Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2015 [20-11]

[20-11]

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#20. P A R A T I
Superfície (2015, Balaclava Records)

Os sentimentos guiam o trabalho da dupla P A R A T I em Superfície (2015, Balaclava Records). Primeiro registro aos comandos de Rita Oliva e Zelino Lanfranchi, também integrantes do grupo Cabana Café, o projeto de emanações leves e arranjos ora orgânicos, ora eletrônicos brinca com a interpretação do ouvinte em uma montagem lenta e sedutora. Um espaço musicalmente construído em cima dos sonhos, desilusões e até mesmo tormentos extraídos do cotidiano de qualquer casal. Curto, são apenas oito composições espalhadas em pouco mais de 30 minutos de duração, o álbum de sonoridade tímida cresce a cada sussurro emanado pela vocalista. Versos apaixonados, melancólicos ou apenas confissões dissolvidas em uma lírica costurada pela provocação. “Sente a cadência / Constante intrínseca / Descanso estímulo / Seu consolo faz sorrir”, entrega Oliva na delicada Suor, faixa que resume com naturalidade todo o conceito sentimental (e intimista) que alimenta a obra. Flutuando em um ambiente próximo do onírico, repleto de vozes e arranjos encaixados delicadamente, sempre de maneira imprecisa, Superfície é um registro que chega até o ouvinte em pequenas doses. Mais do que garantir respostas, a beleza do trabalho está nos “segredos” e colagens que dançam ao fundo de cada composição. []

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#19. Meneio
Meneio (2015, Balaclava Records)

Ruídos eletrônicos, arranjos espaçados, delicadas inserções de vozes e batidas que seguem dentro de uma medida própria de tempo. Durante pouco mais de 30 minutos duração, esse é o cenário musicalmente arquitetado pela banda Meneio. Uma colisão de ideias, referências extraídas de várias décadas e membros vindos de diferentes projetos da cena musical paulistana, mas que atuam de maneira concisa, harmônica, em cada fragmento instrumental do autointitulado registro de inéditas que acaba de ser retirada do forno. Orquestrado e produzido pelos próprios integrantes da banda – formada por Jovem Palerosi (guitarra e samples), Eduardo Rodrigues (sintetizador e samples), Adeniran Balthazar (baixo) e Zé Guilherme Aquiles (bateria) -, o registro masterizado por Arthur Joly no Estúdio Reco-Master, soa como um passeio por diferentes cenas e tendências do rock alternativo dos anos 1990 sem necessariamente tirar os pés do presente. Temas e pequenas ambientações climáticas que parecem crescer lentamente na cabeça do ouvinte. []

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#18. Letuce
Estilhaça (2015, YB)

Angústia, medo, raiva e amor. Desde a estreia com Plano de Fuga pra Cima dos Outros e de Mim (2009), elementos fundamentais dentro do cardápio de sentimentos que abastecem a obra da banda carioca Letuce. Em Estilhaça (2015, YB), terceiro álbum de inéditas do projeto comandado por Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos, curioso perceber nesse mesmo reaproveitamento de temas, versos fragilizados e fórmulas, o nascimento de uma obra caótica, propositadamente instável e íntima dos conflitos de qualquer (ex-)casal de namorados. Juntos desde 2007, o casal anunciou a separação em abril de 2013, mais de um ano após o lançamento do ótimo Manja Perene (2012), uma verdadeira colcha de retalhos amorosos e declarações românticas. Ainda que a separação de Novaes e Vasconcellos tenha sido amigável, como a própria dupla fez questão de reforçar em um anúncio publicado no Facebook da banda, difícil passear pelo interior do presente disco sem tropeçar em pequenas farpas sentimentais ou estilhaços que refletem a história de diferentes relacionamentos fracassados. []

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#17. Bike
1943 (2015, Independente)

Que viagem. Durante os mais de 30 minutos de duração de 1943 (2015, Independente), estreia da banda paulista Bike, vozes, melodias e doses consideráveis de distorção se articulam de forma a distanciar o ouvinte da realidade. Como uma verdadeira experiência lisérgica, cada verso ou ruído dissolvido pela obra transporta o espectador para um mundo de sons, cores e emanações cósmicas. Arranjos e letras que mudam de direção a todo o instante, crescendo e diminuindo, como se reações típicas do consumo de LSD fossem transformadas em música. Com título inspirado no ano em que o cientista suíço Albert Hoffman descobriu o LSD – abril de 1943 -, e deu uma volta de bicicleta ao tomar a primeira grande dose da substância, cada uma das oito faixas que marcam a estreia do Bike se projetam com pequenas viagens. Sem necessariamente perder o caráter homogêneo das canções – sempre próximas, como se tudo não passasse de um mesmo ato instrumental -, o grupo parece brincar com a mente do ouvinte, dançando em meio a reverbs, distorções e solos de guitarra que explodem a todo o instante. []

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#16. Cícero
A Praia (2015, Independente)

Romântico, brega, chato ou, como defende o público fiel, “um gênio incompreendido”, “um poeta”. Cícero pode ser acusado e classificado das mais variadas formas, porém, goste ou não do trabalho assinado pelo músico carioca, em nenhum momento ele pode ser encarado como previsível. Exemplo significativo desse resultado está na estrutura e (ainda falho) conceito executado em Sábado (2013), segundo álbum solo do cantor. Talvez mal interpretado, um “Araçá Azul particular“, a obra entregue há dois anos está longe de parecer o ponto central da (curta) obra do jovem compositor. Ainda atento, Cícero mantém firme a busca pela própria identidade, postura explícita no horizonte infinito que estampa a capa e sonoridade aplicada em A Praia (2015, Independente). Uma rápida audição, e a reposta parece surgir de forma imediata: com o terceiro e mais recente trabalho de inéditas, Cícero talvez tenha encontrado um meio termo exato entre o “samba-indie-melódico” do registro de estreia, Canções de Apartamento (2011), com o “experimento caseiro” testado no interior do segundo álbum, Sábado. Um erro. Ainda que a maquiagem eletrônica de Frevo por acaso N˚2 e diferentes faixas espalhadas pelo registro sustentem a parcial novidade por parte do músico, está na composição quase sorridente dos versos o aparecimento de um novo “personagem” e poeta. []

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#15. Black Alien
Babylon By Gus – Vol. II: No Princípio Era O Verbo (2015, Independente)

Poucos trabalhos foram aguardados com tamanha expectativa e ampla cobertura da imprensa nacional nos últimos dez anos quanto a segunda parte de Babylon By Gus. Desde o lançamento do clássico O Ano Do Macaco, em 2004, cada nova participação, clipe ou anúncio de Black Alien foi recebido com olhos (e ouvidos) bem abertos, efeito da bem-sucedida estreia solo do ex-Planet Hemp. Depois de um intervalo de 11 anos, diferentes conflitos e prazos adiadas, um respiro aliviado e a estreia oficial de Babylon By Gus – Vol. II: No Princípio Era O Verbo (2015, Independente). Longe de parecer uma continuação da obra entregue em 2004, com o presente registro, álbum de 12 faixas e pouco mais de 40 minutos de duração, o rapper lentamente parece assumir um novo percurso lírico. Depois de diversas batalhas contas as drogas, passagens por clínicas de reabilitação, depressão e até tentativas de suicídio, como detalhou em entrevista à Rolling Stone – “Eu já tentei me matar, já enchi o carrinho do supermercado de álcool e fui beber tudo…” -, a sobriedade explícita em cada versos faz do novo álbum uma obra regida pela esperança. []

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#14. Gal Costa
Estratosférica (2015, Sony Music)

Diálogo aberto com pequenos gigantes da atual geração – entre eles, Marcelo Camelo, Mallu Magalhães e José Paes Lira -, Estratosférica,  registro produzido Alexandre Kassin e Moreno Veloso, é um passeio pela essência versátil da cantora. Enquanto a inaugural Sem Medo Nem Esperança aponta para a boa fase no começo dos anos 1970, marca explícita na crueza das guitarras e o “solo de voz” típico do clássico Fa-Tal – Gal a Todo Vapor (1971), em minutos, o uso de temas eletrônicos (Muita Sorte) e até melodias mais “pop” (Quando Você Olha Pra Ela) confortam a artista no cenário plastificado dos anos 2000. De cara, o grito forte (“Não sou mais tola / Não mais me queixo / Não tenho medo / Nem esperança”) e a ânsia pela própria renovação (“Nada do que fiz / Por mais feliz / Está à altura / Do que há por fazer”) de Sem Medo Nem Esperança. No interior do trabalho, faixas que poderiam ser encaixadas em obras da década de 1980 (Jabitacá) ou mesmo na fase tropicalista (Anuviar) da cantora. Sobra até espaço para a exposição da própria sexualidade em Por Baixo (“E por baixo dos pelos: as estradas / Que conduzem nos fios os teus arrepios / Manifestos em ois! E uis! E ais!”), um fino retrato da poesia versátil de Tom Zé. []

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#13. Jair Naves
Trovões a Me Atingir (2015, Independente)

Descrença, solidão, medo e morte; temas corriqueiros dentro do acervo poético de Jair Naves enquanto vocalista da extinta Ludovic, porém, um catálogo de experiências cada vez menos significativas no universo autoral que define a carreira solo do cantor. Se em 2006, quando apresentou o derradeiro Idioma Morto, Naves gritava a plenos pulmões, exaltando sentimentos e toda sua raiva em relação ao mês de janeiro – “o pior dos meses” -, curioso perceber no mesmo mês, data escolhida para o lançamento do segundo disco solo do músico, Trovões a Me Atingir (2015, Independente), uma completa oposição desse resultado. Da capa iluminada aos arranjos suavizados, dos versos marcados pela esperança ao refrão vívido da faixa-título – “meu corpo volta a ter pulsação” -, difícil ignorar a transformação que define a presente obra do paulistano. Ainda que a melancolia tome conta de boa parte do trabalho, marca explícita nos instantes finais e respiros breves do registro, seria um erro não observar o conceito “sorridente” que sustenta a atual fase de Naves. As angústias e trovões – como indicado no título da obra -, ainda atingem o compositor, por todos os lados, entretanto o nítido senso de superação parece maior, raro quando voltamos os ouvidos para o contexto macambúzio do ainda recente E Você Se Sente Numa Cela Escura… (2012). []

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#12. Ventre
Ventre (2015, Independente)

Desde Idioma Morto (2006), derradeira obra da banda paulistana Ludovic, que um disco brasileiro não me parecia tão urgente, raivoso e essencialmente honesto quanto a estreia do grupo carioca Ventre. Nascido do encontro entre os músicos Gabriel Ventura, Larissa Conforto e Hugo Noguchi, o trabalho de 11 composições densas faz de cada ato instrumental uma explosão movida por temas como sexo, separação e isolamento. Produzido ao longo de dois anos, com gravações registradas em diferentes estúdios, a homônima obra do trio carioca é um caso raro dentro da presente fase do rock nacional. Longe da crueza habitual de outras obras do gênero – montadas em cima da satisfação do amadorismo -, cada uma das canções se espalha em um mundo de detalhes, sobreposições de vozes e encaixes que mantém a atenção do ouvinte em alta até a chegada de Aperto e Um Beijo, faixa de encerramento do disco. Um labirinto de sensações melancólicas que se espalha de forma tumultuada, dialogando com a lírica dolorosa e particular de Ventura. White Pony (2000) do Deftones encontra com The Bends (1995) do Radiohead; guitarras replicam conceitos lançados por veteranos como Queens Of The Stone Age, The Jimi Hendrix Experience e The Who; vozes abraçam o mesmo desespero que marca a obra de Jeff Buckley, Fiona Apple e Kurt Cobain. No cardápio de referências incorporadas pela banda, sentimentos e instrumentos se chocam com naturalidade. Uma alavanca para o rico catálogo de versos que tingem com melancolia (e desespero) cada fragmento do registro. []

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#11. Cidadão Instigado
Fortaleza (2015, Independente)

Climáticos, os sintetizadores crescem lentamente. Ao fundo, guitarras espalham ruídos, sem pressa ou possíveis exageros. A bateria ocupa espaço com timidez, abrindo passagem para que a voz de Fernando Catatau ecoe de forma clara, como um suspiro aliviado: “até que enfim”. Com os pés firmes no chão, passados seis anos desde o lançamento do último álbum de estúdio, Uhuuu! (2009), o grupo cearense Cidadão Instigado deixa de lado do som experimental (e lisérgico) dos primeiros trabalhos para investir em uma obra pontuada pela saudade, melancolia e completa lucidez. Fuga dos temas e arranjos complexos testados desde a boa fase em O Ciclo da Decadência (2002) e Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências (2005), com Fortaleza (2015, Independente) a banda – completa com Regis Damasceno, Clayton Martim, Rian Batista e Dustan Gallas – revela ao público uma sonoridade talvez “simples”, mas não menos convincente. Livre da estrutura torta e limitadora de faixas como O Pinto de Peitos e Deus É Uma Viagem, o canto triste de Catatau se despe do manto colorido, transporta o ouvinte para um cenário obscuro e ainda cria brechas acessíveis aos mais variados público. []

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[30-21] [10-01]

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