Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2015 [50-41]

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#50. Amplexos
Sendeiro (2015, Independente)

O caminho assumido pela banda fluminense Amplexos em A Música da Alma, trabalho de 2012, está longe de parecer o mesmo de Sendeiro (2015, Independente). Oposto ao som marcado pela leveza e certa dose de romantismo da obra apresentada há três anos, com o novo registro de inéditas, o grupo original da cidade de Volta Redonda, Rio de Janeiro não apenas reforça o próprio discurso político e social, como encontra na temática da espiritualidade e autodescoberta um novo (e imenso) universo a ser explorado. Se até pouco tempo o grupo formado por Eduardo Valiante (voz, guitarra), Leandro Vilela (guitarra, vocais), Martché (teclados, vocais), Leandro Tolentino (percussão), Flávio Polito (baixo) e Mestre André (bateria) exaltava o amor e relações pessoais em faixas como Making Love, hoje é o discurso sóbrio, quase pessimista, que estimula parte da construção do disco. Basta a inaugural e extensa faixa de abertura, A Tecnologia, para se ter um resumo consistente de todo o trabalho. []

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#49. Bidê ou Balde
GILGONGO! – Ou, A Última Transmissão da Rádio Ducher (2015, Independente)

Três anos após o lançamento do quarto álbum de estúdio, Eles São Assim. E Assim Por Diante (2012), obra que serviu para ampliar a essência pop da Bidê ou Balde, o grupo gaúcho, assim como nos dois primeiros registros de inéditas, decide experimentar. Entre vinhetas, canções inéditas, versões, receitas culinárias e até comerciais, o quarteto formado por Carlinhos Carneiro, Leandro Sá, Vivi Peçaibes e Rodrigo Pilla transforma em música a última hora de transmissão de uma fictícia rádio local, a insana Rádio Ducher. Batizado GILGONGO! – Ou, A Última Transmissão da Rádio Ducher (2015, Independente), o álbum guiado pela voz da radialista porto-alegrense Katia Suman – uma das responsáveis pela disseminação do rock gaúcho – mostra a Bidê ou Balde em sua melhor forma. Dos versos pegajosos de À La Minuta, passando pelo romantismo de Fazer Tudo À Pé até a auto-referência que preenche os instantes finais do trabalho, poucas vezes o quarteto gaúcho pareceu tão esquizofrênico e divertido quanto no presente álbum. []

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#48. Rico Dalasam
Modo Diverso EP (2015, Independente)

Não há como negar que o título de “rapper gay” serviu para chamar a atenção da imprensa e público em relação trabalho de Rico Dalasam. Todavia, longe da construção de rótulos ou mesmo do cercado temático montado no single Aceite-C, de 2014, curioso perceber no discurso universal do EP Modo Diverso a verdadeira força do trabalho produzido pelo paulistano. Livre de um gênero específico, classe social e outros fatores que possam “limitar” o trabalho do jovem rapper, cada uma das seis faixas busca apoio em sentimentos e tormentos partilhados um evidente ponto de apoio. Composições naturalmente costuradas por elementos do universo LGBT – como RuPaul’s Drag Race, Britney Spears e Kylie Minogue -, porém, adaptadas aos mais variados públicos, focando em relacionamentos (Não Posso Esperar) e no presente sentimento de abandono do “protagonista” (Deixa) que ocupa a mente e os versos do protagonista. Partidário da mesma linguagem pop de Karol Conká e outros artistas próximos, Dalasam finaliza um trabalho descomplicado, rápido, carregando no cruzamento de ritmos – principalmente o Funk Carioca e a música eletrônica – um mecanismo de fortalecimento da própria identidade.

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#47. Johnny Hooker
Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito! (2015, Independente)

xagerado, dramático e cretino. É difícil passar pelo trabalho de Johnny Hooker e sair ileso ao final de qualquer canção. Movido pela catarse, o cantor e compositor pernambucano resume no primeiro álbum de estúdio uma coleção de estilhaços amorosos. Versos que refletem a alma atormentada do artista, provocam arrepios, se afogam em lágrimas e ainda transportam o ouvinte para dentro desse mesmo cenário. Enxugue o rosto, retoque a maquiagem e seja bem vindo ao universo perturbado de Eu Vou Fazer Uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito! (2015, Independente). Imensa colcha de retalhos líricos e instrumentais, o trabalho que vai da música brega (Alma Sebosa) ao samba de gafieira (Volta) e frevo (Chega de Lágrima) sobrevive como um reflexo da versatilidade de Hooker. Nascido de diferentes composições polidas pelo artista ao longo dos anos – caso de Volta, parte da trilha sonora do filme Tatuagem (2013) -, o álbum lentamente se espalha como um gigantesco labirinto de personagens reais, confissões e relatos alcoolizadas de qualquer indivíduo boêmio. []

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#46. Wado
1977 (2015, Independente)

Não é preciso muito esforço para interpretar o novo álbum de Wado como um obra de dois lados bem definidos. Na primeira metade: a crueza. São faixas como Deita, Lar e Cadafalso – esta última, faixa-título do último álbum de Momo. Instantes em que a “raiva”, esquiva no último disco do cantor, cresce com acerto e movimento para os versos. Na segunda parte: a leveza. Difícil não se emocionar com composições como Um Dia Lindo de Sol e Mundo Hostil, faixas que dosam descrença e esperança com uma naturalidade rara dentro do rico acervo do compositor. Dentro desse ambiente fragmentado e de essência talvez bipolar, um time de convidados alheios ao quarteto inicialmente formado por Cícero, Momo e Marcelo Camelo em Vazio Tropical. Musicistas e vozes que transportam Wado para além do território nacional, dividindo experiências com artistas do Uruguai, Alemanha, Portugal e Argentina. Entre os convidados: Samuel Úria (Deita), Graciela Maria (Galo) e Gonzalo Deniz (Mundo Hostil). Mesmo encarado como uma obra de sonoridade concisa, quase hermética, não seria um erro interpretar 1977 como o registro mais plural do artista, repetindo a mesma variedade de interferências do (hoje) clássico Samba 808 (2011). []

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#45. Figueroas
Lambada Quente (2015, Deck)

É impossível passar pelas 11 canções de Lambada Quente e ficar parado. Primeiro álbum de estúdio do cantor e compositor alagoano Givly Simons como Figueroas, o trabalho dominado pelo uso de versos românticos, guitarras tropicais e referências típicas do brega adapta de forma pop e bem-humorada a mesma sonoridade que abastece a cena musical do Norte e Nordeste do país. Ainda que o visual “cafona” de Simons – nascido Gabriel Cavalcanti Passos – pareça caçoar do estilo, basta uma rápida audição do registro para perceber a honesta relação do jovem músico com a herança de artistas como Manoel Cordeiro, Aldo Sena e Chimbinha. São faixas apaixonadas, como Gatinha Gatinha e Fofinha, ou mesmo composições que refletem o cotidiano de Simons, caso da cômica Melô do HD ou a referencial Graças a Aldo Sena e Edson Wânder. Com produção dividida entre o alagoano Dinho Zampier, produtor e parceiro de longa data do cantor Wado, e Chuck Hipolitho (Vespas Mandarinas, ex-Forgotten Boys), Lambada Quente é um verdadeiro convite para dançar.

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#44. Tulipa Ruiz
Dancê (2015, Natura Musical)

Aos gritos de “Começou! Começou!”, Tulipa Ruiz anuncia: o acesso à pista de dança foi liberado. Fuga evidente do “pop florestal” que apresentou a cantora paulistana em Efêmera, de 2010, Dancê (2015, Natura Musical) não apenas reforça o caráter urbano que orienta o trabalho da artista desde o último álbum de estúdio, Tudo Tanto (2012), como entrega ao público uma cantora renovada, mais uma vez atenta ao som pop dos primeiros registros, porém, descomplicada e, claro, dançante. Quem esperava pela produção de um som “regional” por parte de Ruiz, marca explícita no ritmo carnavalesco de Megalomania ou na recente colaboração com o paraense Felipe Cordeiro, em Virou, encontrará o oposto. Da flexibilidade das guitarras ao posicionamento enérgico dos vocais, dos versos que discutem temas cotidiano ao transparente véu eletrônico que cobra parte do trabalho, Ruiz caminha pelas pistas da capital paulista de forma a produzir um som homogêneo, quase acinzentado, como uma fuga da atmosfera “hippie” lançada em faixas como A ordem das árvores ou Efêmera. Curioso pensar que parte expressiva do recente trabalho foi concebido no isolamento de uma casa de campo, no interior de São Paulo. []

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#43. Nana
Berli(m)possível (2015, Independente)

Nana está de volta. Dois anos após o lançamento de Pequenas Margaridas, um dos trabalhos mais graciosos da música brasileira em 2013, a baiana regressa ao mesmo ambiente temático e “germânico” de Expressionismo Alemão para apresentar o inédito Berli(m)possível EP. São apenas quatro composições – Ano novo, Amor, bicho geográfico, Berli(m)possível e Recomeçar -, material suficiente para que a cantora mais uma vez transporte para dentro do universo enevoado e sutil do último grande álbum de estúdio. De um lado, o tempero doce do Twee Pop e referências que inevitavelmente tropeçam na obra inicial de bandas como Belle and Sebastian ou Camera Obscura. No outro oposto, a utilização de ritmos nacionais; elementos do samba, bossa nova e acréscimos regionais que fazem do EP um trabalho acolhedor. Como indicado logo na capa do registro, uma obra marcada pela tonalidade cinza e sempre entristecida dos versos, porém, lentamente dominada pela uso de cores vivas, traço evidente em cada arranjo doce do trabalho.

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#42. Juçara Marçal & Cadu Tenório
Anganga (2015, Sinewave / QTV)

Há tempos Cadu Tenório não presenteava o público com uma obra tão caótica quanto Anganga. Parceria com a cantora Juçara Marçal, o álbum de apenas oito faixas traz de volta toda a carga de experimentos e sons metálicos incorporados pelo músico desde os ensaios com o (temporariamente silenciado) coletivo Sobre a Máquina. Texturas sobrepostas, colagens e batidas sujas que caminham paralelamente com a voz límpida de Marçal, tão íntima da essência e do canto africano, quanto responsável pela avalanche de gritos angustiados que cobrem o disco. Fuga explícita do som incorporado pela dupla em seus respectivos trabalhos em carreira solo – Marçal com Encarnado e Tenório com delicado Vozes, ambos de 2014 -, Anganga, mais do que uma obra completa, soa como um exercício de descoberta. De um lado, o tecido sombrio criado pelo uso de microfones, sintetizadores, bateria eletrônica e todo o catálogo de instrumentos não convencionais do músico carioca; no outro, a interferência deslocada da voz de Marçal, um instrumento vivo, por vezes descontrolado, nas mãos do colaborador. []

 

#41. Quarto Negro
Amor violento (2015, Balaclava Records)

Amor violento, segundo álbum de estúdio da banda paulistana Quarto Negro é uma obra difícil de ser explorada. Arranjos de cordas e instrumental sufocante. Versos densos, como um retrato honesto (e triste) de qualquer separação. Composições longas, dramáticas, propositadamente arrastadas. Uma constante sensação de peso e descrença que prende, perturba e até mesmo conforta o ouvinte durante quase uma hora de duração. Verdadeiro martírio sentimental, por vezes íntimo dos pesadelos mais profundos de qualquer ouvinte, o sucessor de Desconocidos (2011) está longe de parecer um álbum de fácil interpretação. De fato, é necessário tempo até conseguir apoio ou mínimo equilíbrio dentro do ambiente instável montado por Eduardo Praça e Thiago Klein. Como um tecido esvoaçante, vozes e arranjos balançam da abertura ao fechamento do disco, resultando em uma obra dividida entre a hipnose e permanente desconforto. Oposto ao conceito do primeiro disco da banda, uma obra homogênea, porém, marcada pela continua formação de brechas e canções “comerciais”, Amor Violento é um registro que precisa ser apreciado em completude. Dos pianos comportados em Filhos do Frio, passando pelas guitarras de Há um Oceano entre nós, até alcançar a derradeira faixa-título, cada música espalhada pela obra serve de estimulo para a canção seguinte. []

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