Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2011 (10-01)

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#10. Mallu Magalhães
Pitanga (Sony/BMG)

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Se em idos de abril Marcelo Camelo mandou uma carta de amor para a amada Mallu Magalhães, destilando toda a sinceridade romântica de seus versos em um conjunto de sons delimitados como o Toque Dela, então em setembro foi a vez da própria consorte enviar a resposta para tão acalentados poemas de amor. Madura e longe dos exageros que a acompanharam durante os dois primeiros álbuns da carreira, Magalhães transforma Pitanga não apenas em uma declaração assumida ao parceiro, mas em um dos registros mais sólidos da MPB recente. Entre passeios pela bossa nova, samba e música pop exposta em contornos não óbvios, a cantora exprime todo seu amor (e também melancolia) em um apanhado invejável de versos, canções mergulhadas em uma calmaria envolvente e que se apodera sem esforços de nossa audição. Produzido pelo próprio namorado (em parceria com Victor Rice), o álbum é a melhor resposta aos que observavam o trabalho da cantora como algo menor, destituído de beleza ou originalidade, afinal, Pitanga é a fruta mais suculenta e doce de toda a atual safra da música brasileira.

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#09. Dorgas
Grangongon/Loxhanxha (Independente)

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Hermeto Pascoal fumando maconha com Miles Davis enquanto Mirrored do Battles rola ao fundo em um aparelho de som. Da marofa doce que flutua pelo ar vem o Dorgas, e junto deles os pouco mais de 25 minutos de composições que a banda carioca pôde nos apresentar em 2011, fragmentando tudo em dois curtos, porém, eficientes singles. Cada vez mais distantes das involuntárias aspirações ao shoegaze e ao rock experimental que caracterizaram todo o primeiro EP da banda – o chapado Verdeja Music, de 2010 -, o quarteto mergulha fundo em experimentos marcados pelo etéreo, o anti-pop e o mais puro Art Rock, resultando em um trabalho rico em texturas, formas e sons impossíveis de serem encontrados em outros projetos da cena nacional. Injusta a posição deles entre os melhores do ano? Injusto seria não valorizar os quase oito minutos de guitarras espasmódicas de Loxhanxha, o math rock climático de Fez-Se Cristo ou a lisergia incontida e densa de Grangongon, faixas que resumem de maneira concisa toda a precisão (e a ironia) que escorre do trabalho do quarteto. O Dorgas acabou criando suas próprias regras e é bom que você esteja ciente delas.

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#08. Constantina
Haveno (Independente)

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Com a música instrumental ampliando a participação de maneira notável na cena musical brasileira e a presença de trabalhos voltados ao gênero tendo uma expansão surpreendente ao longo dos últimos anos, torna-se cada vez mais difícil separar o joio do trigo e decidir o que vale realmente à pena em meio a tantas novidades. Com novos artistas nascendo diariamente, cada um sustentado em cima de uma sonoridade e um estilo musical específico, saíram-se bem aqueles que apostaram em veteranos da cena, ou mais especificamente em que manteve abertos os ouvidos ao último álbum da banda mineira Constantina, Haveno. Espécie de bússola nesse oceano de experimentos instrumentais, o álbum nos convida a navegar por um mar de arranjos e melodias bem projetadas próprias da banda, sons marcados pela grandiosidade marítima, onde cada onda é a promessa de mudança e renovação nas estruturas do trabalho. Mantendo a mesma organização e competência da elogiada estreia de 2006, porém aportando em novas tendências musicais (entre elas a própria música “eletrônica”), o álbum, assim como o gigantismo dos oceanos acaba proporcionando um mundo azul de diversificadas e surpreendentes criações.

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#07. Karina Buhr
Longe de Onde (Independente)

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Karina Buhr é um ser inexplicável. Nada do que fora propagado pela artista no decorrer de Eu Menti Pra Você parecia convencional ou sequer similar ao que outras cantoras de mesmo porte foram capazes de lançar ao longo dos últimos anos. Sujo, experimental e romântico, o álbum é ao lado de Efêmera de Tulipa Ruiz e Feito Pra Acabar de Marcelo Jeneci o que há de mais rico na atual música brasileira, um registro tão inventivo que carece de uma continuação imediata, algo que a pernambucana responde com o raivoso Longe de Onde. Necessário e urgente, o trabalho se anuncia como uma sequência exata do que a cantora apresentou ano passado, muito embora nada do que se apresenta ao longo do disco seja minimamente similar ao que fora entregue há pouco mais de um ano, prova real da mente fervilhante de Buhr e dos colegas que a acompanham. Da produção partilhada de Bruno Buarque e Mau aos complementos de Fernando Catatau, Edgard Scandurra e Guilherme Mendonça, Longe de Onde acaba se revelando como fruto óbvio de um enorme coletivo, um condensado de ideias, sons e experiências que trazem na figura imponente de Karina Buhr sua melhor e necessária representante.

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#06. Projota
Não Há Lugar Melhor No Mundo Que Nosso Lugar (Independente)

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Não há palavra que melhor defina o trabalho do paulistano Projota do que evolução. Da primeira mixtape apresentada em 2010 – Projeção – para o segundo trabalho custeado e assumido pelo próprio rapper, é simplesmente notável a maneira como as batidas, as rimas e os versos crescem de forma surpreendente. Palavras, mecanismos tão convencionais e naturalmente presentes em nosso cotidiano, mas que acabam se transformando na matéria-prima essencial para o que José Tiago Sabino Pereira acaba desenvolvendo. Esqueça Emicida, Criolo, Ogi, Rashid ou tantos outros que fizeram a cara do hip-hop durante o ano, nenhum deles sabe falar no mesmo tom e expor os mesmos retratos que o MC paulistano nos apresenta ao longo de sua segunda mixtape. Drogas, racismo, violência e preconceito, temas tão presentes no rap nacional e que muitas vezes acabam desgastados ou perdem o valor na voz e nos versos de determinados artistas, mas não para Projota, que entre poesias acessíveis (sim, há algo de radiofônico no que ele fala) para todos os públicos acaba assumindo de forma honesta o que os Racionais (pré-Sobrevivendo no Inferno) fizeram no começo dos anos 90. Um trabalho que olha as periferias de São Paulo como qualquer periferia de todo o país, um álbum que critica ao mesmo tempo em que realça o que há de melhor a nossa volta, afinal, Projota sabe como ninguém que “não há lugar melhor no mundo que nosso lugar”.

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#05. My Midi Valentine
The Fall Of Mesbla (Popfuzz Records)

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É provável que para uma boa parcela de “amantes da boa música”, olhar para a produção musical nordestina seja como estabelecer automaticamente uma enorme caçada por algum novo figurão do Manguebeat ou qualquer tipo de sonoridade que ecoe pelas ladeiras de Recife/Olinda. Entretanto, arcaico é quem ainda olha para o panorama musical nordestino pensando apenas no cenário pernambucano ou na obra de Chico Science. Entre trabalhos que cada vez mais valorizam a música cearense, potiguar e sergipana, além de selos como o Popfuzz que ressaltam a produção local, o maior e mais inventivo destaque vindo das quentes terras nordestinas chega diretamente da pouco conhecida Aarapiraca, Alagoas, município que serve como sede para os experimentos que a dupla Marcos Cajueiro e Tales Maia vem desenvolvendo. Sob o nome assertivo de My Midi Valentine, o duo vai até a década de 1990 buscar todas as referências para o concentrado definido como The Fall Of Mesbla, um álbum que une Belle and Sebastian e jogos de videogame em um mesmo patamar, condensando tudo em um som que fala de amor (e desamores), despedida, saudade e celebração, tudo desenvolvido de maneira pop, pegajosa e acolhedoramente caseira.

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#04. Cícero
Canções de Apartamento (Independente)

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“Sinceramente, acredito que Canções de Apartamento é um disco que, dentro do cenário caseiro, independente e ‘pós-Hermânico’ atual, caminha a cada dia para ser um marco histórico e importantíssimo para a música e composição no Brasil nesta década”. Mesmo visivelmente emocionadas, as palavras de Marcos Xi em relação ao primeiro álbum do carioca Cícero parecem fazer mais do que sentido. Lançado sem qualquer expectativa ao final de junho e mergulhado em uma atmosfera totalmente caseira – vem daí o título da obra -, o álbum amarra um conjunto de 10 canções marcadas por uma fina camada de melancolia e um colosso de versos suavizados capazes de derrubar todas e quaisquer bandas que pretensiosamente ainda insistem em chupar as referências deixadas por Camelo e Amarante. Cícero não fez nascer um trabalho que ocupasse determinada lacuna ou sobra na música brasileira, simplesmente fez brotar um espaço seu.

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#03. Quarto Negro
Desconocidos (Daruma)

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O lançamento do single Olhos Baixos em meados de 2010 já tornava óbvio o quanto o trabalho do trio paulistano Quarto Negro parecia fugir das obviedades e clichês que boa parte das bandas brasileiras vem acumulando no decorrer da última década. Sérios e donos de uma poesia banhada por um lirismo romântico (e doloroso), Eduardo Praça (voz e guitarras), Fabio Brazil (voz e baixo) e Thiago Klein (voz e piano) parecem alcançar logo no primeiro registro em estúdio o que bandas veteranas e artistas consagrados buscam a vida toda: um resultado maduro e harmônico. Da introdução serena de Luz, passando pelo gigantismo de Nosso primeiro divórcio, a dor em Quando o mar não vem e a saudade nos versos de Vesânia I (Cabo Horn), todos os instantes do álbum são dissolvidos de maneira surpreendentemente rica, com a trinca de integrantes executando seus instrumentos com uma perfeição necessária. É como se o grupo caminhasse de forma sóbria por entre amplas paisagens sonoras, espaços necessários e que possibilitam de maneira visível que os versos anunciados por Praça e Klein se transformem em obras duradouras e a partir de agora eternas na música nacional.

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#02. Criolo
Nó na Orelha (Independente)

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Para muita gente Nó Na Orelha é o condensado máximo de como o rap nacional cresceu e se desenvolveu ao longo dos últimos anos. Prefiro outro olhar, o de que ele é apenas o princípio de toda uma nova cena que nascerá daqui pra frente. A óbvia diferença entre o registro e todos os demais lançamentos tupiniquins – inclusive o próprio registro de estreia de Criolo, Ainda há tempo de 2006 – está na maneira como tudo se encontra e se mistura no interior do álbum. Cada nova faixa é diferente da seguinte, ao mesmo tempo em que todas as canções parecem intimamente próximas, relacionadas e propagadoras de um mesmo conceito. Nó Na Orelha é como o próprio nome diz uma confusão no sistema auditivo do ouvinte. Não é apenas hip-hop, é mais do que isso. Está lá o reggae em Samba Sambei, o jazz em Subirusdoistiozin, Bogotá e a música latina, Freguês da Meia Noite e o romantismo brega, além, é claro, do puro rap em Grajaux e Lion Man. Um enorme e colossal encontro de referências tão díspares que só poderiam ser possíveis em um puro e honesto registro da música brasileira.

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#01. Wado
Samba 808 (Independente)

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“O erro que os apóstolos do clássico sempre cometeram foi juntar seu amor pelo passado com a aversão pelo presente. A música tem outras ideias: ela odeia o passado e quer escapar”. Embora estivesse falando especificamente da música clássica durante essa passagem em seu recente livro – Escuta Só -, o jornalista norte-americano Alex Ross acabou estabelecendo a frase chave sobre o quanto a música carece, almeja e depende da mudança para se manter. Talvez de maneira involuntária o alagoano Wado tenha isso fixado bem fundo em sua mente, afinal, desde os primeiros trabalhos ao lado dos parceiros do Realismo Fantástico ou mesmo durante os primeiros registros definitivamente em carreira solo, que o músico vem utilizando da mudança e da renovação como a principal marca de suas criações. Um mecanismo de escape para as repetições e convencionalismos da música popular brasileira e um instrumento que possibilita ao cantor o nascimento de trabalhos tão geniais.

Imerso em um terreno em que muitas vezes a mudança não é vista pelos “apóstolos do clássico” como algo positivo – o samba –, Wado alcança o ápice criativo justamente por lançar um registro que perverte e modifica todas as fórmulas musicais que o acompanham. Comboiado de um grupo formidável de vozes – que incluem Zeca Baleiro, Chico Cézar, Curumin, Marcelo Camelo, Mallu Magalhães, entre outros – e cruzando as velhas experiências do samba com as renovações de uma bateria eletrônica Roland-TR 808, o artista fez nascer um trabalho que se mantém no presente, embora mantenha os olhos apontados a todo o momento para o futuro. Espécie de fecho do arco iniciado em 2008 com Terceiro Mundo Festivo, quando focou nas periferias para encontrar a matéria-prima do trabalho – posteriormente buscando na relação Brasil-Africa o material para o seguinte Atlântico Negro, de 2009 -, Wado reconfigura a si próprio em Samba 808, alcançando não apenas o grande trabalho de sua carreira, mas um dos mais brilhantes trabalhos da música nacional em todos os tempos.

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