Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2015 [40-31]

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#40. Rafael Castro
Um Chopp e um Sundae (2015, Independente)

Em Um Chopp e um Sundae (2015, Independente), mais recente trabalho de Rafael Castro, o passado ainda funciona como a principal fonte inspiração do compositor, porém, agora dentro de uma nova década: os anos 1980. Além do confesso grupo de artistas românticos que há tempos inspiram o trabalho do artista – caso de Roberto Carlos e Odair José -, durante todo o registro, nomes como Ritchie (Preocupado), Blitz (Vou Parar de Beber) e Léo Jaime (Aquela) surgem com naturalidade entre as canções. Referências propositais (ou involuntárias) enquadradas com propriedade dentro do jogo cômico do paulistano – tão honesto, quanto sarcástico. Em um explícito senso de transformação, musicalmente Um Chopp e um Sundae se comportas como o trabalho mais desafiador do artista. Nada de guitarras ruidosas, sujas, típicas do último registro. Mesmo as bases acústicas, como os violões “hippie” dos primeiros trabalhos do cantor foram “abandonados”. Da abertura com a pop Ciúme, até o encerramento em Vou Parar de Beber, são os sintetizadores, efeitos eletrônicos e toda uma carga de referências empoeiradas de 1980 que ditam as regras da obra. Uma espécie de “adaptação” das mesmas melodias e arranjos lançadas pelo Cidadão Instigado em faixas como a pegajosa (e hoje clássica) Contando Estrelas. []

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#39. Lê Almeida
Paraleloplasmos (2015, Transfusão Noise Records)

Versos descompromissados, melodias que dialogam com a década de 1990 e ruídos, doses colossais de ruídos. Cinco anos após o último grande trabalho em estúdio, Mono Maçã (2010), o carioca Lê Almeida mantém firme o domínio das guitarras e vozes, transformando o segundo registro em carreira solo, Paraleloplasmos (2015, Transfusão Noise Records), em uma obra marcada por ensaios psicodélicos e distorções que explodem a cada nova faixa. Na trilha do antecessor Pré Ambulatório EP, de 2012, Almeida garante a construção de uma obra que mesmo densa e repleta de canções extensas, mantém firme o caráter dinâmico até o último acorde. Um acervo curto, doze composições inéditas, metade do número de músicas que abastecem o álbum de 2010, porém, um trabalho com o dobro do tempo de duração. Longe da efemeridade testada desde a estreia com REVI EP (2009), o guitarrista encontra em canções como Fuck The New School e Câncer dos Trópicos um espaço aberto para o experimento. []

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#38. Rodrigo Campos
Conversas com Toshiro (2015, YB Music)

Atenta, a música de Rodrigo Campos observa, explora, convive e busca abrigo. Do cenário nostálgico recriado em São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe (2009), passeio pelo bairro de São Mateus, zona leste de São Paulo, ao ambiente curioso, por vezes fictício de Bahia Fantástica (2012), diferentes personagens e histórias dançam pela geografia poética que define o mapa imaginário do cantor. Mais do que um relato imparcial, um fino exercício de interpretação, passagem para o Japão cinematográfico, mágico e particular detalhado pelo compositor em Conversas com Toshiro (2015, YB Music). Terceiro registro de inéditas de Campos, o trabalho que conta com direção artística de Romulo Fróes soa como um passeio pela Terra do Sol Nascente sem necessariamente escapar do ambiente cinza de São Paulo. Como explícito nos versos, seres fantásticos e histórias de cada faixa, o Japão de Campos é visual, efeito direto da relação e fascínio do músico pelo universo cinematográfico criado por diretores como Ozu Yasujiro, Takeshi Kitano, Akira Kurosawa e Hayao Miyazaki; personagens e também “parceiros de composição” do músico ao longo da obra. []

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#37. Diogo Strausz
Spectrum Vol. 1 (2015, Independente)

Basta uma visita ao site de Diogo Strausz para perceber a versatilidade em torno da obra do músico carioca. Como produtor, registros assinados em parceria com Alice Caymmi, Castello Branco e outros nomes de peso da cena alternativa, principalmente a carioca. Em projetos individuais, esporádicos, obras marcados pela colagem de referências – caso do EP/clipe de Garoto Nacional -, remixes desenvolvidos a convite de conterrâneos como Kassin e Léo Justi, além de colaborações com Jaloo, Gang do Eletro e até marcas como Coca-Cola. O mesmo mosaico de ideias, sons e referências parece servir de inspiração para o primeiro registro solo do produtor: Spectrum Vol. 1 (2015, Independente). Em uma colagem de tendências e pequenos experimentos com a música pop, Strausz articula uma obra tão vasta quanto o próprio acervo de inventos compartilhados na última meia década. Um passeio temático e instrumental que começa ainda na capa – uma homenagem à Jovem Guarda do próprio pai, Leno, músico e uma das metades da dupla Leno & Lilian entre 1960/1970 -, mergulha na música negra, na eletrônica dos anos 1990, até se estabelecer no presente, caminhando ao lado de uma série de colaboradores recentes. []

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#36. César Lacerda
Paralelos & infinitos (2015, Joia Moderna)

“Já acabou?“. Esse talvez seja o primeiro pensamento que invade a mente de qualquer ouvinte ao final de Paralelos & Infinitos (2015, Joia Moderna). Segundo registro em estúdio do cantor e compositor César Lacerda, o álbum de apenas oito faixas e quase 30 minutos de duração se encerra com a mesma leveza em que o doce acervo de músicas pouco a pouco revela o disco. Vozes, arranjos e versos que não apenas cercam, como ainda confortam o ouvinte com extrema delicadeza, como se um mundo inteiro fosse criado e desfeito da abertura ao fechamento do trabalho. Inaugurado de forma festiva com Algo a Dois, composição que parece absorver a essência de artistas como Fleet Foxes e Fleetwood Mac, Lacerda mostra que parte dos conceitos aplicados ao longo do disco estão ancorados na cena estrangeira. Uma pitada de Folk dos anos 1970 – Nick Drake e Joni Mitchell -, um passeio pelo isolamento de Elliott Smith, além de um diálogo estreito com diferentes nomes da atual cena independente. Fragmentos que se completam com fascínio de Lacerda pela obra de brasileiros como Caetano Veloso e Lenine, este último, parceiro no debut Porquê da Voz, de 2013. []

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#35. Iconili
Piacó (2015, Independente)

A pluralidade de conceitos retratados em Tupi Novo Mundo EP (2013) parece ser apenas a ponta do iceberg colorido que sustenta o trabalho da Iconili em Piacó (2015, Independente). Partindo de uma mistura frenética de ritmos e diferentes temas instrumentais, ao abrir as portas do novo registro de inéditas do grupo mineiro, o ouvinte é instantaneamente soterrado por uma avalanche de temas e essências musicais. Referências que vão da música brasileira ao jazz norte-americano, sem necessariamente abandonar os laços cada vez mais estreitos com a cultura africana. São 11 integrantes – André Orandi (Órgão e Sax Alto), Rafael Mandacaru (Guitarra), Gustavo Cunha (Guitarra), Victor Magalhães (Trompete), João Gabriel Machala (Trombone), Henrique Staino (Sax Tenor), Lucas Freitas (Sax Barítono), Willian Rosa (Baixo), Caio Plínio (Bateria), Rafa Nunes (Percussões) e Nara Torres (Percussões) -, artistas que não apenas atuam de forma complementar, movimentando os mais de 50 minutos do registro, como assumem posições de destaque no interior da obra, interferindo diretamente no crescimento do álbum. []

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#34. Passo Torto & Ná Ozzetti
Thiago França (2015, YB)

A banda paulistana Passo Torto parece maior a cada novo álbum de estúdio. Guitarras, linhas de baixo, vozes e versos cada vez mais sujos, imponentes e invasivos. No caso de Thiago França (2015, YB), terceiro registro de inéditas do coletivo, um projeto que cresce não apenas em sensações, novos conceitos e cruzamentos de ritmos, mas também em relação ao número de integrantes. Além do time formado por Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Marcelo Cabral, a interferência direta da voz (e sentimentos) da “convidada” Ná Ozzetti. Dona da voz que invade e sustenta grande parte do trabalho, Ozzetti está longe de parecer uma estranha quando próxima dos demais integrantes da banda. De fato, boa parte dos conceitos e temas explorados no presente disco sobrevivem como uma espécie de sequência em relação ao material apresentado no álbum Embalar (2014), último trabalho solo da cantora e registro que conta com a presença de Kiko Dinucci – além da parceira Juçara Marçal – em determinadas composições. []

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#33. Bixiga 70
Bixiga 70 (2015, Traquitana)

Som leve e dançante. Desde que o grupo Bixiga 70 trouxe a público o homônimo álbum de estreia, em idos de 2011, a busca por um som cada vez mais acessível parece apontar a direção do coletivo paulistano. Com o caminho livre, convidativo e acessível aos variados grupos de ouvintes, a banda estabelece no terceiro registro de inéditas um inevitável reforço ao mesmo tom descomplicado, brincando com a fluidez suavizada dos arranjos, porém, longe de romper com o refinamento explícito desde as primeiras canções. Em uma direção contrária ao som abrasivo do segundo álbum da carreira, entregue há dois anos, com o presente disco, a banda se esquiva do caráter de obra “ao vivo” para focar em um isolamento típico de estúdio. Como dito, ainda que a leveza das formas instrumentais ocupe toda a estrutura montada para o disco, texturas sedutoras e a atenta manipulação dos instrumentos mantém a atenção do ouvinte em alta, sem tempo para descanso. A diferença está na forma como o grupo orienta o crescimento das faixas, detalhando uma espécie de trilha sonora involuntária. []

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#32. Ian Ramil
Derivacivilização (2015, Independente)

Em Derivacivilização (2015, Independente), Ian Ramil está longe de parecer o mesmo artista apresentado no inaugural IAN. Violento, o cantor e compositor gaúcho deixa de lado a estrutura melódica testada no primeiro álbum de inéditas, de 2014, para incorporar arranjos e versos essencialmente caóticos. Em um exercício que ocupa dez faixas e se estende durante mais de 40 minutos, Ramil pinta um retrato honesto dos diferentes núcleos e conflitos que fragmentam o atual cenário político e social brasileiro. “Corro, paro, olho, choro, grito, eu ando a cada dia mais vulgar e aflito / O mundo é um skinhead eu sou um gay”, explode o cantor na urgente faixa de abertura, Coquetel Molotov, um indicativo da proposta incendiária que abastece grande parte das canções. Em um uso descontrolado de versos ásperos, marcados pelo uso de palavras de baixo calão – “Se buceta eu sou uma vadia, se piroca, vem sentar na minha” -, o compositor transforma em música os mesmos textos abusivos que diariamente invadem a timeline do Facebook. []

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#31. Gabriel Araújo
Presente (2015, Independente)

Delicada espiral de vozes, cores e arranjos psicodélicos, Presente (2015, Independente), terceiro e mais recente álbum de estúdio do músico Gabriel Araújo, lentamente abre suas cortinas. Em pouco mais de 30 minutos de duração, a obra que se divide em apenas cinco faixas, encontra no experimento a busca por um som orquestrado pela atenta combinação de melodias aprazíveis e fórmulas instáveis. Uma lenta tapeçaria cósmica que se estende, seduz e conquista sem dificuldades a atenção do ouvinte, atraído para dentro desse universo de composições essencialmente mágicas. Perto dos dois últimos registros de inéditas do artista de João Pessoa – também colaborador em bandas como Glue Trip e Meio Free -, Presente soa como uma clara evolução. Do som instável apresentado no debut de 2009 ou quando comparado ao instável Ludismo, de 2010, pouco do antigo material assinado por Araújo parece ter sobrevivido. Ainda que a proposta complexa do músico seja a mesma, vozes, ruídos e pequenas nuances instrumentais assumem o controle da obra de forma acessível, como se o músico “facilitasse” o caminho para a chegada do ouvinte dentro desse imenso labirinto psicodélico que cresce até os últimos instantes do álbum. []

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