Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2016 [20-11]

Categories Listas, Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2015

[20 – 11]

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#20. Leonard Cohen
You Want It Darker (Columbia)

A voz talhada pelo tempo, arranjos e batidas sempre contidas, por vezes minimalistas, reforçando a atmosfera soturna e o tom confessional que sustenta de cada fragmento poético. Em You Want It Darker (Columbia), 14º álbum de estúdio do cantor e compositor canadense Leonard Cohen, referências religiosas, a relação com a morte, medos e reflexões existencialistas se espalham ao fundo do trabalho, resultando em um novo e bem-sucedido capítulo dentro da extensa discografia do veterano. “Estou pronto para morrer. Espero que não seja desconfortável”, disse Cohen em um recente artigo escrito pelo jornalista David Remnick para a revista The New Yorker. Em You Want It Darker, o diálogo com a morte se estende do primeiro ao último instante da obra. São versos maquiados pelo uso de metáforas e referências particulares, mas que acabam funcionando como um aceno melancólico, referência explícita na dolorosa Traveling Light – “Boa noite, minha estrela cadente / Outrora tão brilhante, minha estrela cadente”. [Resenha]

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#19. James Blake
The Colour In Anything (1-800 Dinosaur / Polydor)

Livre dos experimentos e da eletrônica torta explorada no primeiro registro de estúdio, em 2013, com o lançamento de Overgrown, James Blake abraçou de vez a relação com o soul/R&B. Do canto melancólico que cresce em músicas como Retrograde e Life Round Here ao uso delicado das batidas e vozes, cada faixa do segundo álbum de inéditas do cantor e produtor britânico confirma a busca por um som descomplicado, acessível aos mais variados públicos, preferência que se reforça com o terceiro e mais recente trabalho do produtor, o extenso The Colour in Anything (1-800 Dinosaur / Polydor). Produzido em um intervalo de dois anos, entre 2014 e 2016, o registro de 17 faixas e quase 80 minutos de duração chega até o público como o trabalho mais sensível, maduro e intimista de Blake. A cada curva do trabalho, um novo lamento solitário. Versos que mergulham em conflitos sentimentais (Love Me in Whatever Way), declarações de amor (Always) e tormentos (My Willing Heart) que confirmam a versatilidade do jovem artista -– possivelmente o maior soulman britânico da presente década. [Resenha]

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#18. The Avalanches
Wildflower (Modular / Astralwerks)

Desde que deixei você / Eu encontrei um mundo novo”. Mais do que um inflamado grito de libertação, o verso central de Since I Left You, faixa-título do primeiro álbum de estúdio do The Avalanches, parece indicar o longo período de experimentação e novas sonoridades que viriam a ser exploradas pelo coletivo australiano. Em um longo intervalo que durou 16 anos, os parceiros Robbie Chater, James Dela Cruz e Tony Di Blasi se concentraram na busca por fragmentos esquecidos dos anos 1960, 1970 e 1980, presentearam o público com um delicado acervo de mixtapes e retornam agora com o colorido Wildflower (Modular / Astralwerks), uma obra tão ampla e significativa quanto o trabalho apresentado no começo de 2000. Tal qual o registro que o antecede, o novo álbum – uma seleção com 21 faixas e mais de 60 minutos de duração –, se revela como uma criativa colcha de retalhos, vozes e experimentos. São fragmentos que atravessam a década de 1960 – caso de Come Together dos Beatles, em The Noisy Eater –, exploram o som colorido dos anos 1980 – vide Subways da cantora Chandra –, além de um bem servido catálogo de rimas, trechos de filmes, vozes e ruídos que se espalham da abertura do disco, em Because I’m Me, à derradeira Saturday Night Inside Out. A própria capa do álbum  sintetiza as inspirações do grupo, uma reinterpretação do clássico There’s a Riot Goin’ On (1971) do grupo Sly & the Family Stone.

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#17. Danny Brown
Atrocity Exhibition (Warp)

É difícil escapar das canções de Atrocity Exhibition (2016, Warp). Do momento em que tem início até a última rima em Hell for It, faixa de encerramento do disco, Danny Brown e um time de produtores, músicos e compositores se desdobra na construção de um trabalho essencialmente dinâmico, intenso, marcado pelo peso das rimas e uso atento de samples. Uma versão menos eufórica e naturalmente segura do mesmo material apresentado há três anos, durante o lançamento do duplo Old (2013). Inspirado em diferentes obras produzidas por veteranos do Pós-Punk, como Talking Heads, Sonic Youth e, principalmente, Joy Division — o próprio título do trabalho vem da faixa de abertura do segundo álbum em estúdio da banda inglesa, Closer (1980) —, Atrocity Exhibition talvez seja o registro em que o rapper de Detroit mais se aproxima do grande público. Um verdadeiro jogo entre as rimas de Brown e a produção polida do britânico Paul White, parceiro do rapper durante toda a construção da obra. [Resenha]

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#16. Mitski
Puberty 2 (Dead Oceans)

Em um intervalo de apenas três anos, Mitski Miyawaki deu vida a três registros completamente distintos. O inaugural Lush, em 2012, Retired from Sad. New Career in Business, de 2013 e Bury Me At Makeout Creek, entregue ao público em 2014. Uma coleção de faixas repletas de temas confessionais, discussões sobre a vida sentimental da cantora e tormentos existencialistas que se revelam de forma ainda mais complexa com a chegada de Puberty 2 (Dead Oceans), quarto e mais recente álbum de inéditas da cantora. Trabalho mais complexo de toda a discografia de Mitski, o registro de 11 faixas e pouco mais de 30 minutos de duração nasce como uma extensão madura do som desenvolvido em Bury Me at Makeout Creek. Guitarras que flertam com a produção ruidosa de diferentes álbuns produzidos no começo da década de 1990 – como Dry (1992) e Rid of Me (1993) da britânica PJ Harvey –, mas que a todo momento incorporam pequenos experimentos e colagens eletrônicas que afastam a artista de uma possível zona de conforto. [Resenha]

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#15. A Tribe Called Quest
We Got It from Here… Thank You 4 Your Service (Epic / SME)

Em um intervalo de apenas três anos, os integrantes do coletivo A Tribe Called Quest mudaram para sempre a história do Hip-Hop norte-americano. Nas batidas e rimas de Q-Tip, Ali Shaheed Muhammad, Phife Dawg e Jarobi White, obras fundamentais como People’s Instinctive Travels and the Paths of Rhythm (1990), The Low End Theory(1991) e Midnight Marauders (1993). Ponto de partida para uma nova fase do gênero e o estímulo criativo para toda uma sequência de produtores e obras pelas próximas duas décadas. De gigantes da indústria, como The Black Eyed Peas e Kanye West, passando por nomes como Nas, DJ Shadow e Kendrick Lamar, difícil não encontrar alguém que não tenha se inspirado no som produzido pelo quarteto nova-iorquino. Tamanha influência e fascínio do público acabou servindo de estímulo para um retorno do grupo aos palcos depois de um hiato de oito anos, além, claro, da construção do recém-lançado We Got It from Here… Thank You 4 Your Service (Epic / SME). [Resenha]

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#14. Car Seat Headrest
Teens of Denial (Matador)

Guitarras sujas que atravessam a discografia do Guided By Voices e tropeçam na obra do Yo La Tengo. Versos irônicos, tão íntimos de Stephen Malkmus quanto das canções do Belle and Sebastian. O canto melódico The New Pornographers em contraste ao grito seco de Ted Leo and the Pharmacists. Delírios de um registro assinado por diferentes nomes da cena independente norte-americana? Longe disso. Em Teens of Denial (Matador), novo álbum Car Seat Headrest, fragmentos criativos vindos de diferentes décadas e cenários servem como estímulo para a construção de uma obra tão intensa e versátil quanto trabalhos produzidos na década de 1990 e começo dos anos 2000. Entregue ao público poucos meses após o lançamento de Teens of Style (2015), obra que apresentou oficialmente o trabalho do grupo comandado por Will Toledo, o registro de 12 composições extensas mostra a capacidade da banda em brincar com as referências sem necessariamente perder a própria essência musical. Canções que poderiam se encontradas em obras de artistas como Beck (Drunk Drivers / Killer Whales) e Pixies (Just What I Needed / Not Just What I Needed), mas que acabam encantando pela poesia descompromissada e guitarras sempre vivas de Toledo. [Resenha]

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#13. Angel Olsen
My Woman (Jagjaguwar)

Versos sufocados de forma explícita pelo sentimentos – “Eu vou me apaixonar por você um dia desses / Eu vou me apaixonar e fugir”; sintetizadores e ambientações eletrônicas, sempre contidas, como um reforço para a delicada construção dos vocais. Com o lançamento de Intern, em junho deste ano, Angel Olsen não apenas conseguiu se distanciar das canções produzidas para o elogiado Burn Your Fire for No Witness, de 2014, como parecia indicar a busca por um novo catálogo de sonoridades, conceitos e temas confessionais. Em My Woman (Jagjaguwar), terceiro registro em estúdio da cantora, pela primeira vez desde o inaugural Half Way Home, de 2012, Olsen deixa de se apresentar ao público como a figura central do trabalho, interpretando diferentes personagens e histórias entristecidas ao longo da obra. Uma mudança que se faz evidente tanto na sonoridade que rege o disco, costurada por temas eletrônicos e guitarras firmes, como na imagem adotada pela artista para os vídeos de Intern e Shut Up an Kiss Me. [Resenha]

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#12. Nicolas Jaar
Sirens (Other People)

Os últimos cinco anos foram bastante produtivos para Nicolas Jaar. Entre remixes produzidos para nomes como Grizzly Bear (Sleeping Ute) e Florence and The Machine (What Kind of Man), o produtor nova-iorquino ainda presenteou o público com uma sequência de músicas inéditas – como Fight, parte da série Nymphs –, deu vida à coletânea Don’t Break My Love (2012), trabalho lançado pelo próprio selo, o Sunset & Clown, além de revisitar o clássico filme A Cor da Romã (1969), de Sergei Parajanov, em Pomegranates (2015). Isso sem contar os trabalhos em parceria com Dave Harrington no Darkside – caso do ótimo Psychic, de 2013. Com a chegada de Sirens (Other People), segundo registro de estúdio de Jaar e sucessor do elogiado Space Is Only Noise (2011), uma lenta desconstrução de tudo aquilo que artista vem produzindo na última meia década. Em um intervalo de apenas seis faixas – Killing Time, The Governor, Leaves, No, Three Sides of Nazareth e History Lesson –, Jaar costura fragmentos instrumentais, brinca com a própria essência e ainda prova de novas sonoridades de forma sempre curiosa, experimental. [Resenha]

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#11. Nick Cave & The Bad Seeds
Skeleton Tree (2016, Bad Seed Ltd.)

A dor sempre foi encarada como uma peça fundamental dentro de qualquer trabalho produzido por Nick Cave. Seja no romantismo amargo de Let Love In (1994), ou nos versos sangrentos que escorrem pelas canções de Murder Ballads (1996), basta um ouvido atento para perceber como o músico sempre dialogou de forma explícita com um universo de temas consumidos pela melancolia. Confissões, tormentos, medos e delírios angustiados que assumem um enquadramento ainda mais tocante em Skeleton Tree (Bad Seed Ltd.), 16º registro da parceria com os integrantes do Bad Seeds e um fino retrato da poesia sorumbática que há décadas corrompe a discografia do cantor e compositor australiano. Produzido em um intervalo de dois anos e gravado em diferentes estúdios, o sucessor do elogiado Push the Sky Away (2013) mostra a busca de Cave por som alimentado pelo uso de referências e temas eletrônicos. Sintetizadores, encaixes minimalistas e ruídos abafados, como uma extensão do material originalmente testado por Brian Eno em obras como Before and After Science (1977) e até mesmo por David Bowie no recente Blackstar (2016). Musicalmente, um registro silencioso, porém, turbulento e essencialmente doloroso em cada fragmento de voz. [Resenha]

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[30 – 21] [10 – 01]

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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