Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2019 [30-21]


Do pop de câmara de Weyes Blood ao lirismo confessional de Lana Del Rey, do pop nostálgico de Carly Rae Jepsen e Clairo, ao experimentalismo de FKA Twigs e Holly Herndon, é hora de relembrar alguns dos principais trabalhos lançados no último ano. Nos comentários, compartilhe com a gente: qual é o seu disco favorito de 2019?


#30. Little Simz
Grey Area
(2019, Age 101)

Mesmo longe de parecer uma novata, vide o material apresentado em A Curious Tale of Trials + Persons (2015) e Stillness in Wonderland (2016), Little Simz sempre pareceu atuar em um universo particular, longe da essência eletrônica que parecia orientar o trabalho de outros articuladores do rap inglês, em sua maioria voltados ao grime/uk garage. Interessante perceber nas canções de Grey Area (2019, Age 101), terceiro e mais recente álbum de estúdio da rapper britânica, um delicado ponto de ruptura criativa. Canções ainda íntimas do lirismo provocativo explícito nos antigos registros da artista, porém, conceitualmente amplas, capazes de dialogar com uma nova parcela do público. Parte dessa transformação vem da escolha da rapper em explorar muito mais as próprias inquietações do que as cenas e acontecimentos que a cercam. São versos centrados no amadurecimento pessoal da artista e outros conflitos típicos da vida adulta, como reforçou em entrevista ao The Line of Best Fit. ‘Essencialmente, é disso que trata o álbum. É uma grande área cinza. Nada é preto e branco. Nada está gravado em pedra. Acho que quanto mais falo com meus amigos e pessoas da minha faixa etária, mais percebo que todos estamos passando por isso“, respondeu, indicando parte da essência lírica que move o disco. Leia o texto completo.

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#29. Charly Bliss
Young Enough
 (2019, Barsuk)

Relacionamentos abusivos, o medo de encarar a vida adulta e a constante sensação de fracasso gerada a partir de um amadurecimento forçado dos indivíduos. Em Young Enough (2019, Barsuk), segundo álbum de estúdio do grupo nova-iorquino Charly Bliss, cada fragmento do trabalho reflete a alma e poesia sensível de Eva Hendricks (voz e guitarra). Um olhar melancólico e sempre confessional sobre a vida adulta, mas que em nenhum momento distorce a capacidade da banda, completa pelos músicos Sam Hendricks (bateria), Spencer Fox (guitarra e voz) e Dan Shure (baixo e voz), em produzir um registro de essência melódica, pop, estrutura que vem sendo aprimorada desde a bem-sucedida estreia do quarteto com Guppy (2017). Menos urgente em relação ao registro que o antecede, o trabalho que conta com produção do experiente Joe Chiccarelli (U2, The Strokes) encontra no uso complementar dos sintetizadores e melodias descomplicadas a base para uma obra que dialoga de forma imediata com o ouvinte. Parte dessa estrutura vem do evidente desejo do quarteto em revisitar a obra de veteranos da New Wave, como The Cars, além, claro, de incorporar uma série de elementos originalmente testados por Carly Rae Jepsen, em Emotion (2015), uma das principais referências criativas para o presente álbum. Leia o texto completo.

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#28. Billie Eilish
When We All Fall Asleep, Where Do We Go? (2019, Darkroom / Interscope)

Quando todos adormecemos, para onde vamos? A pergunta levantada por Billie Eilish no título do primeiro álbum de estúdio da carreira diz muito sobre o caminho incerto percorrido pela cantora durante toda a execução da obra. Entre versos existencialistas, instantes de profunda contemplação e relacionamentos fracassados, cada composição do disco reflete a sensibilidade da artista norte-americana de apenas 17 anos. Inspirado pela temática dos terrores noturnos, sonhos lúcidos e toda a atmosfera soturna estimulada pela paralisia do sono, o trabalho que conta com produção do próprio irmão, o músico Finneas O’Connell, se espalha em meio a batidas minimalistas, ruídos e captações caseiras, estrutura que naturalmente contribui para o conceito perturbador da obra. O resultado desse forte comprometimento estético e profunda entrega sentimental está na entrega de músicas como You Should See Me in a Crown, When the Party’s Over, Bury a Friend e, principalmente, Bad Guy, composição responsável por transportar o trabalho de Eilish para o topo das principais paradas de sucesso.

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#27. Floating Points
Crush (2019, Ninja Tune)

A lenta desconstrução da introdutória Falaise, faixa de abertura de Crush (2019, Ninja Tune), funciona como um indicativo claro do som produzido por Sam Shepherd para o segundo e mais recente álbum de estúdio do Floating Points. São camadas instrumentais tratadas de forma irregular, como se o produtor britânico brincasse com a constante perversão das melodias e temas eletrônicos. Frações conceituais que vão da música erudita ao experimentalismo cósmico da década de 1970, proposta que faz do presente álbum uma fina continuação do material entregue pelo artista há quatro anos, durante o lançamento do também curioso Elaenia (2015). A principal diferença em relação ao material entregue no disco anterior está na forma como Shepherd alterna entre instantes de maior euforia e músicas puramente contemplativas. Vem justamente desse primeiro grupo a crescente LesAlpx. São pouco menos de cinco minutos em que o produtor britânico vai da criativa desconstrução das batidas e temas eletrônicos, como um diálogo com a obra de Aphex Twin, à minúcia na inserção de melodias atmosféricas e texturas sempre detalhistas, estrutura que naturalmente aponta para a obra de conterrâneos como Four Tet. Leia o texto completo.

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#26. Clairo
Immunity (2019, Fader Label)

Em um intervalo de poucos anos, Claire Cottrill foi de apenas mais uma personagem curiosa da internet, com suas produções caseiras e estética Tumblr, para um dos nomes mais interessantes do novo pop norte-americano. Prova disso está no evidente salto criativo que marca as primeiras criações da cantora e compositora estadunidense para o material entregue há poucos meses, em Diary 001 (2018). Fragmentos dotados de um evidente frescor, estrutura reforçada pelo minimalismo na formação dos arranjos e propositado distanciamento de fórmulas prontas, base para a delicada construção de músicas como 4Ever e Pretty Girl. É partindo justamente desde mesmo conceito que Cottrill entrega ao público o primeiro álbum de estúdio como Clairo, Immunity (2019, Fader Label). De essência diminuta, o trabalho utiliza da leveza na composição dos arranjos e profunda simplicidade na construção dos versos como um elemento de imediato diálogo com o ouvinte. São poemas entristecidos, instantes de doce melancolia, reflexões típicas de qualquer jovem adulto e momentos de forte intimidade, estrutura que orienta a experiência do ouvinte até a faixa de encerramento do disco, I Wouldn’t Ask You. “Eu não pediria para cuidar de mim / Eu não pediria para ser quem eu amo“, canta enquanto reflete sobre o período em que esteve hospitalizada, aos cuidados do namorado. Leia o texto completo.

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#25. Bill Callahan
Shepherd in a Sheepskin Vest (2019, Drag City)

Bem, faz bastante tempo / Por que você não vem?“. A pergunta lançada por Bill Callahan logo nos primeiros minutos de Shepherd’s Welcome, faixa de abertura de Shepherd in a Sheepskin Vest (2019, Drag City), funciona como um delicado convite a se perder pelas paisagens descritiva, personagens e memórias que vem sendo acumuladas pelo cantor e compositor norte-americano desde o doloroso Dream River (2013). Canções que se articulam em pequenas doses, revelando a minúcia do ex-integrante do Smog em produzir narrativas tocantes, mesmo na economia dos arranjos e versos sempre particulares. Primeiro trabalho de estúdio do músico desde o curioso Have Fun with God (2014), coletânea de versões em dub para o registro lançado um ano antes, o novo álbum conta com 20 músicas e pouco mais de 60 minutos de duração em que Callahan faz de histórias pontuais, mesmo as mais ordinárias, a base para um exercício puramente sensível, capaz de dialogar com todo e qualquer ouvinte. São relacionamentos fracassados, reencontros e instantes de doce desilusão que orientam a experiência do público até o último instante da obra. Leia o texto completo.

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#24. Thom Yorke
ANIMA (2019, XL Recordings)

Quanto mais ouço The King of Limbs (2011), mais percebo nele uma ideia abortada de Thom Yorke e menos uma obra do Radiohead. Do minimalismo na composição dos arranjos, batidas e temas eletrônicos, passando pela subtração de cada integrante que não seja o vocalista da banda, todos os elementos relacionados ao trabalho se revelam ao público como uma extensão clara do material entregue pelo músico britânico meia década antes, durante o lançamento do também econômico The Eraser (2006). Mesmo as canções que acabaram de fora do corte final do disco, como Supercolider e The Butcher, parecem contribuir para a arquitetura sintética originalmente testada pelo cantor. Interessante perceber nas canções de ANIMA (2019, XL Recordings), terceiro e mais recente álbum de estúdio do músico inglês em carreira solo, uma interpretação talvez completa do esboço entregue em The King of Limbs. Do uso detalhista dos sintetizadores, passando pelo tratamento instrumental dado ao uso da voz, sempre trabalhada de forma cíclica e ritmada, poucas vezes antes Yorke pareceu tão minucioso na produção de um registro autoral quanto no presente álbum. Leia o texto completo.

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#23. Jenny Hval
The Practice of Love (2019, Sacred Bones Records)

Poucos artistas têm se dedicado a entender e explorar a alma feminina com tamanho afinco quanto Jenny Hval. Prova disso está em toda a sequência de obras apresentadas pela cantora e compositora norueguesa nos últimos anos. Da libertação sexual que embala os versos em Innocence Is Kinky (2013) e Apocalypse, girl (2015), passando pelo estudo do próprio corpo, vampirismo e menstruação, nos provocativos Viscera (2011) e Blood Bitch (2016), cada novo registro de inéditas entregue pela musicista revela ao público um mundo de novas possibilidades, porém, dentro de uma mesma base temática, proposta que alcança novo resultado nas canções do sétimo e mais recente trabalho de estúdio da artista, The Practice of Love (2019, Sacred Bones Records). Sequência ao atmosférico e ainda recente The Long Sleep EP (2018), registro em que passeia pelo campo dos sonhos de maneira sensível, o novo álbum preserva a essência melódica detalhada por Hval há poucos meses, porém, em uma estrutura ainda mais acessível, efeito direto da tentativa da artista em dialogar com a produção eletrônica dos anos 1990. Declaradamente influenciada pela obra de Kylie Minogue e demais representantes do período, a cantora utiliza dessa “clareza no som” para revelar ao público um disco “leve”, como respondeu em entrevista. Uma fuga do material “denso e profundo” dos antigos trabalhos, mas que em nenhum momento corrompe o lirismo minucioso que há tempos orienta a produção da musicista. Leia o texto completo.

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#22. (Sandy) Alex G
House of Sugar (2019, Domino)

Vozes sobrepostas, camadas de guitarras, arranjos de cordas, ruídos e sintetizadores ocasionais. Em House of Sugar (2019, Domino), oitavo e mais recente álbum de estúdio do cantor e compositor Alexander Giannascoli, o (Sandy) Alex G, cada fragmento do disco se orienta de forma a revelar ao público um universo de pequenos detalhes e inserções minimalistas. São frações instrumentais e poéticas que naturalmente apontam para a obra de veteranos como The Shins, em Oh, Inverted World (2001), e Elliott Smiht, nos clássicos Either/Or (1997) e XO (1998), mas que a todo momento servem de alicerce para a fina identidade criativa do músico norte-americano, maior e mais completo a cada novo registro autoral. Não por acaso, o músico estadunidense fez de Gretel o primeiro single do disco. Síntese do registro, a canção se espalha em meio a samples atmosféricos, guitarras carregadas de efeitos e versos sentimentais, como uma extensão madura de tudo aquilo que o cantor tem produzido desde o amadurecimento artístico em DSU (2014), primeiro trabalho em uma gravadora de médio porte. “Eu não quero voltar / Ninguém vai me tirar dos trilhos / Eu vejo o que eles fazem / Pessoas boas têm algo a perder“, reflete enquanto utiliza de trechos de João e Maria — no original Hänsel und Gretel —, dos irmãos Grimm, como um complemento aos arranjos. Leia o texto completo.

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#21. Carly Rae Jepsen
House of Sugar (2019, Domino)

Mesmo imersa em um universo de obras marcadas pelos excessos, tentativas frustradas da gravadora em emplacar um novo registro de sucesso, artistas, produtores e fórmulas que se repetem de forma tediosa, Carly Rae Jepsen decidiu seguir em uma medida própria de tempo, sem pressa. O resultado desse propositado isolamento criativo e busca declarada por novos parceiros e sonoridades fez com que a cantora e compositora canadense, antes sufocada pelo peso de sua composição mais conhecida, a pegajosa Call Me Maybe, mergulhasse na produção de um dos trabalhos mais influentes e cultuados da presente década, Emotion (2015). Quarto anos após o lançamento do registro que trouxe preciosidades como Run Away with MeWarm Blood e All That, Jepsen se divide entre o evidente desejo de preservar a própria essência criativa e a propositada ruptura estética, estímulo para o material entregue nas canções de Dedicated (201, 604 / School Boy / Interscope). Claramente inspirado pelo pop da década de 1970, o trabalho que utiliza de elementos da música disco, funk e synthpop parte de uma estrutura conceitualmente nostálgica para tingir com novidade cada fragmento poético da artista. Composições que apontam para a obra de veteranos como Donna Summer, ABBA e Bee Gees, porém, dentro de uma linguagem moderna, guiada pelo frescor dos elementos. Leia o texto completo.

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