Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2011 (20-11)

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#20. Marcelo Camelo
Toque Dela (Zé Pereira)

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Havia certa dose de receio no primeiro álbum solo de Camelo. Talvez o encerramento das atividades com o Los Hermanos e a busca por uma sonoridade própria o transportassem diretamente para ambiente cinza, frio e triste que o músico destilou aos poucos dentro de Sou (2008), feito que ele parece se distanciar por completo com o colorido, quente e alegre Toque Dela. Espécie de enorme declaração de amor para a amada Mallu Magalhães, o álbum revela um artista muito mais consciente de sua obra, não incomodado em experimentar novas sensações e ritmos musicais, algo que ele despeja no desenrolar de toda a obra. Entre declarações abertas de amor (Vermelho, Pretinha e Meu Amor é Teu), o carioca ainda aproveita para se entregar a bucolismos (Três Dias), momentos pontuados pela saudade (Acostumar) e outros pequenos retratos cotidianos, resultando assim em um trabalho muito maior e instrumentalmente melhor que o antecessor registro do artista.

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#19. Driving Music
Comic Sans (Midsummer Madness)

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Não há como contestar: grande parte do que se desenvolve no interior de Comic Sans, primeiro álbum do projeto Driving Music já foi explorado exaustivamente por diversas bandas ao redor do globo, inclusive por grupos brasileiros. Entretanto, longe de soar como um artista redundante, Fábio Andrade, o homem por trás da sonoridade branda que escorre ao longo do disco resolveu trocar o óbvio pelo inventivo. Cercado por uma soma mais do que relevante de diferentes figuras da cena independente carioca – que incluem integrantes de bandas como Pelvs, Carbona e Cabaret -, o músico vai de maneira grandiosa apresentando um belo jogo de músicas puramente melódicas, faixas tomadas por versos cantaroláveis e uma instrumentação límpida que reverbera tanto veteranos do rock indie como Yo La Tengo e Belle and Sebastian, até figuras da nova safra do rock alternativo. Por mais que apenas a faixa de abertura, Afterglow, já fosse mais do que satisfatória, o músico ainda apresenta outras 10 memoráveis e encantadoras criações, tornando a audição do álbum uma tarefa unicamente deleitosa.

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#18. Silva
SILVA EP (Independente)

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Do lançamento descompromissado em meados de outubro, para a ascensão rápida e quase meteórica no decorrer de poucas semanas – pelo menos dentro do cenário alternativo -, Lúcio da Silva Souza conseguiu em pouco tempo se transformar em uma das figuras mais comentadas do meio musical, feito que ele justifica de maneira primorosa e irretocável em apenas cinco faixas. Bebendo das referências Lo-Fi que trazem brilho ao cenário internacional – quem pensou Youth Lagoon ou Toro Y Moi acertou -, toques de música orquestrada e um fino tempero de música brasileira, o músico carioca conseguiu promover um dos trabalhos mais honestos de todo o ano. Utilizando de letras carregadas de melancolia e um romantismo jovial, Silva vai passeando por momentos delimitados pela nostalgia (Imergir) e pequenas canções de amor (A visita), utilizando de uma instrumentação carregada por violino e teclados coloridos como a grande engrenagem de todo o trabalho. Mais do que um grande disco, SILVA EP é uma aposta de que algo ainda maior está por vir.

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#17. Nevilton
De Verdade (Trama)

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Quem soube esperar não se decepcionou com a aguardada estreia do paranaense Nevilton. Espécie de enorme coletânea do que o músico e os parceiros foram desenvolvendo ao longo dos últimos anos, De Verdade mostra o quanto é possível promover um registro pop e despretensioso sem que para isso a banda precise se entregar aos vícios e excessos que trabalhos desse tipo acabam evidenciando. Entre composições velhas conhecidas – A máscara e Bolo Espacial – e versos inéditos – Tempos de maracujá e Fortuna -, a trinca de Umuarama, Paraná lança um trabalho essencial, um disco que deve ser apreciado sem parcimônia por qualquer apreciador do bom e velho rock brazuca, como por aqueles que buscam pelo que há de melhor no cenário alternativo nacional. Entre riffs marcantes e versos pegajosos, já é mais do que hora do grande público descobrir este trabalho.

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#16. Fabio Góes
O Destino Vestido de Noiva (Phonobase)

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Quando surgiu em meados de 2007 com o álbum Sol No Escuro Fabio Góes era conhecido apenas de um seleto grupo de ouvintes, prováveis fãs dos trabalhos do músico para algumas trilhas sonoras de filmes brasileiros ou talvez raras produções que o músico fazia aqui e ali. Passados mais de quatro anos desde que a memorável estreia veio à tona, Góes retorna com um registro ainda mais sóbrio e maduro, uma espécie de continuação amargurada e em alguns momentos até dolorosa do que fora promovido no lançamento do disco anterior. Cada vez mais atrelado aos complexos arranjos do pós-rock e explorando a música popular brasileira em contornos bastante específicos, o músico faz nascer um registro sólido, forte e que merece ser conhecido não apenas pelo seleto grupo de ouvintes que em outras épocas o acompanhavam, mas por toda uma nova soma de apreciadores que provavelmente irão se encantar com o que é entregue com este trabalho.

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#15. Lê Almeida
Mono Maçã (Transfusão Noise Records)

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Esqueça as tentativas (muitas vezes frustradas) que alguns artistas gringos têm em imitar o rock lo-fi que inundou a música norte-americana durante boa parte da década de 1990, nas mãos do carioca Lê Almeida todas essas experiências musicais parecem realmente ganhar sentido. Vindo de uma sucessão de EPs, singles e diversos projetos colaborativos, Almeida transforma o primeiro álbum oficial de sua carreira em uma verdadeira ode ao rock caseiro que tomou conta do cenário musical há duas décadas. Mais do que um nostálgico aficionado por sons ruidosos e paredões imensuráveis de distorção, o carioca sabe como transformar a música por ele anunciada em um compendio único de vozes e versos que mesmo marcados por uma sujeira natural se anunciam de maneira envolvente e (por que não) pop. Mono Maçã é a mais provável resposta para o que teria acontecido se Robert Pollard fosse brasileiro e o Guided By Voices fosse criado sobre o sol forte do Rio de Janeiro.

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#14. Kassin
Sonhando Devagar (Coqueiro Verde)

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Nada é obvio nas mãos de Alexandre Kassin. Desde os tempos do extinto Acabou La Tequila, passando pelo destaque natural ao lado dos parceiros do +2 e até na produção dos dois últimos álbuns do Los Hermanos, que o carioca vem transformando a música em algo excêntrico e esquizofrenicamente inédito. Samba, rock, eletrônica, não importa o ritmo, nada virá trabalhado em fórmulas convencionais nas mãos do elogiado produtor, que ao apresentar o primeiro álbum em carreira solo abre as portas da sua mente para mais uma sessão de estranhas experiências musicais. Do “technogay” da música Sorver-te aos versos assustadoramente divertidos de Calça de Ginástica, cada momento do trabalho é explorado de forma não convencional, com o músico (e o próprio ouvinte) se perdendo em um universo dividido entre o real e o onírico.

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#13. Bixiga 70
Bixiga 70 (Independente)

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Ainda que lançado há pouquíssimo tempo, o primeiro álbum do coletivo paulistano Bixiga 70 já é de longe uma das maiores novidades musicais de 2011 e facilmente um dos grandes lançamentos que a música brasileira pode proporcionar ao longo do ano. Desenvolvendo um canal de conversação ativo entre os ritmos africanos – quem pensou apenas em Fela Kuti deixou passar todo um continente de referências – e a música nacional, a banda de dez integrantes (vindos de diferentes projetos da cena paulistana) mostra que tão vasto quando o número de componentes que integram é o repertório que ela visa explorar. Entre passagens pelo jazz, transições pela música latina e as trilhas sonoras da década de 1970 – e até de Bollywood -, o grupo vai garantindo força a um dos projetos mais quentes dos últimos anos.

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#12. Rashid
Dádiva e Dívida (Um Só Caminho)

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Dentre os inúmeros responsáveis pela ampla expansão do rap nacional em 2011 está o MC paulistano Rashid e os versos acessíveis de Porradão de 5. Vindo de um bem sucedido EP lançado em 2010, além de incontáveis contribuições e intervenções nos trabalhos de outros artistas, o rapper transformou o primeiro grande registro da carreira – Dádiva e Dívida – em uma sucessão invejável de composições fortes, faixas que ecoam as origens, perdas e glórias que dão formas ao cotidiano do artista. Intenso e dotado de versos que transparecem um toque comercial, Rashid e os colaboradores que o acompanham vão mobilizando uma sucessão de faixas assertivas, músicas que se movimentam dentro de um ambiente que se vale das glórias para sobrepor as derrotas, representando sempre o título dicotômico do trabalho – que ao mesmo tempo em que ocasiona vitórias parece cobrar por isso em forma de derrotas.

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#11. Nuda
Amarénenhuma (Independente)

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“Existe algo de excêntrico, místico e inexplicável dentro das canções da pernambucana Nuda”. Estranho observar que mesmo passados mais de seis meses desde que o primeiro álbum do grupo chegou até nós, as mesmas sensações repassadas durante a primeira audição do registro ainda se fazem presentes, ou talvez estejam até renovadas e ampliadas. Dividido entre momentos de profunda calmaria que acabam percorrendo os caminhos do samba (como na própria faixa título) e canções marcadas por uma crueza que fragmenta os limites do rock psicodélico (Acorde universal), Amarénenhuma se anuncia como uma das grandes mostras do rock pernambucano no presente momento. Nada de conexões com a obra de Chico Science ou mínimas aproximações com os cariocas do Los Hermanos, dentro do trabalho da banda apenas inovação, guitarras impregnadas de agressividade e uma conexão com a música brasileira que até parece nunca ter sido experimentada. Se alguém precisava de motivos para gostar do rock nacional, a Nuda lhe garante vários.

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[30-21] . [10-01]

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