Os Melhores Discos de 2013: Lista dos Leitores

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Com apenas cinco dias de votação e contando com o bom gosto do nosso público, encerramos mais um especial Melhores Discos: Lista dos Leitores. Para a terceira edição da nossa lista colaborativa de fim de ano, tivemos mais de 100 participantes válidos, que elegeram seus discos nacionais e internacionais favoritos. Como nos outros anos, os leitores do Miojo Indie mais uma vez surpreenderam, lançando seus votos para registros pouco conhecidos e uma centena de obras que dificilmente estariam em uma seleção de obras mais “comerciais”. Foram mais de 80 discos nacionais participantes, e quase 150 obras estrangeiras que entraram na seleção/contagem final.

Diferente dos anos anteriores, em que apenas o número de votos era levado em consideração, para a edição 2013 do nosso especial, cada disco ganhou um ponto específico de acordo com a posição atribuída pelo leitor – indo de 5 Pontos para o 1º Lugar, até 1 Ponto para o 5º colocado. A decisão serviu para acelerar a contagem dos votos, bem como um resultado mais justo na filtragem ou possível desempate dos votos. Outro diferencial é a participação dos leitores na construção dos textos da lista final. Além dos votos, cada leitor foi convidado a escrever um texto curto, explicando os motivos que o levaram a escolher o melhor disco de cada lista.

Com a seleção final pronta, resta o nosso agradecimento aos participantes e espero ver vocês no próximo ano em mais uma lista dos leitores.

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|Lista Internacional|

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David Bowie

#10. David Bowie
The Next Day (Iso Records/Columbia)
09 Votos / 30 Pontos

David Bowie parece ter encontrado em Tony Visconti uma solução para se desviar da sequência de lançamentos ruins que vinha acumulando desde 1980. Dono de algumas das obras mais importantes da história da música, o cantor inglês rompe o hiato de dez anos para continuar o que iniciou com o parceiro nova-iorquino no início da carreira, posteriormente aprimorou na “Era Berlim” e hoje prossegue no terceiro ato de um projeto iniciado em 2002, com o disco Heathen. Vigésimo quarto álbum na carreira do músico britânico, The Next Day (2013, Iso Records/Columbia) está longe de refletir a fase mais inventiva do cantor, porém, serve como um aviso para os que tentam derrubá-lo: O “Camaleão do Rock” está de volta, e em nítida boa forma. Não espere por maquiagens ousadas, personagens fantásticos que vieram do espaço ou o velho contraste andrógino que percorreu a fase mais rica do compositor, assim como nos dois trabalhos anteriores, o novo Bowie é sóbrio, porém, não menos convincente. [+]

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Disclosure

#09. Disclosure
Settle (Island)
15 Votos / 33 Pontos

A nostalgia é parte inevitável no que alimenta o trabalho dos irmãos Guy e Howard Lawrence com o Disclosure. Nascidos no começo da década de 1990, os dois irmãos e parceiros de produção podem não ter vivido a ascendência da cena House – inglesa e norte-americana -, ou talvez fossem muito novos para compreender as maquinações do Garage UK no começo dos anos 2000, porém, tão logo Settle (2013, Island), primeiro registro da dupla tem início, é como se física ou conceitualmente eles estivessem lá. Um curioso efeito de nostalgia não vivenciada que assume efeitos claros, transformando cada instante do delicadamente construído primeiro disco da dupla em um catálogo de sons para os não iniciados. A julgar pela maneira como os samples de vozes se trançam em meio a batidas no decorrer de When a Fire Starts to Burn, logo na abertura do disco, todo um cardápio de essências são apresentadas em doses imoderadas pelo álbum. É como se The Chemical Brothers se encontrasse com Aphex Twin, enquanto Daft Punk compartilha experiências com Burial e Joy Orbinson em uma festa de música pop. [+]

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Vampire Weekend.

#08. Vampire Weekend
Modern Vampires Of The City (XL)
15 Votos / 49 Pontos

Em novembro de 2009, enquanto o mundo ainda digeria Merriwheater Post Pavilion, se acomodava na calmaria do The XX e aproveitava dos experimentos de Grizzly Bear e Dirty Projectors, uma contagem regressiva preparava o terreno para a chegada de Horchata. Primeiro single do segundo registro em estúdio do Vampire Weekend, Contra (2010), a canção serviria como um ponto de ruptura e transformação para aquilo que o quarteto nova-iorquino havia iniciado em janeiro de 2008. Longe da aceleração de A-Punk, Campus, Walcott e um cardápio de canções divididas entre as raízes africanas e o rock alternativo, o grupo parecia naturalmente inclinado ao experimento, fazendo do segundo álbum uma matriz para o que é solucionado apenas agora. Continuação quase exata de tudo o que a banda alcançou há três anos, Modern Vampires Of The City (2013, XL) surge como a musculatura para o emaranhado de ossos sustentados pelo quarteto em 2010. Mais completo e arriscado trabalho do grupo até aqui, o novo álbum sobrepõe os ritmos tropicais e étnicos para movimentar um trabalho entregue às melodias do Chamber Pop. Próximo do épico, mas sem abandonar as qualidades pop que apresentaram a banda, cada etapa do registro se apresenta como um ponto de identidade para o quarteto. [+]

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Overgrown

#07. James Blake
Overgrown (Polydor)
16 Votos / 55 Pontos

‘O tempo passa num estado constante’, canta Blake na música-título do seu segundo álbum. O tempo não passa. Ou se passa, a gente não percebe. E quando percebe, já é tarde. Quando do lançamento do seu debut há dois anos, o britânico James Blake explicava seu som como uma espécie de viagem de trem por paisagens que se repetiam copiosamente. É nesse espectro de um tempo-espaço frágil, entre a juventude desconfigurada dos seus primeiros registros contra um sensação de amadurecimento precoce, que seu mais recente trabalho, o ótimo Overgrown, chegou ao público. Em termos práticos, Blake saiu da alcunha das suas próprias distorções, dando as caras na capa do álbum, assim como deixou também seus vocais delicados preencherem a massa de silêncios predominantes de outrora. Se impôs como homem, produtor e artista, mas bem, as incertezas e inconstâncias pairam por cada verso do álbum. E Overgrown só indica que esse passeio de trem está bem longe de terminar”. Comentário do leitor Junior Candido. [+]

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Lorde

#06. Lorde
Pure Heroine (Universal)
16 Votos / 56 Pontos

Mas toda música fala sobre dentes de ouro, vodka, drogas no banheiro/ (…) E nunca seremos da realeza, não corre no nosso sangue/ Esse tipo de amor não é pra gente”. Quando os versos de Royals chegaram aos ouvidos do público no último ano, a jovem Ella Yelich-O’Connor, a Lorde, assumiu um espaço isolado não apenas dentro da produção musical neozelandesa, mas de alcance além do território insular a que estava submetida. Capaz de brincar com a música pop em uma medida instrumental e lírica de visível caráter adulto, a jovem foge aos clichês de outros artistas da mesma idade (ou até superior), transformando o primeiro registro em estúdio em uma representação antagônica de tudo que a adolescência estilizada tenta passar. Como se pusesse à prova toda obra encarada com maturidade, assim que entramos no território moldado para Pure Heroine (2013, Universal) Lorde assume a própria grandeza. São batidas arquitetadas em uma atmosfera épica e ao mesmo tempo ponderada, emanações de caráter minimalista, mas que sufocam, além de um cercado poético obscuro que consegue ir além das temáticas de uma jovem de sua idade. [+]

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Kanye West

#05. Kanye West
Yeezus (Roc-A-Fella/Def Jam)
17 Votos / 60 Pontos

Kanye West é zuero. Um álbum com uma capa/sem capa? Um cantor se que auto-proclama Deus? Samples. Barulho, muito barulho. Yeezus incomoda, machuca e vicia logo na primeira audição. Genial!” Comentário do leitor Emerson Gunther Machado.

Se em 2004, quando lançou oficialmente Jesus Walks, Kanye West cantava sobre Deus em um sentido claro de louvor e adoração, ao apresentar Yeezus, sexto álbum solo, o rapper escolheu assumir a própria deidade. Lançado sob forte expectativa – afinal, qual seria o próximo passo do artista depois do aclamado My Beautiful Dark Twisted Fantasy? -, o registro concentra em cada faixa uma aproximação maior com a eletrônica, trazendo de volta uma série de conceitos firmados em Graduation (2007), porém, em uma medida ainda mais intensa, quase sufocante. Acompanhado das vozes de Frank Ocean e Justin Vernon, além, claro, de Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter (do Daft Punk) em parte da produção, West desfila por uma obra tão grandiosa, quanto a que fez dele um gigante anos antes. Seja na escolha dos samples ou na fabricação cuidadosa das próprias bases – impulsionada por novos nomes da eletrônica/Hip-Hop -, o álbum apresenta no manuseio veloz dos arranjos uma obra que se extingue na mesma velocidade em que é apresentada. Intenso, Yeezus é mais uma prova de que a genialidade (e também a loucura) de Mr. West estão longe de se extinguir. [+]

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QOTSA

#04. Queens Of The Stone Age
… Like Clockwork (Matador)
19 Votos / 70 Pontos

…Like Clockwork pode não ser exatamente uma volta do Queens of the Stone Age para seu auge. Sejamos sinceros, porém: Alguém realmente precisa de mais um Songs For The Deaf? Seis anos depois do seu último lançamento, a banda voltou com 10 músicas que ilustram um tempo difícil para seu líder, Josh Homme. O que impressiona é que, no percurso de toda sua duração, o registro não possui um momento desinteressante. Todas as músicas são boas, a produção é excelente e a banda convence que ainda tem muito a contribuir ao mundo da música”. Comentário do leitor Luiz Felipe Fonseca.

São poucas as bandas de rock atualmente que mantém viva a tradição das guitarras barulhentas e pesadamente distorcidas, e o Queens Of The Stone Age talvez seja o melhor exemplo disso. Ao longo de toda a carreira do grupo, Josh Homme nunca abriu mão de riffs intensos e volumes altos, honrando seu passado metaleiro com o Kyuss. Ainda assim, os álbuns da banda costumavam incluir uma ou outra canção mais pop, como a Make It With Chu (de Era Vulgaris) e I Never Came (em Lullabies to Paralyze), que destoavam um pouco do resto. Em …Like Clockwork (2013, Matador), sexto disco do grupo, essas tendências pop estão mais diluídas. Nenhuma das canções dá a impressão de ser propositalmente mais acessível e, ainda assim, o disco é o mais imediatamente recomendável da banda. [+]

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AM

#03. Arctic Monkeys
AM (Domino)
29 Votos / 81 Pontos

“The Strokes e Comedown Machine, Yeah Yeah Yeahs e Mosquito, Franz Ferdinand com Right Thoughts, Right Words, Right Action, e até o Bloc Party com o EP The Nextwave Sessions. Alinhamento dos planetas ou não, mas o fato é que 2013 foi o ano escolhido para que “jovens veteranos” do panorama “alternativo” apresentados na última década voltassem à cena. Alguns de forma assertiva, como revelou o quarteto escocês, outros de maneira torta, vide o mais novo exagero de Kele Okereke e seus parceiros. O restante, para o bem ou para o mal, parece posicionado em um meio termo, iluminado por um holofote baixo e que até chama as atenções, mas está longe de convencer realmente. Mas e o Arctic Monkeys, onde fica nesse cenário? Dois anos após requentar as ideias no quase caricato Suck It and See (2011), obra que praticamente cresce à sombra do psicodélico Humbug (2009), Alex Turner e os parceiros de banda regressam ao mesmo território “agressivo” de outrora, posicionando as guitarras e vozes dentro de um ambiente temático bastante similar para abastecer AM”. [+]

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Daft Punk

#02. Daft Punk
Random Acess Memories (Columbia)
29 Votos / 94 Pontos

Uma volta ao passado, mas mantendo sua identidade robótica. Em Random Access Memories, a vibração das músicas leva o ouvinte para algo mais novador e criativo de tudo o que eles já fizeram, sempre mantendo a pegada dançante dos discos anteriores. Uma viagem emocionante da música eletrônica, com pitadas do pop, funk, disco, onde o som não está mais focado em um mundo de robôs, mas em um sentimento mais humano. Indiscutivelmente o seu melhor trabalho”. Comentário do leitor Lian Matts.

Depois de libertar sua mente sobre o conceito de harmonia e da música estar correta, você pode fazer o que quiser. Então, ninguém me disse o que fazer, e não havia nenhum preconceito sobre o que fazer”. A frase do produtor italiano Giorgio Moroder no interior da música que leva seu nome parece representar com exatidão tudo aquilo que Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo viveram nos últimos 20 anos. Passada a construção do cenário que apresentou o Daft Punk com Homework (1997), o ápice inventivo e o “conceito de harmonia” em Discovery (2001), além do reaproveitamento de ideias em Human After All (2005), o duo francês alcança o quarto registro em estúdio com um simples objetivo: se livrar dos próprios preceitos e experimentar. [+]

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Arcade Fire

#01. Arcade Fire
Reflektor (Merge)
54 Votos / 179 Pontos

Who The Fuck Is Arcade Fire?!?. A dúvida de quem viu o “desconhecido” coletivo subir ao palco da 53ª edição do Grammy Awards, em 2011, para faturar o título de disco do ano, talvez seja esclarecida somente agora. Quarto registro em estúdio do Arcade Fire, Reflektor (2013, Merge) assume no isolamento temático – tão típico da estética conceitual da banda – um princípio natural de transformação e (re)invento. Longe dos subúrbios, funerais ou da poesia barroca que parecia estável até pouco tempo, o grupo orquestrado com firmeza por Win Butler encontra no cenário hermético da década de 1980 um ponto natural de ruptura. Uma obra capaz de converter já foi aproveitado de forma redundante, em décadas de clichês, dentro de um espaço aberto em essência à novidade.

Seguindo exatamente de onde os sintetizadores de Sprawl II (Mountains Beyond Mountains) encerraram a composição de The Suburbs, em 2010, Reflektor assume no azulejo sintético a obra mais específica e ainda assim plural da curta discografia do grupo. Manifestação confessa de tudo o que alimenta a base instrumental dos canadenses, o trabalho firma no catálogo de experiências conquistadas há 30 anos uma autorização explícita para visitar a obra de gigantes como Talking Heads, David Bowie, U2 e demais veteranos do mesmo cenário. Entretanto, assim como no rock de arena e os flertes orquestrais que apresentaram a banda há uma década, mais do que recriar um retrato de um período ou gênero específico, o Arcade Fire parece interessado em brincar com o próprio entendimento desse resultado”. [+]

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|Lista Nacional|

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Baleia

#10. Baleia
Quebra Azul (Independente)
09 Votos / 33 Pontos

O tempo apenas trouxe benefícios ao trabalho do coletivo carioca Baleia. Se até poucos meses os contornos jazzísticos e a brincadeira em “amadurecer” o pop servia como base ao cenário instrumental do grupo, ao passear pelo campo que se abre em Quebra Azul (2013, Independente), primeiro registro em estúdio, a banda prova que pode ir ainda mais longe. Estranho e acessível em uma divisão exata, o álbum esforça um resultado que segue na contramão do que outros coletivos nacionais insistem em apostar, trazendo na real quebra – de vozes e sons – o apoio para uma obra que mesmo passadas diversas audições, ainda esconde um catálogo imenso de surpresas. Quem pensava que a versão refinada de What Goes Around Comes Around, de Justin Timberlake, seria a pista a ser explorada pela banda, logo ao pisar nas melodias adocicadas da inaugural Casa vai ver que os rumos do grupo são outros. Longe dos versos em inglês, também testados em Killing Cupids, o sexteto encontra no bem planejado uso dos arranjos um labirinto mutável de experiências. Do orquestral ao rock, do Jazz ao pop, a aposta dos cariocas é a transformação, o que faz de cada integrante da banda em uma peça significativa para a movimentação do disco. [+]

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Vanguart

#09. Vanguart
Muito Mais Que O Amor (DeckDisc)
11 Votos / 34 Pontos

Há dois anos, quando lançava Parte de Mim Vai Embora (2011), a proposta do Vanguart parecia ser clara e simples: soar acessível. Longe da poesia complexa que ocupa os versos trilíngues do autointitulado debut, de 2007, o quinteto cuiabano parecia cada vez mais interessado em buscar pelo grande público – um percurso de quase oposição ao hermetismo testado em início de carreira. Sustentando com acerto uma lírica melódica – que abastece faixas como Mi Vida Eres Tu e demais composições do trabalho -, a banda deu um passo seguro para o domínio de uma soma ainda maior de ouvintes, merecida sequência de prêmios no VMB de 2012 e, claro, a base para o que se revela em um efeito amplo na construção do terceiro registro em estúdio. Intencionalmente dramático, Muito Mais Que O Amor (2013, DeckDisc) se aproveita do mesmo teor amargo dos trabalhos anteriores, porém, em um sentido intenso de confissão. O que antes era proposto de forma existencial e melancólica – principalmente em faixas como Semáforo, Para Abrir os Olhos e Cachaça -, agora dá lugar ao drama pintado de saudade e expectativa. [+]

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Mahmundi

#08. Mahmundi
Setembro EP (Independente)
14 Votos / 35 Pontos

Desacelerar e fechar as cortinas. O Calor do Amor que até pouco tempo emanava do trabalho de Marcela Vale com o Mahmundi, agora aparece frio, tímido e machucado pela saudade. Longe do pop nostálgico e do brilho empoeirado de outrora, a cantora e compositora carioca se fecha em um emaranhado melancólico de palavras, transformando o recém-lançado Setembro EP (2013, Independente) em uma obra egoísta, mas, nem por isso, difícil de impressionar. Confessional em totalidade e construído em um território de beleza lírica própria, o registro é a antítese da obra anterior, Efeito das Cores (2012), ao mesmo tempo em que se revela como uma completa continuação do mesmo teor sentimental que habita na obra da artista. Em uma atmosfera de contraste, enquanto o EP entregue no último ano se apresenta como uma obra impulsionada pela estética matinal-oitentista, Setembro é a noite. Mesmo encorpadas e dominadas por pequenas emanações densas, as canções se acomodam em uma atmosfera essencialmente intimista, como se Vale conduzisse o espectador por um Rio de Janeiro melancólico, cinza e conhecido em totalidade apenas dela. [+]

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Emicida

#07. Emicida
O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (Laboratório Fantasma)
11 Votos / 37 Pontos

Se “a vida é só um detalhe”, como apontam os versos de Crisântemo, então a construção de O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013), “estreia” de Emicida, é marcada inteiramente por eles. Detalhes. Do sonho lúcido que atravessa o álbum com o conceito de Milionário De Sonho, ao jogo de bases carregadas de acerto melódico, das rimas cruas ao catálogo de sons esculpidos com cuidado, cada passo dado pelo rapper no interior do novo disco se transformar em uma manifestação aprimorada do que foi conquistado previamente – seja em estúdio ou no ambiente caseiro da primeira mixtape. Um misto claro de maturidade e descoberta que amplia os resultados anteriores do artista e, naturalmente, o encaminha ao grande público. Posicionado em um meio termo exato entre o Underground e o Mainstream, Emicida usa do novo registro como um ponto de colisão entre referências. De um lado estão faixas tomadas pelo comercial (Gueto), incorporações melódicas (Hoje Cedo) e azulejos musicais que aproximam o rapper da Nova MPB (Samba Do Fim Do Mundo). No outro oposto, canções que aprimoram a relação do paulistano com tudo o que foi conquistado nas duas mixtapes anteriores – Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe (2009) e Emicídio (2010). [+]

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Dorgas

#06. Dorgas
Dorgas (Vice)
14 Votos / 43 Pontos

Existe uma medida constante de ironia e genialidade que abastece o trabalho do Dorgas desde os primeiros lançamentos. Entretanto, paralelo aos inventos do grupo cresce uma necessidade ainda maior, capaz de organizar e alinhar estes dois elementos dentro de um propósito único: A transformação. A julgar pelo caminho torto assumido desde a chegada de Verdeja EP (2010), cada novo registro entregue pelo quarteto carioca parece amortecido pelo ensaio lisérgico-experimental que decide os rumos e imperfeições calculadas de cada canção. Um posicionamento sempre excêntrico, que brinca com os sons, versos e até mesmo imagens naquilo que orienta agora toda a construção do recém-lançado primeiro álbum do grupo. Ponto final e ainda início de tudo o que o quarteto – Cassius Augusto (voz e baixo), Eduardo Verdeja (guitarra, baixo), Gabriel Guerra (voz, teclados) e Lucas Freire (bateria, percussão) – vem projetando desde o começo da carreira, o autointitulado disco traz de volta marcas características que alimentaram a banda nos últimos quatro anos – sempre com um toque óbvio de novidade. [+]

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Cícero

#05. Cícero
Sábado (Independente)
20 Votos / 46 Pontos

Expectativa e frustração se misturam no Sábado de Cícero. Distante do cenário amargo e das confissões melódicas que abastecem o bem recebido (para não dizer “adorado”) Canções de Apartamento (2011), o músico carioca encontra no segundo registro em carreira solo uma ruptura intencional em relação a própria obra. Espécie de fuga “experimental” para um cenário abastecido por violões minimalistas, ruídos e poucos versos, o trabalho cresce em uma atmosfera de isolamento. É como se cada acorde ou mínima partícula sonora caminhasse em um sentido oposto ao álbum anterior. Um misto constante de ressaca e imersão forçada que tenta parecer vanguarda, mas na verdade é apenas retrocesso – ou talvez nem isso. Olhem para a capa de Canções de Apartamento. Todas as pistas que abastecem o novo disco estão lá. As referências ao trabalho de Thom Yorke/Radiohead, as colagens literárias, os Beatles da fase Revolver (1966), memórias avulsas, porém, ordenadas de maneira precisa. Tudo parece empilhado em uma estante de tendências líricas e conceituais, tendo na melancolia confessa (e temporária) o princípio para a organização óbvia desses elementos. Em Sábado, todos essas marcas são novamente resgatados pelo cantor, com a diferença de que não há um fio condutor, não há um tema, não há qualquer chance de abertura ao velho universo de Cícero. Apenas desordem fingindo maturação. [+]

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Wado

#04. Wado
Vazio Tropical (Oi Música)
19 Votos / 60 Pontos

A busca por trabalhos desenvolvidos em cima de temáticas e conceitos bem definidos sempre foi a base ou pelo menos um princípio para os registros de Wado. Catarinense situado no Alagoas, o artista trouxe no manuseio das transformações específicas – líricas ou instrumentais – a base para cada um de seus projetos, um catálogo que já acumula seis exemplares de pleno invento para a música nacional. Seja a herança negra em Atlântico Negro (2009), os ritmos periféricos que deram vida ao dançante Terceiro Mundo Festivo (2008), ou mesmo os acertos eletrônicos que alimentaram a modernização de Samba 808 (2011), cada álbum assinado pelo músico dança livremente por estilos em apego temporário. Estranho que ao alcançar Vazio Tropical (2013, Oi Música), o músico pareça inclinado a se distanciar do mesmo propósito. Espécie de regresso e também afastamento involuntário aos lançamentos prévios do músico, o novo álbum de Wado – quarto sem a banda de apoio, O Realismo Fantástico -, navega pelo passado com um toque inevitável de presente. Extensão menos sintética do que alcançou em 2011, o registro surge como um trabalho quase “desplugado”, traduzindo no aspecto moroso dos sons a premissa para um álbum de razões bucólicas, plenamente sutis. [+]

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Marcelo Jeneci

#03. Marcelo Jeneci
De Graça (Slap)
19 Votos / 61 Pontos

Se pudesse definir De Graça (Slap), segundo álbum solo de Marcelo Jeneci, em uma só frase, provavelmente seria algo como: “Um disco para toda a família”. E de fato é exatamente isso que o cantor e compositor paulistano ressalta com o sucessor de Feito Pra Acabar (2010). Da coleção presente de típicas canções de novela, representadas por Temporal e Alento, aos versos que esbarram na temática pueril, com Só Eu Sou Eu, até as canções perfumadas pela saudade, Um de Nós, cada faixa instalada no registro emana referências que parecem atender aos mais diversos públicos. Crianças e adultos, solteiros e casais, na sessão livre de Jeneci há espaço para todos – sem restrições. Movido pela temática de que “o melhor da vida é de graça”, Jeneci faz nascer uma obra recheada por temas sutis, observando os sentimentos em um teor de continuidade ao que fora proposto em músicas como Felicidade. São versos de apelo cotidiano, sorrisos honestos e um sentimento confortável que quase raspa na auto-ajuda. De fluxo sorridente, algo nítido na construção poética de Temporal (“Deixa passar o dia ruim/ Que a tempestade resolve com Deus”) e O Melhor da Vida (“O que vale nessa vida é ver como você aproveita”), o registro, mais do que reforçar a delicadeza típica do trabalho do músico, serve como um refúgio para quem busca por acalento. [+]

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Rodrigo Amarante

#02. Rodrigo Amarante
Cavalo (Slap)
26 Votos / 86 Pontos

Sabendo que há um tempo o Amarante já buscava gravar um disco solo fiquei bastante animado, mas depois acalmei;mesmo gostando bastante de Los Hermanos – que se difere completamente do projeto solo. Mas quando escutei pela primeira vez o disco, foi algo que me cativou; desde a utilização (diferenciada) de alguns instrumentos – com uma característica tímida, às letras abstratas e introspectivas. A forma que o Amarante encontrou de externar o sentimento de “estrangeiro” que ele tanto fala no disco foi algo impressionante. A utilização de outros idiomas (inglês nas músicas Hourglass, Fall Asleep, The Ribbon e I’m Ready; francês na Mon Nom; e algumas falas em japonês na música Cavalo, cantada em português, que é a mais introspectiva do disco e fala do “duplo”, a ideia proposta pelo Amarante na utilização da palavra Cavalo para nomear o disco) tornou mais fácil a transmissão desse sentimento.

Em partes, o disco não agradou tanto os ouvintes de Los Hermanos. Os fãs não esperavam algo tão “deprê”, como os próprios denominaram, em sua maioria, nem algo tão interno. As letras não são tão fáceis de compreender, pois carregam algumas experiências de vida do próprio Amarante, vistas e descritas de uma forma bem diferente do comum; esse fator não atraiu tanto os ansiosos pelo disco, assim como a sonoridade. Tudo isso faz parte de uma característica do disco: não se preocupar com a comerciabilidade. A capa não traz nada “chamativo” além das letras das músicas. O Amarante foi corajoso com o lançamento do disco que se difere de algo que vem sido feito no cenário musical brasileiro e por isso a obra se torna tão única e fantástica”. Comentário do leitor Antônio Leonardo. [+]

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Apanhador Só

#01. Apanhador Só
Antes Que Tu Conte Outra (Independente)
39 Votos / 144 Pontos

Quando vi a banda Apanhador Só compartilhar o projeto de financiamento coletivo para seu segundo disco, não tive dúvidas: fiz logo o investimento. Já conhecia o primeiro disco e era uma das poucas coisas de música brasileira das quais gostava na época em que o ouvi. Eu nunca poderia ter previsto o que se sucedeu. O disco resultante é um trabalho consistente de composições surpreendentes, remetendo a muito mais influências do que o álbum homônimo da banda, e uma sonoridade experimental incrivelmente original. Em Antes Que Tu Conte Outra, Apanhador Só certamente mostrou a que veio”. Comentário do leitor Luiz Felipe Fonseca

Partindo de um financiamento coletivo, ao entregar os custos do segundo registro para os próprios ouvintes, a gaúcha Apanhador Só não apenas antecipava o que seria uma continuação exata do primeiro álbum, como parecia mergulhar no velho (e desgastado) reaproveitamento de fórmulas da música nacional. A expectativa era de que a banda surgisse confortavelmente instalada nas repetição de ideias testadas em Prédio, Bem-Me-Leve e todo o cardápio agridoce do debut. Um toque de Los Hermanos, uma pitada de samba, alguns acréscimos da poesia gaúcha e pronto: estava lançado o registro. Entretanto, nada poderia ser mais satisfatório do que saber que em Antes Que Tu Conte Outra (2013, Independente), segundo trabalho de estúdio da banda, pouco ou quase nada do primeiro álbum parece ter sobrevivido. [+]


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