Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2014 [10-01]

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#10. Transmissor
De lá não ando só (2014, Independente)

Há quem possa dizer que maturidade é uma experiência a ser conquistada por qualquer artista, lentamente. Décadas de atuação, formação em estúdio e eficiente domínio de palco nas apresentações ao vivo. Porém, em se tratando da banda mineira Transmissor, este suposto senso de maturidade sempre esteve presente, desde o primeiro disco, apenas adaptado a cada novo álbum. Distante das comparações com a banda carioca Los Hermanos – herança evidente no debut Sociedade do Crivo Mútuo (2008) -, e em um sentido de continuidade ao trabalho exposto em Nacional, de 2011, ao alcançar o terceiro registro em estúdio, o grupo de Belo Horizonte prova que mesmo dentro de uma discografia confortável, é possível se reinventar. Expansivo, ainda que atento ao aspecto tímido das canções que definem a estética da banda, De Lá Não Ando Só isola o sexteto mineiro em um cenário abastecido pelas referências e emanações explícitas de identidade. Como o álbum entregue há três anos já havia identificado, cada composição do grupo cresce com igual beleza em um ambiente propositalmente compacto e acolhedor. São versos que discutem relacionamento, atentam para a tristeza de seus compositores e usam de pequenas particularidades confessionais de forma a dialogar com o público. Um espaço em que a dor assertivamente se converte em melodia. [+]

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#09. Criolo
Convoque Seu Buda (2014, Oloko)

O som de uma corredeira dissolvido em meio ao canto dos pássaros. Instantes de serenidade. Em um ruído crescente, a interferência de passos acelerados. Pausa. Acompanhado do som metálico de uma espada, explode o agressivo grito de um guerreiro. Caos. Em uma representação precisa, quase visual, a “cena” que ocupa os segundos iniciais de Convoque Seu Buda parece resumir todo o cenário turbulento que Kleber Cavalcante Gomes, o Criolo, desenvolve ao longo da presente obra. Terceiro álbum de estúdio do rapper paulistano – o segundo desde que abandonou o título de “Doido” -, Convoque Seu Buda pode até seguir a trilha do antecessor, o elogiado Nó Na Orelha (2011), porém, está longe parecer uma cópia ou provável sequência. Do diálogo reformulado com a MPB de Gil e Caetano – vide o canto rimado em Pegue Pra Ela e arranjos de Plano de Voo -, passando pelo samba “político” em Fermento Pra Massa, Criolo parece redescobrir a própria essência. Musicalmente, um trabalho que esbarra em conceitos do disco anterior; em se tratando das rimas e temas explorados, um universo completamente novo. Do Grajaú ao bairro nobre de Jardins, Criolo passeia descritivo pela cidade de São Paulo. Longe de ser o personagem central da própria obra, conceito explorado no álbum anterior, o rapper assume agora o papel de observador, mergulhando em temas cotidianos. [+]

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#08. Séculos Apaixonados
Roupa Linda, Figura Fantasmagórica (2014, Balaclava)

Banda Séculos Apaixonados, a banda mais romântica do Rio“. Os versos que cortam o interior da faixa Um Totem do Amor Impossível são a base para o trabalho da carioca Séculos Apaixonados. Narrados por uma voz empostada, como um fragmento extraído de alguma rádio romântica da década de 1980, a cômica apresentação funciona como passagem para o refúgio caricato explorado pelo quinteto ao longo de todo o primeiro álbum de estúdio. Solos de saxofone facilmente encontrados nos primeiros discos do Kid Abelha, vocais indecifráveis e um estranho clima sensual que curiosamente prende o ouvinte. Ainda que seja impossível mergulhar e absorver cada fragmento lírico exaltado por Gabriel Guerra, toda a estrutura montada pelos parceiros Lucas de Paiva, Felipe Vellozo, Arthur Braganti, e João Pessanha encanta sem dificuldades. Como o estranho hábito de reviver o sofrimento de qualquer cantor romântico em busca da própria libertação sentimental, a estreia do coletivo é uma obra tomada por confissões tão particulares, quanto próprias do ouvinte. Rima brega em Punhos Da Perseverança (“Abra os braços / feche os portões / esculacho aceito / mas conversa não“), Peixe Peixão e sua tragicômica carta de amor (“…eu ainda sou o suplente de seu afeto“), o desespero instalado em Só no Masoquismo (“Eu sou um trem atrás de você”). Quando disse buscar inspiração em Waldick Soriano e outros nomes do romantismo brega, Gabriel Guerra não poderia ter sido mais honesto. [+]

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#07. Lupe de Lupe
Quarup (2014, Independente)

Quarup é uma obra imensa. São 21 canções inéditas e estruturalmente sujas, quase artesanais. Fragmentos divididos em atos curtos de dois ou três minutos – PKA Prefácio, Minha Cidade Em Ruínas -, até blocos extensos de ruídos densos, longas formações distorcidas capazes de ultrapassar os dez minutos de duração – Jurupari, Carnaval. Todavia, não são os 110 minutos do (ambicioso) registro que fazem dele a peça mais grandiosa já projetada pela mineira Lupe de Lupe. Em um cenário torto, “podre” e caótico, talvez o mesmo Reino de Minas Gerais desconstruído em Sal Grosso (2012), o quarteto lentamente expande os limites do próprio universo, desenvolvendo um dos retratos mais honestos da música (e sociedade) brasileira recente. Longe do romantismo melancólico que corrompe grande parte do rock nacional, cada segundo do álbum (duplo) ultrapassa os limites acolhedores do eu lírico de forma a explorar um cenário arquitetado em torno dos indivíduo – sejam eles personagens reais ou fictícios. Da declaração partidária/ideológico em O Futuro É Feminino (“Meu coração é brasileiro/ Pois o futuro é feminino/ Minha presidente é uma mulher“), ao descritivo ambiente desbravado no interior de Carnaval, Quarup é uma obra que se esquiva da comodidade óbvia do “amor” e “dor”, reforçando no uso de temas sociais um exercício provocativo, temperado pela crueza. [+]

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#06. Mombojó
Alexandre (2014, SLAP)

Não existem respostas dentro do universo instável de Alexandre (2014, Slap), quarto e mais novo registro de inéditas da pernambucana Mombojó. Impulsionado de forma explícita pela pergunta – “Are you sure?” -, o sucessor de Amigo do Tempo (2010) não apenas afasta o ouvinte do cenário triste do disco passado, como ainda amarra as pontas soltas do som inaugurado há uma década com NadadeNovo (2004). Arranjos corrompidos pela colagem de tendências, gêneros e influências, tudo se organiza de forma desconexa – como a capa do disco -, proposta confusa conceitualmente, mas que jamais exclui o raro comprometimento da banda em reinterpretar o pop. Encarado como uma obra “experimental” e de “improviso” dentro da trajetória do grupo, Alexandre – o nome é uma piada interna, como a forma que um antigo teclado falava “Are you sure?” – nada mais é do que uma sequência dos ensaios abandonados em Homem-Espuma (2006). Sufocado pela morte precoce do flautista Rafael Barbosa, além do “quase fim” do grupo, o álbum de 2010 se revela cada vez mais como uma fuga dos conceitos iniciais dos recifenses. Uma curva (ou pausa) temporária dentro do caminho excêntrico que volta a ser assumido logo nos primeiros segundos de Rebuliço, canção de abertura do presente álbum. Assertivamente festiva – como um single abortado da Copa do Mundo -, a música inaugural parece ser o princípio estético para o restante da obra: uma coleção de sintetizadores, ruídos, samples e vozes descompassadas que lentamente se encaixam, sem compromisso aparente. [+]

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#05. Alice Caymmi
Rainha dos Raios (2014, Joia Moderna)

O mar inquieto desbravado por Alice Caymmi durante o primeiro álbum de estúdio, de 2012, encontra agora seu estado de maior agitação. Em Rainha dos Raios, segundo trabalho solo da cantora e compositora carioca, todas as experiências – líricas e musicais – arrastam agora o espectador para um cenário de plena incerteza e constante transformação. Instável e senhora do próprio domínio, Alice rompe de forma decisiva com os laços da própria herança, deixando de ser encarada apenas como a “neta de Dorival Caymmi” para governar um universo inteiro dentro das próprias imposições. Imenso registro de possibilidades, a obra “em louvor” à Iansã – a orixá das tempestades – logo se converte em um registro de incorporação. Das vozes fortes tomadas pela androginia ao uso versos provocados pelo incerteza de gênero do eu-lírico, quem passeia com liberdade pelo disco não é Alice, mas as diferentes entidades que temporariamente invadem o corpo (e voz) da artista. Contrariando a força autoral do primeiro disco – rompida apenas na regravações de Unravel de Björk e Sargaço Mar do próprio avô -, aqui Alice é Caetano Veloso (Homem), Maysa (Meu Mundo Caiu), MC Marcinho (Princesa) e até uma versão transformada dela mesma (Antes de Tudo). Mesmo quando se encontra com o hitmaker Michael Sullivan em Meu Recado, Caymmi está longe de repetir a mesma “personagem” exaltada no álbum de estreia. Rostos, vozes e papéis que se confundem sem deixar de ditar a direção (incerta) a ser seguida pelo ouvinte no decorrer do trabalho. [+]

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#04. ruído/mm
Rasura (2014, Sinewave)

Grandes discos sempre vêm acompanhados de boas histórias. Um caso de amor não resolvido, a iminente separação entre os integrantes de uma banda, viagens e distúrbios lisérgicos ou apenas frágeis acontecimentos mundanos. Cenas vistas da janela de um apartamento ou mergulhadas no fundo de um copo de cerveja. Em Rasura, quarto disco de estúdio da curitibana ruído/mm, de um jeito ou de outro, todas essas histórias parecem se encontrar. Naturalmente esquivo de palavras, o grupo explora o mesmo artifício dos antecessores A Praia (2008) e Introdução à Cortina do Sótão (2011), dialogando com o ouvinte por meio dos arranjos e melodias sempre versáteis. Ainda que subjetivo em razão da lírica “imaginária” de cada composição, como a capa do álbum indica, Rasura é uma obra projetada em um ambiente épico, quase cênico. Uma donzela em apuros, naves espaciais, guerreiros, planetas e paisagens pós-apocalípticas. Um cenário delineado, porém, aberto à interpretação e complemento do próprio ouvinte. Uma vez transportado para dentro esse universo de histórias e cenas marcadas, não é difícil perceber o alinhamento preciso dos instrumentos em cada canção. Trata-se do registro mais direto e menos contemplativo já apresentado pelo grupo paranaense. Ainda que a inaugural Bandon cresça em um borbulhar de distorções tímidas, todo o restante da obra segue em uma corredeira intensa. Guitarras loucas em Cromaqui, ruídos ascendentes na “pacata” Transibéria e a completa ausência de controle na fragmentada Filete. Se existem histórias ao fundo de cada faixa, a tensão é constante. [+]

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#03. Silva
Vista Pro Mar (2014, SLAP)

Bastam os instantes iniciais de Vista Pro Mar, segundo álbum de estúdio do capixaba Silva, para perceber que os rumos do artista agora são outros. “Eu sou de remar/ Sou de insistir/ Mesmo que sozinho”. Como bem entregam os versos da autointitulada faixa de abertura, o cantor e compositor contorna a própria timidez do álbum de estreia, Claridão (2012), em busca de uma sonoridade abrangente, ainda que intimista e naturalmente particular. Um eco entre a melancolia (agora ensolarada) e o constante diálogo com o público, exercício que ultrapassa os limites da poesia sorumbática, mergulha nos arranjos versáteis e cresce como um genuíno cardápio da música pop. Como já havia confessado em entrevista, “Vista Pro Mar foi feito num momento diferente”, trata-se de um trabalho que nasceu na “Flórida com dias ensolarados, numa piscina, de férias, vendo gente bonita, ouvindo Poolside, João Donato, Cashmere Cat e Frank Ocean”. Dentro desse novo conjunto de referências, Silva apresenta ao público um álbum que emula sensações litorâneas, premissa instalada nos samples de ondas e ruídos praianos que preenchem todo o álbum. Veranil, o disco usa dessa mesma sensação nostálgica como um mecanismo de composição para as faixas. Um estágio permanente que se divide entre a calmaria atual e a sensação de despedida que aos poucos se aproxima e rege a ambientação lírica das faixas. Por vezes contradizendo o estágio de euforia anunciado pelo próprio criador, o novo álbum se apresenta como um mosaico de delicadas sensações – algumas felizes, outras naturalmente tristes. Um trabalho que sorri de forma evidente, mas amarga (de maneira quase inevitável) a futura separação. [+]

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#02. Juçara Marçal
Encarnado (2014, Independente)

Vida e morte se entrelaçam no universo em formação de Encarnado. Primeiro trabalho solo da cantora paulistana Juçara Marçal, o registro desconstrói a performance lançada pela artista desde o começo dos anos 1990, renascendo para o novo público com uma completa iniciante. Ainda que protegida pelas cinzas da própria discografia – incluem quatro discos com o grupo Vésper; dois com o A Barca; Padê (2007) ao lado de Kiko Dinucci e mais dois com o Metá Meta, parceria entre ela, Dinucci e Thiago França -, é no embrião sombrio do novo disco que Marçal se revela de fato, brincando com a morte e estabelecendo de vez o próprio território. Pontuado pela aura de retrospecto, o disco vai além de um condensado sóbrio de versões ou mesmo músicas que nasceram da interferência vocal da cantora. Trata-se de um disco que revela Marçal em essência, uma aficionada pela Vanguarda Paulista e uma mente inclinada a perverter o conforto tradicional da velha MPB. Ruídos, caos, desordem e imposição, tudo funciona como com combustível para o motor cênico esbanjado pela cantora, que atravessa de forma inteligente o mesmo cenário instável lançado há dois anos, em Metal Metal (2014). “Não diga que estamos morrendo/ Hoje não”. Tendo na inaugural Velho Amarelo, faixa assinada por Rodrigo Campos, o princípio de composição para o restante da obra, Marçal visita um conjunto de temas que encontra na morte e nos elementos ao redor dela o principal suplemento do trabalho. [+]

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#01. Carne Doce
Carne Doce (2014, Independente)

Sertão e cidade. Delicadeza e selvageria. Doce e salgado. No universo particular da banda Carne Doce, os contrastes vão muito além do nome/receita que representa o coletivo. Fruto da interação entre o casal Salma Jô e Macloys Aquino, o grupo nascido na cidade de Goiânia em 2012, há muito parece distante do tom confessional emoldurado nas canções de Dos Namorados EP (2013). Longe dos sussurros românticos e temas explorados no curto álbum, a dupla goiana, hoje acompanhada de João Victor Santana, Ricardo Machado e Aderson Maia, deixa de lado o próprio isolamento para tratar do primeiro álbum de estúdio como um mundo aberto. Um imenso cenário em que vozes, arranjos e temas dicotômicos se cruzam com naturalidade, prontos para seduzir o ouvinte.

Da mesma árvore que As Plantas Que Curam (2013), disco de estreia do grupo conterrâneo Boogarins, o homônimo álbum usa do passado como uma ferramenta de natural diálogo com o presente. Da voz instável de Salma Jô, íntima de Gal Costa no clássico Fa-Tal – Gal a Todo Vapor (1971), passando pelo acervo de fórmulas que ressuscitam Secos e Molhados (Passivo), Novos Baianos (Fruta Elétrica) e Clube da Esquina (Amigo dos Bichos), cada peça do registro é uma essencial brecha nostálgica. Velho e novo. Recortes e referências que em nada ocultam as próprias imposições da banda. Exemplo convincente disso mora nos versos explorados pela vocalista ao longo do trabalho – peças atrativas pelo parcial ineditismo dos temas. Discussões culturais/sociais logo na inaugural Idéia (“Gente que troca mas por mais“); referências bucólicas em Sertão Urbano (“O progresso é mato“) e Amigo dos Bichos (“E vai ter que morar no alto da mangueira”); sexo (explícito) em Passivo (“Vem Me Fuder“) e todo um arsenal que escapa da despretensão carioca ou do sentimentalismo plástico da cena paulistana. Mesmo o romantismo enquadrado em Canção de Amor, Fetiche e Benzin parecem distantes do óbvio em se tratando de outras obras próximas. Se existem receitas e fórmulas prontas, nas mãos do grupo, tudo é desconstruído. [+]

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