Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2014 [50-41]

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#50. Moreno Veloso
Coisa Boa (2014, Disco Maravilha)

A voz doce, os arranjos sempre econômicos e versos tomados pela nostalgia logo entregam: Moreno Veloso está em casa. Mais de uma década desde o lançamento do álbum Máquina de Escrever Música (2000) – obra em parceria com Domenico Lancellotti e Kassin pelo +2 -, o cantor e compositor baiano regressa ao mesmo cenário bucólico de Sertão, faixa de abertura do já empoeirado registro, para encontrar a matéria-prima de Coisa Boa, oficialmente, o primeiro trabalho solo do artista. Distante dos projetos em que esteve envolvido nos últimos anos – como o eletrônico Recanto (2011), de Gal Costa, além dos trabalhos com a Orquestra Imperial e demais álbuns com o +2 -, Moreno (lentamente) abra as portas de um cenário desvendado em essência por ele. Concebido durante o período em que o músico se mudou para a Bahia, o trabalho emana leveza e tranquilidade a cada novo acorde, como se tudo fluísse dentro de uma medida de tempo delicadamente tecida pelo compositor. Contudo, longe do isolamento, a subjetividade e o teor “particular” da obra não custam a abraçar o ouvinte, transportado para o mesmo ambiente tão logo a inaugural Lá e Cá tem início. [+]

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#49. André Paste
Shuffle (2014, Independente)

Aos domingos, casais lutando por sabonetes em uma banheira e ereções televisionadas. No rádio, a eletrônica curiosa das sete melhores da Jovem Pan, o domínio do Axé Bahia, além da lenta expansão do Funk Melody – posteriormente adaptado por Latino em sua fase “autoral”. Faustão, o Sushi Erótico e a completa inexistência (ou construção) do termo “politicamente incorreto”. Quem deixou a década de 1990 acontecer? Involuntariamente educado por todo esse acervo de referências sonoras e visuais – principalmente visuais -, talvez venha daí a resposta para o som bem-humorado e versátil do capixaba André Paste. Hábil na construção de músicas que aproximam Indie, Pop e até versículos bíblicos do Funk Carioca – caso da mixtape Cid Moreira On The Dancefloor -, Paste explora em Shuffle, primeiro álbum de estúdio, um material distinto em relação aos primeiros trabalhos, brincando com as próprias referências, mas sem escapar de um projeto autoral. Superficialmente, apenas um exercício do produtor em organizar parte do material apreciado por ele próprio nos últimos anos. Ao mergulhar de cabeça do disco, uma lenta construção da identidade musical de Paste – possivelmente reformulada em um futuro álbum. [+]

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#48. Thiago Pethit
Rock’n’Roll Sugar Darling (2014, Independente)

Mesmo breve, a participação do ator Joe Dallesandro parece ser a chave para o universo explorado no terceiro registro solo de Thiago Pethit, Rock’n’Roll Sugar Darling (2014, Independente). Um dos ícones do cinema (underground) norte-americano na década de 1970, o queridinho de Andy Warhol assume uma função talvez maior do que simplesmente interpretar os versos que inauguram o trabalho. Símbolo de uma época marcada pelos excessos, liberdade sexual, glamour e drogas, Dallesandro é a imagem escolhida pelo cantor para representar todo o contexto e vasto acervo de referências interpretadas ao longo da obra. Perfeita representação do derreado lema “Sexo, Drogas E Rock’n Roll”, Rock’n’Roll Sugar Darling não apenas sobrevive dos principais clichês e exageros do Rock (clássico), como ainda define uma série de conceitos próprios sobre o gênero. Um som “afetado, safado, cretino” como o próprio cantor resumiu em entrevista. Aqui não há plágio, tampouco reverência. Quase caricatural, como um personagem da época que tanto o inspira, Thiago Pethit desfila expressivo, ambientando com naturalidade o ouvinte ao passado recente que move o disco. [+]

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#47. Tatá Aeroplano
Na Loucura & Na Lucidez (2014, Independente)

Personagem central da própria obra, Tatá Aeroplano sempre encontrou espaço para detalhar o universo místico/boêmio que o cerca. Seja em fase solo ou dentro do ambiente lisérgico tecido com os parceiros do Cerébro Eletrônico, cada verso composto pelo artista se transforma em um curioso e autoral passeio pela noite paulistana. Fragmentos líricos sempre alimentados por histórias de amor, desencontros, brigas e tramas puramente descritivas. Cenário mais uma vez reproduzido em Na Loucura & Na Lucidez, mais recente álbum do cantor. Distante e ao mesmo próximo dos conceitos levantados no debut solo de 2012, Aeroplano explora com acerto a estranheza dos temas sem necessariamente se esquivar da construção de boas melodias. Da mesma forma que no último registro em estúdio da Cérebro Eletrônico, Vamos Pro Quarto (2013), o pop aparece de maneira remodelada no interior do trabalho, solucionando desde faixas acessíveis ao público médio (Entregue a Dionísio), como músicas nutridas pelo som naturalmente experimento do compositor (Na Lucidez).

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#46. Jaloo
Insight EP (2014, StereoMono)

A capa exageradamente colorida, mística e “brega” de Insight EP define com naturalidade a essência versátil de Jaloo. Compilado de pequenas referências aprimoradas pelo produtor ao longo dos anos, o registro de quatro faixas condensa de forma precisa os temas tropicais da cultura nortista com arranjos plásticos e eletrônicos, típicos do pop recente. Acompanhado de perto pelo produtor Carlos Eduardo Miranda, responsável pela direção artística do trabalho, o paraense lentamente sintetiza grande parte dos elementos conquistados em registros como Female & Brega (2012) e Couve EP (2013), condensando de forma autoral traços de Bass e R&B sem necessariamente escapar das melodias caracterísitcas do pop tradicional. Protegido sob o rótulo de Sci-Fi Brega, o músico não custa a destilar os próprios sentimentos (Insight), mergulhando em ambientações sombrias (Downtown) de forma a flertar com novas experiências líricas/musicais (Odoiá). Não por acaso, o registro se converte em uma pequena coleção de possibilidades, preparando o terreno para os inventos sempre em expansão do jovem produtor.

 

#45. Leo Cavalcanti
Despertador (2014, Independente)

Descomplicar o que já era encarado de forma simples, esta parece ser a proposta de Leo Cavalcanti em Despertador. Segundo álbum de estúdio do músico paulistano, o novo registro é mais do que uma continuação do bem resolvido Religar, obra de estreia lançada em 2010. Longe da complexidade, o artista aposta na busca constante por músicas acessíveis e abertas aos mais variados públicos, referência que está longe de transformar Cavalcanti em um personagem íntimo do ouvinte médio, mas reforça a composição de um álbum costurado por boas melodias e versos difíceis de serem evitados. Ao se esquivar de um tratamento demasiado versátil, como o que orquestrou todo o primeiro disco, Cavalcanti não apenas encontra uma obra marcada pela segurança, como parece estabelecer real domínio sobre as próprias criações. O toque explícito de “Nova MPB”, antes evidente em canções como Inalcancancavel Você e Dissabor, agora autorizam o músico a se abastecer de um conjunto de interpretações plásticas, típicas do Pop. Um passo além da herança tropicalista e que se reconfigura com a mesma beleza e inovação. [+]

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#44. Luziluzia
Come On Feel The Riverbreeze (2014, Balaclava)

A capa cinza de Come On Feel The Riverbreeze, registro de estreia da banda goiana Luziluzia, em nada representa o rico catálogo de cores expostas pelo grupo no decorrer da obra. Trata-se de uma barreira natural, como um amontoado de galhos e rochas capazes de ocultar a passagem para o lado mais impressionante e pouco explorado de uma praia. Fuga do óbvio, o debut assumido por (ex-)integrantes das bandas Boogarins e Riverbreeze é exatamente uma quebra de pequenas convenções e fórmulas estáticas, uma tentativa em agrupar harmonias tropicais e acordes psicodélicos sem necessariamente mergulhar no óbvio. Contrariando o título em inglês, a obra assumida por Raphael (baixo e vocal, ex-Riverbreeze e Boogarins), Benke (guitarra, Boogarins), João Victor (guitarra e sintetizadores, ex-Riverbreeze) e Ricardo (bateria, ex-Riverbreeze) cresce a partir de um cardápio de versos assinados em bom português. Ambientado dentro do mesmo universo lisérico-nonsense de As Plantas Que Curam (2013), estreia da conterrânea/parceira Boogarins, o registro e suas 11 faixas dançam em um ambiente torto onde a única regra é não fazer sentido algum. Ou quase isso. [+]

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#43. Adriano Cintra
Animal (2014, DeckDisc)

O pop sempre foi a base da música de Adriano Cintra. Ainda que os registros lançados pelo Cansei De Se Sexy sejam o principal ponto de referência em se tratando do trabalho do músico/produtor, basta se concentrar nas melodias exploradas pelo Thee Butcher’s Orchestra ou em projetos assinados com Marcelo Jeneci e Marina Vello para perceber a capacidade do paulistano em transitar e brincar com gênero, sem necessariamente fazer disso um som descartável ou minimamente comum. Com a chegada de Animal, primeiro registro em carreira solo, o pop não apenas funciona como a principal ferramenta para Cintra, como ainda se curva e é moldado de acordo com as exigências do versátil produtor. Letras grudentas, arranjos plásticos e todo um arsenal de referências feitas para grudar. Da música disco em 1970 (Desde o Início), passando pelos exageros dos anos 1980 (Não Ladrão), até alcançar a flexibilidade do estilo na década de 2000, cada curva da obra arremessa o ouvinte para um novo e divertido cenário musical. Representado com acerto pela capa “curiosa” que ostenta, Animal é um verdadeiro “Frankenstein Pop“, colecionando e adaptando um catálogo imenso de tendências líricas e instrumentais.

 

#42. ˆL_
Love Is Hell (2014, Independente)

Comandado pelo brasiliense Luis Fernando, ˆL_ é mais do que um mecanismo de comunicação com as diferentes fases da eletrônica nacional, mas um novo princípio de isolamento. Com a chegada de Love Is Hell, primeira obra completa do produtor, quase quatro décadas de inventos eletrônicos são diluídos, reformulados e entregues dentro da linguagem particular/excêntrica do artista. Uma coleção de essências que brinca de Giorgio Moroder (Love – I’ll always cherish the original misconception I had of you), quer ser Aphex Twin (Every time I look at you I get a fierce desire to be lonesome), mas acaba mergulhando ainda mais no próprio enclausuramento autoral. Sem o comprometimento em atender as exigências do público, Fernando cria um registro que praticamente desconstrói a EDM de forma a valorizar a experimentação. Cada música é um objeto isolado dentro da obra, o que autoriza o produtor a lidar com samples de Justin Timberlake (em My heart is a quasi-stellar radio source), sem necessariamente fugir da própria estranheza. Dessa forma, é possível encontrar desde colagens típicas do Drone (I was drunk when wrote to you), até canções que abraçam a House Music do começo dos anos 1990 (Gustavo Bill says my songs are bad vibe!). Um mosaico de referências tão instáveis, quanto coerentemente agrupadas. [+]

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#41. Charme Chulo
Crucificados Pelo Sistema Bruto (2014, Independente)

O som da viola caipira, personagens e paisagens bucólicas, um olhar detalhista (e cômico) sobre a vida no campo. Do universo temático que apresentou a banda curitibana Charme Chulo em 2007, pouco parece ter sobrevivido. Dentro de Crucificados Pelo Sistema Bruto, terceiro álbum de estúdio do grupo paranaense, apenas solos de guitarra, correria, estrada e paisagens urbanas vistas da janela de um caminhão. Um espaço cinza, distante do mágico panorama esverdeado dos primeiros registros, mas que clama pelo “êxodo urbano”, vide a declarada É Que Às Vezes (Melhor É Morar na Fazenda). Em um exercício nostálgico e atual, Igor Filus (voz), Leandro Delmonico (guitarra, viola caipira, vocais), Hudson Antunes (baixo) e Douglas Vicente (bateria) fazem do presente disco uma adaptação urbana (não intencional) de tudo aquilo que a banda trouxe como marca nos primeiros álbuns. Os filmes de Mazzaropi, o pós-punk de grupos como The Smiths e até mesmo o contraste entre o romantismo, de Chitãozinho & Xororó, com o punk rock, do Ratos de Porão – o próprio nome do disco é uma brincadeira com os clássicos Crucificados Pelo Sistema (1984), da banda paulistana e Sistema Bruto da dupla sertaneja. [+]

 

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