Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2011 (50-41)

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Ressaca. Essa foi constante sensação que marcou a música nacional durante todo ano. Talvez a força de trabalhos como Feito Pra Acabar de Marcelo Jeneci ou Efêmera da paulistana Tulipa Ruiz – entre outros – tenham estabelecido certo ar de expectativa em relação à produção musical da nova década, derramando sobre o presente ano uma sensação de desgaste, certa dose de expectativa e muito cansaço, algo bem exemplificado pela falta de grandes lançamentos. Mesmo assim, ao longo de 2011 contamos com grandes discos, trabalhos que deixaram de maneia significativa um rastro na música brasileira (seja ela qual for). Para isso, selecionamos 50 registros essenciais para compreender o que foi a produção nacional no decorrer do ano, álbuns que nos proporcionaram uma sucessão de faixas memoráveis e que merecem verdadeiro destaque.

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#50. Tiê
A Coruja e O Coração (Warner)

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Quando lançou Sweet Jardim em 2009 todas as experiências, sentimentos e percepções que circundavam a vida da paulistana Tiê eram outras. Talvez naquela época falar de amor em tom sofrido ou exaltar a melancolia em doses imoderadas fosse o único foco da cantora, elementos que garantiram a existência de um bom disco, mas que agora são sumariamente abandonados no segundo trabalho da musicista, A Coruja e O Coração. Como o brilho do sol em uma manhã de inverno, o registro parece desenvolvido para aquecer o ouvinte, acalentando-o até os últimos segundos da obra. Exaltando a boa fase da cantora – que inclui o nascimento da primeira filha –, o registro deixa de lado o aspecto intimista de outrora para exaltar um toque grandioso, algo que a relevante soma de convidados (como Marcelo Jeneci e Hélio Flanders) e canções movidas por uma alegria incontida acabam revelando. O sol brilha na vida de Tiê, e parece que não vai cessar tão cedo.

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#49. Junio Barreto
Setembro (Independente)

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Mais de sete anos separam o pernambucano Junio Barreto do último trabalho em estúdio por ele apresentado – um homônimo trabalho lançado em meados de 2004. Durante esse tempo o músico parece ter se especializado, afundou-se em melodias, buscou novas possibilidades aos versos anunciados e acima de tudo, não perdeu a unidade e a beleza instrumental que explorou ao estrear. Ainda fluindo dentro dos campos da MPB, porém se afastando de quaisquer obviedades, o músico proporciona pouco mais de 30 minutos de faixas suavizadas, canções que parecem funcionar como uma chave para adentrarmos os pensamentos do artista, músicas como a branda Fineza ou a doce Noturna que reforçam toda a originalidade e a maestria de Barreto. De hoje em diante, setembro (o mês) ganha novo significado e inclusive uma trilha própria.

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#48. Marisa Monte
O que você quer saber de verdade? (EMI)

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O que você quer saber de verdade? Com essa pergunta Marisa Monte parece delinear todas as 14 composições do sexto e mais recente álbum de estúdio de sua carreira, disco em que passeia confortavelmente por distintos campos do cenário musical, enquanto dialoga de forma despretensiosa com várias faces da música brasileira. Dividida entre sambas, versos que exaltam a música pop e um fino toque de brasilidade, a carioca apresenta o que parece ser uma consistente continuação dos ótimos Infinito Particular e Universo Ao Meu Redor, álbuns “casados” e que foram apresentados simultaneamente em 2006. Tomada por um despojo envolvente, a cantora se entrega a um conjunto de versos encantadores, radiofônicos e envolventes, músicas como O que se quer (com Rodrigo Amarante), Descalço no Parque e Ainda Bem, todas composições que mais uma vez reforçam a figura de Marisa como uma das mais importantes da nossa música.

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#47. Domenico
Cine Privê (Coqueiro Verde)

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Quando em 2003 apresentou ao mundo o caloroso Sincerely Hot ao lado dos parceiros Kassin e Moreno Veloso – do projeto +2 -, Domenico Lancellotti estabeleceria de maneira significativa a música que o cerca e em que ela consiste. Entre beats sintetizados, efeitos eletrônicos e uma condução suingada, o artista carioca surge agora com aquele que deve ser estabelecido como o primeiro álbum de sua carreira solo, Cine Privê. Longe dos excessos de outrora, o músico acaba polindo melhor a música por ele anunciada, transformando o registro de dez faixas em um condensado consistente, um trabalho dividido entre a sexualidade, o intimismo e doses imoderadas de um cotidiano nada óbvio. Esbanjando bom humor e imerso em um ambiente quente, Domenico evidencia faixas fortes como 5 Sentidos, Su Di Te, Receita e a própria música título, reproduzindo um trabalho formalizado pelas velhas estruturas da música brasileira, mas abordando diversos aspectos de maneira inédita e dentro das próprias características do artista.

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#46. Los Porongas
O segundo depois do Silêncio (Baritone Records)

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São poucas as bandas em atividade no país capazes de promover um som tão sério e forte quanto o anunciado pelo Los Porongas. Mesmo que essa percepção já fosse algo mais do que evidente no lançamento do primeiro álbum do grupo acreano, é somente pelo empunhar das guitarras e o uso de letras sólidas em O Segundo Depois do Silêncio que isso se transforma em algo claro e amplamente perceptível. Maduro do princípio ao fim, o registro apresenta um grupo que percorre de maneira consciente um caminho distante do que parece estar em voga no cenário musical recente. Nada das afetações que muitas vezes constrangem o rock alternativo tupiniquim, em 12 faixas a banda apresenta uma constante exposição musical particular, uma espécie de vertente instrumental e (principalmente) lírica que parece própria dos trabalhos do grupo.

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#45. Vanguart
Boa Parte de Mim Vai Embora (Vigilante)

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Longe das conexões com a música estrangeira e profundamente relacionados com os sons nacionais, o quinteto Vanguart consegue transformar o recente Boa Parte de Mim Vai Embora em um diálogo maduro com o grande público, ao mesmo tempo em que mantém firme a conexão com a cena alternativa. Muito mais “pop” que o primeiro trabalho da banda – algo bem evidente na faixa de abertura, Mi Vida Eres Tu -, o álbum de 13 faixas amplia os horizontes do quinteto cuiabano, que agora apresenta um registro inteiramente composto em português e orientado por novas sonoridades. Menos focado na figura de Hélio Flanders, o trabalho ressalta os demais participantes do grupo, como Luiz Lazzaroto, que preenche o registro com uma bela soma de teclados, ou mesmo Reginaldo Lincoln, que tem ampliados os vocais no interior da obra. Além de superar a famigerada crise do segundo disco, a banda ainda conseguiu proporcionar um excelente álbum.

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#44. Beto Só
Ferro-Velho de Boas Intenções (Senhor F)

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Um registro para ser apreciado com parcimônia, assim é o mais recente trabalho do brasiliense Beto Só, Ferro-Velho de Boas Intenções. Contrariando as expectativas geradas ao final do último álbum do cantor, Dias mais tranquilos, que parecia se encaminhar em busca de uma sonoridade menos dolorosa e soturna, o presente álbum afunda ainda mais o músico em um universo particular e sofrido. Denso – tanto nos versos como na instrumentação – o trabalho parece manifestar um pequeno retrato pessoal do compositor, que ao expor seus sentimentos mais sinceros acaba estabelecendo uma conexão direta com o espectador, que parece na verdade estar ouvindo algo sobre si próprio. Amargurado, porém nunca melodramático, o registro explora a dor – em diferentes formatos – de maneira totalmente própria, como se fosse o próprio músico o criador de todas essas dolorosas sensações.

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#43. Blubell
Eu Sou do Tempo em Que a Gente se Telefonava (YB Music)

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Imersa em um ambiente vintage, onde moveis envernizados servem de assento para garotas de vestidos estampados por bolinhas, Blubell abre as portas para o mundo peculiar de Eu Sou do Tempo em Que a Gente se Telefonava, segundo álbum de uma carreira ainda recente, porém marcada por acertos. Entre transições ao jazz, rock clássico e até um toque de música latina, a cantora paulistana presenteia o ouvinte com uma vasta sucessão de versos sedutores e intimistas, sempre entoados por meio dos vocais adocicados da musicista. Envolvente da primeira à última faixa, o álbum cresce de maneira visível em meio ao competente número de músicos que auxiliam a cantora em sua empreitada, cruzando flautas, pianos, uma bateria compacta e uma linha de baixo que parece garantir sustento a todo o registro. Se o mundo real parece um caos para você, não há existe fuga melhor e um ambiente mais encantador do que o proclamado por Blubell.

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#42. Pública
Canções de Guerra (Cornucópia Discos)

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Passado o medo do segundo álbum, chega a hora dos gaúchos da Pública se firmarem de vez no panorama nacional, feito que eles dão mais do que conta com Canções de Guerra, terceiro e provavelmente o melhor registro da banda até agora. Longe dos toques de psicodelia do primeiro álbum e afastado das pequenas irregularidades do segundo, o terceiro disco parece condensar o que a banda tem de melhor: versos fortes e uma instrumentação essencialmente melódica. Suave, mas ainda mergulhado nos versos penosos de Pedro Metz, o trabalho reforça a conexão da banda com a música britânica da década de 1990 ao mesmo tempo em que o grupo estabelece uma forte e individual marca no cenário brasileiro atual. Entre composições marcadas pelo caráter comercial, destacam-se faixas movidas por um toque de inovação na carreira do grupo, algo que o aspecto religioso-épico de Cartas de Guerra e as predisposições ao pop de câmara da poderosa Silenciou acabam revelando.

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#41. Bonifrate
Um Futuro Inteiro (Independente)

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Menos orgânico que o místico Os Anões da Villa do Magma, Um Futuro Inteiro parece evidenciar a figura do carioca Bonifrate com um pé bem calcado no chão, enquanto a cabeça ainda se mantém nas nuvens. Distante do clima bucólico de outrora – quase uma continuação do que fora propagado em sua outra banda, o Supercordas -, o álbum esbanja uma somatória de composições marcadas pela psicodelia e a música folk, com o músico fazendo nascer um registro essencialmente lisérgico, em que incontáveis efeitos, overdubs e ruídos sintéticos vão pouco a pouco projetando uma verdadeira viagem musical. Melancólico (Esse Trem Não Improvisa), alucinado (Vertigem de uma festa interestelar) e até filosófico (A farsa do Futuro enquanto Agora), Bonifrate lança um registro que esbanja sua própria figura e experiências, muito embora grande parte do que ali esteja possa ser refletido e aplicado na vida de qualquer um.

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