Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2012 [50-41]

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Lestics

#50. Lestics
História Universal do Esquecimento (Independente)

De todas as bandas nacionais que surgiram ao longo da última década, a paulistana Lestics é de longe uma das mais curiosas. Sem a intenção vulgar de produzir um som comercial, o fascínio de se relacionar com um selo/gravadora e ciente do público reduzido que a acompanha (ouvintes que “misteriosamente” crescem a cada novo trabalho), o projeto comandado por Olavo Rocha (voz) e Umberto Serpieri (violão,teclados,guitarra,gaita e voz) chega ao quinto registro dentro de uma estufa criativa e particular que lentamente se abre aos ouvintes. Denominado História Universal do Esquecimento, o mais recente disco dos paulistanos parece fadado a tudo, menos desaparecer das mentes e dos ouvidos dos espectadores. Com um acabamento menos sombrio do que o anterior Aos Abutres (2010), o projeto segue com a contribuição (necessária) de Marcelo Patu (baixo) e Marcos Xuxa (bateria), instrumentistas que auxiliaram a dupla inicial a alcançar um novo resultado dentro da estrutura antes limitada do projeto. Ainda dialogando com as mesmas pluralidades da música folk, indie e do country alternativo – encontros que em algum momento fluem como um misto entre Cass McCombs e Wilco -, a banda deixa o enclausuramento dos projetos passados para soar maior, não apenas na extensão do disco (o maior até aqui), mas na maneira como os instrumentos, os detalhamentos e principalmente os versos parecem se expandir no decorrer da obra.

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Otto

#49. Otto
The Moon 1111 (Independente)

Lançado com quase um ano de atraso e sob forte expectativa em relação ao trabalho anterior do músico pernambucano, The Moon 1111 parece brincar com o passado recente e as atuais referências que rondam a carreira de Otto. Visivelmente influenciado pela estética brega – proposta mais do que clara na regravação de A Noite Mais Linda do Mundo de Odair José -, o quinto registro em estúdio do ex-Mundo Livre S/A precisa de tempo até ser absorvido por completo. Se Certa Manha Acordei De Sonhos Intranquilos (2009) parecia se fechar em um cenário hermético e temperado pela dor (fruto de uma sucessão de perdas na vida do músico), com o presente trabalho Otto se materializa em propostas diversificadas, algumas movidas pelo rock (Ela Falava), outras por experimentalismos eletrônicos (Exu Parade), ritmos nacionais (The Moon 1111) e até instantes que parecem feitos para constranger os mais tímidos (DP). Independente das preferências exploradas no decorrer da obra, tudo se dissolve de maneira tão (ou mais) confessional quanto o último trabalho, como se o atual álbum fosse um recorte honesto e esquizofrônico da mente confusa de seu idealizador.

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Tom Zé

#48. Tom Zé
Tropicálica Lixo Lógico (Independente)

Uma mente que poucos conseguem acompanhar com facilidade, mas que fascina os que se dispõem a tentar entendê-la. “Explicar para confundir e confundir para esclarecer” é a missão de Tom Zé. Uma das peças-chave do movimento tropicalista, em Tropicalia Lixo Lógico o baiano explica-confunde a invasão do córtex cerebral pelo lixo lógico que deu origem a essa revolução cultural nos ano 60. Tom Zé recorre à fundamentos da filosofia, da história e até mesmo da neurologia, assessorado pelos estudos de Paulo Prado, Euclides da Cunha e Sérgio Buarque de Holanda que relacionam a origem mestiça e a confusão de influências com as características culturais e psicológicas do povo brasileiro, para explicar o nascimento da Tropicália. Por ser Tom Zé, a tese é na mesma medida complicada, absurda e fascinante. Segundo ele, o cérebro humano aloja, no hipotálamo, o que é desprezado pelo raciocínio primário da região principal de nosso cérebro, o córtex. O contato com o pensamento lógico ocidental (sacramentada na figura de Aristóteles) iniciado na creche faz com que as crianças (analfatóteles, os analfabetos em Aristóteles) abandonem o raciocínio nativo, de origem moura, oriental, que se transforma em uma matéria cerebral latente, armazenada no depósito de lixo do hipotálamo. Porém, uma vez ou outra, esse lixo lógico toma o lugar que lhe era de direito e se funde com o que já estava lá. Gabriel Picanço

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Impuro

#47. Impuro
Volume, 1 (Independente)

Ainda que bastem as rimas fortes e consistentes que residem em cada um dos trabalhos de nomes recentes do rap nacional – como Rashid, Projota, Xará entre outros – a simplicidade como é explorada a sonoridade de cada um desses álbuns deixa inevitavelmente a desejar. Talvez com exceção do último registro de Criolo (Nó na Orelha) e Emicida (Doozicabraba e a Revolução Silenciosa), de forma geral o flow melódico e bem elaborado dos rappers é o que acaba por decidir o rumo dos lançamentos, quase sempre trabalhados em cima de batidas convencionais, bases simples e samples raros que de fato garantam notoriedade ao trabalho. Interessante notar que mesmo dotado de poucos privilégios e fazendo uso do mesmo baixo orçamento que decide os rumos de qualquer registro do gênero, o paulistano Impuro alcança novo resultado dentro do primeiro álbum da carreira: Volume, 1 . Trabalhado de forma leve e acessível dentro de um pequeno grupo de composições, o álbum assume o mesmo eixo atrativo deixado por Projota em Não Há Lugar Melhor No Mundo Que o Nosso Lugar em 2011, substituindo a visão ampla (e com foco na crítica social) do paulistano para tratar da individualidade transferível. Dessa forma, mesmo versando sobre si próprio, o rapper vindo de Jundiaí converte todas as situações em recortes cotidianos que se encaixam na vida de qualquer ouvinte.

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Test

#46. Test
Árabe Macabre (Independente)

Tão sujo e agressivo quanto qualquer outro registro do gênero vindo de fora do país, o debut do duo Barata (D.E.R., Tri Lambda) e João Kombi (Are You God?) abre trincando os dentes do espectador, que logo na construção da inaugural faixa-título exprime sem grandes esforços um sentimento de desespero. Saia do conforto instrumental a que está habituado. Pelos próximos minutos o duelo constante entre as guitarras de Kombi e as batidas inexatas de Barata é tudo aquilo que você vai encontrar. Distantes de qualquer aproximação com o Sludge Metal – gênero que parece conquistar cada vez mais adeptos por todo o território nacional -, a dupla mantém na aceleração típica do hardcore e nos versos ásperos a força que movimenta os mais de 20 minutos do álbum – praticamente um EP. Nada de solos alongados, sobreposições climáticas ou vocais que parecem trabalhados de maneira “instrumental”, tão logo o disco tem início, vozes esquizofrênicas tomam de assalto cada provável fração do álbum, direcionando de forma descomunal a sequência de músicas que solidificam o resultado final da obra.

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Tereza

#45. Tereza
Vem Ser Artista Aqui Fora (Independente)

Contra todas as prováveis críticas e desentendimentos, Vem Ser Artista Aqui Fora, álbum de estreia do grupo carioca Tereza é um genuíno disco de música pop. Apenas isso. Partindo dessa proposta, o quinteto que um dia foi apaixonado pela mesma garota – a Tereza que dá título à banda – usa de toda a extensão do álbum para brincar com os versos, os ritmos e o encaixe doce das composições. Assumindo a mesma repetição de acordes e versos que tanto encanta na obra de bandas como Phoenix e Pasion Pit, o coletivo apresenta um trabalho leve e radiofônico, temática por vezes esquecida em trabalhos de apelo demasiado conceitual. Não espere passear pelo álbum em busca de composições que vão mudar a música brasileira. Do pop eletrônico de Sandau, passando pela melancolia nostálgica da litorânea Máquina Registradora, tudo no interior do disco é pensado de forma a divertir o público, sem compromissos. Dessa forma, não prezando pela seriedade o grupo alcança um tratado de fácil associação, radiante e capaz de prender o ouvinte até o último instante sem grandes dificuldades. Ouça, mas não se esqueça do filtro solar. 

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Kamau

#44. Kamau
Entre (Plano Áudio)

Entre é praticamente um convite para o universo de acertos e rimas fortes comandadas pelo paulistano Kamau. Sucessor do memorável Non Ducor Duco de 2008 – um dos registros mais importantes do hip-hop recente -, o novo álbum aperfeiçoa uma série de referências já bem delineadas pelo rapper, porém, agora entregues em uma solução que se divide entre a acessibilidade do comercial e o tom versátil do rap alternativo. Independente do percurso assumido no decorrer do álbum, o que não faltam são os já marcantes versos proferidos pelo paulistano, que alterna entre momentos de maior agressividade (Eu Quero Mais) e delineamentos que esbanjam sutileza (Lágrimas de Palhaço). Recheado por composições que se desprendem do circula pelo trabalho de outros conterrâneos, música após música o rapper solidifica sua presença como um dos grandes da cena brasileira, apresentando um trabalho que finaliza alguns elementos alicerçados em trabalhos anteriores, ao mesmo tempo em que antecipa muito do que deve redefinir o gênero pelos próximos anos.

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Mohandas

#43. Mohandas
Etnopop (Independente)

O pop, o rock e todos os ritmos tropicais (recentes e antigos) servem como instrumentos criativos nas mãos do grupo carioca Mohandas. Esqueça a explosão de cores e sons que vêm do Norte do país. Esqueça o resgate da Axé Music por alguns grupos mais “engraçadinhos” da cena independente. Faixa após faixa o coletivo se concentra na produção de uma sonoridade que mesmo banhada pelo bom humor (vide o despojo de Monkey Dance) representa com originalidade cada porção da nossa música – sem exageros ou apropriações inexatas. Imenso mosaico de distintas preferências musicais, o álbum passeia tanto por composições de fácil acesso (Saudades do Pará) como por verdadeiros épicos de puro ritmo e experimentação, vide o resgate de Milagreiro na climática Rasul. Ainda que próximo de uma infinidade de preferências sonoras (nacionais e estrangeiras) o mais curioso dentro da obra do grupo carioca é perceber o quanto referências tão comuns aos nossos ouvidos se transformam de maneira inédita nas mãos e vozes da banda. Um resultado capaz de agradar os recém-mergulhados na música nacional ao mesmo tempo em que parece confundir os ouvidos de indivíduos presos nas redundâncias da velha MPB.

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Lupe de Lupe

#42. Lupe de Lupe
Sal Grosso (Popfuzz)

Provavelmente um dos maiores erros do Shoegaze nacional – cada vez mais repetitivo e penoso – é ver como algumas bandas se acomodam em melodias desconstruídas de forma copiosa, acreditando que o simples ato de distorcer uma guitarra de maneira inaudível a torna inventiva, quiçá revolucionária. Atentos ao que reverbera no trabalho de bandas como Deerhunter e Wild Nothing, a banda mineira Lupe de Lupe traz nos versos em bom português uma dose extra de renovação e verdadeiro invento. Um suspiro ruidoso em meio ao cenário dominado por artistas quem insistem em cantar em inglês, brincando de ser My Bloody Valentine. Com o título forte de Sal Grosso, o quarteto de Belo Horizonte eleva o Noise a uma nova medida, acertando vez ou outra com o pop, sem parecer banal. Em meio ao florescer de distorções surge um conjunto harmônico de versos sólidos, construções líricas que estão longe das repetições do gênero e uma prova de que existe novidade, basta saber ao certo como aproveitar isso. E a Lupe de Lupe sabe muito bem como.

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Lemoskine

#41. Lemoskine
Toda a Casa Crua (Independente)

Diversas foram as transformações em torno da obra de Rodrigo Lemos nos últimos anos. Da extinta e praticamente desconhecida Poléxia aos holofotes da conhecidíssima A Banda Mais Bonita da Cidade, em cada novo projeto que se aventura, o cantor e compositor estabelecido em Curitiba deixa escorrer o lirismo de suas canções e a versatilidade instrumental que há tempos direciona sua obra. O que antes era traduzido como uma herança direta de Radiohead e Los Hermanos, hoje se anuncia em inventos próprios e por vezes incompreensíveis, quase sempre temperados pela saudade, o abandono e toda uma sucessão de declarações que parecem tingir o cotidiano do mundo adulto. Seja por meio do erotismo dilacerante de Nessa Mulher ou aconchegado na delicadeza confessional de Música de Novela, cada espaço de Toda a Casa Crua corresponde aos sonhos e desilusões mais íntimos de Lemos – ainda que muitos deles sejam facilmente absorvidos pelo ouvinte. Uma sucessão de memórias sorumbáticas que ocupam a simplicidade dos arranjos com versos da mais pura comoção.

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