito a ela, “Antony Hegarty” nem deveria aparecer na resenha, abrindo o texto, como se ela ainda se chamasse assim. No máximo, se fosse para constar e se necessário, aí sim dizer “na época em que Anohni ainda lançava seus álbuns com o nome de Antony Hegarty”. Enfim, sei que não há má intenção no gesto, quis tão somente alertar para esse fato delicado que é tratar da transição de pessoas trans. E sim, concordo que esse álbum devia mesmo tá aí na lista top 10! 😉

  2. Justo o top 10 e com certeza o novo álbum da blood orange tem que estar em primeiro, é icônico, justíssimo, só não entendi porque The Growlers – City Club não entrou nesta lista, álbum sensacional, está marcando o auge deles, além da produção de Julian Casablanca e e a gravadora foda que eles estão, Cult Records.

  3. Oi, Jamil.

    Bem pertinente o seu comentário. Acabei de fazer algumas alterações no texto da resenha de forma a reforçar os seus apontamentos. Na época da divulgação do disco não havia ficado claro se ANOHNI seria apenas um título do projeto ou o nome adotado por ela, coisa que veio a ser esclarecida em entrevistas posteriores da artista. Muito obrigado 🙂

  4. Oi Cléber!
    Que bom, fico super contente de ver esses gestos, de revisão mais do que de texto, dos nossos posicionamentos mesmo! Sou muito fã da Anohni, e por isso resolvi alertar. Sou fã também do Miojo Indie, sempre te acompanho aqui e fico feliz de atitudes assim!!!! Abraço e que tenhamos mais música boa em 2017!

  5. Top 20 perfeito! Minha ordem seria diferente e alguns desses albuns eu não gostei tanto. Mas esses 20 são albuns fundamentais esse ano. Apesar de que meus outros 30 seriam bem diferentes… Feliz por ver Varmints na lista!

  6. Meu bom jesus, Blood Orange?! Blood Orange é brega até dizer chega, cruzes!

  7. Surpreendentemente, tenho nada menos que 12 dos 50 discos da lista. Alguns ouvi bastante em 2016 – DIIV, Cymbals Eat Guitars, White Lung e Anderson Paak -, outros estou descobrindo melhor agora – Kaitlyn Aurelia Smith, Nick Cave, Anohni e Bowie.

    Parquet Courts ainda não escutei com atenção, achei Whitney ruim bagarai e Wadada Leo Smith também aguarda sua vez. Vi o Car Seat Headrest em Chicago e a postura “tô nem ai/amo os anos 90” deles até hoje me impede de por o Teens of Denial pra rodar.

    De resto, acho Frank Ocean e Blood Orange de uma chatice exuberante, não entendo o porque das pessoas levarem Beyonce a sério e me nego a escutar Kanye depois do Dark Twisted Nightmare por que sei que vem decepção.

    Poliça. Minor Victories, Nothing, serpentwithfeet, Guerrilla Toss, Moonface and Siinai e principalmente Moor Mother entrariam na minha lista particular.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *