Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2019 [10-01]


Do pop de câmara de Weyes Blood ao lirismo confessional de Lana Del Rey, do pop nostálgico de Carly Rae Jepsen e Clairo, ao experimentalismo de FKA Twigs e Holly Herndon, é hora de relembrar alguns dos principais trabalhos lançados no último ano. Nos comentários, compartilhe com a gente: qual é o seu disco favorito de 2019?


#10. Purple Mountains
Purple Mountains (2019, Drag City)

Durante duas décadas, David Berman fez do trabalho como vocalista e principal compositor do Silver Jews a base para uma seleção de obras marcadas pela completa melancolia e descrença do eu lírico. Canções ancoradas em temas intimistas, versos consumidos pela permanente sensação de isolamento e distanciamento entre os indivíduos. Registros importantes, caso de American Water (1998) e Tanglewood Numbers (2005), que fizeram do grupo norte-americano um dos mais influentes e expressivos do período, vide a herança explícita em projetos recentes de artistas como The National e Parquet Courts. Com o fim das atividades da banda, em 2009, Berman decidiu se distanciar dos palcos e investir na carreira literária que vinha explorando de forma esporádica desde a segunda metade dos anos 1990. Entretanto, com um extenso catálogo de poemas em mãos, além, claro, de colaborar em obras recentes, como Wildflower (2016), álbum que marcou a volta do coletivo australiano The Avalanches, o músico norte-americano decidiu investir em um novo projeto musical, o Purple Mountains. Leia o texto completo.

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#9. Helado Negro
This Is How You Smile (2019, RVNG Intl.)

Quem há tempos acompanha o trabalho de Roberto Carlos Lange como Helado Negro sabe que o músico norte-americano encontrou na fragmentação da própria identidade a base para um rica seleção de obras. Do experimentalismo que embala as canções do inaugural Awe Owe (2009), passando pelo uso de referências eletrônicas, em Invisible Life (2013), ao refinamento melódico de Private Energy (2016), cada novo registro entregue pelo artista de Miami, Flórida encanta pela completa imprevisibilidade dos elementos e fórmulas instrumentais. Interessante perceber nas canções de This Is How You Smile (2019, RVNG Intl.), sexto e mais recente álbum de estúdio de Helado Negro, um propositado distanciamento desse mesmo universo criativo. Trabalho mais acessível já produzido pelo músico norte-americano, o registro encontra na leveza dos arranjos, melodias e vozes a passagem para um ambiente de emanações acolhedoras, como se Lange dosasse o próprio delírio, confortando o ouvinte a cada nova composição. Leia o texto completo.

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#8. Vampire Weekend
Father of the Bride (2019, Spring Snow / Columbia)

Relacionamentos conturbados, o peso da passagem do tempo, religiosidade e pequenas cenas do cotidiano de Nova York. Em Father of the Bride (2019, Spring Snow / Columbia), primeiro álbum de estúdio do Vampire Weekend desde o maduro Modern Vampires of The City (2013), cada verso lançado pelo vocalista Ezra Koenig sintetiza o desejo da banda, agora desfalcada do multi-instrumentista e produtor Rostam Batmanglij, em avançar criativamente, porém, preservando a própria identidade. Um misto de reposicionamento estético e busca por novas abordagens, temas e conceitos, transformação que dialoga diretamente com a presente fase de seus realizadores, agora casados, constituindo famílias e assistindo ao nascimento dos primeiros filhos. “Eu fiz o meu melhor e todo o resto está escondido pelas nuvens / Eu não posso te carregar para sempre, mas eu posso te abraçar agora“, canta logo nos primeiros minutos do disco, em Hold You Now, uma das diversas colaborações com Danielle Haim e uma descritiva cena de casamento que passeia pela noiva à beira do altar, seu amante e as promessas de amores passageiros que surgem e desaparecem ao longo da vida. Um lento desvendar de ideias que se completa pelo coro de vozes extraído de God Yu Tekem Laef Blong Mi, música originalmente composta por Hans Zimmer para a trilha sonora do filme Além da Linha Vermelha (1998), de Terrence Malick. Leia o texto completo.

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#7. Solange
When I Get Home (2019, Columbia)

Não espere obter uma resposta de When I Get Home (2019, Columbia) logo em uma primeira audição. Sequência ao elogiado A Seat at The Table (2016), obra em discute empoderamento feminino e o peso do preconceito racial que sufoca as mulheres negras, o novo álbum traz de volta parte expressiva desse mesmo universo conceitual e temático, porém, dentro de uma estrutura completamente irregular. Fragmentos de vozes, melodias abstratas e composições que tão logo são apresentadas ao público, rapidamente desaparecem, flutuando em uma nuvem de sons e ideias aleatórias que tingem com incerteza a experiência do ouvinte. Parte expressiva desse resultado vem da forma como o próprio álbum foi concebido. Gravado em diferentes estúdios espalhados por Nova Orleães, Houston e Jamaica, o trabalho nasce como uma criativa colcha de retalhos gerados a partir do encontro entre a cantora e diferentes representantes do soul, R&B, jazz e hip-hop. São nomes como Dev Hynes (Blood Orange), Pharrell Williams, Steve Lacy (The Internet), Panda Bear, Tyler the Creator e Sampha que tiveram suas interferências moldadas de acordo com as necessidades de Solange. Um minucioso processo de montagem, ou edição, como a própria musicista explicou ao escritor e curador de arte Antwaun Sargent durante o evento de lançamento do álbum. “A edição é uma parte muito importante do meu processo. É assim que eu posso estender isso a uma expressão do que eu quero alcançar“, respondeu. Leia o texto completo.

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#6. Big Thief
U.F.O.F. / Two Hands (2019, 4AD)

Incansável, Adrianne Lenker parece fazer dos próprios conflitos, romances fracassados e experiências particulares a base para cada novo álbum de estúdio. Em um intervalo de poucos anos, a cantora e compositora norte-americana não apenas deu vida a uma sequência de obras importantes com o Big Thief, caso de Masterpiece (2016) e Capacity (2017), como fez do segundo trabalho em carreira solo, Abyskiss (2018), um delicado esboço para o material entregue no maduro U.F.O.F. (2019). Entretanto, o quem ninguém esperava era que poucos meses após o lançamento do elogiado registro, a guitarrista estadunidense e seus parceiros de banda, Buck Meek (guitarra, voz), Max Oleartchik (baixo) e James Krivchenia (bateria), estivessem de volta com um exercício criativo ainda maior. Em Two Hands (2019, 4AD), quarto e mais recente álbum de estúdio do Big Thief, Lenker e seus parceiros de banda pervertem o minimalismo de U.F.O.F. em prol de uma obra parcialmente grandiosa, forte. Da construção dos arranjos, marcados pelo evidente peso das guitarras, à voz berrada da cantora, claramente consumida pela própria dor, tudo se revela como uma interpretação ruidosa do material entregue há poucos meses. Um turbilhão sentimental e poético que segue de maneira irregular até a faixa de encerramento do disco, Cut My Hair, canção que reflete a capacidade da artista em utilizar da própria melancolia como um componente de imediato diálogo com o ouvinte. “Você quer ficar sozinha / Use sua munição para esvaziar seu braço / Você me pede para deixar você, eu não vou / Não enquanto a faca está na sua garganta“, canta. Leia o texto completo / Leia o texto completo.

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#5. Sharon Van Etten
Remind Me Tomorrow (2019, Jagjaguwar)

Sharon Van Etten sempre encarou o próprio público como confidente. Da estreia, com Because I Was in Love (2009), ao amadurecer sentimental e poético que embala as canções de Are We There (2014), cada fragmento sussurrado ou dolorosamente exposto pela cantora e compositora norte-americana fez da profunda honestidade detalhada nos versos um elemento de forte conexão com o ouvinte. Composições marcadas por decepções amorosas, tormentos pessoais e desilusões, componentes fundamentais para a consolidação de um dos repertórios mais sensíveis da música recente. Primeiro álbum de estúdio da cantora em cinco anos, Remind Me Tomorrow (2019, Jagjaguwar) é um registro inteiramente montado a partir dessas pequenas confissões e retalhos sentimentais. Do momento em que tem início, em I Told You Everything (“Sentada no bar, eu te contei tudo / Você disse: ‘Puta merda, você quase morreu’ / Compartilhando uma bebida, você segurou minha mão“), até alcançar a derradeira Stay (“Não quero te machucar / Não quero fugir de mim mesma / Quer que a sua estrela brilhe“), delicada homenagem à própria filha, são memórias de um passado ainda recente que embalam a poesia contemplativa, sempre precisa, de Etten, como um delicado resgate das experiências e recordações vividas pela artista. Leia o texto completo.

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#4. Angel Olsen
All Mirrors (2019, Jagjaguwar)

Seja no minimalismo de Half Way Home (2012), na transformação explícita em Burn Your Fire for No Witness (2014), ou na poesia confessional de My Woman (2016), Angel Olsen sempre tratou das próprias desilusões e conflitos sentimentais como um estímulo para a composição dos versos. Um exercício de profunda entrega emocional, lamento e dor, estrutura que não apenas alcança sua melhor forma nas canções de All Mirrors (2019, Jagjaguwar), como revela ao público a imagem de uma artista completa, em pleno domínio da própria obra. Da identidade estética à composição dos arranjos, marcados pelo direcionamento orquestral, passando pela dor lancinante que cresce no decorrer da obra, tudo se projeta como um exercício do pleno amadurecimento artístico da cantora. E qual a melhor forma de traduzir tamanha transformação se não na força descomunal da introdutória Lark? Concebida em uma estrutura crescente, a faixa de abertura do disco se espalha em um intervalo de mais de seis minutos de duração, tempo suficiente para que Olsen revele ao público incontáveis orquestrações assinadas em parceria com o compositor Ben Babbitt, além, claro, de apontar a direção sentimental seguida até a derradeira Chance. “Esquecer você é esconder / Ainda há muito a recuperar / Se pudéssemos começar de novo / Fingindo que não nos conhecemos“, canta enquanto reflete sobre memórias de um passado ainda recente, sufocando o ouvinte lentamente. Leia o texto completo.

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#3. FKA Twigs
Magdalene (2019, Young Turks)

Em Magdalene (2019, Young Turks), segundo e mais recente álbum de estúdio de FKA Twigs, a cantora e compositora inglesa não apenas utiliza das próprias experiências sentimentais como estímulo para a composição dos versos, como mergulha nas histórias e vivências de diferentes personagens femininas. Canções guiadas pela forte dualidade dos temas, alternando entre instantes de doce romantismo e o mais profundo sofrimento. Frações poéticas que partem da imagem mítica de Maria Madalena, conceito reforçado logo no título da obra, porém, utilizam desse alicerce religioso/literário como estímulo natural para a entrega de músicas marcadas por inquietações feministas, conceito que tem sido aprimorado pela artista desde o antecessor MELL155X (2015). “Como mulher, sua história costuma estar ligada à narrativa de um homem. Não importa o que você faça ou quão bom seja o seu trabalho, às vezes é como se você tivesse que se apegar a um homem para ser validada“, respondeu em entrevista à i-D. “Então comecei a ler sobre Maria Madalena e como ela era incrível; como ela provavelmente seria a melhor amiga de Jesus, sua confidente. Mas, você sabe, a história dela é escrita fora da Bíblia e ela era ‘uma prostituta’. Encontrei muito poder na história de Madalena; muita dignidade, muita graça, muita inspiração“, completa. É partindo justamente dessa base temática que a artista inglesa orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra. Canções marcadas pelo aspecto visceral dos sentimentos e profunda sobriedade na composição dos versos, como um avanço claro em relação ao material entregue no antecessor LP1 (2014). Leia o texto completo.

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#2. Lana Del Rey
Norman Fucking Rockwell (2019, Polydor / Interscope)

Em um lento processo de transformação, Lana Del Rey foi de uma aposta temporária, em Born to Die (2012), para um dos nomes mais importantes do novo pop norte-americano. Basta observar o evidente salto criativo que embala a produção de registros como Ultraviolence (2014), Honeymoon (2015), e, mais recentemente, Lust for Life (2017). Uma seleção de obras embriagadas pela melancolia dos arranjos e poemas musicados que utilizam de memórias, desilusões e experiências particulares da artista para pintar um cenário decadente dos Estados Unidos. Canções concebidas em uma medida própria de tempo, sem pressa, indicativo de um universo em pleno processo de composição, feito para ser desvendado pelo ouvinte. Em Norman Fucking Rockwell (2019, Polydor / Interscope), sexto e mais recente álbum de estúdio da cantora, é onde todos esses componentes apresentados ao longo da última década se organizam com maior naturalidade. Estão lá os arranjos empoeirados que apontam para o rock dos anos 1970 (Mariners Apartment Complex), típicos do trabalho em Ultraviolence; o flerte com o trip-hop (Doin’ Time), base para o inaugural Born To Die e, principalmente, a essência nostálgica que compõe o trabalho da artista (The Next Best American Record). São fragmentos poéticos e instrumentais que revisitam personagens, histórias e cenários, estrutura que passa pela antiga Hollywood, mergulha na obra de Elvis Presley e encontra no hip-hop da Costa Oeste dos Estados Unidos um precioso elemento de conexão entre ideias e referências conceitualmente distintas. Leia o texto completo.

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#1. Weyes Blood
Titanic Rising (2019, Sub Pop)

Natalie Mering sempre encontrou no passado, mesmo aquele não vivido por ela, um importante componente criativo para o fortalecimento da própria obra. São arranjos empoeirados que apontam de maneira explícita para os anos 1960 e 1970, versos que dialogam com a essência de veteranas como Joni Mitchell, Carole King e The Carpenters e toda uma atmosfera que tinge com nostalgia cada novo movimento da artista como Weyes Blood. “Eu sou uma futurista, mas também sou uma futurista nostálgica. Esses são dois tipos de coisas incompatíveis, mas eu tento fazer com que funcionem juntos“, respondeu em entrevista. É justamente dentro desse cenário ora futurístico, ora embriagado pelo passado que Mering estabelece as canções de Titanic Rising (2019, Sub Pop). Sequência ao elogiado Front Row Seat to Earth (2016), obra também inspirada pela música produzida há mais de cinco décadas, o trabalho que conta com co-produção de Brian D’Addario (The Lemon Twigs) e Jonathan Rado (Foxygen) passeia pelo tempo de forma curiosa, sempre sensível. Orquestrações acústicas e texturas eletrônicas que se entrelaçam de forma provocativa, brincando com a interpretação do ouvinte durante toda sua execução. Leia o texto completo.

        


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