Os Melhores Discos de 2017: Menções Honrosas

 

Do pop de Mallu Magalhães e Lorde ao Hip-Hop de Kendrick Lamar e Baco Exu do Blues. Melodias sutis de Tim Bernardes, ruídos assinados pelo cantor/produtor venezuelano Arca. Em um ano repleto de grandes lançamentos em diferentes campos da música, nossa seleção com os 50 Melhores Discos Nacionais e Internacionais acabou deixando de fora uma série de obras essenciais. Foi pensando nosso que preparamos uma lista com outros dez trabalhos que merecem a atenção do público em um especial de menções honrosas. Aproveite para ver outras publicações do nosso especial de final de ano com Os Melhores de 2017.

 

Aldous Harding
Party (4AD)

Em 2009, quando John Parish e PJ Harvey entraram em estúdio para a gravação do colaborativo A Woman a Man Walked By, havia no trabalho organizado pela dupla um forte senso de ruptura e possível distanciamento da fórmula experimental testada no antecessor Dance Hall At Louse Point, lançado em 1996. Um trabalho fora de sintonia, claramente confuso, como se cada artista estivesse em busca de um som/conceito diferente, resultando em uma sequência de faixas que pouco se assemelham ao mesmo brilhantismo alcançado pelo casal décadas antes. Interessante perceber na presente relação de Parish com a neo-zelandesa Hannah “Aldous” Harding um poderoso exercício de transformação, como um forte diálogo com a mesma composição inventiva de Dance Hall At Louse Point. Segundo e mais recente álbum de estúdio da cantora e compositora que estreou em 2015, Party encontra nas maquinações da música gótica, folk e ambientações típicas do Dream Pop o princípio para uma obra marcada pelos desejos e confissões sentimentais que escapam dos versos lançados pela artista. Leia o texto completo.

 

César Lacerda
Tudo Tudo Tudo Tudo (YB Music / Circus)

César Lacerda é um artista que nasceu pra ser grande. Mesmo no minimalismo propositado dos versos e arranjos econômicos que cercam o trabalho do cantor e compositor mineiro, sobrevive na profunda leveza e honestidade escancarada dos sentimentos uma verdadeira explosão de significados. Um exercício minucioso, particular, que se estende desde a estreia com Porquê da Voz, trabalho entregue ao público em 2013, alcança melhor enquadramento no doce Paralelos & Infinitos, de 2015, e flerta com o pop no recém-lançado Tudo Tudo Tudo Tudo. Delicado, como tudo aquilo que Lacerda vem produzindo desde o primeiro álbum em carreira solo,Tudo Tudo Tudo Tudo sussurra delírios românticos ao pé do ouvido, mergulha em conflitos mundanos e ainda detalha as angústias do eu lírico de forma sempre acessível. Melodias descomplicadas, serenas, como uma fuga da atmosfera densa que tomou conta do colaborativo O Meu Nome é Qualquer Um (2016), trabalho assinado em parceria com o cantor e compositor paulistano Romulo Fróes. Leia o texto completo.

 

Charly Bliss
Gumpy (Barsuk Records)

Passado o estranhamento inicial, resultado da voz aguda, por vezes desconfortante, de Eva Hendricks (vocal e guitarra), difícil escapar da avalanche de guitarras sujas, versos rápidos e batidas fortes que marcam o primeiro álbum de estúdio do grupo nova-iorquino Charly Bliss, Guppy. Um power pop pegajoso e radiante, íntimo do som produzido no começo dos anos 1990 e completo pela forte interferência dos parceiros de banda Spencer Fox (guitarras), Sam Hendricks (bateria) e Dan Shure (baixo). Coleção de ideias que passa pela obra de veteranos como The Breeders e Liz Phair, mergulha no pop-punk de Green Day e Paramore, e flerta com os guitarras do movimento grunge em uma interpretação claramente ensolarada, o registro de dez faixas e pouco menos de 30 minutos de duração se revela por inteiro logo em uma primeira audição. Uma explosão de melodias sujas que cresce na inaugural Percolator e descansa apenas na derradeira Julia. Leia o texto completo.

 

Charli XCX
Number 1 Angel / Pop 2 (Asylum)

Em um ritmo frenético, mesmo para os padrões da indústria, Charli XCX passou o último ano se revezando em uma infinidade de projetos. Do lançamento do selo/EP Vroom Vroom (2016), parceria com diferentes nomes do coletivo PC Music, passando pela turnê ao lado de cantoras consagradas como Sia, até alcançar a produção da mixtape Number 1 Angel (2017), e, consequente amadurecimento em Boys, uma das melhores composições da cantora até aqui, sobram trabalhos capazes de mostrar versatilidade e força da artista britânica como uma das mais influentes da música pop recente. Misto de fechamento e continuação de toda a sequência de obras produzidas nos últimos meses, Pop 2 (2017, Asylum) mostra que a artista inglesa segue tão inventiva quanto em início da carreira. Pouco mais de 40 minutos em que XCX aparece cercada por um time seleto de colaboradores, dialogando com diferentes tonalidades da música pop, eletrônica e Hip-Hop de forma sempre particular, anárquica. Um curioso experimento melódico, como uma continuação do material testado na mixtape Super Ultra, de 2012, e, principalmente, no debute True Romance, de 2013. Leia o texto completoLeia o texto completo.

 

Chloe e Halle
The Two Of Us (Parkwood Entertainment)

Como grande parte dos artistas atuais, as irmãs Chloe e Halle Bailey despertaram a atenção do público a partir de um vídeo publicado no Youtube. A diferença em relação ao trabalho de outros iniciantes? O sucesso da versão para Pretty Hurts de Beyoncé, música que não apenas alcançou uma grande parcela do público – são mais de 13 milhões de visualizações –, como ainda serviu para aproximar as garotas de Atlanta, Geórgia, do selo Parkwood Entertainment, projeto comandado por Knowles e casa do primeiro trabalho de estúdio da dupla, o ótimo Sugar Symphony EP (2016). O mesmo cuidado evidente no registro lançado há pouco menos volta a se repetir em The Two of Us, mais recente mixtape de inéditas da dupla. São pouco mais de 20 minutos em que o duo norte-americano se concentra na construção de músicas marcadas pela leveza dos arranjos e vozes. Uma extensão madura (e pop) do mesmo material apresentado ao público durante o lançamento de A Seat at The Table (2016), mais recente álbum da cantora/produtora Solange. Leia o texto completo.

 

Haim
Something to Tell You (Polydor)

Poucos artistas atuais parecem capazes de replicar com tamanha naturalidade o som produzido no final dos anos 1970 quanto o Haim. Um universo de emanações nostálgicas, claramente inspirado pela obra de veteranos como Fleetwood Mac, Bruce Springsteen, Eagles e outros tantos coletivos que alcançaram seus melhores trabalhos durante o período. Melodias cuidadosamente exploradas, vozes em coro e versos acessíveis, sempre consumidos pelos sentimentos, combustível para o material aprimorado pela banda no recente Something to Tell You. Segundo álbum de estúdio do grupo formado pelas irmãs Este, Danielle e Alana Haim, o trabalho de harmonias radiantes segue exatamente de onde o trio parou há quatro anos, durante o lançamento do elogiado debute Days Are Gone (2013). Produzido em parceria com o colaborador de longa data, o músico Ariel Rechtshaid (Sky Ferreira, Tobias Jesso Jr.), cada fragmento do presente registro aproxima passado e presente de forma cuidadosa, encontrando no uso de novas referências e gêneros musicais um fino toque de renovação. Leia o texto completo.

 

Luê
Ponto de Mira (Pomm_elo / Natura Musical)

Em 2012, quando foi apresentada ao público com A Fim de Onda, Luê Soares era apenas mais um nome na colorida explosão de artistas paraenses que consolidou o trabalho de Felipe Cordeiro, Jaloo e, principalmente, da cantora Gaby Amarantos. De lá para cá, a jovem original de Belém foi conquistando territórios, estreitando a relação com personagens influentes como Curumin e Matheus Brant, além, claro, de preparar o terreno para o segundo registro de inéditas da carreira, o recém-lançado Ponto de Mira. Aventureiro quando próximo do material apresentado há cinco anos, o trabalho de dez faixas e produção assinada por Zé Nigro (Anelis Assumpção, Russo Passapusso) concentra nas batidas e temas eletrônicos um evidente ponto de transformação para a obra de cantora. Ambientações eletroacústicas que passeiam por entre ritmos como carimbó, soul, trip-hop, guitarrada, reggae e pop de forma sempre curiosa, como se Luê deliciosamente testasse os próprios limites, fazendo de cada composição um precioso objeto a ser desvendado pelo ouvinte. Leia o texto completo.

 

Matheus Fleming
O Estado das Coisas (Quente)

Um universo de histórias, personagens e cenários explorados de maneira complexa na lenta sobreposição de uma guitarra. Em O Estado Das Coisas (2017, Quente), cada composição produzida pelo produtor e guitarrista mineiro Matheus Fleming revela ao público um mundo de emoções e sutilezas instrumentais tratadas de forma sempre provocante, por vezes mágica. Uma riqueza de detalhes que parece crescer para além dos limites da própria obra. Personagem ativo dentro da cena mineira, Fleming que já atuou em diferentes projetos como Sci-Fi, Henrique Cunha & The Maradonnas, Seu Garcia e, o mais importante delas, a temporariamente extinta grupo Câmera, com quem lançou o ótimo Mountain Tops (2014), encontra no primeiro álbum em carreira solo um espaço aberto ao experimento. Composições que atravessam paredões enevoados de distorção, ou mesmo atos de profunda leveza e sensibilidade instrumental. Leia o texto completo.

 

Nobat
Estação Cidade Baixa (UN Music)

Depois de uma obra lírica e musicalmente tão apurada como O Novato (2015), não é difícil imaginar Luan Nobat pensando: “para onde vou agora?“. A resposta chega diluída em não apenas um, mas três fragmentos diferentes que juntos formam o novo álbum de inéditas do cantor e compositor mineiro, Estação Cidade Baixa (2017, UN Music). Um condensado precioso de três EPS, cada um com o mesmo número de faixas, convidando o ouvinte a mergulhar no cotidiano de Belo Horizonte, onde reside o cantor, ou qualquer outro grande centro urbano brasileiro. Entregue ao público em pequenas doses nas últimas semanas, o trabalho de três atos parece longe de seguir uma ordem pré-estabelecida pelo compositor, crescendo mesmo na individualidade de seus atos. Não por acaso, Nobat fez do EP Cidade o primeiro bloco a ser apreciado pelo ouvinte. No fino cercado instrumental que move o fragmento, três composições que servem de ponte para o último álbum de estúdio do cantor – Praia_da_Estação, Mar_Ia e Maletta. Canções que exploram reflexões contidas, personagens e cenários, vide a homenagem do músico ao Edifício Maletta, espaço localizado no centro da capital mineira e um ponto de encontro para diferentes representantes da cultura local. Leia o texto completo.

 

Sain 
Dose de Adrenalina (Pirâmide Perdida Records)

Sem pressa, pianos atmosféricos se espalham de forma sempre detalhista, vagarosa. Ao fundo de cada composição, a lenta inserção das batidas, ruídos, samples extraídos de diferentes elementos, diálogos, trechos de filmes e temas jazzísticos. No meio desse cenário instrumental, as rimas e versos sóbrios de Stephan Peixoto, o Sain. Um indicativo da poesia urbana, intimista e particular do rapper durante toda a execução do primeiro álbum em carreira solo, Dose de Adrenalina. Cada vez mais distante da sombra do pai, o rapper Marcelo D2, Sain, que ficou conhecido na breve colaboração em Lodeando, parte do álbum A Procura da Batida Perfeita (2003), encontra na parceria com diferentes representantes do Hip-Hip carioca o principal componente para a formação do presente disco. Versos que discutem sobre criminalidade, família, conflitos pessoais, sexo e drogas de forma sempre particular, como um convite a explorar o cotidiano do próprio artista. Leia o texto completo.

 


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