Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2015 [30-21]

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#30. Sara Não Tem Nome
Ômega III (2015, Independente)

É difícil não se identificar com o trabalho da mineira Sara Não Tem Nome. Em Ômega III, primeiro registro de estúdio de Sara Braga, cantora e compositora original da cidade de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, temas como isolamento, tédio, medo e separação invadem o delicado conjunto de versos assinados pela jovem adulta. Uma coleção de recordações compostos durante a adolescência da artista, mas que permanecem atuais, dolorosas, durante toda a construção da obra. Basta uma rápida passagem por composições como Água Viva (“Nessa grande piscina de mentiras / Eu não dou pé / Não dou pé / Vou me afogar”) e Páscoa de Noel (“Deus esqueceu de mim / Deus esqueceu de nós”) para que a identificação com o trabalho de Braga seja imediata. Salve o isolamento (quase nonsense) da faixa-título, nada é tão particular dentro do álbum que não possa ser absorvido pelo ouvinte, sempre íntimo do universo de conflitos detalhados no lento desenrolar dos versos. “É são dias difíceis de se viver / É são dias difíceis de se entender”, suspira a cantora na inaugural Dias Difíceis, um retrato tímido de qualquer jovem atormentado, mas também uma faixa que também parece dialogar com o mesmo cenário político, social e econômico do país nos últimos meses. De maneira involuntária, vozes e versos aos poucos se distanciam de um ambiente essencialmente claustrofóbico, estreitando de forma provocativa a relação com o ouvinte. []

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#29. Dingo Bells
Maravilhas da Vida Moderna (2015, Independente)

Quem rola a timeline do Facebook e bate o olho na imagem que estampa a capa de Maravilhas da Vida Moderna (2015, Independente), primeiro registro de estúdio da banda gaúcha Dingo Bells, talvez se espante com a sonoridade explorada no interior do trabalho. Longe do ambiente “cinza” reforçada na fotografia de Rodrigo Marroni – praticamente a capa de um álbum punk -, cada uma das composições que movimentam o disco apontam a construção do um som nitidamente pop, talvez sombrio em se tratando dos versos, mas não menos colorido. Como o próprio título indica, Maravilhas da Vida Moderna utiliza de versos fáceis para reforçar tormentos típicos de um (jovem) adulto. Músicas ancoradas em conceitos existenciais (Dinossauros), maturidade (Mistério dos 30), a necessidade de conviver em sociedade (Eu Vim Passear) e até personagens (Funcionário do Mês) que cercam o universo irônico/realista do grupo – hoje composto por Rodrigo Fischmann (voz, bateria e percussão), Diogo Brochmann (Voz, guitarra e teclados) e Felipe Kautz (voz, baixo). []

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#28. Guizado
O Voo do Dragão (2015, Independente)

Da estreia com Punx (2008) ao cruzamento de referências que marca Calavera (2010), Guilherme Mendonça nunca demonstrou interesse em produzir um som fácil ou “acessível” com o Guizado. Ritmos nacionais desconstruídos, interferências eletrônicas, vozes e versos robóticos, além do trompete fluido, sempre explorado com liberdade, sem rumo ou direção definida. Um curioso jogo de referências instáveis, estímulo para o uso de temas ainda mais provocativos no terceiro álbum de estúdio do trompetista, O Voo do Dragão. Nascido do “cruzamento” entre os dois últimos registros de Mendonça, o trabalho gravado por M. Takara e Fernando Sanches no estúdio El Rocha entrega oito faixas de puro delírio e constante transformação. Da abertura com Sete Lâminas ao fechamento em Luzes, um intenso revezamento do time formado por Guizado (trompete e programações), Caetano Malta (sintetizadores), Thiago Duar (baixo), Alle Alencar (guitarra) e Thiago Babalú (bateria). Artistas capazes de prender a atenção e estimular o ouvinte – sempre hipnotizado pelas estranhas formas musicais que abastecem a obra. Como explícito no título do trabalho – O Voo do Dragão, nome inspirado no filme de 1972 estrelado por Bruce Lee -, parte expressiva do presente álbum está ancorada em elementos da cultura oriental. Entretanto, assim como Criolo em Convoque Seu Buda (2014), não se trata de uma obra conceitual, temática, mas uma sutil interpretação desse universo. []

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#27. Luneta Mágica
No Meu Peito (2015, Invern Records)

“Experimental”, “Alternativo”, “Eletrônico”, “Indie” e “Folk”. Esses são alguns dos rótulos escolhidos pelos integrantes da Luneta Mágica para definir a sonoridade produzida pela banda. Curioso perceber no segundo registro de inéditas do coletivo amazonense, No Meu Peito (2015, Invern Records), uma obra esquiva de toda essa pluralidade “restritiva” de conceitos. Como uma fuga de possíveis experimentos e bloqueios estéticos lançados no inicial Amanhã vai ser o melhor dia da sua vida (2012), um caminho marcado pela leveza orienta de forma positiva os passos e referências do hoje renovado quarteto de Manaus. Por vezes íntimo do pop “clássico”, o novo trabalho de Erick Omena, Pablo Araújo, Eron Oliveira, Isaac Guerreiro e Jefferson Santos borbulha em meio a bases melódicas, vocais tratados de forma polida e versos que se espalham descomplicados, ocupando sem esforços a mente do ouvinte. Em um explícito exercício de maturidade, toda a soma de argumentos complexos lançados no álbum de 2012 é logo derrubada na primeira composição, resultando em uma corredeira de emanações acolhedoras, acessíveis aos mais variados públicos. Beatles e The Beach Boys surgem de forma quase instintiva, como pilares, entretanto, é na formação de som próprio da Luneta Mágica que reside o grande acerto da obra. []

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#26. Bárbara Eugênia
Frou Frou (2015, Independente)

Quem foi que machucou seu coração desse jeito, Bárbara Eugenia? Em uma espiral melancólica que teve início ainda em 2010, com Journal de BAD, a cantora e compositora carioca encontra no terceiro registro de inéditas, Frou Frou (2015, Independente), uma expansão do som atormentado que também deu vida aos versos e confissões de É o que temos, bem-sucedida obra lançada em 2013. Lamúrias e segredos que fazem da artista uma espécie personagem real, interpretando com sobriedade os mais variados medos e desilusões amorosas vividas por diferentes indivíduos. Trabalho mais coeso da artista até aqui, Frou Frou despeja logo nos minutos iniciais uma sequência de faixas capazes de embriagar o ouvinte. Até o respiro breve em Para Curar o Coração, curiosa parceria com as cantoras Naná Rizzini, Bluebell, Andreia Dias e Cláudia Dorei, composições como Besta, Vou Ficar Maluca, Pra Te Atazanar e Recomeçar crescem poderosas, radiofônicas, como um resumo entristecido de toda a produção da artista nos últimos cinco anos. []

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#25. Ceticências
Deus Sabe (2015, Domina)

A julgar pelo excesso de projetos colaborativos de Cadu Tenório, em 2013, quando lançou Issamu Minami, o Ceticências parece ser “apenas mais um” na crescente lista de inventos assinados pelo músico carioca. Curioso perceber nas canções do recém-lançado Deus Sabe (2015, Domina), segundo registro de inéditas ao lado do parceiro Sávio de Queiroz, um completo distanciamento e explícita maturidade em relação ao mesmo material entregue há pouco mais de dois anos. Passo além em relação ao atmosférico Lua, Deus Sabe talvez seja o registro mais versátil e, ainda assim, “tímido” já apresentado pela dupla. Ao mesmo tempo em que a base instrumental do disco cresce em uma solução limitada de sintetizadores, vozes e batidas eletrônicas, faixa, após faixa, Tenório e Queiroz se concentram em detalhar um mundo de texturas que instantaneamente seduzem o ouvinte. Composição escolhida para apresentar o disco, a inaugural Deus Sabe #2 dança em um mundo de ruídos e colagens que se fragmentam lentamente. São pequenos atos instrumentais que mergulham de cabeça em elementos típicos do Hip-Hop, sons “aquáticos” e todo um catálogo de encaixes minimalistas. Uma espécie de passeio não linear que esbarra em pessoas e ambientes urbanos como o clipe da canção – produzido pelo fotógrafo Felipe Barsuglia – parece indicar. []

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#24. Pélico
Euforia (2015, Independente)

Pélico respira aliviado. Quatro anos depois de juntar os cacos do próprio coração e colecionar versos entristecidos no segundo álbum de estúdio, Que Isso Fique Entre Nós (2011), o cantor e compositor paulistano finalmente parece ter encontrado um espaço (ou alguém) para sorrir. Caminho seguro para a continua exposição dos próprios sentimentos, Euforia revela um compositor que mesmo íntimo das experiências mais dolorosas, típicas de uma separação recente, acerta o passo, muda de direção e aposta no recomeço. De ritmo eufórico, como o próprio título indica, o novo álbum lentamente resgata a mesma combinação melódica incorporada pelo músico no primeiro trabalho de inéditas, O último dia de um homem sem juízo (2008). Uma coleção de temas apaixonados (Sobrenatural), declarações de amor (O meu amor mora no rio) e leve carga dramática (Sozinhar-me). Referências e sonoridades temporariamente extintas por conta do clima denso e ambientação cinza do disco de 2011. Observado de forma atenta, este talvez seja o trabalho mais comercial, pop, já lançado por Pélico. Da abertura descomplicada com Sobrenatural, uma típica “música tema de novela”, passando por outras como Olha só, Overdose ou mesmo a própria faixa-título, raros são os instantes de completo isolamento do músico, acessível a cada novo acorde ou vocal apaixonado do disco. []

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#23. Nobat
O Novato (2015, Independente)

O caminho assumido por Luan Nobat em O Novato está longe de parecer o mesmo do antecessor Disco Arranhado (2012). Livre do jogo de guitarras, batidas e vozes rápidas que marcam o trabalho apresentado há três anos, o cantor e compositor mineiro faz do segundo registro de inéditas uma peça marcada pela delicadeza. Versos e arranjos que passeiam por pequenos fragmentos do cotidiano, relacionamentos e tormentos que muitas vezes escapam do cercado particular do artista. Maquiado pela sonoridade detalhista do músico Daniel Nunes, co-produtor do álbum também integrante da banda de rock instrumental Constantina, o trabalho de apenas 10 faixas cresce lentamente, sem pressa ou possíveis exageros. Ainda que a já conhecida LSD, parceria com a cantora Julia Branco lançada em 2014, pareça apontar a direção seguida no interior do disco, está no tempero pessimista da inaugural faixa-título o estímulo lírico e instrumental de todo o restante da obra. “Era uma bíblia na mão / E a pistola na outra / Matando os filhos de Deus pelo próprio Deus”, despeja Nobat em uma solução de versos sóbrios que discutem não apenas a temática da religião, mas todo o universo de conflitos e ilusões que bagunçam o cotidiano de qualquer indivíduo. Ponto de partida para a sequência de faixas que abastecem o álbum, a canção orquestrada de forma crescente, cercada pela bateria marcial de um time de percussionistas, resume o esmero de Nobat na montagem do trabalho. []

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#22. Maglore
III (2015, Deck Disc)

Com o lançamento de Vamos Pra Rua, em 2013, a baiana Maglore deu um salto criativo. Catálogo frenético de vozes e melodias direcionadas com acerto aos mais variados públicos, o registro serviu para aproximar ainda mais o grupo original da cidade de Salvador de todo um novo universo de arranjos e tendências musicais. A busca declarada por uma sonoridade mais pop, radiofônica, conceito que ao esbarrar em diferentes ritmos (e cores) da década de 1970 serve de estímulo para III. Terceiro álbum de inéditas da banda – hoje composta por Teago Oliveira, Rodrigo Damati e Felipe Dieder -, o trabalho produzido por Rafael Ramos é uma verdadeira colcha de retalhos. De um lado, a essência de veteranos como The Beatles e Los Hermanos. No outro, o expressivo reforço de grandes representantes do rock atual, caso de estrangeiros como Tame Impala, artistas dissolvidos em pequenas doses de psicodelia que borbulham ao fundo do disco. Para quem acompanha o trabalho da banda desde a estreia, em 2011, com o álbum Veroz, nenhuma novidade de fato “espantosa”. A diferença em relação aos últimos lançamentos do grupo está na completa desenvoltura e dinamismo que rege o álbum até a última canção, a descritiva e cômica Vampiro da Rua XV. Faça o teste: do momento em que tem início a faixade abertura do álbum, O Sol Chegou, apertar o botão de “pause” é uma tarefa praticamente impossível. Não existe tempo para descanso, fazendo com que hits e versos fáceis apareçam a cada nova curva. []

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#21. Jonas Sá
BLAM! BLAM! (2015, Coqueiro Verde)

Em 2007, quem se deixou guiar pela vinheta de Anormal durante os intervalos na programação da Rede Globo, provavelmente levou um susto. Parte do processo de divulgação do recém-lançado selo SLAP – braço “independente” da Som Live -, a canção vendida apenas pelo refrão – “Todo mundo pensa que ele é anormal” – assumia uma sonoridade “curiosa” quando observada em essência, indicando um conceito ainda mais excêntrico, torto e musicalmente instável do pop tradicional quando analisada ao lado das demais composições do disco. Em BLAM! BLAM!, segundo e mais recente álbum de estúdio do carioca Jonas Sá, uma explícita continuação desse mesmo catálogo de (estranhas) referências. Do som eletrônico que abre o disco na inaugural 8 Bit, passando pela pervertida Chat Roulette, até alcançar a dançante Sexy Savannah, quase no fechamento do trabalho, versos, vozes, instrumentos e até mesmo os ruídos parecem articulados de forma a revelar um álbum marcado pelo experimento e completo erotismo. Mais do que um atrativo para o ouvinte desapercebido, a provocativa imagem de capa funciona como um eficiente resumo para o conceito referencial que sustenta todo o trabalho. Trata-se de uma “homenagem” à sexualidade própria do brasileiro. Um passeio atual e ao mesmo tempo nostálgico pelos clássicos de Pornochanchada e outras mídias tomadas pelo erotismo. []

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[40-31] [20-11]

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