Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2017 [40-31]

 

Em um ano marcado pelo retorno de veteranos da cena alternativa — como LCD Soundsystem e Slowdive —, exemplares de peso para a música pop — vide Melodrama de Lorde e Ctrl de SZA —, além de obras icônicas para o Hip-Hop norte-americano — caso de DAMN. de Kendrick Lamar e 4:44 de Jay-Z —, nossa lista com Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2017 busca sintetizar parte desse universo de grandes lançamentos. São trabalhos que passeiam por entre diferentes gêneros, pintando um colorido retrato da produção musical entre os meses de janeiro e dezembro deste ano.

 

#40. Laura Marling
Semper Femina (More Alarming Records)

Retirado de um trecho do poema Eneida, obra do poeta romano Virgílio, varium et mutabile semper femina – em português, “a mulher é sempre uma coisa inconstante e mutável” –, o título do novo álbum de Laura Marling, mais do que uma tatuagem da própria artista, indica a força das composições e parte do conceito explorado pela cantora e compositora britânica. Um trabalho marcado pelas emoções, sexualidade, conquistas e medos compartilhados por diferentes mulheres. “Comecei a escrever Sempre Femina como se um homem estivesse escrevendo sobre uma mulher. Então pensei: ‘Não é um homem, sou eu’. Não preciso fingir que sou um homem para justificar a intimidade, a maneira como observo e o que sinto sobre as mulheres”, respondeu em entrevista à Clash. O resultado dessa decisão está na montagem de uma obra “empática”, como sintetiza Marling. Versos que ultrapassam a poesia intimista da cantora para dialogar com o próprio público. Leia o texto completo.

 

#39. Mount Kimbie
Love What Survives (Warp)

Em um curioso processo de desconstrução, Kai Campos e o parceiro Dominic Maker lentamente ultrapassaram os limites da música eletrônica/pós-dubstep para provar de novas sonoridades e experiências dentro de estúdio. Experimentos que tiveram início na ambientação urbana de Crooks & Lovers (2010), cresceram no som torto de Cold Spring Fault Less Youth (2013), mas que acabaram alcançando melhor resultado nas canções do terceiro álbum de inéditas do Mount Kimbie, o recém-lançado Love What Survives. Trabalho mais inovador da dupla britânica, o novo álbum não apenas distancia Campos e Maker de um típico registro de música eletrônica, como transforma o Mount Kimbie em uma espécie de banda completa. As programações eletrônicas, loops, samples e sintetizadores ainda estão espalhados por toda a obra, porém, cobertos por uma fina tapeçaria instrumental. São guitarras sujas, uma bateria sempre presente e outros elementos “orgânicos”, tratamento evidente na sequência formada por Four Years and One Day e Blue Train Lines, encontro enérgico com o conterrâneo inglês King Krule, parceiro desde o álbum anterior. Leia o texto completo.

 

#38. Girlpool
Powerplant (Anti-)

Como é bom perceber o amadurecimento de uma banda mesmo em um curto intervalo de tempo. Pouco menos de dois anos após o lançamento de Before the World Was Big (2015), Cleo Tucker e Harmony Tividad estão de volta com um novo registro de inéditas do Girlpool. Em Powerplant, segundo e mais recente álbum de estúdio da dupla de Los Angeles, Califórnia, todos os elementos testados no primeiro disco são cuidadosamente resgatados e ampliados conceitualmente, reforçando os domínios criativos e a grandeza do projeto. Confessional, como tudo aquilo que a dupla vem desenvolvendo desde o começo da carreira, o trabalho de 12 músicas delicadamente amplia o aspecto intimista dos versos. “Sua boca é como vidro quebrado / É a única coisa que eu estou olhando“, canta na melancólica Your Heart, um retrato sobre os encontros e desencontros de qualquer casal. A mesma angústia na composição das faixas acaba se refletindo durante toda a execução do trabalho, cercando o ouvinte até a derradeira Static Somewhere. Leia o texto completo.

 

#37. Run The Jewels
Run The Jewels 3 (Mass Appeal / RED)

O ritmo frenético imposto em Talk To Me parece ser a chave para entender o som produzido em Run The Jewels 3. Originalmente lançada como parte da coletânea Adult Swim Singles, em outubro do último ano, a composição lentamente aponta a direção seguida pelos parceiros El-P e Killer Mike em grande parte do presente registro. Uma extensão segura da mesma poesia política/ácida aprimorado pela dupla durante a construção do elogiado Run the Jewels 2 (2014). Previsto para janeiro de 2017, porém, lançado de surpresa no último dia 24 de dezembro, véspera de Natal, RTJ3 mostra que a dupla norte-americana continua tão explosiva (e crítica) quanto nos dois primeiros registros de inédita. Ambientado em um cenário político que se despede de Barack Obama, cada faixa do registro se projeta de forma a detalhar diferentes cenas do cotidiano estadunidense, esbarrando com naturalidade em temas como racismo, violência e sexo. Leia o texto completo.

 

#36. Yaeji
Yaeji / EP2 (Godmode)

De origem sul-coreana, porém, residente na cidade de Nova York, Kathy Yaeji Lee passou os últimos meses se aventurando em uma série de composições caseiras. No isolamento em um estúdio montado dentro do próprio quarto, o jovem produtora acabou colidindo uma série de elementos do techno, pop, Hip-Hop e diferentes braços da música eletrônica de forma particular, fazendo do curioso diálogo com as pistas o ponto de partida para uma seleção de faixas marcadas pela constante transformação dos arranjos, batidas e vozes. Prova disso está no curto repertório que sustenta o autointitulado EP de estreia da artista. Sem necessariamente mergulhar em um gênero específico, Yaeji passeia pelo disco brincando com as possibilidades. São pouco menos de 20 minutos em que a produtora sul-coreana vai da repetição hipnótica, por vezes psicodélica de Noonside, um techno-pop ensolarado e leve, ao doce experimento de Full of It, composição dominada pelo delicado uso de sintetizadores e batidas tortas. Leia o texto completo.

 

#35. Ibeyi 
Ash (XL Recordings)

Se você já assistiu a uma apresentação ao vivo das irmãs Lisa-Kaindé e Naomi Diaz, sabe da força do Ibeyi em cima dos palcos. Composições de essência minimalista, sempre econômicas, caso do delicado repertório produzido para o autointitulado primeiro álbum de estúdio da banda franco-cubana, mas que acabam se transformando em meio ao jogo de vozes, respiros breves e toda a atmosfera percussiva que cresce de forma expressiva a cada nova experiência detalhada pela dupla. Interessante perceber nas canções de Ash, segundo registro de inéditas das gêmeas sob o título de Ibeyi, uma clara transposição da mesma grandiosidade que marca as apresentações ao vivo da dupla. Entre batidas e ambientações explosivas, versos marcados pela forte sensibilidade assumem um novo posicionamento criativo, como se das cinzas de RiverGhosts e demais faixas do primeiro disco, o duo arquitetasse a base de um novo ambiente conceitual. Leia o texto completo.

 

#34. Visible Cloaks
Reassemblage (2017, RVNG INTL)

Imagine tudo que foi produzido em termos de experimentação com a música eletrônica na última década. Da chillwave de Neon Indian e Ford & Lopatin ao som torto explorado por Oneohtrix Point Never e Laurel Halo. Da vaporwave de 2 8 1 4, Macintosh Plus e Blank Banshee ao detalhamento atmosférico que escapa das composições de artistas como Julianna Barwick, Emeralds e Fennesz. Ideias, reciclagens e possibilidades que se agrupam de forma propositadamente instável em Reassemblage, segundo registro de inéditas da dupla Visible Cloaks. Inicialmente pensado como um trabalho solo do produtor Spencer Doran e batizado apenas como Cloaks, o projeto ganhou novos contornos com a chegada do músico e parceiro de estúdio Ryan Carlile. Do encontro, veio o primeiro álbum homônimo como Visible Clocks, um curioso ensaio para as canções que assumem nova formatação dentro do presente registro. Músicas essencialmente curtas, dinâmicas, porém, compostas por camadas de melodias eletrônicas, quebras e ritmos diferentes. Leia o texto completo.

 

#33. Charlotte Gainsbourg
Rest (Because)

O passado ronda de forma quase sufocante o presente de Charlotte Gainsbourg. Filha de um dos personagens mais importantes da música francesa no último século, Serge Gainsbourg (1928-1991), a cantora, compositora e atriz franco-britânica passou grande parte dos últimos anos trabalhando na construção da própria identidade musical. Pinceladas eletroacústicas e visitas à obra do falecido pai que fizeram de cada novo registro de inéditas, caso de 5:55 (2006), obra produzida em parceria com o conterrâneo inglês Nigel Godrich (Radiohead), e IRM (2009), encontro musical com o norte-americano Beck, os primeiros fragmentos de um precioso exercício de maturação criativa. Entregue ao público depois de um longo período de hiato – a artista passou os últimos anos se dedicando ao cinema, trabalhando em filmes como Melancolia (2011) e Ninfomaníaca (2013) –, Rest, quinto álbum de inéditas de Gainsbourg, talvez seja o registro onde todas essas referências instrumentais, possibilidades e vivências se encontram e crescem substancialmente. Trata-se de uma obra marcada de forma expressiva pelo peso da morte – do pai e da meia-irmã, a fotógrafa Kate Barry (1967-2013) –, além de mergulhar em temas como alcoolismo, medos e outros conflitos intimistas da cantora. Leia o texto completo.

 

#32. Broken Social Scene
Hug Thunder (Arts & Crafts)

Ouvir um novo disco do Broken Social Scene é como reencontrar um grande amigo da depois de anos separados: você sabe que a postura e as experiências dele agora são outras, mas a aproximação e a forte relação se dá com naturalidade, em uma única conversa. Uma curiosa sensação de apego, emoção e familiaridade, percepção reforçada durante a execução de Hug of Thunder, quinto e mais recente álbum de estúdio produzido pelo coletivo canadense. Primeiro registro de inéditas da banda em um intervalo de sete anos, o sucessor de Lo-Fi for the Dividing Nights (2010), coletânea de sobras do excelente Forgiveness Rock Record, lançado no mesmo ano, traz de volta a mesma pluralidade de referências e temas instrumentais explorados pelo grupo desde o primeiro disco da carreira, Feel Good Lost (2001). Uma criativa colcha de retalhos que concentra as experiências individuais e propostas de cada integrante do projeto. Leia o texto completo.

 

#31. Gas
Narkopop (Kompakt)

Cinco anos de ativa produção, depois silêncio. Mais conhecido pelo trabalho como fundador do selo germânico Kompakt — casa de Gui Boratto, The Field e The Orb —, Wolfgang Voigt assumiu uma posição de merecido destaque na segunda metade dos anos 1990, quando deu vida a uma série de experimentações atmosféricas e obras lançadas sob o título de Gas. Entretanto, passado o lançamento da obra-prima Pop no começo dos anos 2000, o produtor decidiu se concentrar na construção de outros projetos, silenciando o trabalho em carreira solo por mais de 15 anos. Com o lançamento e boa repercussão em torno da coletânea Box (2016), trabalho apresentado ao público em dezembro do último ano, Voigt decidiu não apenas reativar o Gas, como apresenta ao público o inédito Narkopop, primeiro registro de inéditas em 17 anos. São dez composições que se espalham em um intervalo de quase 80 minutos de duração. Um espaço aberto ao uso de experimentos eletrônicos, soturnos, como um resgate da dark ambient testada pelo produtor desde o maduro Zauberberg (1997), similaridade reforçada pelo tema florestal que estampa a capa dos dois registros. Leia o texto completo.

 

     


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