Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2017 [10-01]

 

Em um ano marcado pelo retorno de veteranos da cena alternativa — como LCD Soundsystem e Slowdive —, exemplares de peso para a música pop — vide Melodrama de Lorde e Ctrl de SZA —, além de obras icônicas para o Hip-Hop norte-americano — caso de DAMN. de Kendrick Lamar e 4:44 de Jay-Z —, nossa lista com Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2017 busca sintetizar parte desse universo de grandes lançamentos. São trabalhos que passeiam por entre diferentes gêneros, pintando um colorido retrato da produção musical entre os meses de janeiro e dezembro deste ano.

 

#10. Mount Eerie
A Crow Looked at Me (P.W. Elverum & Sun)

A morte é real“, canta Phil Elverum logo nos primeiros segundos de Real Death. Faixa de abertura do oitavo álbum de inéditas como Mount Eerie, A Crow Looked at Me, a canção de versos descritivos e arranjos econômicos sintetiza com naturalidade a crueza e melancolia que orienta a presente fase do músico norte-americano. Um retrato doloroso e honesto sobre a morte. Versos que refletem com naturalidade o período de luto e necessidade de seguir em frente após a morte da artista Geneviève Castrée, parceira de longa data e esposa de Elverum. Produzido entre agosto e dezembro do último ano, poucas semanas após a morte de Geneviève, o trabalho não apenas conta com a utilização de grande parte dos instrumentos da artista – “sua guitarra, baixo, palheta, amplificador e o velho acordeão da família” –, como foi inteiramente composto no quarto onde a musicista passou as últimas semanas de vida, vindo a falecer em decorrência de um câncer no pâncreas. Memórias, versos e fragmentos sentimentais que preservam a identidade de Geneviève durante toda a produção do disco. Leia o texto completo.

 

#09. Vince Staples
Big Fish Theory (ARTium / Blacksmith / Def Jam)

É melhor não se apegar. Dois anos após o lançamento do sombrio Summertime ’06 (2015), trabalho em que reflete sobre a infância problemática e o papel como membro de uma gangue de adolescentes, Vince Staples amplia o próprio território criativo com o lançamento do intenso Big Fish Theory. Um complexo debate sobre a necessidade de amadurecer, provar de diferentes ritmos — Techno, House, Footwork —, e sustentar na flexibilidade das rimas a construção de uma nova identidade musical. Parte dessa necessidade de mudança e frequente transformação vem do próprio conceito explorado pelo rapper ao longo do registro. Ancorado na metafórico falácia de que um peixe só cresce de acordo com o tamanho de aquário em que está inserido, Staples cria um curioso paralelo sobre o próprio universo e as limitações impostas à comunidade negra/marginalizados dos Estados Unidos. Canções que discutem o caos cotidiano (Crabs in a Bucket), a comercialização do Hip-Hop (Yeah Right) e diferentes conflitos internos (Big Fish). Leia o texto completo.

 

#08. Arca
Arca (XL Recordings)

A imprevisibilidade sempre foi a principal marca do trabalho de Alejandro Ghersi. Basta voltar os ouvidos para toda a sequência de obras produzidas pelo venezuelano nos últimos anos. Trabalhos como a sequência formada por Xen (2014) e Mutant (2015), mixtapes aos moldes da experimental &&&&& (2013), e até mesmo registros produzidos para outros artistas, caso da parceria com FKA Twigs em LP1 (2014) e o encontro com Björk no confessional Vulnicura (2015). Rupturas e experimentos que voltam a servir de estímulo para o terceiro e mais recente álbum de inéditas do produtor. Entregue ao público poucos meses após o lançamento da mixtape Entrañas (2016), o autointitulado registro de 13 faixas detalha de forma sensível e dolorosa a voz antes sufocada do artista. Versos e lamentos intimistas, sempre cantados em espanhol, como um convite a provar das mesmas emoções, medos e delírios de Ghersi. Um parcial distanciamento da eletrônica efêmera testada nos dois primeiros discos de estúdio e a passagem para um ambiente deliciosamente acolhedor, como uma continuação do material produzido em parceria com Björk. Leia o texto completo.

 

#07. Tyler, The Creator
Flower Boy (Odd Future / Columbia)

Volte um pouco no tempo. Você conseguiria imaginar que o mesmo responsável pelo som claustrofóbico e denso de Goblin (2011) viria a produzir um material tão acessível, por vezes “colorido”, como nas canções de Flower Boy? Provavelmente não. Quarto álbum de estúdio do rapper, o sucessor do mediano Cherry Bomb (2015) traz de volta a mesma pluralidade de ritmos e coerência inicialmente reforçada em Wolf (2013), servindo de passagem para uma nova (e criativa) fase dentro da ainda curta trajetória do artista californiano. Claramente influenciado pelo trabalho do parceiro Frank Ocean em Blonde / Endless (2016), o rapper transporta para dentro do presente álbum um imenso catálogo de ritmos e fórmulas instrumentais, como se cada composição ao longo do disco fosse montada a partir de diferentes fragmentos sonoros e poéticos. Um bom exemplo disso está na própria colaboração com Ocean, Where This Flower Bloom. Entre versos que falam sobre as próprias conquistas de Tyler – “Eu floresço / Eu brilho” –, um precioso cruzamento entre soul, rap e melodias orquestrais garantem novo detalhamento ao trabalho. Leia o texto completo.

 

#06. SZA
Ctrl (Top Dwag / RCA)

Mesmo responsável por um rico catálogo de músicas, diferentes EPs, mixtapes e composições assinadas em parceria com nomes como Chance the Rapper (Child’s Play), ScHoolboy Q (His & Her Fiend), Kendrick Lamar (Untitled 04 | 08.14.2014) e Isaiah Rashad (West Savannah), foi somente com o lançamento de Consideration, faixa de abertura do oitavo disco de Rihanna, ANTI (2016), que SZA recebeu a devida atenção do público. Um poderoso indicativo da mistura entre Hip-Hip e R&B que movimenta o primeiro álbum de estúdio da artista, o recém-lançado Ctrl. Produto das inquietações e incontáveis parcerias da cantora nos últimos três anos, o registro de 14 faixas e pouco menos de 50 minutos de duração parece brincar com as possibilidades. Um bom exemplo disso está na faixa de abertura do disco, uma triste narrativa que mostra a protagonista do álbum sendo abandonada pelo parceiro em pleno dia dos namorados. Um exercício melancólico, típico de obras do gênero, mas que cresce nas guitarras e melodias psicodélicas que borbulham ao fundo da composição. Leia o texto completo.

 

#05. Perfume Genius
No Shape (Matador)

Com o lançamento de Too Bright, trabalho entregue ao público em setembro de 2014, Mike Hadreas encontrou a passagem para um mundo de novas possibilidades como Perfume Genius. Longe do folk intimista detalhado nos inaugurais Learning (2010) e Put Your Back N 2 It (2012), em parceria com Adrian Utley, um dos integrantes do Portishead, o cantor e compositor norte-americano fez do uso de experimentos eletrônicos um provocativo exercício de transformação, ruptura que se banha em sentimentos e confissões românticas dentro do quarto álbum de estúdio do cantor, No Shape. Sensível, como tudo aquilo que o músico de Seattle vem produzindo nos últimos anos, o trabalho de 13 faixas e produção assumida por Blake Mills (Sky Ferreira, Fiona Apple) mostra Hadreas em sua melhor forma. Entre versos consumidos pela dor, medos, confissões românticas e elementos que dialogam com os conflitos de qualquer casal, o álbum delicadamente convida o ouvinte a visitar o cotidiano do artista e seu colaborador de longa data, Alan Wyffels, parceiro de Hadreas nos palcos e marido há oito anos. Leia o texto completo.

 

#04. Kelela
Take Me Apart (Warp)

Em um intervalo de poucos anos, Kelela Mizanekristos deixou de ser apenas a voz de apoio em diferentes projetos da cena norte-americana, caso de Teengirl Fantasy, Kingdom e Kindness, para se transformar em uma das principais representantes do novo R&B. O resultado dessa profunda transformação ecoa de maneira explícita no curto repertório formado pela mixtape Cut 4 Me, lançada em 2013, e, principalmente, no elogiado Hallucinogen EP (2015), ponto de partida criativo para o primeiro álbum de estúdio da cantora, o confessional (e provocativo) Take Me Apart. Cercada de velhos colaboradores, caso de Bok Bok, Arca e Jack Latham (Jam City), parceiro de longa data e, junto de Ariel Rechtshaid (HAIM, Carly Rae Jepsen), um dos produtores executivos do disco, Kelela encontra no trabalho uma acolhedora zona de conforto. São temas eletrônicos que garantem ao público uma versão remodelada do Jazz/Soul dos anos 1990, conceito que vem sendo explorado pela artista desde o começo da carreira. Um som futurístico, torto e intimista, reflexo da forte influência de Björk e, mais recentemente, da conterrânea Solange. Leia o texto completo.

 

#03. Slowdive
Slowdive (Dead Oceans)

Ruídos, vozes submersas e inúmeras possibilidades dentro de estúdio. Em um intervalo de apenas seis anos, Neil Halstead (voz, guitarra, teclados), Rachel Goswell (voz, guitarra), Nick Chaplin (baixo), Christian Savill (guitarra) e Simon Scott (bateria) fizeram do Slowdive um projeto marcado pelo experimento. Uma criativa colagem de ideias e referências que contribuiu para o nascimento de três grandes trabalhos de estúdio — Just for a Day (1991), Souvlaki (1993) e Pygmalion (1995) —, e que volta a se repetir de forma curiosa dentro do quarto registro de inéditas da banda. Autointitulado, o registro de oito faixas e pouco menos de 50 minutos de duração rompe com o longo período de hiato que silenciou o coletivo britânico. Pouco mais de duas décadas em que o Slowdive abandonou o ambiente restritivo dos primeiros álbuns de inéditas para se transformar em um dos projetos mais influentes da cena inglesa. Uma relevância que cresce significativamente na psicodelia etérea de Slomo, faixa de abertura do disco e um precioso indicativo do material produzido pela banda ao longo da presente obra. Leia o texto completo.

 

#02. Kendrick Lamar
DAMN. (Top Dawg / Aftermath / Interscope)

É fácil perceber a grandeza de To Pimp a Butterfly (2015) quando você tem uma coletânea como Untitled Unmastered (2016) entregue ao público como um simples “registro de sobras”. Clássico imediato, o terceiro álbum de estúdio do rapper Kendrick Lamar continua a reverberar em uma série de obras recentes. Um misto de jazz, soul e Hip-Hop, ponto de partida para a rima política e debates raciais sustentados em músicas como AlrightThese Walls e The Blacker the Berry. Da abertura ao fechamento, um registro de impacto, mas que involuntariamente acaba levantando a questão: para onde vamos agora? A resposta chega como um soco nas canções do quarto e mais recente álbum de estúdio do artista, o intenso DAMN.. Produzido em um intervalo de poucos meses, oposto ao longo período de gestação que deu vida ao material de To Pimp a Butterfly, o presente registro de Lamar traz de volta a mesma flexibilidade dos arranjos, rimas e temas explorados durante a construção dos dois primeiros registros de estúdio do rapper, Section.80 (2011) e Good Kid, M.A.A.D City (2012). Leia o texto completo.

 

#01. Lorde
Melodrama (Lava / Republic)

A produção anêmica de Jack Antonoff, por vezes minimalista e contida em excesso, reforça o que há de mais significativo nas composições de Melodrama (2017, Lava / Republic): a poesia de Lorde. Produzido em um intervalo de quase dois anos, uma raridade quando observamos a pressa na formação de outros registros de mesmo gênero, o sucessor do elogiado Pure Heroine (2013) confirma a maturidade e contínua transformação da cantora e compositora neo-zelandesa. Uma clara evolução que se revela em cada fragmento de voz, batida ou arranjo melancólico que costura o trabalho. “É um registro sobre estar sozinho. As partes boas e as partes ruins, lidando com temas como separação e solidão“, resumiu Lorde em entrevista ao The New York Times. De fato, a dor funciona como uma clara espinha dorsal para o sustento do trabalho. Do momento em que tem início, em Green Light (“Pensei que você sempre estivesse apaixonado / Mas você não está mais apaixonado“), dançante faixa de abertura do disco, até o último sussurro da hedonista Perfect Places (“Toda noite, vivo e morro“), Melodrama mergulha no que há de mais sufocante, tedioso e entristecido no cotidiano da artista. Leia o texto completo.

 

     

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