Os Melhores Discos de 2018: Menções Honrosas


Depois de montar nossas tradicionais listas com os melhores discos brasileiros e internacionais do ano, difícil não sentir falta de uma série de obras que mesmo deixadas de fora dessa seleção, merecem destaque. São registros completos ou mesmo EPs que passeiam por diferentes gêneros – dream pop, indie rock, pop e música eletrônica –, agora organizados em uma dúzia de álbuns que abastecem nossa complementar lista de Menções Honrosas.


Alles Club
Décollage (2018, Pug Records)

Sem pressa, as guitarras e sintetizadores atmosféricos de Décollage preparam o terreno para o ambiente de formas flutuantes e composições etéreas que abastecem o primeiro álbum de estúdio da banda mineira Alles Club. São pouco menos de nove minutos em que vozes submersas, batidas pontuais e ruídos se entrelaçam de forma mágica, reflexo dos mais de cinco anos de preparação que o grupo original de Juíz de Fora, Minas Gerais, levou até finalizar o presente registro. Paisagens instrumentais que se revelam aos poucos, em pequenas doses, como fragmentos de um único conjunto de ideias. Não por acaso, tão logo tem início, na homônima faixa de abertura, Décollage (2018, Pug Records) se conecta diretamente à já conhecida Quanto Tempo. Composição escolhida para anunciar o trabalho da banda — hoje formada pelos músicos Fred Mendes, Ruan Lustosa, Pedro Baptista, Bel Oliveira e Rodrigo Lopes —, a faixa inaugurada em meio a vozes em russo captadas de uma estação UVB sutilmente desemboca em um oceano de emoções borbulhantes. Guitarras e vozes etéreas que transportam o ouvinte para o mesmo universo de veteranos como Slowdive, conceito reforçado no romantismo triste que invade os versos e se conecta ao bem-executado arranjo de metais que pontua a canção. Leia o texto completo.

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Amber Mark
Conexão (2018, PMR / Virgin EMI)

Em um intervalo de poucos meses, Amber Mark foi de uma personagem desconhecida da cena nova-iorquina, para uma das vozes mais requisitadas do novo pop/R&B. Da parceria com o produtor britânico Wilma Archer, em Like a Hunger, passando pelo bem-sucedido encontro com a dupla DJDS, na quente Trees On Fire, ao recém-anunciado trabalho em parceria com o coletivo Dirty Projectors, sobram contribuições e passagens da artista pela obra de diferentes colaboradores. Curioso perceber em Conexão (2018, PMR / Virgin EMI), segundo e mais recente EP de inéditas da cantora, uma obra que se distancia desse universo plural para mergulhar em um ambiente conceitualmente homogêneo, contido. Claramente inspirada pelo soul, pop e R&B produzido entre o final dos anos 1980 e início da década de 1990, Mark desacelera, transformando a própria voz em uma ferramenta de exposição sentimental e diálogo imediato com o ouvinte. Leia o texto completo.

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Bemti
Era Dois (2018, Independente)

As lágrimas brotam de forma involuntária tão logo os primeiros versos Era Dois (2018, Independente) são declamados por Luís Bemti. “Quando eu era dois / E me vi metade / Em queda livre / Como fazer pra me reerguer?“, questiona o sorumbático eu lírico na introdutória faixa de abertura do trabalho. Frações poéticas que se revelam ao público em pequenas doses, sempre sensíveis, pessoais e naturalmente íntimas de seu realizador, ainda que próximas de todo e qualquer indivíduo romântico — seja ele sofredor ou não. Consumido pela dor, cada elemento do registro de dez faixas — o primeiro de Bemti em carreira solo —, transita entre o peso da memória, o claro desejo de libertação e a busca inevitável por um novo amor. Canções despidas de qualquer traço de complexidade, efeito da profunda vulnerabilidade e entrega que orienta a composição dos versos, sempre honestos, feitos para serem cantados a plenos pulmões ou sussurrados em meio fungadas lamuriosas em um quarto à meia luz. Leia o texto completo.

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Clara Anastácia
Anastácia (2018, Independente)

A herança cultural do continente africano, feminismo negro e religiosidade. Esses são alguns dos elementos conceituais e estéticos que servem de sustento ao minucioso Anastácia (2018, Independente), primeiro álbum de estúdio da cantora e compositora carioca Clara Anastácia. Uma obra que costura passado e presente dentro de um mesmo universo criativo, fazendo da ancestralidade dos povos escravos a base para um registro de essência futurista, transformador. Inaugurado pela psicodelia tribal de Peixe, composição que se espalha em um intervalo de mais de sete minutos de duração, Anastácia sintetiza na riqueza e subjetividade dos versos a passagem para um universo mágico. “Sou mulher, posso ser peixe / Minha mãe que me disse assim / Cuidado quando a noite boceja / O rio finge que vai dormir“, canta em meio a guitarras carregadas de efeito, batidas e ruídos, indicativo do som vasto que orienta a experiência do ouvinte durante toda a execução da obra. Leia o texto completo.

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Courtney Barnett
Tell Me How You Really Feel (2018, Milk! / Mom+Pop / Marathon Artists)

Courtney Barnett sempre encarou a si mesma como protagonista da própria obra. Basta voltar os ouvidos para os primeiros grandes trabalhos da cantora e compositora australiana, The Double EP: A Sea of Split Peas (2014) e Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit (2015) para perceber como parte expressiva do repertório assinado pela artista parece dialogar de forma irônica com uma série de cenas e acontecimentos particulares. Segundo e mais recente álbum de Barnett em carreira solo, Tell Me How You Really Feel (2018, Milk! / Mom + Pop / Marathon Artists) preserva esse mesmo conceito, porém, em tom sóbrio, por vezes melancólico. Onde antes ecoavam músicas grandiosas e cômicas, caso de Pedestrian at Best e Nobody Really Cares If You Don’t Go to the Party, hoje crescem faixas de essência intimistas, sempre contemplativas, como se a cantora explorasse a própria alma. Leia o texto completo.

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Hatchie
Sugar & Spice (2018, Double Double Whammy)

Guitarras carregadas de efeitos, sintetizadores cuidadosamente bem-posicionados e pequenos respiros instrumentais que se abrem para a chegada dos versos, sempre melancólicos, honestos: “Você diz que quer que acabe / Mas isso realmente acabou? / E se nunca acabar“. Basta uma rápida audição de Sure, faixa de abertura de Sugar & Spice (2018, Double Double Whammy), para que o ouvinte seja rapidamente transportado para dentro do universo particular de Harriette Pillbeam. Mais conhecida pelo trabalho como colaboradora em bandas como Go Violets e Babaganouj, a cantora e compositora australiana estreia em carreira solo sob o título de Hatchie, fazendo das próprias desilusões e romances o principal componente criativo para cada uma das cinco faixas do registro. Exemplo disso está em Sleep, música em que confessa sentimentos (“Apenas venha me ver em meus sonhos / Não é de admirar que eu esteja sorrindo enquanto durmo“) enquanto guitarras e sintetizadores etéreos convidam o ouvinte a flutuar. Leia o texto completo.

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Lucy Dacus
Historian (2018, Matador Records)

Você já teve a impressão de ser arrastado por uma avalanche de versos intimistas, angústia e dor? Mesmo que a libertação seja o produto final dessa experiência, não há como negar que essa talvez seja a principal sensação gerada pelo trabalho da cantora e compositora norte-americana Lucy Dacus. Composições centradas em desilusões amorosas, relacionamentos fracassados e tormentos típicos de qualquer indivíduo apaixonado. Um canto amargo que se projeta de forma essencialmente íntima de qualquer ouvinte, cuidado que se reflete desde a estreia da artista, com No Burden (2016), e cresce ainda mais em Historian (2018, Matador Records). Nascido de um recente término de relacionamento da cantora, o trabalho produzido em parceria com o experiente Collin Pastore, colaborador desde o último disco, ganha forma aos poucos, sem pressa. São vozes limpas que se conectam diretamente ao minucioso acabamento acústico do disco. Camadas de doce sofrimento que vão do parcial silenciamento à completa explosão dos arranjos e vozes detalhadas ao final de cada composição. Leia o texto completo.

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MGMT
Little Dark Age (2018, Columbia)

Sejamos honestos: o que fez do MGMT uma banda conhecida e querida do grande público não foram as referências anunciadas, pequenos experimentos e o pop esquizofrênico de Congratulations (2010), tampouco a completa ausência de sentido que marca o homônimo disco apresentado em 2013. Foram os hits. Composições como Time To PretendKidsElectric Feel e todo o repertório produzido por Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser para o bem-sucedido debute da banda nova-iorquina, Oracular Spectacular (2007). Curioso perceber em Little Dark Age (2018, Columbia), quarto e mais recente álbum de estúdio da dupla, uma obra que mesmo esquiva de possíveis hits, hipnotiza e agrada velhos seguidores. Trata-se de um disco claramente equilibrado em relação aos dois últimos registros de inéditas da MGMT, mudança de postura que em nenhum momento sufoca a identidade criativa da banda, ainda imersa em delírios psicodélico e diálogos nonsenses com o passado. Leia o texto completo.

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Monza
Bonsai (2018, Freak)

Entre confissões românticas e pequenas desilusões sentimentais, os integrantes da banda paulistana Monza fizeram do primeiro álbum de estúdio, Hoje Foi Um Dia Fantástico (2016), a passagem para um universo guiado pelas emoções. Dois anos após o lançamento do delicado registro, Felipe Misale (guitarra e voz), Fábio Leão (baixo), Francisco Fernandes (guitarra) e Luca Galego (bateria) estão de volta com um novo exercício autoral, Bonsai (2018, Freak), obra que não apenas preserva, como amplia a poesia melancólica que sutilmente vem sendo explorada pela quarteto. “Das histórias mal contadas / Que nunca vão além / Das mentiras maltratadas / Que eu conto pra você / Você falou demais, eu falei demais“, reflete Misale logo na inaugural Travessa, composição escolhida para anunciar o registro e uma síntese dolorosa de tudo aquilo que a banda reserva ao ouvinte no decorrer do trabalho. Composições ancoradas em memórias entristecidas, conflitos sentimentais e pequenos desencontros que corrompem de maneira inevitável qualquer forma de relacionamento, proposta que se reflete com naturalidade até o último fragmento poético do disco, na crescente Se Eu Não Voltar. Leia o texto completo.

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Pratagy
Voo e Mansidão (2018, Urtiga)

Os sentimentos escorrem por entre as brechas de Voo e Mansidão (2018, Urtiga). Terceiro e mais recente registro autoral do cantor e compositor paraense Leonardo Pratagy, o sucessor do colorido Búfalo (2017) assume novo direcionamento estético em relação ao trabalho que o antecede. Canções que vagam em um território à meia luz, revelando personagens, cenas e experiências melancólicas, como um convite a se perder em um universo guiado pelas emoções, conceito que vem sendo aprimorado pelo músico desde o primeiro álbum de estúdio, o tímido Pictures (2016). “Pode ser / Mais do que a gente imagina / Quem sabe / Onde começa ou termina / Todo amor“, questiona o eu lírico de Paraíso, segunda composição do disco. Versos que transitam entre a descoberta do amor, o medo de se aventurar em um novo relacionamento e as indefinições da vida a dois. Sussurros românticos que ampliam parte do material testado pelo músico em faixas como Tramas Sutis e De Repente. Um permanente amadurecer poético que se completa com a breve interferência do conterrâneo Arthur Nogueira, parceiro na composição de parte dos versos do trabalho. Leia o texto completo.

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Santigold
I Don’t Want: The Gold Fire Sessions (2018, Downtown)

Em 2008, quando apresentou ao público o primeiro álbum de estúdio da carreira — ainda sob o título Santogold —, Santi White acabou encontrando na criativa colagem de ritmos a base para o completo sustento do trabalho. Do indie rock à la The Strokes e Yeah Yeah Yeahs em Lights Out, passando pelo misto de punk e reggae em Say Aha, até alcançar o hip-hop/R&B de Shove it e My Superman, cada fragmento do disco parece apontar para uma direção diferente, reforçando a completa versatilidade da cantora e compositora nova-iorquina. Dez anos após o lançamento do elogiado registro, White está de volta com I Don’t Want: The Gold Fire Sessions (2018, Downtown), trabalho que não apenas replica parte da sonoridade incorporada ao primeiro álbum de estúdio, como se permite provar de um mundo de novas possibilidades e ritmos. Pouco mais de 30 minutos em que a cantora e um time seleto de produtores – formado Dre Skull, Ricky Blaze, Diplo e King Henry –, vão de encontro à cultura africana e jamaicana, fazendo do registro uma obra guiada pela quentura das batidas e vozes. Leia o texto completo.

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Ventre
Saudade (O Corte 切り) (2018, Independente)

Em um intervalo de poucos anos, a Ventre foi de um simples encontro entre diferentes representantes da cena carioca para um dos projetos mais significativos do novo rock brasileiro. E não poderia ser diferente. Da poesia visceral que invade o homônimo debute do grupo ao reforço na construção dos arranjos e temas instrumentais assinados em conjunto entre Hugo Noguchi (baixo), Larissa Conforto (bateria) e Gabriel Ventura (voz e guitarra), cada elemento que compõe o universo particular do trio parece pensado para hipnotizar o ouvinte. Último trabalho de inéditas antes do encerramento temporário das atividades do grupo — os membros da banda decidiram investir em seus projetos paralelos —, Saudade (O Corte 切り) (2018, Independente) preserva a mesma energia e crueza do álbum que o antecede, porém, dentro de uma nova estrutura poética. Na contramão do lirismo lascivo e intensidade explícita em músicas como Quente e Carnaval, cada uma das quatro faixas que recheiam o derradeiro registro transportam o som produzido pelo grupo carioca para um território consumido pela dor e permanente senso de afastamento entre os indivíduos. Leia o texto completo.


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