Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2014 [20-11]

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#20. Pousatigres
Mais um Pedaço Meu (2014, Independente)

De todos os elementos que separam a presente geração de artistas brasileiros daqueles que surgiram na última década, a interpretação do pop e a forma como as melodias hoje são estruturadas talvez seja a mais latente. Salvo o trabalho de nomes como Silva e Mahmundi, é evidente o “receio” como algumas bandas desenvolvem as próprias harmonias e versos. Uma sensação de medo em parecer acessível, feito “para as massas”, postura inexistente no som de veteranos como Ludov, Wonkavision, Video Hits e demais artistas centrados (de uma forma ou outra) em abraçar o grande público. Nada poderia ser mais satisfatório do que encontrar em Mais um Pedaço Meu, registro da Pousatigres, o mesmo “compromisso” musical ressaltado na geração passada. Doce e carregado de referências tão presentes quanto nostálgicas, o trabalho curto engata em uma sucessão de vozes, arranjos e harmonias feitas para grudar no cérebro do ouvinte. Uma aproximação coerente entre pop e rock que há muito parecia abandonado em solo nacional. Com naturalidade, o pop empoeirado dos Beach Boys encontra Rumors (1977) do Fleetwood Mac, vocalizações típicas da Jovem Guarda esbarram no rock alternativo dos anos 1990, e todo um universo de tendências aos poucos parecem dançar de acordo com o ritmo imposto pela banda. [+]

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#19. Matheus Mota
Almejão (2014, Independente)

O cenário nonsense/psicodélico retratado na capa de Almejão diz muito sobre o trabalho de Matheus Mota ao longo de todas as canções do registro. Partindo de um de explícito reforço ao material apresentado em 2012, com o álbum Desenho, o músico pernambucano transforma cada peça do trabalho em um exercício de experimento autoral, ainda que facilmente partilhado com o ouvinte. São faixas conduzidas por versos melancólicos, irônicos ou mesmo oníricos, como se Mota aos poucos ambientasse o ouvinte ao ambiente místico que cresce em sua cabeça. Vozes tortas encontram arranjos inspirados na música popular dos anos 1970, experimento, improviso e sutileza. Elementos que parecem atravessar o plano erudito, passeiam pela música pop e, lentamente, são distorcidos pela estética particular do músico, acolhedor nos versos de Algo Me Diz e Rua das Creoulas, duas das peças mais delicadas do trabalho. A ser apreciado sem pressa, Almejão cresce como um paraíso isolado, um refúgio onde e experiências retratadas pelo músico aos poucos se convertem em experiências particulares do próprio ouvinte. [+]

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#18. M. Takara
Mundotigre (2014, Desmonta)

Quem já experimentou qualquer registro em estúdio – ou apresentação ao vivo – de Maurício Takara sabe da “incerteza” que ronda o trabalho do músico/produtor. Seja na extensa discografia ao lado dos parceiros da Hurtmold, ou mesmo em projetos paralelos, caso do São Paulo Underground, a pluralidade de temas, gêneros e sonoridades sempre frescas prevalece como uma dinâmica ferramenta criativa para o artista, por ora voltado à sutileza eletrônica de Mundotigre. Mais recente projeto solo do músico, o álbum lançado pelo selo Desmonta é uma obra que se divide com naturalidade entre a expansão e o isolamento quando comparada com outros trabalhos de Takara. Ao mesmo tempo em que abraça o som jazzístico lançado há uma década no primeiro disco solo, grande parte dos ensaios sintéticos do novo álbum revelam uma sonoridade quase oculta na obra produtor, voltado à eletrônica apenas no ambiente hermético do disco Conta, de 2007. Observado com bastante atenção, grande parte dos conceitos lançados em Mundotigre ainda são os mesmos do trabalho apresentado há sete anos. Ruídos eletrônicos aprisionados em loops tímidos (Portão), bases minimalistas acumuladas em pequenas doses de eco (Aaawww), além do uso detalhado e naturalmente incerto das batidas (Pra tnick poder dançar), preferência que reforça a completa maturidade e desafios autorais lançados pelo próprio Takara quanto baterista. [+]

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#17. Russo Passapusso
Paraíso da Miragem (2014, Independente)

Não é preciso muito esforço para perceber todas as nuances e referências que compõem o plano de Russo Passapusso em Paraíso da Miragem. Uma pitada de Novos Baianos na faixa Areia, diálogos com o Rock dos anos 1970 em Remédio, tropeços pelo samba em Sangue do Brasil e Flor de Plástico, além de toda uma sobrecarga de emanações densas, quase letárgicas, típicas do Dub robótico já incorporado pelo artista baiano ao lado dos parceiros do BaianaSystem. De forma simples, um amontoado de texturas e sons talvez previsíveis quando voltamos para faixas como Calandu e Magnata – esta última com os parceiros do Bemba Trio -, mas que encontram um formato “inusitado” em meio ao conjunto de novas imposições do cantor. Do uso de falsetes em músicas aos moldes de Flor de Plástico – estrutura já “criticada” pelo público, como apontou em entrevista -, passando pela coleção de melodias cada vez mais delicadas, a estreia solo de Passapusso é uma obra a ser observada de forma atenta, sutil, coletando cada ruído doce reinterpretada pelo artista. Ainda que exposto dentro do mesmo contexto tecido nos projetos paralelos de Passapusso, Paraíso da Miragem é um disco que cresce a partir de em uma rápida curva de possibilidades. [+]

 

#16. Banda do Mar
Banda do Mar (2014, Zé Pereira)

É difícil não ser convencido pelo primeiro álbum da Banda do Mar. Projeto paralelo do casal Mallu Magalhães e Marcelo Camelo, o disco lançado em parceria com o português Fred Ferreira cresce como uma tapeçaria de sons cantaroláveis, raros e capazes de cruzar o Atlântico com velocidade, invadindo a mente do ouvinte sem grandes bloqueios. Mesmo incapaz de lançar um material verdadeiramente novo – trata-se de uma adaptação do arsenal testado em Ventura (2003) do Los Hermanos, gracejos pop vindos de Pitanga (2011) com uma pitada de Surf Music -, cada curva do disco luso-brasileiro encanta pelo tratamento dos arranjos e a forma honesta dada aos versos, formato que se estende e acompanha o ouvinte até o ecoar da última faixa. Composto e gravado em Portugal – país adotado por Camelo e Magalhães desde 2013 -, o trabalho de essência radiante não oculta a seriedade dos próprios temas, postura explícita no caráter “libertador” carimbado em cada canção. Da expressão declamada em Me Sinto Ótima – quase uma “faixa irmã” de Velha e Louca -, ao inaugurar do disco com Cidade Nova – “Eu não deixo o tempo parar” -, todas as dobras do álbum soam como uma resposta sorridente aos que não acreditavam na união do casal de músicos, no afastamento de Camelo do Los Hermanos, ou na capacidade da cantora em crescer além do Folk pueril dos primeiros anos. Nada de rancor, apenas sorrisos. [+]

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#15. Kalouv
Pluvero (2014, Sinewave)

Se a maturidade um dia chega para qualquer artista, em se tratando do grupo pernambucano Kalouv ela não custou a florescer. Três anos depois de delimitar as próprias referências em Sky Swimmer (2011), registro de estreia do quinteto de Recife, Pluvero arremessa a banda para um cenário ainda mais amplo de possibilidades e doces essências instrumentais. Conduzido pela leveza e aglutinando pequenas gotas de chuva instrumentais, o novo álbum é a passagem direta para um cenário definido em totalidade pela banda, mas (ainda) deliciosamente inédito para os seguidores do grupo. Dissolvido em pequenas frações isoladas, o registro encontra no hermetismo próprio de cada composição um universo abrangente para seus criadores. São tramas jazzísticas, pigmentos típicos do pós-rock e todo um catálogo de emanações atmosféricas que parecem feitas para confortar o espectador. Como um respiro profundo antes da agitação, Pluvero coleciona ruídos, absorve diferentes texturas e trata de distintas décadas musicais sem fugir da minucia que já parecia instalada no álbum de estreia do grupo. Aqui são os sons que orquestram o ouvinte, ditando uma medida de tempo que se desenrola com total particularidade. Construído ao longo de dois anos – o processo de gravação teve início em 2012 -, o trabalho encontra na leveza das formas um senso de particularidade.

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#14. Isaar
Todo Calor (2014, Independente)

Passadas duas décadas desde que Da Lama ao Caos, de Chico Science e Nação Zumbi, e Samba Esquema Noise, do Mundo Livre S/A, abriram oficialmente as portas da música pernambucana, a herança do Mangue Beat ainda reverbera em um estágio de invento e plena imposição cultural. Íntima da própria essência, porém, cada vez mais próxima do pop – em um sentido de diálogo atento com o público médio -, a recifense Isaar (ex-Comadre Fulozinha) traça com a chegada do segundo álbum solo um cenário de profunda transformação, mas que em momento algum se esquiva das canções de fácil apelo. Valendo o título de Todo Calor, o sucessor do doce Copo de Espuma (2009) é mais do que um simples exercício de criação, mas uma obra quente, que impõem as próprias preferências da artista. Orquestrado com segurança pela voz flexível da cantora, o álbum se acomoda em uma sequência de canções de amor, versos de fluxo cotidiano e faixas que absorvem a cultura de Recife. Uma natural extensão do exercício proposto há cinco anos, mas uma obra que, acima de tudo, se comunica de forma estável com o ouvinte. Tendo na inaugural Nunca mais Desapareça, canção de abertura da obra, um fio condutor para o restante do trabalho, Isaar se acomoda em uma coleção de versos cíclicos, feitos para estabelecer morada rápida na mente do espectador.

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#13. Câmera
Mountain Tops (2014, Balaclava)

Guitarras tecidas delicadamente, vocal sutil e bateria encaixada com precisão. De fato, não é difícil se perder pelas melodias e arranjos hipnóticos de Mountain Tops. Álbum de estreia da banda mineira Câmara, o brando registro cresce como nítida sequência ao trabalho iniciado pelo grupo com os primeiros EPs, Invisible Houses e Not Tourist, ambos de 2011. Uma coleção melancólica de texturas instrumentais, sussurros românticos e composições que refletem acolhimento. Mesclando timidez e descoberta, o grupo formado por André Travassos, Bruno Faleiro, Matheus Fleming e Henrique Cunha resume logo em Random, instrumental faixa de abertura, toda a estrutura que rege o disco. Aqui não há pressa, exagero ou qualquer traço de grandiosidade. Em um ambiente sereno e convidativo, guitarras abrem espaço para os vocais, ruídos encontram conforto ao fundo das batidas e confissões são detalhadas lentamente. Se Mountain Tops é um lugar, como o título e a capa do trabalho indicam, cada faixa funciona como uma minuciosa descrição desse cenário. Embora íntimo do mesmo arsenal de referências e temas compactos explorados nos dois primeiros EPs, basta um rápido mergulho em faixas como Lost Cause, I Surrender! e Hypnosis para perceber a nova sonoridade incorporada pelo quarteto. Salve exceções, caso da enérgica Time Will em Invisible Houses, grande parte do acervo inicial do grupo parecia sufocar pelo controle abusivo dos instrumentos e vozes, implodindo em meio a atos atmosféricos quase claustrofóbicos. A julgar pelo abrigo criado em House of the Holy Sins, talvez a banda estivesse mesmo em busca de isolamento. [+]

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#12. Cadu Tenório
Vozes / Banquete (2014, Independente)

Cadu Tenório nunca pareceu tão liberto quanto nos últimos meses. Salve o ambiente nostálgico e naturalmente sujo exposto em Cassettes (2014), toda a sequência de obras apresentadas pelo músico carioca passeou por entre gêneros e abraçou o rótulo experimental, típico do artista, com evidente maturidade – talvez maior até do que ao lado dos parceiros do Sobre a Máquina. Entre os registros de maior destaque: Vozes e Banquete. Para o primeiro, Tenório se concentrou no uso de ambientações minimalistas, bases eletrônicas e pequenas variações centradas no uso da voz, princípio para uma inevitável comunicação com a obra de Aphex Twin, Oneohtrix Point Never e outros gigantes do gênero. Em Banquete, trabalho desenvolvido em parceria com Márcio Bulk, o músico tece estranhas melodias para os versos assinados pelo colaborador. Para os vocais, a interferência de Alice Caymmi, Bruno Cosentino, César Lacerda, Lívia Nestrovski e Michele Leal, responsáveis por abastecer de forma acessível o material antes “limitado” de Tenório. A julgar pelo som ruidoso produzido pelo músico até o ano de 2013, cada peça soa como um minucioso exercício de filtragem e reforço criativo.

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#11. Rubinho Jacobina
Andando no Ar (2014, Joia Moderna)

Os versos instalados na faixa de abertura de Andando no Ar parecem definir o esforço e também a direção assumida por Rubinho Jacobina ao longo de todo o registro. “Na hora de ter calma, você tem pressa / Na hora de ter pressa, você tem calma“, despeja o músico em um jogo de guitarras frenéticas e sujas, praticamente uma oposição em relação ao tempo de finalização do registro. Originalmente gravado em 2010, durante quatro sessões produzidas por Moreno Veloso e Pedro Sá, o registro levou quatro anos a té ser (finalmente) apresentado pelo selo Joia Moderna. Dentro desse jogo de pequenos constrastes, ora acelerado, ora pacato, o artista lentamente expande e brinca com os conceitos levantados no debut Rubinho Jacobina e a Força Bruta, de 2005. De um lado, a manipulação acelerada dos vocais e arranjos, princípio para o material que sustenta a irônica Meio Tom ou mesmo a carnavalesca Marcha Lúbrica. No outro lado, a leveza de Virei Passarinho e Cidadezinha Qualquer, músicas que invadem o mesmo território delineado pela Orquestra Imperial, projeto do qual faz parte. Ainda que contrastado, um álbum que parece fluir assertivamente, em uma medida própria de tempo.

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