Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2012 [30-21]

Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2012

[30-21]

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doo doo doo

#30. doo doo doo
Casa das Macacas (Indpendente)

Não existe certeza alguma dentro de Casa das Macacas. Se por um lado o trabalho de estreia do quarteto carioca doo doo doo se entrega de forma desmedida as experimentos eletrônicos que acompanham o grupo desde o último ano, por outro doses leves de música “comercial” quebram esse resultado. Por todos os lados guitarras magras, teclados pasteurizados e vozes bizarras tingem e ditam os rumos de cada uma das faixas que definem o disco, amarrando a banda em um cenário tribal (Carnaval no Fogo) e introspectivo (Negócio) na mesma intensidade. Soando como um registro irmão dos inventos da conterrânea Dorgas e pondo um pouco de cor no que o Sobre A Máquina tinge de forma acinzentada, o álbum se manifesta como um fino exemplar da música experimental que dita o cenário carioca recente. Mesmo destinado aos ouvintes aventureiros, as métricas inexatas e o instrumental estranho que permeiam o disco parecem incentivar o ouvinte despreparado, que encontrará em músicas como Nem um caminho mais “acessível” para o restante da obra. Um disco de música pop, porém, escondido por camadas quase intransponíveis de experimento.

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Orquestra Imperial

#29. Orquestra Imperial
Fazendo as Pazes com o Swing (Universal)

Quando Carnaval Só Ano Que Vem (2007) foi apresentado ao público, o que parecia ser apenas uma brincadeira da nata cultural carioca se concretizou em um registro bem humorado, mas que vinha tocado pela seriedade e o acerto. Com aspecto de “brincadeira séria”, o registro trouxe em um pequeno condensado de faixas um resgate coeso dos antigos bailes de carnaval do Rio de Janeiro, acrescentando elementos das tradicionais noites de gafieira, o clima dos antigos clubes de jazz e até uma fina relação com a música latina, fazendo da já aclamada Orquestra Imperial um dos projetos mais curiosos e divertidos da nova música brasileira. Logo, como toda festa não pode acabar antes dos convidados irem embora, a big band carioca está de volta, Fazendo As Pazes Com o Swing em mais uma seleção de músicas em que ficar parado, se revela um erro de enormes proporções. Bem menos descompromissado que o leve trabalho anterior, ao alcançar o segundo disco o grupo – formado por nomes como Nina Becker, Thalma de Freitas, Rodrigo Amarante, Moreno Veloso, Wilson Das Neves, Domenico, Kassin, Rubinho Jacobina, entre outros – parece sentir o peso dos dez anos de formação do projeto. Conscientes de todos os limites – alguns já rompidos – no desenrolar do trabalho passado, ao mergulharmos no presente álbum é clara a transformação entre o que define a trajetória da Orquestra hoje e há poucos anos. Livre da formatação dispersa de outrora, com a chegada do novo disco cada faixa parece servir de escada para a canção seguinte, alavancando um trabalho crescente e livre do individualismo sonoro que abastecia boa parte do projeto anterior.

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Rashid

#28. Rashid
Que Assim Seja (Independente)

Parte da safra atual de talentosos rappers brasileiros, Rashid construiu em sua última mixtape, Que Assim Seja, versos que carregam experiências próprias somadas a batidas etéreas. Ao longo das vinte faixas da compilação, o responsável pelo excelente Dádiva e Dívida (2011) mostra sonoridade e letras menos comerciais que as produções anteriores, o que remete muitas vezes a grandes nomes do rap/hip-hop nacional que levaram o ritmo ao grande público em um passado não muito distante. Apesar do som mais “carregado”, o álbum em nenhum instante se distancia da construção de faixas mais amenas, que com samples certeiros equilibram o desenrolar e até o descontrole dos versos. Mesmo aliado a um time considerável de produtores, Rashid conseguiu imprimir sua identidade em cada composição, mostrando que seu talento vai muito além de rimas bem trabalhadas. A extensão da mixtape permitiu a perca da coerência do trabalho em alguns momentos, mas nada que desmereça mais um bom disco de um representante promissor do gênero que ganha cada vez mais destaque e qualidade no país. Carlos Botelho (Resenha)

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Hurtmold

#27. Hurtmold
Mils Crianças (Submarine)

As transformações iniciadas no autointitulado álbum de 2007 do Hurtmold alcançaram um nítido ponto de concisão no interior de Mils Crianças. Menos excêntrico e até simplista em relação aos primeiros lançamentos da banda, o quinto registro em estúdio do coletivo paulistano deixa escorrer referências distintas, mergulhando tanto nas preferências individuais de seus realizadores (vide a bem sucedida carreira solo de M Takara), como nas recentes passagens do grupo ao lado de Marcelo Camelo. Vez ou outra capaz de brincar com uma sonoridade menos conceitual e mais acessível (vide a incorporação de uma sonoridade essencialmente sutil em Chavera), o álbum se concentra de maneira inteligente em um bem amarrado grupo de canções, faixas que mesmo diversas em proposta se orientam para a construção de uma obra hermética e nitidamente bem planejada. Ainda que a percussão assuma um desempenho ainda maior no decorrer do álbum, cada instrumento funciona dentro de uma medida de acerto comum, resultando no fechamento de uma obra que pluraliza seus elementos de maneira uniforme. Longe de representar a mesma soma de preferências climáticas que tanto caracterizavam os trabalhos que o precedem, Mils Crianças encanta justamente por isso: não parecer em nenhum momento como um antigo disco da Hurtmold.

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Amplexos

#26. Amplexos
A Música da Alma (Independente)

Mesmo que a estrutura base que alimenta o trabalho da fluminense Amplexos seja a mesma que orienta tantos artistas relacionados ao reggae/dub nacional, é preciso aplaudir o grupo por não cair em redundância. Aconselhados pelos ensinamentos do parceiro de longa data Buguinha Dub, a banda deixa fluir um trabalho que mesmo perfumado pela essência de Bob Marley e outros veteranos do gênero, jamais se deixa levar pela repetição de ideias e exageros líricos. Esqueça o Reggae-Pop que você ouve/ouvia nas rádios, a proposta aqui é completamente outra. A diferença está na maior aproximação com a música africana, principalmente a de contestação, proposta que estimula o grupo a encontrar um novo resultado e uma condução adequada àquele que se apresenta como o primeiro álbum definitivo do coletivo. Sem jamais se fixar em um único ponto, A Música da Alma vai aos poucos se deixando conduzir por compostos de natureza romântica (Making Love), traços existenciais (Sim) e até recortes poéticos que se estendem para além dos limites cotidianos (Festa), tudo isso enquanto uma instrumentação deliciosamente efêmera se desfaz como fumaça pelo ar.

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Manja Perene

#25. Letuce
Manja Perene (Bolacha Discos)

Assim como Plano de Fuga Para Cima dos Outros e de Mim (2009), Manja Perene é um registro que lida com a intimidade, neste caso, recortes particulares relacionados ao cotidiano do casal Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos. Segunda e ainda mais completa obra da dupla carioca, o álbum dança livremente por construções bem humoradas, sentimentais e ácidas que identificam cada instante de um relacionamento – antigo ou recente. Menos apoiado nos reducionismos instrumentais que orientavam o trabalho anterior, o registro possibilita ao casal experimentar, aperfeiçoando a relação com o rock de Rita Lee (em Fio Solto e Insoniazinha), além contribuir para o surgimento de composições recheadas pela densidade, caso da volumosa faixa de abertura Pra Passear. Dividido a todo o instante entre as distorções típicas do rock e as amenidades da MPB, o álbum se estabelece como um nítido projeto de contrastes, evidenciando ora a masculinidade de Vasconcellos, ora a feminilidade de Novaes.

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Gaby Amarantos

#24. Gaby Amarantos
Treme (Som Livre)

Ainda que o Tecnobrega e os ritmos paraenses não tenham tomado a real proporção que pareciam assumir no último ano, Treme, estreia de Gaby Amarantos cumpriu sozinho com essa função. Grandioso, pop, divertido e com direito à música em trilha sonora de novela, o álbum foi imediatamente catapultado pela imprensa nacional, que abraçou Gaby e consequentemente nomes conterrâneos como Gang do Electro, Aíla e Felipe Cordeiro. Recheado por composições comerciais do princípio ao fim do álbum, o registro traz em faixas como Mestiça e Chuva uma quebra na sonoridade popular do registro, sendo naturalmente um chamariz e talvez uma preparação para o que vamos encontrar nos próximos lançamentos da artista. Se o famigerado movimento terá força para se expandir pelos próximos anos, isso ainda se mantém como uma incógnita. Por enquanto Amarantos segue colhendo os frutos do bem concebido álbum, que da capa as versos parece feito para prender o ouvinte sem qualquer dificuldade.

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Onagra Claudique

#23. Onagra Claudique
A Hora e a Vez de Onagra Claudique (Independente)

Lembra do que você sentiu quando ouviu pela primeira vez o álbum de estreia do Fleet Foxes? Ou quem sabe o primeiro disco do Bon Iver? É mais ou menos isso que você irá sentir ao se deparar com a primeira obra do grupo paulistano Onagra Claudique. Estabelecendo um misto de indie pop e folk com a música bucólica que tomou conta do Brasil em princípios da década de 1970, a banda nos conduz a um mundo de sonhos, melancolias e sutilezas, algo facilmente observado na soma de ruídos suaves e doces sensações que se apoderam do EP de três faixas A Hora e Vez de Onagra Claudique, o primeiro trabalho da banda composta por Roger Valença e Diego Scalada. Delicadíssimo, o registro conta com produção de Fabio Pinczowski e Mauro Motoki, membros do Ludov e experientes artesãos quando o assunto é conduzir qualquer música com sutileza e emoção, algo que se revela em cada uma das composições do álbum e também das letras agradáveis do pequeno disco. Com um confortável clima matinal, o trabalho parece ser a escolha mais acertada para um passeio pelo campo ou mesmo para quem deseja estabelecer um contraste com a soma de prédios cinzas de qualquer cidade grande. Provavelmente é a melhor resposta para o que teria acontecido com Justin Vernon se este resolvesse se encontrar com o Clube da Esquina.

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Sambanzo

#22. Sambanzo
Etiópia (Independente)

Somente em 2011 o mineiro Thiago França foi responsável por dar cobertura a três grandes projetos da cena musical brasileira. Um Labirinto Em Cada Pé, do paulistano Romulo Fróes, Memórias Luso/Africanas do produtor Gui Amabis e, o mais importante deles, Metá Metá, trabalho desenvolvido ao lado dos colegas Juçara Amaral e Kiko Dannuci e registro que melhor contribuiu para dar visibilidade ao saxofonista. Ainda próximo desses mesmos colaboradores, porém livre para tomar as direções que bem entender, França, agora sob o nome de Sambanzo, apresenta um registro inteiramente marcado pelo suingue, utilizando do sax vívido que comanda para conduzir o ouvinte por entre complexos e riquíssimos campos musicais. Impregnado pelo tom volátil do samba e da gafieira, a temática calorosa da música africana e toda a multiplicidade de escolhas favorecidas pelo jazz, Etiópia apresenta Thiago França em um estado completamente oposto de qualquer possível território que o músico tenha pisado nos últimos anos – ou pelo menos tenha demonstrado em forma de registro ao público que o acompanha. Experimental, mas nunca intransponível, o disco esbanja brasilidade e forte aproximação com o ouvinte, que mesmo na ausência de palavras deve compreender todo o vocabulário do registro.

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Single Parents

#21. Single Parents
Unrest (Trama/Popfuzz)

Em meio a tantos projetos redundantes, que insistem em beber pretensiosamente das mesmas fontes desses veteranos, estranho perceber o quanto a paulistana Single Parents mantém um aspecto de distinção em meio ao cenário nacional. Das guitarras sujas de Fernando Dotta, passando pela bateria competente de Rafael Farah ao baixo não óbvio de Anderson Lima, todas as faixas de Unrest parecem partilhar honestamente das mesmas experiências e sensações que os veteranos da cena brasileira transpiravam em seus trabalhos. Seria apenas reflexo de uma tríade de instrumentistas habilidosos que cresceram ao som de Dinosaur Jr e Sonic Youth ou um retrato de três jovens verdadeiramente apaixonados pelo que fazem? Não é preciso passar da primeira faixa – Beginning Of Your Rage – para perceber que a segunda alternativa é a que soa mais real e condizente com toda a destreza repassada pelo grupo ao longo do trabalho. Nada de redundâncias ou ensinamentos reaproveitados de artistas de longa data. No decorrer de 13 faixas a trinca paulistana mostra que para além de uma fórmula e de uma educação musical partilhada – quantos não são os artistas brasileiros que se agarram nas mesmas referências da banda? – vontade ainda é atributo essencial para a produção de um registro intenso e que se desapegue do básico. E é com essa vontade que a banda nos prende até o ecoar da última nota do disco.

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