Os Melhores Discos de 2014: Lista dos Leitores

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Quais são os melhores discos de 2014? Ora, pergunte aos leitores do Miojo Indie. Depois de apresentar a nossa lista com os 50 melhores lançamentos nacionais e internacionais do ano, está na hora de conhecer os trabalhos eleitos por aqueles acompanham o site e participaram da nossa votação.

Como na edição anterior, cada votante indicou cinco discos brasileiros e cinco estrangeiros, organizando os trabalhos em uma ordem de preferência do 1º lugar para o 5º lugar. Cada posição conta com uma pontuação diferente, começando em 5 Pontos para o 1º colocado, 4 para o 2º, 3 para o 3º, 2 para o 4º e 1 ponto para o 5º colocado. Veja o resultado:

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#10. Alice Caymmi
Rainha dos Raios (2014, Joia Moderna)
Marcou: 27 pontos

O mar inquieto desbravado por Alice Caymmi durante o primeiro álbum de estúdio, de 2012, encontra agora seu estado de maior agitação. Em Rainha dos Raios, segundo trabalho solo da cantora e compositora carioca, todas as experiências – líricas e musicais – arrastam agora o espectador para um cenário de plena incerteza e constante transformação. Instável e senhora do próprio domínio, Alice rompe de forma decisiva com os laços da própria herança, deixando de ser encarada apenas como a “neta de Dorival Caymmi” para governar um universo inteiro dentro das próprias imposições. Imenso registro de possibilidades, a obra “em louvor” à Iansã – a orixá das tempestades – logo se converte em um registro de incorporação. Das vozes fortes tomadas pela androginia ao uso versos provocados pelo incerteza de gênero do eu-lírico, quem passeia com liberdade pelo disco não é Alice, mas as diferentes entidades que temporariamente invadem o corpo (e voz) da artista. Contrariando a força autoral do primeiro disco – rompida apenas na regravações de Unravel de Björk e Sargaço Mar do próprio avô -, aqui Alice é Caetano Veloso (Homem), Maysa (Meu Mundo Caiu), MC Marcinho (Princesa) e até uma versão transformada dela mesma (Antes de Tudo). Mesmo quando se encontra com o hitmaker Michael Sullivan em Meu Recado, Caymmi está longe de repetir a mesma “personagem” exaltada no álbum de estreia. Rostos, vozes e papéis que se confundem sem deixar de ditar a direção (incerta) a ser seguida pelo ouvinte no decorrer do trabalho. [+]

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#09. Russo Passapusso
Paraíso da Miragem (2014, Independente)
Marcou: 28 pontos

Não é preciso muito esforço para perceber todas as nuances e referências que compõem o plano de Russo Passapusso em Paraíso da Miragem. Uma pitada de Novos Baianos na faixa Areia, diálogos com o Rock dos anos 1970 em Remédio, tropeços pelo samba em Sangue do Brasil e Flor de Plástico, além de toda uma sobrecarga de emanações densas, quase letárgicas, típicas do Dub robótico já incorporado pelo artista baiano ao lado dos parceiros do BaianaSystem. De forma simples, um amontoado de texturas e sons talvez previsíveis quando voltamos para faixas como Calandu e Magnata – esta última com os parceiros do Bemba Trio -, mas que encontram um formato “inusitado” em meio ao conjunto de novas imposições do cantor. Do uso de falsetes em músicas aos moldes de Flor de Plástico – estrutura já “criticada” pelo público, como apontou em entrevista -, passando pela coleção de melodias cada vez mais delicadas, a estreia solo de Passapusso é uma obra a ser observada de forma atenta, sutil, coletando cada ruído doce reinterpretada pelo artista. Ainda que exposto dentro do mesmo contexto tecido nos projetos paralelos de Passapusso, Paraíso da Miragem é um disco que cresce a partir de em uma rápida curva de possibilidades. [+]

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#08. Far From Alaska
modeHuman (2014, Independente)
Marcou: 31 pontos

“Far From Alaska é uma banda de rock de Natal/RN nascida no primeiro semestre de 2012 e formada por nomes bem conhecidos e experientes da cena potiguar: Emmily Barreto (vocal), Cris Botarelli (synth, lap steel e voz), Edu Filgueira (baixo), Rafael Brasil (guitarra) e Lauro Kirsch (bateria). Talvez pelo time de veteranos, que assinaram passagens por bandas como Talma&Gadelha, Planant, Calistoga e Venice, a notícia de lançamento do FFA foi recebida com bastante expectativa pelo público local, o que acabou rendendo uma boa visibilidade ao primeiro single, “Thievery”, lançado em setembro de 2012, e a escalação para tocar no Festival do Dosol (RN) em novembro do mesmo ano. O primeiro EP da banda, Stereochrome, lançado em 2012, contém quatro músicas e foi gravado no Estúdio Dosol (RN), com produção de Dante Augusto (Fukai, Calistoga, The Sinks) e mixado no Estúdio Costella (SP) por Chuck Hipolitho. Já em Maio de 2014, a banda apresenta seu primeiro disco cheio, modeHuman, com 15 faixas gravadas em novembro de 2013 no estúdio Tambor (Deck), no Rio de Janeiro. O registro foi mixado por Pedro Garcia (Planet Hemp) e masterizado por Chris Hanzsek, no Hanzsek Audio (Seattle/EUA)”. [Continue lendo no site do Far From Alaska]

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#07. Carne Doce
Carne Doce (2014, Independente)
Marcou: 34 pontos

Sertão e cidade. Delicadeza e selvageria. Doce e salgado. No universo particular da banda Carne Doce, os contrastes vão muito além do nome/receita que representa o coletivo. Fruto da interação entre o casal Salma Jô e Macloys Aquino, o grupo nascido na cidade de Goiânia em 2012, há muito parece distante do tom confessional emoldurado nas canções de Dos Namorados EP (2013). Longe dos sussurros românticos e temas explorados no curto álbum, a dupla goiana, hoje acompanhada de João Victor Santana, Ricardo Machado e Aderson Maia, deixa de lado o próprio isolamento para tratar do primeiro álbum de estúdio como um mundo aberto. Um imenso cenário em que vozes, arranjos e temas dicotômicos se cruzam com naturalidade, prontos para seduzir o ouvinte. Da mesma árvore que As Plantas Que Curam (2013), disco de estreia do grupo conterrâneo Boogarins, o homônimo álbum usa do passado como uma ferramenta de natural diálogo com o presente. Da voz instável de Salma Jô, íntima de Gal Costa no clássico Fa-Tal – Gal a Todo Vapor (1971), passando pelo acervo de fórmulas que ressuscitam Secos e Molhados (Passivo), Novos Baianos (Fruta Elétrica) e Clube da Esquina (Amigo dos Bichos), cada peça do registro é uma essencial brecha nostálgica. Velho e novo. Recortes e referências que em nada ocultam as próprias imposições da banda. Exemplo convincente disso mora nos versos explorados pela vocalista ao longo do trabalho – peças atrativas pelo parcial ineditismo dos temas. Discussões culturais/sociais logo na inaugural Idéia (“Gente que troca mas por mais“); referências bucólicas em Sertão Urbano (“O progresso é mato“) e Amigo dos Bichos (“E vai ter que morar no alto da mangueira”); sexo (explícito) em Passivo (“Vem Me Fuder“) e todo um arsenal que escapa da despretensão carioca ou do sentimentalismo plástico da cena paulistana. [+]

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#06. ruído/mm
Rasura (2014, Sinewave)
Marcou: 46 pontos

Grandes discos sempre vêm acompanhados de boas histórias. Um caso de amor não resolvido, a iminente separação entre os integrantes de uma banda, viagens e distúrbios lisérgicos ou apenas frágeis acontecimentos mundanos. Cenas vistas da janela de um apartamento ou mergulhadas no fundo de um copo de cerveja. Em Rasura, quarto disco de estúdio da curitibana ruído/mm, de um jeito ou de outro, todas essas histórias parecem se encontrar. Naturalmente esquivo de palavras, o grupo explora o mesmo artifício dos antecessores A Praia (2008) e Introdução à Cortina do Sótão (2011), dialogando com o ouvinte por meio dos arranjos e melodias sempre versáteis. Ainda que subjetivo em razão da lírica “imaginária” de cada composição, como a capa do álbum indica, Rasura é uma obra projetada em um ambiente épico, quase cênico. Uma donzela em apuros, naves espaciais, guerreiros, planetas e paisagens pós-apocalípticas. Um cenário delineado, porém, aberto à interpretação e complemento do próprio ouvinte. Uma vez transportado para dentro esse universo de histórias e cenas marcadas, não é difícil perceber o alinhamento preciso dos instrumentos em cada canção. Trata-se do registro mais direto e menos contemplativo já apresentado pelo grupo paranaense. Ainda que a inaugural Bandon cresça em um borbulhar de distorções tímidas, todo o restante da obra segue em uma corredeira intensa. Guitarras loucas em Cromaqui, ruídos ascendentes na “pacata” Transibéria e a completa ausência de controle na fragmentada Filete. Se existem histórias ao fundo de cada faixa, a tensão é constante. [+]

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#05. O Terno
O Terno (2014, Independente)
Marcou: 49 pontos

Um salto. Da sonoridade nostálgica lançada em 66 (2012), registro de estreia da paulistana O Terno, pouco parece ter sobrevivido. Mesmo que a relação do trio formado por Tim Bernardes (Guitarra/Voz), Guilherme d’Almeida (Baixo) e Victor Chaves (Bateria) com o rock dos anos 1960/1970 seja a mesma do primeiro disco, basta observar a formação dos novos versos e arranjos para perceber a completa alteração na proposta da banda. O “passado”, antes interpretado como fonte temática, agora se converte em estímulo, mantendo fixo o diálogo com o presente de forma a ampliar o território musical incorporado em cada composição. Livre do aspecto “caricatural” de faixas como Eu Não Preciso de Ninguém e 66, o presente álbum é uma obra que se movimenta de maneira curiosa – orquestrada por instantes vívidos de exploração conceitual. Quem esperava por um trabalho linear, mergulhada no ambiente cru do single Tic-Tac / Harmonium (2013), ou talvez partidário do mesmo som homogêneo lançado no debut, logo vai perceber na abertura do registro a singularidade que “organiza” cada ato instável assinado pelo trio. Em um sentido de descoberta – ou talvez construção – da própria identidade, Bernardes e os parceiros de banda escapam com sutileza da ironia explorada no álbum de estreia, projetando confissão de forma a transformar cada música em um objeto de natural interação com o ouvinte. [+]

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#04. Juçara Marçal
Encarnado (2014, Independente)
Marcou: 51 pontos

Vida e morte se entrelaçam no universo em formação de Encarnado. Primeiro trabalho solo da cantora paulistana Juçara Marçal, o registro desconstrói a performance lançada pela artista desde o começo dos anos 1990, renascendo para o novo público com uma completa iniciante. Ainda que protegida pelas cinzas da própria discografia – incluem quatro discos com o grupo Vésper; dois com o A Barca; Padê (2007) ao lado de Kiko Dinucci e mais dois com o Metá Meta, parceria entre ela, Dinucci e Thiago França -, é no embrião sombrio do novo disco que Marçal se revela de fato, brincando com a morte e estabelecendo de vez o próprio território. Pontuado pela aura de retrospecto, o disco vai além de um condensado sóbrio de versões ou mesmo músicas que nasceram da interferência vocal da cantora. Trata-se de um disco que revela Marçal em essência, uma aficionada pela Vanguarda Paulista e uma mente inclinada a perverter o conforto tradicional da velha MPB. Ruídos, caos, desordem e imposição, tudo funciona como com combustível para o motor cênico esbanjado pela cantora, que atravessa de forma inteligente o mesmo cenário instável lançado há dois anos, em Metal Metal (2014). “Não diga que estamos morrendo/ Hoje não”. Tendo na inaugural Velho Amarelo, faixa assinada por Rodrigo Campos, o princípio de composição para o restante da obra, Marçal visita um conjunto de temas que encontra na morte e nos elementos ao redor dela o principal suplemento do trabalho. [+]

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#03. Banda do Mar
Banda do Mar (2014, Zé Pereira)
Marcou: 67 pontos

É difícil não ser convencido pelo primeiro álbum da Banda do Mar. Projeto paralelo do casal Mallu Magalhães e Marcelo Camelo, o disco lançado em parceria com o português Fred Ferreira cresce como uma tapeçaria de sons cantaroláveis, raros e capazes de cruzar o Atlântico com velocidade, invadindo a mente do ouvinte sem grandes bloqueios. Mesmo incapaz de lançar um material verdadeiramente novo – trata-se de uma adaptação do arsenal testado em Ventura (2003) do Los Hermanos, gracejos pop vindos de Pitanga (2011) com uma pitada de Surf Music -, cada curva do disco luso-brasileiro encanta pelo tratamento dos arranjos e a forma honesta dada aos versos, formato que se estende e acompanha o ouvinte até o ecoar da última faixa. Composto e gravado em Portugal – país adotado por Camelo e Magalhães desde 2013 -, o trabalho de essência radiante não oculta a seriedade dos próprios temas, postura explícita no caráter “libertador” carimbado em cada canção. Da expressão declamada em Me Sinto Ótima – quase uma “faixa irmã” de Velha e Louca -, ao inaugurar do disco com Cidade Nova – “Eu não deixo o tempo parar” -, todas as dobras do álbum soam como uma resposta sorridente aos que não acreditavam na união do casal de músicos, no afastamento de Camelo do Los Hermanos, ou na capacidade da cantora em crescer além do Folk pueril dos primeiros anos. Nada de rancor, apenas sorrisos. [+]

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#02. Silva
Vista Pro Mar (2014, SLAP)
Marcou: 116 pontos

Bastam os instantes iniciais de Vista Pro Mar, segundo álbum de estúdio do capixaba Silva, para perceber que os rumos do artista agora são outros. “Eu sou de remar/ Sou de insistir/ Mesmo que sozinho”. Como bem entregam os versos da autointitulada faixa de abertura, o cantor e compositor contorna a própria timidez do álbum de estreia, Claridão (2012), em busca de uma sonoridade abrangente, ainda que intimista e naturalmente particular. Um eco entre a melancolia (agora ensolarada) e o constante diálogo com o público, exercício que ultrapassa os limites da poesia sorumbática, mergulha nos arranjos versáteis e cresce como um genuíno cardápio da música pop. Como já havia confessado em entrevista, “Vista Pro Mar foi feito num momento diferente”, trata-se de um trabalho que nasceu na “Flórida com dias ensolarados, numa piscina, de férias, vendo gente bonita, ouvindo Poolside, João Donato, Cashmere Cat e Frank Ocean”. Dentro desse novo conjunto de referências, Silva apresenta ao público um álbum que emula sensações litorâneas, premissa instalada nos samples de ondas e ruídos praianos que preenchem todo o álbum. Veranil, o disco usa dessa mesma sensação nostálgica como um mecanismo de composição para as faixas. Um estágio permanente que se divide entre a calmaria atual e a sensação de despedida que aos poucos se aproxima e rege a ambientação lírica das faixas. Por vezes contradizendo o estágio de euforia anunciado pelo próprio criador, o novo álbum se apresenta como um mosaico de delicadas sensações – algumas felizes, outras naturalmente tristes. Um trabalho que sorri de forma evidente, mas amarga a futura separação. [+]

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#01. Criolo
Convoque Seu Buda (2014, Oloko)
Marcou: 122 pontos

O som de uma corredeira dissolvido em meio ao canto dos pássaros. Instantes de serenidade. Em um ruído crescente, a interferência de passos acelerados. Pausa. Acompanhado do som metálico de uma espada, explode o agressivo grito de um guerreiro. Caos. Em uma representação precisa, quase visual, a “cena” que ocupa os segundos iniciais de Convoque Seu Buda parece resumir todo o cenário turbulento que Kleber Cavalcante Gomes, o Criolo, desenvolve ao longo da presente obra. Terceiro álbum de estúdio do rapper paulistano – o segundo desde que abandonou o título de “Doido” -, Convoque Seu Buda pode até seguir a trilha do antecessor, o elogiado Nó Na Orelha (2011), porém, está longe parecer uma cópia ou provável sequência. Do diálogo reformulado com a MPB de Gil e Caetano – vide o canto rimado em Pegue Pra Ela e arranjos de Plano de Voo -, passando pelo samba “político” em Fermento Pra Massa, Criolo parece redescobrir a própria essência. Musicalmente, um trabalho que esbarra em conceitos do disco anterior; em se tratando das rimas e temas explorados, um universo completamente novo. Do Grajaú ao bairro nobre de Jardins, Criolo passeia descritivo pela cidade de São Paulo. Longe de ser o personagem central da própria obra, conceito explorado no álbum anterior, o rapper assume agora o papel de observador, mergulhando em temas cotidianos. [+]

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Lista Internacional

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#10. Sharon Van Etten
Are We There (2014, Jagjaguwar)
Marcou: 19 pontos

Em meio aos escombros corroídos de I Know, Sharon Van Etten esconde uma confissão: “Eu canto sobre o meu medo, o amor e o que eles trazem“. Mesmo curto, um fragmento quando comparado ao acervo da cantora, o pequeno verso resume a essência triste de Are We There, um agregado de estilhaços sentimentais. Embora soe uma continuação do antecessor Tramp, de 2012, com o quarto disco a nova-iorquina ultrapassa o presente cercado autoral, resgatando confissões empoeiradas desde o primeiro registro em estúdio, Because I Was in Love (2009). Em um ambiente familiar, ainda que melancólico, a musicista encontra o conforto necessário para desafogar os próprios conflitos, encaixando versos de imediata comunhão com o público. Não por acaso, a boa repercussão em cima de Taking Chances, Your Love Is Killing Me e Our Love serviu para catapultar o trabalho da cantora, visível nas principais paradas norte-americanas e, pela primeira vez, acolhida pelo público médio. Na mesma prateleira de Blue (1971), You Are Free (2003) e outros clássicos “da fossa”, Van Etten acaba de conquistar um merecido espaço. [+]

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#09. Interpol
El Pintor (2014, Matador)
Marcou: 21 pontos

De todas as habilidades conquistadas pelo Interpol ao longo dos anos, a do “esquecimento” talvez seja a mais expressiva. Explico: desde que o coletivo nova-iorquino alcançou um som ainda mais comercial em Antics, todo o esforço do grupo comandado por Paul Banks se concentra em replicar a mesma massa de arranjos e temas da obra de 2004, falseando “originalidade”. Um eterno reciclar de experiências refletido de maneira copiosa nos dois último álbuns de estúdio – Our Love to Admire (2007), Interpol (2010) -, reforçado no interior de El Pintor, mas que sempre passa despercebido pela massa cega (ou surda) que acompanha a banda – encantada com tamanha “novidade” a cada lançamento. Há quem defenda: “mas esta é a ‘identidade’ da banda. É ‘Pós-Punk‘, impossível fazer algo diferente disso”. Discordo. Existe uma diferença enorme em evoluir a partir de uma mesma estrutura musical e se acomodar de forma preguiçosa dentro dela. Um exemplo? Que tal o The National. Há mais de uma década o grupo de Matt Berninger permanece confortável na mesma base de sons cinzentos e temas “alcóolicos” do primeiro disco, postura renovada (e ampliada) com sutileza a cada álbum de estúdio – vide a evidente separação entre Boxer (2007) e o ainda recente Trouble Will Find Me (2013). [+]

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#08. Alt-J
This is All Yours (2014, Infectious)
Marcou: 22 pontos

Em um sentido oposto ao da homogenia ressaltada no começo dos anos 2000, durante a expansão do Revival Pós-Punk, nítida é a transformação imposta por todo um novo cercado de artistas que ocupam a cena inglesa. Coletivos como Everything Everything, Egyptian Hip Hop e Django Django; grupos motivados pelo mesmo “pop complexo” assinado por Foals, Wild Beasts e outros responsáveis pela transição de conceitos ainda na segunda metade da última década, mas que parecem em busca de um som cada vez mais particular. Fruto explícito desse novo “movimento”, o grupo de Leeds Alt-J talvez seja o mais querido do público dentro de toda a nova safra de artistas britânicos. Com uma massa de ouvintes fiéis (e em expansão) desde a chegada do debut An Awesome Wave (2012) – verdadeira coletânea pop embalada de forma “experimental” -, o (hoje) trio resume no lançamento do segundo álbum de estúdio uma obra centrada na autoafirmação e, ao mesmo tempo, carregada de novas experiências. Esculpido de forma menos “comercial” que o antecessor, This Is All Yours é um trabalho que pode até escapar de faixas imediatas, como Breezeblocks e Tessellate, mas que surpreende pela delicadeza de seus (extensos) atos. [+]

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#07. Angel Olsen
Burn Your Fire For No Witness (2014, Jagjaguwar)
Marcou: 24 pontos

Mais de quatro décadas separam Blue (1971), obra-prima da compositora canadense Joni Mitchell, de Burn Your Fire for No Witness, segundo e mais doloroso trabalho de estúdio de Angel Olsen. Ainda que os caminhos assumidos pelas duas artistas sejam bastante particulares – e quase opositivos em determinados aspectos líricos -, o princípio de orquestração temática de cada obra permanece o mesmo: a melancolia escancarada de um coração partido. Apoiada em elementos lançados há décadas pela veterana, Olsen, longe de se afundar no martírio alcoólico das palavras, tenta sobreviver a qualquer custo, ensaio pontuado nos gritos de desespero que percorrem toda a obra. Menos tímido que o exercício proposto há dois anos com Half Way Home (2012), trabalho de estreia da novata, o presente álbum é um projeto que encontra nos arranjos clássicos – principalmente o Folk da década de 1970 -, um instrumento atento de comunicação com as palavras. Bases convencionais e pequenas fagulhas Lo-Fi que apenas reforçam a grandeza sóbria dos versos impostos pela cantora. [+]

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#06. Royal Blood
Royal Blood (2014, Warner)
Marcou: 26 pontos

“Você gosta das duplas que fazem som pesado, agressivo, com guitarras rascantes, produção meticulosamente suja e visual nerdificado? Se gosta, aqui está mais um integrante deste nicho musical, fortalecido a partir dos anos 2000, com a existência de The White Stripes e The Black Keys. Royal Blood tem um diferencial interessante e decisivo que contribui bastante para alguma distinção dentro desta fórmula: é uma dupla inglesa, mais precisamente da cidade litorânea de Brighton, uma espécie de Cabo Frio inglesa. Se o som bluesificado, a princípio, não combina tanto com uma vida de frente pro mar, Mike Kerr (baixo e vocais) e Ben Thatcher (bateria) encontraram uma maneira convincente de misturar pitadas de Rock Alternativo (com acenos a grupos como Muse ou Arctic Monkeys à sua argamassa sonora. E funciona. O sucesso veio em pouco mais de um ano, com a dupla se reunido primeiramente no início de 2013. Em pouquíssimo tempo já tinham fãs famosos, como o baterista de Arctic Monkeys, Matt Helder, que usou camiseta com a logomarca do duo na performance principal da edição 2013 do Glastonbury Festival. Logo depois, Royal Blood era convidado para abrir a apresentação dos Monkeys em Finsbury Park. O burburinho nas redes sociais só ampliou o fascínio exercido pela dupla em seus shows, nos quais ostenta poder de fogo absurdo, com Kerr encontrando sonoridades inesperadas e distorcidas para seu baixo e Thatcher com bom domínio nas baquetas. A configuração de amplificadores e pedais é guardada pela dupla como se fosse a fórmula original da Coca Cola”. [Continue lendo no MonkeyBuzz]

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#05. Flying Lotus
You Are Dead! (2014, Warp)
Marcou: 33 pontos

É difícil prever o comportamento de Steve Ellison a cada novo álbum do Flying Lotus. Pouco depois de visitar o mundo dos sonhos em Until the Quiet Comes (2012) e assumir a construção das rimas no projeto paralelo Captain Murphy, o produtor californiano encontrou no Jazz principal base e reforço para as 20 faixas que sustentam o quinto álbum solo. Em um diálogo natural com a própria herança familiar – o artista é sobrinho-neto de Alice e John Coltrane -, cada música do disco se espalha em meio a climatizações inexatas, bases sobrepostas e toda uma variedade de temas resgatados dos primeiros discos do produtor – principalmente Cosmogramma (2010). Tão experimental quanto acessível, Ellison encontra no relacionamento com outros produtores e artista um reforço necessário para o disco. Kendrick Lamar em Never Catch Me, Angel Deradoorian com Siren Song, Thundercat em Descent Into Madness e até veteranos como Ennio Morricone (Turtles) e Herbie Hancock (Tesla). Vozes e instrumentistas responsáveis por “adaptar” (ou expandir) parte do som complexo assinado pelo produtor.

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#04. Run The Jewels
Run The Jewels 2 (2014, Mass Appeal)
Marcou: 42 pontos

É difícil atravessar a trincheira de Run The Jewels 2 sem ser atingido pelas 11 faixas disparadas por El-P e Killer Mike. Durante quase 40 minutos, temas relacionados ao Hip-Hop de 1980/1990, faixas tomadas pela sexualidade, humor negro, drogas, referências à cultura pop, criminalidade e beats enérgicos acertam o ouvinte de forma precisa, sem tropeçar em exageros ou faixas descartáveis. Mais do que ampliar os conceitos explorados no primeiro registro da parceria, lançado em 2013, nomes como Zack de la Rocha (Close Your Eyes [And Count to Fuck]), BOOTS (Early) e Travis Barker (All Due Respect) interferem de forma assertiva na estrutura da obra, por vezes livre do rótulo de “Hip-Hop Alternativo”. Ainda assim, todo o sustento da obra sobrevive da plena comunicação entre El-P e Killer Mike. Parceiros desde a troca de experiências em R.A.P. Music e Cancer 4 Cure, ambos de 2012, a dupla se desprende do caráter fragmentado que orientava o primeiro álbum para atuar em unidade. O resultado desse encontro? A completa precisão das rimas e arranjos sustentados até o último segundo de Angel Duster. [+]

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#03. Lana Del Rey
Ultraviolence (2014, Interscope)
Marcou: 46 pontos

Ultraviolence é o disco que Lana Del Rey deveria ter lançado há dois anos. Livre dos exageros testados no cênico Born To Die, de 2012, o presente álbum cresce como uma natural extensão dos sons letárgicos entregues em Video Games e Blue Jeans – faixas responsáveis por apresentar oficialmente o trabalho da cantora. Grandioso em essência, mas acolhedor em relação aos arranjos que o definem, o segundo álbum solo da jovem nova-iorquina é uma obra de reposicionamento. Uma evidente tentativa em ocupar espaço a partir de uma estrutura que busca ser “pop” e “alternativa” na mesma medida. Livre das fragmentadas transições eletrônicas que ocuparam grande parte do álbum passado, Ultraviolence equilibra as (novas) canções dentro de um mesmo ambiente musical. Cercada por um versátil time de letristas e produtores – caso de Rick Nowels (Lykke Li, Madonna) e Paul Epworth (Adele, Azealia Banks) -, Del Rey encontra na direção segura de Dan Auerbach, principal produtor do disco, a “ferramenta” que faltava para o acerto de Born To Die. Com mão firme, o também vocalista do The Black Keys evita que o disco mergulhe nos exageros do antecessor, entregando uma obra homogênea da inaugural Cruel World, ao fechamento com The Other Woman. [+]

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#02. St. Vincent
St. Vincent (2014, 4AD)
Marcou: 47 pontos

Existe uma distancia imensa entre Merry Me – estreia de Annie Erin Clark como St. Vincent – e o homônimo quarto disco da cantora. Enquanto o trabalho de 2007 carrega uma atmosfera de plena timidez e aparente descoberta, com o presente registro a imponência da artista se transforma em uma arma para a acertar o grande público. Outrora “inofensiva”, a Clark rompe com qualquer traço de limitação sonora e estética, ultrapassando a película retratada na capa de Strange Mercy (2011), para assumir um posto de liderança no atual “império” do rock alternativo. Como uma diva imponente, observando desinteressada a própria massa de seguidores, a artista estampa a capa do disco em uma autêntica representação da mesma grandeza que orienta os sons ao longo do trabalho. Em um evidente sentido de continuidade ao que foi lançado há três anos, cada música do álbum arrasta o espectador para um território em que ruídos e ritmo frenético. É como se todo o segundo ato de Northern Lights, faixa mais intensa do disco anterior, fosse repetido exaustivamente, revelando uma comunhão de arranjos tortos que nascem na inaugural Rattlesnake e seguem até o fechamento do álbum com a melancólica Severed Crossed Fingers. [+]

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#01. FKA Twigs
LP1 (2014, Young Turks)
Marcou: 67 pontos

Ao pontuar Ultraviolet, última composição de EP2 (2013), todas as pistas lançadas por Tahliah Barnett indicavam a construção de uma sonoridade cada vez mais complexa dentro dos limites do FKA Twigs. Levando em consideração o cruzamento de mídias em Water Me e Papi Pacify, investir em um projeto tomado pelo uso de experimentos audiovisuais talvez fosse a resposta mais indicada sobre o futuro da jovem britânica, curiosamente remodelada e acessível no primeiro álbum em carreira solo, LP1. Ainda que a estética adotada para o encarte do disco – trabalho assinado pelo velho parceiro Jesse Kanda – seja capaz de assustar o ouvinte tradicional, ao abrir as portas do disco em Lights On, todos os esforços da cantora se concentram no cortejo ao pop.

Da eletrônica minimalista confeccionada em Breathe, ainda sob o título de twigs, pouco sobreviveu. Até a relação com o Trip-Hop de conterrâneos como Portishead e Tricky parece sufocar em relação ao completo domínio do R&B, gênero moldado de acordo com as regras de cada produtor convidado – entre eles, Arca, Devonté Hynes, Clams Casino, Sampha e Paul Epworth. Tendo no próprio sofrimento a base para o argumento lírico da obra, Barnett se espalha melancólica em meio a versos sufocados (Numbers), sexualidade realçada (Two Weeks) ou simples diálogos com o pop comercial (Video Girl). Lenta desconstrução dos mesmos conceitos que apresentaram a artista, LP1 sutilmente parece apontar o trabalho de FKA Twigs para o grande público. Entretanto, ao resgatar o breve histórico da cantora, talvez seja melhor perguntar: para onde vamos agora?

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OBS: Além do número reduzido de participantes na lista de discos internacionais, vários leitores indicaram trabalhos lançados em 2013, registros ao vivo ou mesmo coletâneas, desrespeitando as regras da votação e sendo eliminados da contagem final. Para ler a resenha de cada disco, clique no “[+]”.

Veja também:


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