Os 50 Melhores Discos Nacionais de 2016 [20-11]

[20 – 11]

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#20. Tássia Reis
Outra Esfera (Independente)

Confundindo Sábios (2013) de Rashid ou Autorretrato de Nego E (2014), Quixote (2015) de Fino du Rap ou mesmo o recente Remonta (2016) do coletivo Liniker e os Caramelows. Se existe algum grande álbum brasileiro de Hip-Hop/Soul lançado nos últimos anos, basta um ouvido atento para perceber a delicada voz de Tássia Reis entre as composições. Um canto essencialmente doce, mas que se transforma em poesia política e versos marcados pelo empoderamento feminino dentro do novo registro de inéditas da cantora: Outra Esfera (2016, Independente). “A revolução será crespa / E não na TV / A revolução será crespa / Doa a quem doer”, rima em Ouça-Me, música que nasce como uma espécie de síntese do material produzido pela artista durante toda a obra. Versos que escapam do universo intimista de Reis (“Eu tentei falar baixinho, mas ninguém me ouviu”), dialogam com a questão racial (“Meu rap é crespo! Melanina nesse rolê”) e ainda reforçam o peso da cantora como um dos principais nomes da nossa música (“Se não me dão valor, cês vão pagar muito caro pra ver”). [Resenha]

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#19. Nuven
Partir (Balaclava Records)

Pouco menos de um ano após o lançamento de Choice of a Fiction, EP de cinco faixas apresentado ao público em meados de 2015, o produtor paulistano Gustavo Teixeira decidiu dar vida ao primeiro registro completo do Nuven. Em Partir (2016, Balaclava Records), batidas minimalistas, fragmentos de vozes, samples e ambientações hipnóticas crescem com destaque ao fundo do disco, resultando em trabalho tão íntimo das pistas, quanto de um ambiente essencialmente onírico. Com Vista e Escape como músicas de abertura do álbum, Teixeira estabelece um verdadeiro catálogo de regras e toda a base que serve de sustentação para o trabalho. Décadas de referências que atravessam a obra de gigantes da IDM — como Four Tet e Aphex Twin —, dialogam com o som produzido por uma série de artistas recentes — caso de The Range, Floating Points e Ryan Hemsworth —, e ainda esbarram em ambientações e temas eletrônicos que vão do R&B e Hip-Hop norte-americano.  [Resenha]

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#18. Labirinto
Gehenna (Dissenso)

A atmosfera outonal que parecia envolver as composições de Anatema (2010), álbum de estreia da banda paulistana Labirinto, está longe de ser encontrada no obscuro Gehenna (Dissenso). Infernal, caótico e denso, o novo registro de inéditas da banda formada por Muriel Curi, Erick Cruxen, Luis Naressi, Francisco Bueno e Ricardo Pereira cresce de forma sufocante, sempre intenso. Na ausência de palavras, histórias e temas épicos narrados pelas guitarras e batidas fortes que se projetam do primeiro ao último instante da obra. Com mais de uma hora de duração, o álbum que conta com produção assinada pelo norte-americano Billy Anderson — artista que já trabalhou com nomes como Swans, Red House Painters e Melvins —, mostra o esforço da banda em provar de novas sonoridades, porém, mantendo firme a própria essência musical. Uma madura adaptação de toda a sequência de EPs, singles e obras colaborativas produzidos pelo coletivo nos últimos seis anos. [Resenha]

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#17. Iara Rennó
Arco & Flecha (YB)

Três anos após o lançamento de Iara (2013), obra que cobriu com guitarras o trabalho de Iara Rennó, a cantora e compositora paulistana está de volta não com um, mas dois álbuns repletos de composições inéditas. De um lado, a crueza e feminilidade do elétrico Arco, obra de nove canções assumidas em parceria com um time de mulheres que ocupam os versos e instrumentos do trabalho. No outro oposto, o complementarFlecha, disco que abraça a MPB e mostra a colaboração entre Rennó e um grupo de cantores, músicos e compositores em uma sequência de outras nove músicas. Com Mama-me como faixa de abertura do primeiro disco, Rennó indica a forte sexualidade e temática do empoderamento feminino que ocupa grande parte das composições em Arco. “Sonha que me despe / E a festa acontece / Sem roupa nem confete / Só carne“, canta enquanto as guitarras e um jogo sujo de sintetizadores crescem ao fundo da canção. Uma espécie de preparativo para o agressivo jogo de palavras que abastece músicas como Corpo Selvagem e Vulva Viva, fragmentos extraídos do livro de poemas eróticos Língua Brasa Carne Flor, estreia literária de Rennó, além músicas que dialogam de forma explícita com a sonoridade crua, essencialmente caótica, que abastece o último álbum da cantora. [Resenha]

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#16. Maquinas
Lado Turvo, Lugares Inquietos (Bichano Records)

Lado Turvo, Lugares Inquietos. Não é difícil se perder no interior das canções produzidas pelo grupo cearense maquinas. Dos versos descritivos, lamúrias e histórias que movimentam a obra, passando pela densa base atmosférica que se espalha do primeiro ao último ato de cada composição, todos os elementos que abastecem o obscuro registro parecem pensados de forma cercar e sufocar o ouvinte. Um cenário melancólico, essencialmente caótico e sujo como o próprio título do álbum parece indicar. “A TV sempre ligada / Minha cama desfeita / E eu me sinto bem / No mundo que eu criei“, confessa a voz arrastada da inaugural Quarto Mudo enquanto uma rica tapeçaria instrumental cresce lenta e delicadamente. São pouco mais de 10 minutos de ruídos, sobreposições etéreas e distorções que preparam o terreno para o restante da obra. Um acervo econômico, propositadamente restrito, porém, atrativo pela forma como cada composição revela ao público um mundo de detalhes e fórmulas instáveis. [Resenha]

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#15. Metá Metá
MM3 (Independente)

Duas composições inéditas – Atotô, Sozinho – e uma curiosa interpretação do clássicoMe Perco Nesse Tempo – canção originalmente apresentada em 1986 pela banda de pós-punk paulistana As Mercenárias, e, posteriormente, regravada pelo Ira! como parte do álbum 7, dez anos depois. Entregue ao público em maio do último ano e passando quase despercebido pelo público da banda, Metá Metá EP (2015) hoje parece anunciar a mudança de direção que marca o terceiro e mais recente álbum de inéditas do Metá Metá, MM3 (Independente). Do ritmo intenso e voz forte de Juçara Marçal em Angoulême, passando pelo toque semi-carnavalesco que invade Corpo Vão, até alcançar a extensa Oba Koso, faixa de encerramento do disco, todos os elementos do presente disco se articulam de forma a revelar um material tão intenso e urgente quanto o bem-sucedido acervo apresentado no álbum MetaL MetaL, de 2012. Uma colisão de ideias e referências que incorporam elementos da cultura africana, jogam com emanações jazzísticas dos anos 1970 e acabam encontrando no punk um novo direcionamento para o trabalho da banda. [Resenha]

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#14. Terno Rei
Essa Noite Bateu Como Um Sonho

Um sussurro angustiado entre os versos de Criança – “As coisas que eu perdi / Nunca voltam” –, e a essência melancólica da Terno Rei se revela por completo em Essa Noite Bateu Com Um Sonho (Balaclava Records). Sucessor do delicado Vigília (2014), o segundo álbum de estúdio do quinteto paulistano nasce como uma extensão madura do som intimista que há tempos orienta a obra de Ale Sater (voz e baixo), Bruno Paschoal (guitarra), Greg Vinha (guitarra), Luis Cardoso (bateria) e Victor Souza (percussão). Produzido em um intervalo de quase dois anos, o registro que conta com produção assumida pelo músico Guilherme Chiappetta, parceiro do grupo desde o primeiro álbum de estúdio, mostra a busca do quinteto pela construção de um material cada vez mais complexo, soturno e alimentado de forma explícita pelos detalhes. Memórias de um passado ainda recente, confissões e delírios psicodélicos. Composições em que a poesia sorumbática do grupo dialoga diretamente com o ouvinte. [Resenha]

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#13. Vitor Araújo
Levaguiã Terê (Natura Musical)

Os experimentos testados por Vitor Araújo no complexo A/B — 15º  lugar na nossa lista dos 50 melhores discos de 2012 —, estão longe de chegar ao fim. Em Levaguiã Terê (Natura Musical), segundo álbum de estúdio do compositor pernambucano e primeiro registro montado apenas com composições próprias, vozes em coro, arranjos de corda e delicadas melodias tortas servem de estímulo para a construção de um trabalho que ganha novo significado a cada movimento orquestral ou mínima alteração no canto melancólico de seu idealizador. Inspirado de forma confessa pelo trabalho de artistas como Björk, The Knife, Animal Collective e, principalmente, os britânicos do Radiohead, grande influência de Araújo, o registro de 14 faixas e pouco mais de 70 minutos de duração mostra a busca do multi-instrumentista por um novo mundo de possibilidades, texturas, fórmulas e sonoridades. Batidas e temas eletrônicos que correm em paralelo ao uso de ambientações orquestrais e conceitos íntimos da música de vanguarda. [Resenha]

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#12. Nego E
Oceano (Independente)

O oceano desbravado no segundo álbum de estúdio de Nego E. é imenso, turbulento e propositadamente instável. Navegando em uma embarcação resistente, segura, projetada a partir do uso preciso das rimas, o princípio de um constante embate contra ondas de preconceito, criminalidade, racismo e perseguição policial. Uma extensão madura do mesmo conceito caótico e urbano explorado pelo rapper há dois anos, durante a produção do primeiro álbum de inéditas, o ótimo Autorretrato (2014). Anunciado durante o lançamento de Lua Negra, primeiro single do disco, Oceano(2016, Independente) joga com as rimas e referências dentro de uma atmosfera essencialmente densa, sombria. “Cadê a lei do ventre livre quando uma preta é estuprada? / A noite vi minha mãe com insônia / Por não saber se eu ia cair numa cena forjada”, questiona o rapper, preparando o terreno para ápice dramático da canção – “Eu não consigo respirar, ainda pareço suspeito? / Para de atirar, eu parecia suspeito?” –, uma delicada ponte para o movimento Vidas Negras Importam. [Resenha]

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#11. Bilhão
Bilhão (Balaclava Records)

Versos que detalham a passagem do tempo, guitarras essencialmente sutis e a constante sensação de acolhimento. Em Bilhão (Balaclava Records), delicado registro de estreia do projeto comandado pelos músicos Felipe Vellozo (Séculos Apaixonados, Mahmundi) e Gabriel Luz (Crombie), todos os elementos que abastecem a obra são apresentados ao público com leveza, como a passagem para um ambiente que se faz convidativo, um verdadeiro recanto instrumental e lírico. Tendo como base Atlântico Lunar e Horizontalidade, composições que apresentaram o trabalho da dupla carioca há poucos meses, vozes e arranjos flutuam em um aconchegante colchão de melodias tímidas e litorâneas. Sem pressa, ainda que efêmero – são apenas sete faixas e pouco mais de 20 minutos de duração -, o álbum segue à risca o verso central que salta da canção de abertura: “…que o tempo passa / Gordo e devagar”. [Resenha]

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