Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2014 [30-21]

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#30. Ludov
Miragem (2014, Independente)

Há pouco mais de uma década, quando o EP Dois a Rodar (2003) e o clipe de Princesa apresentaram o trabalho da paulistana Ludov, a esperança e o romantismo jovial dos versos pareciam guiar cada instante da recém-inaugurada banda. Longe das canções em inglês apresentadas pelo Maybees, grupo que serviu de alicerce para a coletivo, Vanessa Krongold, Habacuque Lima, Paulo “Chapolin” e Mauro Motoki assumiram sorrisos mesmo nos instantes de maior melancolia, percepção que desaparece de vez ao entrarmos no ambiente escuro e essencialmente sóbrio de Miragem. Quarto álbum de estúdio dos hoje veteranos da cena paulistana, o presente álbum parece seguir a direção apontada há sete anos em Disco Paralelo (2007). Vendo o mundo sob os olhos da personagem central da faixa Rubi – “Meus olhos ainda/ eram diamante/ Já chorei à beça/ de hoje em diante/ viraram rubi” -, o registro é uma tentativa de superar a própria melancolia do passado, mesmo sem saber ao certo o que será encontrado logo em frente. Da dúvida em Cuida da Casa, ao desejo de mudança exposto em Reparação, seguir em frente é o princípio de ordem dentro de todo o trabalho, experiência que está longe de ser interpretada com real aceitação. [+]

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#29. Dunas
Boas-Vindas EP | Incenso/Acenso (2014, Independente)

Ruídos controlados, bases orquestrais, temas desconstruídos e vozes econômicas – sempre costuradas de forma instrumental. Lidando com grãos de areia lentamente sobrepostos, o grupo curitibano Dunas segue em busca de um domínio próprio, delineando um ambiente autoral dentro da crescente cena do Pós-Rock nacional. Embora curta, a produção assinada ao longo do ano por Francisco Bley (vocal e guitarra), Gabriel França (baixo), Guilherme Nunes (guitarra) e Lorenzo Molossi (bateria) não custa a seduzir, arrastando o ouvinte para dentro de um plano marcado por formas flutuantes, evidente detalhe e profunda melancolia na construção dos versos. De um lado, os quatro atos improvisados de Boas-Vindas EP, delicado cartão de visitas gravado ao vivo, “sem overdubs ou pós-produção”. No outro oposto, reforçando uma crescente e detalhada exposição de maturidade, a dobradinha Incenso / Acenso, músicas complementares que resumem a essência do quarteto paranaense, esbarram em referências declaradas – como Sigur Rós e a conterrânea ruído/mm – e ainda confortam o espectador em um labirinto de constantes rupturas instrumentais.

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#28. Nego E
Autorretrato (2014, Independente)

Em frente / Avante / Enfrente / Avance“. A lírica clara na música de abertura de Autorretrato resume o posicionamento decidido de Nego E ao longo de todo o registro. Em um exercício coeso, o rapper paulistano assume com o primeiro álbum de estúdio uma completa transformação do material acumulado nos últimos seis anos de carreira. Uma espécie de síntese natural dos temas condensados em três EPs bem sucedidos – Egresso, Doze do Seis e Reconstrução -, além da mixtape Os Planos, lançada em 2012 ao lado de Green Alien. Em meio a temas que atravessam a periferia paulistana, discutem racismo, drogas, criminalidade e diferentes personagens, Nego E se transforma em um protagonista involuntário da própria obra, carregando na produção Tico Pro e DJ Duh faixas tão acessíveis musicalmente, como completas pelo discurso preciso costurado até o último ato do trabalho. Ao lado do paulistano, um time completo por nomes como Curumin e Max B.O. (Anti-Herói), Jean Dolabella e Tássia Reis (Vegas), além de toda uma soma de produtores, vozes de apoio e instrumentistas, responsáveis por ampliar ainda mais o “álbum de fotos expresso em música” que sustenta o conceito do disco.

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#27. Terno Rei
Vigília (2014, Balaclava Records)

Vigília: s.f. Privação (voluntária ou involuntária) do sono durante a noite: longas noites de vigília prejudicam a saúde. / Estado de quem se conserva desperto durante a noite. / Véspera de dia festivo. É preciso tempo até ser inteiramente seduzido pelo ambiente instável que a paulistana Terno Rei sustenta em Vigília. E não é por menos. Do momento em que lisérgica Manga Rosa abre o registro, até a chegada de Saudade, composição escolhida para o encerramento da obra, cada faixa, voz, ritmo e sentimento expresso pelo quinteto – Bruno Rodrigues (Guitarra), Gregui Vinha (Guitarra), Luis Cardoso (Bateria), Victor Souza (Percussão) e Ale (Voz e Baixo) -, ecoa estranheza. Como um labirinto instável que movimenta lentamente suas paredes, o trabalho de 10 faixas arrasta com o ouvinte para um universo de brandas, porém, constantes inquietações. Os vocais chegam como suspiros, as guitarras borbulham pequenos ruídos, deixando aos versos um flutuar proposital entre o nonsense e o sorumbático. Não seria um erro deduzir que tudo o que os integrantes da banda procuram é o isolamento em relação ao público médio, efeito das maquinações preguiçosas (ainda que complexas) que sussurram a ordem do disco. [+]

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#26. Pipo Pegoraro
Mergulhar, Mergulhei (2014, YB Music)

Difícil encarar Mergulhar, Mergulhei como um registro solo de Pipo Pegoraro. Terceiro e mais recente invento “individual” do músico paulistano, o trabalho de 10 faixas rápidas cresce como um constante cruzar de referências autorais e emprestadas. Coluna vertebral do registro, o também autor de Intro (2008) e Taxi Imã (2011) faz do trabalho um amplo espaço criativo; um território em que diferentes épocas, gêneros e nomes ativos da música brasileira possam borbulhar pelas composições – peças tão próprias do cantor, quanto partilhadas entre os diferentes convidados. Em uma sequência exata ao material lançado há três anos, Pegoraro assume logo na inaugural Aiye a coesa relação entre os sons nacionais e arranjos emprestados da música africana. Instrumental, a música de cinco minutos funciona como um coeso resumo de toda a composição do álbum – sempre marcado por improvisos, bruscas adaptações orquestrais e a constante leveza no andamento das melodias. Uma sensação de olhar para o mesmo material de Taxi Imã, porém, em um ângulo totalmente inédito. [+]

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#25. Sants
Noite Ilustrada (2014, Beatwise Recordings)

Um passeio pela Augusta. Festa em algum beco escuro da República. Discotecagem três da manhã em Pinheiros. Comer alguma coisa em qualquer boteco e depois esperar pela abertura do metrô, sentado na Paulista – de preferência, em algum canto próximo ao Center 3. A vida noturna em São Paulo, mesmo com suas particularidades, é como o ambiente musicalmente descrito por Sants em Noite Ilustrada. Mais recente invento do produtor paulistano, o presente álbum é uma fina definição dos exageros, clichês e elementos típicos da cena que invade prédios e ocupa inferninhos na metrópole cinza. Diferente dos dois últimos lançamentos de Sants – Soundies! e Low Moods -, o novo álbum revela o lado mais autoral e instrumentalmente versátil do produtor. Mais do que uma soma aleatória de samples e transições referenciais – capazes de unir Flying Lotus, AraabMuzik e Burial em um mesmo universo temático -, o registro autoriza com ineditismo a inclusão de elementos orgânicos, como guitarras (Comuna), cantos, monólogos (Augusta) e, principalmente, as rimas que se apoderam da assertiva Madrugada – parceria do produtor com a dupla Estranho & ElMandarim e a faixa mais versátil do artista até aqui. [+]

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#24. Romulo Fróes
Barulho Feio (2014, YB Music)

Em uma transposição lenta, porém, expressiva, Romulo Fróes aos poucos se desprende das cores e, principalmente, temas exaltados no extenso No Chão Sem O Chão (2009). Confortável no mesmo ambiente cinza e introspectivo reforçado em Um Labirinto Em Cada Pé, de 2011, o paulistano encontra nos ruídos e vocais sutis de Barulho Feio uma delicada expansão dos próprios domínios, estreitando laços com os diferentes projetos paralelos assumidos nos últimos anos. Travessia atenta pelo centro de São Paulo, o quinto registro solo do cantor soa como uma extensão do material ampliado em Passo Elétrico, álbum de 2013 ao lado dos integrantes da Passo Torto. Não por acaso, a presença de Marcelo Cabral e Thiago França – parceiros de banda – se faz evidente durante toda a formação do álbum. Sobram ainda as guitarras sujas de Guilherme Held, presente em toda a formação do registro; o violão de Rodrigo Campos, além da voz forte de Juçara Marçal – em Espera -, responsáveis por completar as pequenas lacunas e texturas do ambiente em branco e preto que Fróes (agora) busca detalhar.

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#23. O Terno
O Terno (2014, Independente)

Um salto. Da sonoridade nostálgica lançada em 66 (2012), registro de estreia da paulistana O Terno, pouco parece ter sobrevivido. Mesmo que a relação do trio formado por Tim Bernardes (Guitarra/Voz), Guilherme d’Almeida (Baixo) e Victor Chaves (Bateria) com o rock dos anos 1960/1970 seja a mesma do primeiro disco, basta observar a formação dos novos versos e arranjos para perceber a completa alteração na proposta da banda. O “passado”, antes interpretado como fonte temática, agora se converte em estímulo, mantendo fixo o diálogo com o presente de forma a ampliar o território musical incorporado em cada composição. Livre do aspecto “caricatural” de faixas como Eu Não Preciso de Ninguém e 66, o presente álbum é uma obra que se movimenta de maneira curiosa – orquestrada por instantes vívidos de exploração conceitual. Quem esperava por um trabalho linear, mergulhada no ambiente cru do single Tic-Tac / Harmonium (2013), ou talvez partidário do mesmo som homogêneo lançado no debut, logo vai perceber na abertura do registro a singularidade que “organiza” cada ato instável assinado pelo trio. Em um sentido de descoberta – ou talvez construção – da própria identidade, Bernardes e os parceiros de banda escapam com sutileza da ironia explorada no álbum de estreia, projetando confissão de forma a transformar cada música em um objeto de natural interação com o ouvinte. [+]

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#22. Racionais MC’s
Cores e Valores (2014, Cosa Nostra)

A sensação de estranheza é inevitável durante as primeiras audições de Cores e Valores. Batidas eletrônicas secas, versos orientados em uma estrutura cíclica, por vezes limitada, e uma nítida atmosfera de distanciamento lírico fazem do sexto registro em estúdio do Racionais MC’s a obra mais particular (quase isolada) já composta pelo quarteto paulistano. A julgar pela base que representa a faixa de abertura, uma variação de Royals da cantora Lorde, não seria um erro afirmar que a essência projetada pelo grupo – Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay – durante mais de duas décadas foi desconstruída. Passados 12 anos desde o lançamento de Nada como um Dia após o Outro Dia, em outubro de 2002, é necessário perguntar: o que você esperava de um novo álbum do Racionais? Composições extensas discutindo os problemas da periferia? Emicida, Rael e Ogi investiram nos mesmos conceitos recentemente. Faixas discutindo criminalidade, drogas e racismo? Projota, Karol Conká, Rashid, Criolo e tantos outros assumiram essa “função”. Há uma década, quando o grupo entrou em hiato, não apenas o espaço concedido ao Hip-Hop era diferente, talvez limitado, como a própria situação econômica, social e cultural do país era completamente outra. Jogar com regras antigas é parte de uma obrigação natural para qualquer artista veterano? Não para os Racionais.

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#21. Huey
Ace (2014, Sinewave)

O principal erro de grande parte das bandas brasileiras de Stoner Rock/Metal Alternativo está na necessidade em imitar o trabalho de uma série de artistas estrangeiros, sem necessariamente acrescentar nada de novo ao próprio trabalho. Obras que tropeçam no óbvio, brincam com experiências há muito consolidadas por uma série de grupos veteranos e que acabam (naturalmente) caindo no esquecimento sem qualquer dificuldade. Este é um erro que a paulistana Huey não apenas evita no primeiro registro de estúdio, o intenso ACE, como ainda consegue ir além. Embalado de forma evidente por uma atmosfera de “disco estrangeiro”, o debut assinado por Rato (Bateria), Dane El (Guitarra), Vina (Guitarra), Minoru (Guitarra) e Vellozo (Baixo) está longe de se afogar no mesmo mar de repetições de outras obras próximas. Trata-se de um disco que busca estabelecer terreno – e certa dose de identidade – em um universo onde muito já foi feito. Ainda que seguir a trilha de Isis, Cult of Luna e outros nomes do Pós-Metal / Metal Instrumental pareça ser o caminho mais seguro para qualquer artista iniciante, é no explorar das próprias possibilidades que o grupo conquista verdadeiro espaço. [+]

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