Em Utopia, canção escolhida para anunciar o terceiro álbum de estúdio do Austra, Future Politics (2017), Katie Stelmanis assumiu a busca por um som cada vez mais pop, preferência explícita no som levemente dançante e versos fáceis que se espalham pelo interior da composição. Uma extensão (ainda mais) acessível dos iniciais Feel It Breaks (2011) e Olympia (2013), obras pontualmente relembradas dentro da faixa-título do novo álbum.

Movida pelo uso de batidas eletrônicas e sintetizadores contidos, a canção se espalha sem pressa, detalhando fragmentos vocais de Stelmanis. Na letra cíclica, uma espécie de complemento aos arranjos, fazendo da canção uma espécie de remix de algum clássico produzido por Kate Bush no começo dos anos 1980. Para o clipe da composição, trabalho dirigido por Allie Avital, imagens de um futuro próprio em um cenário urbano, caótico.

Future Politics (2017) será lançado no dia 20/01 via Domino.

 

Austra – Future Politics

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Antony Hegarty sempre manteve um forte interesse pela música eletrônica. Ainda que a cantora e compositora norte-americana tenha passado a última década mergulhada em elementos do folk e chamber pop, sobrevive na sequência de faixas assinadas de forma colaborativa o real fascínio da musicista pelo gênero. Experimentos como o som dançante de Blind, clássico em parceria com o grupo nova-iorquino Hercules and Love Affair, e até canções “menores”, como Tears for Animals, ao lado da dupla Cocorosie, além da série de faixas divididas com a islandesa Björk – vide Dull Flame Of Desire eAtom Dance.

Em Hopelessness (2016, Secretly Canadian / Rough Trade), primeiro trabalho de Hegarty sob o título de ANOHNI, é onde essa relação com os temas eletrônicos se intensifica e cresce. Primeiro registro de inéditas desde o delicado Swanlights, de 2010, o novo álbum altera não apenas a paisagem sonora que cerca a musicista, mas a própria figura de Hegarty, violenta e fortemente influenciada por temas políticos a cada novo movimento do trabalho. Uma versão angustiada da mesma personagem que subiu ao palco para gravar o disco ao vivo Cut the World, em 2012. Leia o texto completo.

Drone Bomb Me, Hopelessness e I Don’t Love You Anymore. Não faltam canções e clipes impactantes dentro do novo álbum da cantora e compositora norte-americana ANOHNI. O mesmo acontece em Obama, um ataque direto ao atual presidente dos Estados Unidos, mas que se transforma em um pedido pela libertação da militar transgênero Chelsea Manning, presa por divulgar um vídeo com ataques de dronas no Oriente Médio.

 

ANOHNI – Obama

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Mesmo sem lançar um novo álbum em 2016, os integrantes do Major Lazer mantiveram uma produção bastante ativa nos últimos meses. Entre músicas como Cold Water – parceria com Justin Bieber e a cantora MØ – e remixes assinados para outros artistas, o projeto comandado por Diplo ainda apresentou ao público algumas composições curiosas, caso de Believer, parceria com Showtek, e a recém-lançada My Number.

Produzida em parceria com o quarteto caribenho Bad Royale, a canção montada em cima do clássico 54-46 Was My Number, do Toots and the Maytals, se espalha lentamente, jogando com as palavras e rimas atualizadas da canção. No segundo ato da canção, uma passagem direta para as pistas anfetaminadas da EDM, efeito da explícita quebra no ritmo da música e forte interferência das batidas, típicas dos trabalhos produzidos por Diplo.

Major Lazer & Bad Royale – My Number

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Artista: Hierofante Púrpura
Gênero: Rock Alternativo, Psicodélico, Experimental
Acesse: https://hierofantepurpura.bandcamp.com/

Foto: Hendi DuCarmo

“Seremos a banda do ano?”, pontua o coro de vozes ensandecidas nos instantes finais de Cachorrada. Ainda que o questionamento seja apenas um fragmento complementar à cômica narrativa assinada por Danilo Sevali, difícil passear pelas canções de Disco Demência (2016, Balaclava Records), mais recente álbum da Hierofante Púrpura, e não perceber o registro como um dos trabalhos mais significativas da cena independente nos últimos meses.

Resultado da ativa interferência de cada integrante da banda – além de Sevali (voz, teclados, guitarra), completa com Helena Duarte (baixo, voz), Gabriel Lima (guitarra, voz) e Rodrigo Silva (bateria) –, o álbum construído a partir de cinco composições extensas reflete o que há de melhor no material produzido pelo grupo de Mogi das Cruzes: a loucura. Em um intervalo de apenas 40 minutos, cada canção se transforma em um experimento torto, insano.

Um bom exemplo disso está na curiosa montagem de Acalenta Lua, segunda faixa do disco. Inaugurada pelo canto arrastado dos integrantes, a canção de melodias inebriantes se espalha sem pressa, detalhando delírios típicos do trabalho de Arnaldo Baptista no clássico Lóki? (1974). No segundo ato da canção, uma quebra brusca. Pianos melancólicos que flutuam em meio ao som ruidoso que escapa das guitarras de Lima. Distorções, batidas e vozes que dançam em meio a pequenas curvas rítmicas.

Mesmo que a relação com o trabalho de gigantes da música psicodélica seja percebida durante toda a construção da obra, faixa após faixa, o quarteto paulista se concentra na formação de uma identidade musical própria. No interior de cada composições, diferentes blocos instrumentais, sempre complexos, ricos em detalhes e texturas. Uma constante sensação de que pequenos fragmentos vindos de diversas canções foram espalhados de forma aleatória no interior do trabalho.

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Os últimos meses foram bastante corridos para os integrantes do Carne Doce. Além de finalizar e lançar o segundo álbum de estúdio, o elogiado Princesa (2016), a banda goiana se desdobrou em uma série de apresentações por diferentes cidades brasileiras, deu vida ao delicado clipe de Artemísia – uma das canções mais sensíveis do novo disco – e, no meio de tudo isso, ainda teve tempo para registrar parte dessa agitação dentro do recém-lançado clipe de Açaí.

Produzido no intervalo das gravações e shows produzidos pela banda nos últimos meses, o trabalho que conta com imagens de Larry Sullivan, Lucas Santos e trechos gravadas pelo próprio quinteto reflete o bom humor que ronda o universo do Carne Doce. Entre as imagens, o grupo contratou atores para espalhar mensagens cômicas/reflexivas pelo centro da cidade de Goiânia; trechos como “Mais Açaí por Favor“,”Arroz, Feijão e Cama” e “Fora Trampo“.

 



Carne Doce – Açaí

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Em novembro deste ano, o cruzamento de ritmos como jazz, pop e eletrônica fez de Bem-Vindo um delicioso convite a provar do universo musical produzido pela cantora, compositor e produtora carioca Bel Baroni. Mais conhecida pelo trabalho como integrante do grupo Mohandas, a musicista reserva para o começo de 2017 a chegada do primeiro álbum em carreira solo. Entre as canções que abastecem o inédito Quando Brinca, a recente Fica Fácil Assim.

Acessível em relação ao material apresentado há poucas semanas, a composição que joga com o duplo sentido dos versos parece feita para grudar na cabeça do ouvinte logo em uma primeira audição. Junto de Baroni, um time de artistas que integram o coletivo feminista Xanaxou. Nomes como Laura Lavieri, Rafaela Prestes, Mari Romano (responsável pela capa do presente single), além, claro, de Larissa Conforto, também baterista do trio carioca Ventre.

 

BEL – Fica Fácil Assim

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Sintetizadores caricatos, sempre pegajosos, melodias sutis e versos intimistas, marcados pelo forte uso de referências pessoais. Com o lançamento de Way We Won’tClear Your History, em setembro deste ano, Jason Lytle e os parceiros de banda conseguiram transportar o público para mesmo universo montado pelo Grandaddy no meio da década passada, quando o grupo de Modesto, Califórnia, apresentou ao público o derradeiro Just Like the Fambly Cat (2006).

Em A Lost Machine, mais recente single da banda norte-americana, Lytle vai além, esbarrando de forma sensível na atmosfera melancólica montada pelo grupo para o clássico The Sophtware Slump (2000). Entre pianos e efeitos eletrônicos, a voz entristecida do cantor, íntimo do ouvinte durante toda a construção da música. A canção é parte do aguardado Last Place (2017), primeiro registro de inéditas do Grandaddy em mais de uma década.

Last Place (2017) será lançado no dia 03/03 via 30th Century.

 



Grandaddy – A Lost Machine

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Com o lançamento de Ladies Don’t Play Guitar, em agosto deste ano, Alaina Moore e o parceiro Patrick Riley indicaram o conceito sensível que deve orientar as canções do novo álbum de inéditas do Tennis. Intitulado Yours Conditionally (2017), o sucessor do bom Ritual in Repeat (2014) parece reforçar o conceito sentimental há tempos presente nas canções da dupla norte-americana, proposta que volta a se repetir da inédita In The Morning I’ll Be Better.

Marcada pela temática da devoção e completa entrega dentro de qualquer relacionamento, a canção de batidas e arranjos lentos se espalha de forma lenta e sufocante. Pouco mais de três minutos em que guitarras, teclados e vozes se espalham em meio a versos intimistas, românticos e dolorosos. No clipe da canção, uma nova viagem em direção ao passado. Paisagens e roupas que parecem ter saído de algum catálogo de roupas da década de 1970.

Yours Conditionally (2017) será lançado no dia 10/03 via Mutually Detrimental.

 

Tennis – In The Morning I’ll Be Better

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Artista: Jóhann Jóhannsson
Gênero: Experimental, Ambient, Instrumental
Acesse: http://www.johannjohannsson.com/

 

Em 2013, Jóhann Jóhannsson foi convidado pelo diretor Denis Villeneuve a produzir a trilha sonora do filme Os Suspeitos. Estrelado por Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal, o suspense seria apenas o primeiro registro da parceria entre o diretor canadense e o músico islandês, estímulo para um novo projeto colaborativo dentro do elogiado Sicario, lançado dois anos mais tarde, mas que se completa na sutileza estética e instrumental de A Chegada (2016), mais recente encontro criativo entre os dois artistas.

Estrelado por Amy Adams e Jeremy Renner, a película mostra o esforço de uma linguista norte-americana e um time de especialistas em decifrar o misterioso aparecimento de 12 objetos voadores em diferentes regiões do planeta. No decorrer da obra, um delicado aprofundamento na história da protagonista, interpretada por Adams. Enquadramentos pouco convencionais, câmeras documentais, sempre próximas dos atores, base da ambientação intimista, por vezes claustrofóbica, lançada por Jóhannsson.

Naturalmente íntimo do mesmo universo de temas orquestrais explorados pelo músico islandês em quase duas décadas de carreira, Arrival (2016, Deutsche Grammophone) é uma obra que joga com as sensações. São pinceladas acústicas, vozes etéreas e instantes de plena sensibilidade que se abrem para a construção de pequenos atos catárticos. Um crescendo de emoções, batidas retumbantes e quebras bruscas que prendem a atenção do ouvinte durante toda a formação do álbum.

Mesmo repleto de referências ao trabalho de Villeneuve, como o uso das vozes e sons que replicam com naturalidade os diálogos entre humanos e alienígenas do filme, o trabalho de Jóhannsson sobrevive para além dos limites da tela. São composições hipnóticas, crescentes, como Properties Of Explosive Materials e Principle Of Least Time; instantes de profunda melancolia, vide Hydraulic Lift e Hazmat, além de faixas que flutuam com leveza na cabeça do ouvinte, caso das curtinhas Sapir-Whorf e Ultimatum.

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A voz limpa que se projeta em um precioso dueto entre Romy Madley Croft e Oliver Sim. Uma base minimalista que se abre para a precisa interferência do clássico I Can’t Go For That (No Can Do), canção assinada pela dupla Hall & Oates. Batidas e guitarras crescentes, íntimas das pistas. Em um intervalo de poucos minutos, a inédita On Hold não apenas anuncia o terceiro álbum de estúdio do The XX, I See You (2017), como aproxima o trio britânico de um novo universo de possibilidades.

Quase uma sobra de estúdio do material apresentado por Jamie XX no excelente In Colour (2015), primeiro álbum em carreira solo, a nova faixa encanta pela flexibilidade dos elementos – vozes, batidas e samples. Experimentos contidos que indicam a direção assumida pelo trio passado o lançamento do delicado Coexist (2012), último registro de inéditas da banda. No clipe da canção, trabalho dirigido por Alasdair McLellan, as histórias de diferentes personagens em uma cidade no interior dos Estados Unidos.

I See You (2017) será lançado no dia 13/01 via Young Turks.

The XX – On Hold

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