Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2011 (30-21)

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#30. stella-viva
Deus Não Tem Aviões (Independente)

O óbvio parece não dividir o mesmo espaço que a curitibana stella-viva, algo que as experimentações pop de Deus Não Tem Aviões deixam mais do que claro nos minutos iniciais do trabalho e no consequente crescimento ao longo do registro. Longe do rock pós-adolescente que define o trabalho de grande parte das bandas iniciantes, o quarteto paranaense parece já ter nascido maduro, feito muitas vezes raro em um disco de estreia, mas algo que eles administram de maneira ímpar nos mais de 35 minutos da obra. Entre versos que realçam um universo todo particular dos integrantes e uma instrumentação que quebra as regras a cada segundo, o registro vai se desenrolando em pequenas doses de excentricidade, absorvendo uma visão particular da herança deixada pelo Los Hermanos, ingressando pelo indie rock de maneira não convencional e até fragmentando (e reagrupando) a música brasileira de forma sempre instável.

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#29. Hierofante Púrpura
Transe Só EP (Transfusão Noise Records/Popfuzz)

Sinceramente, não sei que substâncias circulam pelo cotidiano da Hierofante Púrpura, mas uma coisa é certa: quero experimentar também. Em pouco menos de 20 minutos o trio paulistano se embrenha em uma verdadeira viagem marcada de altos e baixos que se traduzem em quatro canções essencialmente lisérgicas e fortes. Divididos entre o rock alternativo dos anos 90 e a psicodelia nacional das décadas de 60 e 70, o grupo alcança a síntese de uma soma de trabalhos acumulados há mais de cinco anos, quando o primeiro EP do grupo surgiu com destaque pela blogosfera. Nunca óbvio e fragmentado em pequenos delírios poéticos, o álbum vai costurando uma densa tapeçaria instrumental, percorrendo tanto a melancolia essencial de Hospital Das Curas, como a instabilidade épica de Rosa frígida, transformando o disco em um trabalho que mesmo mínimo em termos de formato se revela de maneira ampla e surpreendente.

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#28. Momo
Serenade Of a Sailor (Pimba)

.Dor, não há combustível que melhor conduza os trabalhos do carioca Marcelo Frota do que este. Ainda preso aos entalhes melancólicos do psicodélico Buscador (2008), o músico chega ao terceiro álbum esbanjando uma maturidade poética raramente encontrada em trabalhos do mesmo gênero, um registro que transforma todo os sofrimento do compositor em um oceano de canções aconchegantes e capazes de partilhar de forma honesta todas essas experiências com o ouvinte. Aproveitando para investir em composições em inglês (não se preocupem, os versos em língua pátria ainda estão lá), Momo acaba desenvolvendo um trabalho que se divide entre a amplitude dos sentimentos ali expostos e o minimalismo instrumental que se concentra quase inteiramente em parcos violões, teclados e uma bateria sempre delicada. Assim como é grande o mar que orienta o trabalho, enorme são as sensações encontradas dentro dele, com o artista se posicionando como uma espécie de farol, guiando os pobres náufragos que se aventuram pelas dolorosas canções do álbum.

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#27. Gui Boratto
III (Kompakt)

.Estranho observar III como um disco de Minimal Techno dentro das convenções naturais do estilo, afinal, diferente das suas anteriores obras de Gui Boratto este terceiro registro aparece cercado de ruídos, batidas detalhadas em contornos grandiosos e uma linearidade não delicada como a exposta nos anteriores projetos do produtor. Se em Chromophobia, Boratto parecia seguir uma linearidade musical tão lógica que beirava a matemática (embora houvesse sim sentimento na música por ele proposta), com o recente trabalho o paulistano quebra esse paradigma, desenvolvendo um trabalho sujo, irregular, e consequentemente tão inventivo quanto o proposto no álbum de 2007. Longe dos erros marcados de Take My Breath Away (uma cópia descarada do primeiro álbum), III não deixa dúvidas em relação a carreira de Boratto, que não apenas se posiciona como o maior representante da eletrônica brasileira, como acaba se posicionando como um dos maiores do cenário internacional.

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#26. Romulo Fróes
Um Labirinto em Cada Pé (Independente)

Ao entregar o gigante No chão sem chão em 2009, Romulo Fróes acabou pondo em dúvida se teria ou não fôlego para o lançamento de um trabalho tão ou mais impactante que o estabelecido naquele momento com o duplo registro. Sem pressa o músico foi estabelecendo todas as diretrizes de Um Labirinto em Cada Pé, quarto disco da carreira do paulistano e trabalho em que mais uma vez nos aproxima do famigerado “samba indie” proposto pelo mesmo há dois anos. Acinzentado, sorumbático e ainda fragmentado entre guitarras distorcidas e violões suavizados, Fróes cresce em relação ao trabalho anterior, muito por conta das constantes colaborações que incluem a poesia de Nuno Ramos, a voz de Nina Becker e Arnaldo Antunes, além de todo um corpo de instrumentistas que o acompanham até o fechamento da obra.

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#25. Transmissor
Nacional (Independente)

Clube da Esquina, melodias exploradas de forma harmoniosa e versos pegajosos ditam as regras de Nacional, segundo trabalho do quinteto mineiro Transmissor e disco que marca uma profunda evolução na carreira do grupo. Não mais concentrados em um único hit – como aconteceu em Sociedade do Crivo Mútuo, trabalho que acabou focando demasiadamente no single Primeiro de Agosto – o registro apresenta uma variedade de canções memoráveis, todas embaladas de maneira branda, onde teclados enevoados se encontram com guitarras aprazíveis e letras marcadas pela dor e a separação. Com os vocais divididos em três diferentes vozes, o álbum se revela como um puro registro pop e melódico, um trabalho marcado pelo caráter comercial, porém distante de qualquer possível exagero que possa se instalar em um trabalho desse estilo.

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#24. Emicida
Doozicabraba e a Revolução Silenciosa EP (Independente)

Embora já fosse algo previsível, a consagração chegou de vez para Emicida em 2011. Artista do ano e dono do melhor clipe na última edição do VMB, figura garantida nas páginas das principais publicações – musicais ou não -, e uma das atrações do Coachella 2011, o rapper não poderia passar um ano de tantas conquistas em branco. Para isso, contou com um time de elite formado por Rael Da Rima, Evandro Fióti, Don Pixote e MV Bill, a produção dos gringos Beatnick e K-Salaam e fez nascer Doozicabraba e a Revolução Silenciosa EP, mais um grande catálogo de fortes composições do paulistano. Cercado por uma sonoridade límpida e primorosa, Emicida vai aos poucos desenvolvendo um trabalho inteiramente marcado pelas glórias, uma espécie de resposta aos que o desacreditaram em épocas remotas e, obviamente, mais um grande álbum do hip-hop nacional. “Não é só ver e julgar (tem que colar)/ Tem que ser (tem que ser) pra se misturar/ Aí vai ver que é nois/ Que o rap é voz, que o reggae é voz e o samba”.

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#23. São Paulo Underground
Três Cabeças Loucuras (Cuneiform)

Um acidente. Maurício Takara e Guilherme Granado (membros do Hurtmold) se chocando com Richard Ribeiro (Porto) e o trompetista norte-americano Rob Mazurek. O resultado? Invenção. Em mais de 40 minutos o quarteto se embrenha em um terreno inóspito, vasto e sempre mutável, atravessando o jazz, cortando o pós-rock, triturando a eletrônica e salpicando tudo com um toque de música brasileira. Dentro dessa vastidão de ritmos e fórmulas musicais acaba se formando um agrupado sonoro impossível de ser compreendido ou classificado, como se o quarteto estabelecesse as regras do jogo e as quebrassem a cada segundo. Marcado por ruídos diversos, programações esquizofrênicas e a bateria sempre dinâmica de Takara, o trabalho se perde em alucinações musicais, afogando o ouvinte em um mar de experimentos sintético-orgânicos que parecem montados com um único objetivo: hipnotizar e prender qualquer um que passe por essa obra.

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#22. Pélico
Que Isso Fique Entre Nós (YB Music)

Nada como uma separação para o nascimento de um grande disco. Entre gringos e brasileiros que já transformaram um amor desfeito em material de trabalho, o mais novo iniciado nesse grupo é o paulistano Pélico, que distante dos contornos musicais abordados em O ultimo dia de um homem sem juízo, primeiro trabalho do artista, se desdobra em um catálogo de 16 composições que esmiúçam todos os detalhes de seu último e conturbado relacionamento. Musicalmente o disco mantém a mesma suavidade e multiplicidade instrumental de outrora, cruzando música brega, indie pop, uma naturalidade bem brasileira e toda uma variedade de fórmulas musicais que apenas engrandecem o trabalho do músico. Entretanto, é nos versos que se esconde a beleza da obra, que trafega tanto pelo tom amargurado de Não Éramos Tão Assim com pela melancolia profunda de Recado. Um disco que faz o mestre Odair José parecer um adolescente bobo discutindo o término com a namoradinha do colégio.

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#21. Ogi
Crônicas da Cidade Cinza (Independente)

Se Criolo afirmou não haver amor em SP, então Ogi resolveu ir além dessa única afirmação, explorando de maneira grandiosa todas as nuances que movimentam a grande locomotiva do Brasil. Herdeiro assumido dos ensinamentos aplicados por Mano Brown, o rapper se aventura em contar histórias e desenvolver personagens de forma muito similar ao que os conterrâneos do Racionais MC’s vêm promovendo há mais de duas décadas. Entre recortes de trechos cotidianos – muitos deles sem um final feliz -, Ogi vai delineando todos os aspectos de São Paulo, versando tanto sobre o povo sofrido que vaga pelas ruas, os Motoboys, como sobre o esgoto que suja o rio ou os prédios que arranham o céu, metaforizando a cidade em um enorme monstro de concreto. Acompanhado de um bom número de representantes locais, como Lurdez da Luz e Rodrigo Brandão, o resultado não poderia ser outro se não um dos mais fortes e grandiosos registros do rap nacional.

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[40-31] . [20-11]

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