Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2019 [50-41]


Do pop de câmara de Weyes Blood ao lirismo confessional de Lana Del Rey, do pop nostálgico de Carly Rae Jepsen e Clairo, ao experimentalismo de FKA Twigs e Holly Herndon, é hora de relembrar alguns dos principais trabalhos lançados no último ano. Nos comentários, compartilhe com a gente: qual é o seu disco favorito de 2019?


#50. Faye Webster
Atlanta Millionaires Club (2019, Secretaly Canadian)

Mesmo em um universo de artistas que vem revisitando a música pop dos anos 1960 e 1970, Faye Webster parece utilizar de uma identidade melódica desvendada apenas por ela. Responsável por dois ótimos trabalhos de estúdio, a cantora e compositora original de Atlanta, Geórgia, encontra em Atlanta Millionaires Club (2019, Secretaly Canadian), terceiro e mais recente registro de inéditas da carreira, a passagem para um mundo de novas possibilidades. São melodias e vozes empoeiradas que apontam para a obra de veteranos do cancioneiro norte-americano, porém, flertando a todo momento com o uso de referências, ritmos e fórmulas atuais. Ponto de partida para essa evidente abertura criativa de Webster, Kingston, música entregue ao público em novembro do último ano, parte de guitarras atmosféricas, pianos cuidadosamente encaixados e pequenas variações instrumentais que utilizam de elementos do soul e R&B. Um lento desvendar de ideias e arranjos preciosos que se completam pela poesia intimista da cantora. “No dia em que te conheci eu comecei a sonhar / Agora eu escrevo do que lembro pela manhã … Me diga o que você quer saber / Te dou tudo o que tenho e mais“, confessa. Leia o texto completo.

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#49. Mannequin Pussy
Patience (2019, Epitaph Records)

A urgência talvez seja a principal marca do som produzido pelo Mannequin Pussy. Da aceleração explícita no movimento das guitarras, passando pela voz berrada de Marisa Dabice à curta duração de parte expressiva das faixas, evidente é o esforço do grupo de Filadélfia, Pensilvânia, em produzir um registro de essência dinâmica, feito para ser absorvido em uma rápida audição. Interessante perceber nas canções de Patience (2019, Epitaph Records), terceiro e mais recente álbum de estúdio da banda norte-americana, uma obra que preserva esse direcionamento, porém, se permite inovar, avançando criativamente. Concebido em meio a guitarras rápidas que dialogam com toda a sequência de obras entregues pelo grupo nos últimos anos, como Gypsy Pervert (2014) e Romantic (2016), o trabalho completo pela presença dos músicos Colins Regisford, Kaleen Reading e Athanasios Paul, cresce no evidente esmero explícito na composição dos arranjos e busca declarada do quarteto por um material de essência melódica. Canções que apontam para a rica produção dos anos 1990, vide a forte similaridade com o clássico Exile In Guyville (1993), obra-prima de Liz Phair. Leia o texto completo.

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#48. Florist
Emily Alone (2019, Double Double Whammy)

Pode uma obra parecer tão diminuta e ainda imensa na forma como cada elemento é sutilmente revelado ao público? A resposta para essa pergunta sussurra por entre as brechas e paisagens acústicas que embalam o terceiro e mais recente álbum de estúdio de Emily Sprague como Florist, Emily Alone (2019, Double Double Whammy). Sequência aos delicados The Birds Outside Sang (2016) e If Blue Could Be Happiness (2017), o novo disco preserva a essência melódica dos antigos trabalhos da cantora e compositora norte-americana, porém, encanta pela forma como a multi-instrumentista se livra de possíveis excessos, ressaltando a força dos sentimentos. Como o próprio título do trabalho aponta, esse é o primeiro registro de inéditas da artista sem a presença dos antigos parceiros de banda, Rick Spataro, Jonnie Baker e Felix Walworth. Não por acaso, para a composição do trabalho, Sprague decidiu se isolar em sua casa, na Califórnia, rompendo com a atmosfera urbana de Nova Iorque, onde os dois discos anteriores foram concebidos e gravados. O resultado dessa propositada mudança está na formação de uma obra sensível, intimista e feita para ser desvendada aos poucos. Leia o texto completo.

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#47. Shura
Forevher (2019, Secretly Canadian)

O que fazer quando a pessoa que você ama decide mudar de país? Consumida pela dor da separação e inevitável desejo de seguir em frente após a decisão da namorada em mudar de Londres para Nova Iorque, Alexandra Lilah Denton, a Shura, decidiu transformar as próprias desilusões na base para o segundo álbum de estúdio da carreira. Intitulado Forevher (2019, Secretly Canadian), o trabalho produzido em parceria com Joel Pott (London Grammar, George Ezra) se espalha em meio a fragmentos minimalistas, canções que apontam para o pop empoeirado dos anos 1980 e instantes de profunda entrega sentimental, como um avanço claro em relação ao material entregue no antecessor Nothing’s Real (2016). “Eu vou escrever uma musica para você“, anuncia em That’s Me, Just a Sweet Melody, logo nos primeiros minutos do disco, apontando a trilha intimista que segue até o último verso da derradeira Skyline, Be Mine. São versos confessionais, sempre melancólicos, como uma interpretação ainda mais sensível do material entregue há três anos. “Essa música define o álbum. Claro, a piada é que não é apenas uma música, mas um álbum inteiro sobre minha experiência em estar apaixonada“, respondeu no Twitter. Leia o texto completo.

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#46. Julia Jacklin
Crushing (2019, Polyvinyl / Transgressive / Liberation)

A dualidade explícita logo nos primeiros minutos de Crushing (2019, Polyvinyl / Transgressive / Liberation), segundo e mais recente álbum de estúdio de Julia Jacklin, funciona como um indicativo claro do material que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra. De um lado, a melancolia e lenta composição dos arranjos explícitos na inaugural Body, no outro, a atmosfera ensolarada e riqueza na construção das guitarras, marca da crescente Head Above. Dois extremos de um trabalho que encontra na força dos sentimentos compartilhados pela artista um precioso elemento de aproximação entre as faixas. Concebido em um intervalo de quase dois anos, o trabalho que conta com produção assinada por Burke Reid (Courtney Barnett, The Drones), parte do isolamento, separação e conflitos sentimentais vividos pela própria artista como um estímulo para a composição dos versos. Instantes de doce melancolia, conceito que tem sido aprimorado pela cantora e compositora australiana desde o lançamento do álbum anterior, o também confessional Don’t Let The Kids Win (2016), mas que ganha ainda mais destaque nas canções do presente disco. Leia o texto completo.

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#45. Charli XCX
Charli (2019, Asylum / Atlantic)

Em 2013, quando deu vida ao primeiro álbum de estúdio da carreira, True Romance, Charli XCX parecia simplesmente seguir a trilha de outros representantes recentes da música pop. Do uso de referências e elementos resgatados da década de 1980, logo na inaugural Nuclear Seasons, passando pela força das batidas e sintetizadores, em Stay Away, You (Ha Ha Ha) e Set Me Free (Feel My Pain), havia um claro desejo da cantora e compositora britânica em construir a própria identidade musical, porém, mantendo firme o diálogo criativo com Icona Pop, Sky Ferreira e demais artistas que também tiveram seus primeiros trabalhos lançados no mesmo período. Satisfatório perceber nas canções de Charli (2019, Asylum / Atlantic), terceiro e mais recente álbum de estúdio da artista inglesa, uma completa desconstrução de tudo aquilo que a cantora havia experimentado em início de carreira. Partindo de um lento processo de reposicionamento estético que teve início no colaborativo Vroom Vroom (2016), obra que se abre para a interferência de SOPHIE, A. G. Cook e demais representantes do coletivo PC Music, Charli foi aos poucos transportando o próprio trabalho para um novo território criativo, mudança reforçada durante o lançamento do excelente POP 2 (2017). São ruídos eletrônicos, distorções e vozes metalizadas e pervertem o pop tradicional em prol de um som puramente provocativo, torto. Leia o texto completo.

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#44. CHAI
Punk (2019, Otemoyan / Burger / Heavenly)

Você não precisa ter tido qualquer tipo de contato prévio ou informação complementar para se deixar guiar pelas canções de Punk (2019, Otemoyan / Burger / Heavenly). Segundo e mais recente álbum de estúdio do quarteto japonês CHAI — grupo formado por Mana, Kana, Yuki e Yuna —, o registro de essência caótica encontra na criativa colagem de referências, arranjos e melodias tortas a base para a composição de um trabalho que parece maior a cada audição. Um misto de delírio e evidente refinamento estético quando voltamos os ouvidos para o primeiro disco da banda, o também enérgico Pink (2017). Influenciado de maneira confessa pela obra de grupos como Gorillaz, CHVRCHES e até mesmo pelas brasileiras do Cansei de Ser Sexy, Punk, assim como o registro que o antecede, parece dosar entre a estranheza das formas instrumentais e o uso de faixas minimamente acessíveis. Desse primeiro grupo, surgem músicas como Great Job, um punk empoeirado que parece apontar para a obra de veteranos como X-Ray Spex e demais representantes do pós-punk inglês dos anos 1980. Leia o texto completo.

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#43. Holly Herndon
PROTO (2019, 4AD)

O uso da voz como instrumento está longe de parecer uma novidade no campo dos artes. Das harmonias incorporadas pelo The Beach Boys ainda na década de 1960, vide o clássico Pet Sounds (1966), passando pelo completo experimentalismo de nomes como Mike Patton, em Adult Themes for Voice (1996), ao refinamento melódico de Björk, em Medúlla (2004), não foram poucos os artistas que estabeleceram nesse direcionamento específico um evidente ponto de ruptura e transformação estética. Entretanto, mesmo dentro desse território há muito explorado, curioso perceber em PROTO (2019, 4AD), novo álbum de Holly Herndon, um fino toque de renovação. De essência experimental, como tudo aquilo que a cantora e compositora norte-americana vem produzindo desde o início da carreira, o trabalho concebido com o auxílio de uma inteligência artificial utiliza da voz como o princípio de um criativo processo de transformação estética. Concebido em parceria com Mat Dryhurst, Spawn, como foi batizada a IA, interpreta e emula de forma particular uma série de exercícios vocais assinados em parceria com integrantes vindos de de diferentes corais e campos da música. Leia o texto completo.

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#42. SASAMI
SASAMI (2019, Domino)

Em um universo historicamente dominado pela presença masculina, Sasami Ashworth não apenas conquistou o próprio espaço, como vem se envolvendo na produção de algumas das obras mais significativas da presente cena alternativa dos Estados Unidos. São nomes como Wild Nothing, Cherry Glazers, Hand Habits e tantos outros projetos orquestrados pela força das guitarras, vozes e emoções da musicista californiana. Um permanente exercício de aprimoramento artístico que se reflete com naturalidade no recém-lançado primeiro álbum de estúdio da cantora. Guiado pela força dos sentimentos e experiências compartilhadas pela guitarrista, o autointitulado registro rapidamente estreita a relação com o ouvinte, efeito direto da profunda entrega emocional de Ashworth. “Há uma sombra sobre algo que costumava ser luz / Eu era uma janela para algo que você não gostou / Então você me culpou / E você pensou que isso fez você livre / Mas não é assim que funciona, meu amor“, canta em I Was A Window, um precioso e melancólico ato de libertação feminina, temática que se reflete durante toda a execução da obra, cercando e confortando o ouvinte. Leia o texto completo.

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#41. Kim Gordon
SASAMI (2019, Domino)

Como integrante do Sonic Youth, Kim Gordon passou mais de três décadas se revezando na produção de um material essencialmente provocativo, torto. Entretanto, foi no paralelo Free Kitten, com quem lançou quatro álbuns de estúdio — Unboxed (1994), Nice Ass (1995), Sentimental Education (1997) e Inherit (2008) —, e outras colaborações esporádicas, como no Body/Head e Glitterbust, que a cantora e compositora norte-americana pareceu de fato à vontade, testando os próprios limites dentro de estúdio. Ideias trabalhadas de forma sempre irregular, direcionamento que alcança novo resultado nas canções de No Home Record (2019, Matador). Primeiro álbum de Gordon em carreira, o trabalho que conta com co-produção assinada por Justin Raisen (Sky Ferreira, Charli XCX), mostra a clara tentativa da artista em se reinventar criativamente, transitando por entre gêneros e instantes de puro experimentalismo, como se a cantora e compositora norte-americana testasse os próprios limites. Da abertura do disco, na atmosférica Sketch Artist, até alcançar a derradeira Get Yr Life Back, perceba como a musicista brinca com a desconstrução dos elementos, fazendo dessa ruptura estética a única garantia de certeza para o ouvinte. Leia o texto completo.

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