Disco: “Get To Heaven”, Everything Everything

Everything Everything
Art Rock/Electronic/Alternative
http://www.everything-everything.co.uk/

Alguns trabalhos começam pela primeira faixa, outros, como Get To Heaven (2015, Sony RCA), pela capa. “Queríamos uma imagem impossível de ignorar, mesmo que ela fosse tão feia quanto o inferno“, disse o vocalista do Everything Everything, Jonathan Higgs, em entrevista ao site Creative Review. Produzida pelo artista gráfico neozelandês Andrew Archer, a colorida ilustração – bem como toda a identidade visual do álbum – cumpre com naturalidade sua função, atraindo de forma quase hipnótica a atenção do espectador desapercebido.

Muito além do atento jogo de cores fortes, psicodélicas, a imagem de um homem sendo atacado funciona como síntese do invasivo domínio político, religioso e até sentimental que define grande parte dos versos na presente obra. Mesmo que dialogue com essência “pop” dos antecessores Man Alive (2010) e Arc (2012), ao alcançar o terceiro álbum de inéditas, a amadurecimento explícito do quarteto de Manchester revela ao público todo um novo universo – sonoro e conceitual – a ser explorado.

Dramática, por vezes exagerada, a voz de Higgs serve de estímulo para o ambiente sombrio, caótico e essencialmente pessimista que se espalha ao longo das canções. Em um misto de passado e presente, faixas como Regret (“Alguma vez você viu sua vida escorrer pelas mãos?”) e Distant Past (“Leve-me para um passado distante / Eu quero voltar”) ironizam a suposta “evolução” do ser humano, discutem o crescente atuação de extremistas religiosos em toda a Europa e ainda apontam o completo isolamento dos indivíduos, cada vez mais frios, mecânicos, como robôs.

Tamanha seriedade das canções em nenhum momento distorce o caráter comercial do disco. Com produção assinada por Stuart Price – produtor que já trabalhou com Kylie Minogue, The Killers e Scissor Sisters -, Get To Heaven é uma obra marcada pelo rico acervo de faixas dançantes e acessíveis, como uma natural extensão da linguagem melódica alcançada no álbum de 2012. Nada de pausas ou mesmo espaço para o fortalecimento de composições “menores”. O esforço do quarteto prevalece mesmo na segunda metade do trabalho, postura evidente em músicas como Blast Doors e Zero Pharaoh.   Continue reading

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Nicolas Jaar: “Nymphs III”

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Nicolas Jaar não para. Um mês após o lançamento de Nymphs II, primeiro registro de canções inéditas desde o encerramento das atividades com o Darkside, o produtor nova-iorquino já está de volta com mais uma sequência de composições. Em Nymphs III, a sonoridade experimental de Jaar assume novo formato, escapando das ambientações minimalistas e temas reclusos do debut Space Is Only Noise, de 2011, para incorporar uma sonoridade quase “urgente”.

De um lado, os sintetizadores, ruídos instáveis e colagens atmosféricas de Swim, composição que mais aproxima o trabalho de Jaar de gigantes do Krautrock. No outro oposto, as batidas precisas e sonoridade dançante de Mistress, uma adaptação dos mesmos conceitos da Deep House explorados pelo artista no decorrer do primeiro álbum de estúdio. Com lançamento pelo selo Other People, o novo single é o segundo trabalho lançado por Jaar em um curto intervalo de tempo. Na última semana, a trilha sonora Pomegranates foi entregue ao público para download e audição gratuita.

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Nicolas Jaar – Swim / Mistress – Nymphs III

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Wavves x Cloud Nothings: “No Life For Me”

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Surpresa! No Life For Me (2015), trabalho em pareceria entre Nathan Williams (Wavves) e Dylan Baldi (Cloud Nothings) acaba de ser apresentado ao público. Originalmente anunciado no começo da março, porém, sem data de lançamento prevista, o álbum de nove composições inéditas e produção assinada por Sweet Valley já pode ser apreciado na íntegra pelo Bandcamp da “dupla”.

Gravado em diferentes sessões entre março de 2014 e junho de 2015, o registro é uma divisão exata das experiências, ruídos e temas que inspiram as duas bandas. Um cruzamento perfeito entre o Garage Rock “litorâneo” de Nathan Williams no Wavves as guitarras distorcidas, típicas da década de 1990, que Baldi há tempos vem explorando dentro do Cloud Nothings.

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Wavves x Cloud Nothings – No Life For Me

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Disco: “Ratchet”, Shamir

Shamir
Electronic/Hip-Hop/Indie
https://www.facebook.com/Shamir

Shamir Bailey ainda não havia nascido quando a Disco Music ganhou nova roupagem no final dos anos 1980 com a explosão da Italo Disco e a House Music no começo da década seguinte. Nascido em 1994, o artista original da cidade de Las Vegas era apenas uma criança quando o “movimento” Nu-Disco tomou conta da cidade de Nova York no início dos anos 2000, sendo apresentado ao trabalho de artistas como Hercules and Love Afair, Scissor Sisters e Azari & III somente na adolescência.

Interessante perceber em Ratchet (2015, XL), primeiro registro em estúdio do cantor, uma espécie de síntese involuntária de todas essas cenas, reformulações e novos rumos que marcam diferentes fases da música eletrônica. Personagem central da própria obra, Shamir destila sentimentos (In For The Kill), estreita a relação com as pistas (Call it Off) e cria na estrutura flexível dos arranjos (On The Regular) uma obra tão vasta que é difícil encaixar o álbum em um cercado específico.

De vocal andrógino, ao finalizar o primeiro álbum de inéditas, o jovem de apenas 20 anos parece ir ainda mais longe em relação ao material e sonoridade curiosa explorada no single On the Regular. Primeiro grande sucesso de Shamir, a canção apresentada em 2014 parece servir de estímulo para todo o restante do álbum, fragmentando as (novas) composições entre o canto, a rima e o natural compromisso com as pistas. Recortes, colagens e pequenas apropriações conceituais que aos poucos revelam a identidade colorida do artista.

Em uma contínua mudança de direção, por vezes brusca, cada faixa de Ratchet se transforma em um plano isolado dentro da obra. Seguindo a mesma trilha de Azealia Banks em Broke With Expensive Taste (2014), Shamir parece testar os próprios limites, brincando com faixas de essência eletrônica, como Hot Mess e Make a Scene, até composições reclusas, de natureza romântica, caso de Demon e Darker, essa última um fino retrato da aproximação do jovem músico em relação ao R&B dos anos 1990. Até violões aparecem na derradeira KC, música exclusiva da edição virtual do disco. Continue reading

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Nicolas Jaar: “Pomegranates”

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Nymphs II, último trabalho apresentado por Nicolas Jaar ainda nem teve tempo de esfriar e o produtor norte-americano já está de volta com um vasto acervo de composições. Intitulado Pomegranates, o álbum de 20 faixas e temas ambientais funciona, segundo o próprio produtor, como uma espécie de trilha sonora alternativa para o clássico A Cor da Romã, filme originalmente lançado em 1969 e dirigido pelo cineasta soviético Sergei Parajanov.

Apresentado pelo próprio Jaar no Twitter e Facebook para download gratuitoPomegranates está longe de parecer uma obra de composições inéditas. Como resume no próprio texto de apresentação do trabalho, parte das canções foram resgatadas do vasto acervo do produtor, caso de Shame, música criada como base para um rap, porém, posteriormente recusada, e Garden Of Eden, faixa composta para um inseto que Jaar encontrou em casa. Com distribuição pelo selo Other People, o álbum deve ganhar em breve uma reedição em vinil. Ouça:

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Nicolas Jaar – Pomegranates

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Disco: “Coming Home”, Leon Bridges

Leon Bridges
Soul/R&B/Singer-Songwriter
http://www.leonbridges.com/

Leon Bridges é um nostálgico. Nascido em julho de 1989 na cidade de Atlanta, Georgia, o cantor e compositor norte-americano parece viver em um mundo em preto e branco, vozes captadas em baixa fidelidade e temas que instantaneamente remetem ao som projetado na década de 1960. Orientado por Otis Redding, Al Green, Sam Cooke e outros gigantes do Soul e R&B do mesmo período, o novato (finalmente) abre as portas do primeiro disco solo: Coming Home (2015, Columbia).

Catálogo empoeirado de canções românticas, entristecidas e até mesmo dançantes, o registro segue um caminho isolado em relação a diferentes conterrâneos da música negra recente. Oposto ao trabalho de Janelle Monáe, Adele, Raphael Saadiq e tantos outros artistas interessados em brincar com referências lançadas há mais de quatro décadas, ao mergulhar no primeiro álbum solo de Bridges, a proposta assumida pelo cantor é clara e imutável. Trata-se de uma visita breve ao passado, como uma tentativa de replicar sons, temas e conceitos sem necessariamente investir na transformação.

Coeso, por vezes demasiado contido, Coming Home sustenta na forte aproximação entre as faixas outro importante acerto. Diferente de tantos outros registros que tentam amarrar um universo imenso de referências e movimentos musicais em um mesmo período de tempo, da abertura, com a faixa-título, ao fechamento em River, Leon Bridges em nenhum momento ultrapassa o cercado temático que se estende até o meio dos anos 1960. Nada de Dance Music, Funk e outras variações que invadiram a década seguinte. O controle é uma constante.

Como efeito dessa escolha, posicionado em um curto espaço de tempo, Bridges parece extrair o máximo de cada variação da música (não apenas negra) do período. Enquanto Smooth Sailin’ reverbera diversos elementos típicos da Surf-Music, composições como Better Man e Shine suspiram romantismo e arranjos nitidamente apaixonados, como canções de rádio há muito esquecidas. Como não se deliciar com os coros de vozes em Brown Skin Girl e Lisa Sawyer, faixas que espalham lentamente o pano de fundo nostálgico que cobre toda a obra. Continue reading

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London O’Connor: “O∆”

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Depois da sequência de boas composições apresentadas nas últimas semanas – como GutsNobody Hangs Out Anymore -, já era hora de ter acesso ao primeiro álbum de London O’Connor. Na trilha dos últimos lançamentos do jovem artista, O∆ (2015), nasce como reflexo do passeio do cantor/rapper por diferentes campos da música estadunidense, buscando referências que se escondem no rock nova-iorquino de grupos como The Velvet Underground, além, claro, de diálogos curtos com o Hip-Hop, R&B e Soul de diferentes épocas.

São 10 composições, algumas já conhecidas do Soundcloud de O’Connor, além de outras NATURAL e Steal, pequenas representações do som experimental assinado pelo músico. Disponível para download gratuito – clique aqui -, o álbum também pode ser apreciado na íntegra logo abaixo. Para quem acompanha o trabalho de Frank Ocean e King Krule, uma excelente recomendação:

 

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London O’Connor – O∆

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Low: “No Comprende”

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Em boa fase, desde que deu início ao catálogo de novas obras na presente década, a banda norte-americana Low não apenas fez uso da própria maturidade, como passou a investir em uma série de novos elementos e temas musicais. Marca nos dois últimos álbuns do grupo – C’monThe Invisible Way –, as guitarras, cada vez mais densas e sombrias, parecem apontar a direção para o 11º registro de estúdio do grupo de Duluth, Minnesota, Ones and Sixes (2015).

Apresentado pela inédita No Comprende, o novo álbum parece seguir uma trilha ainda mais isolada em relação aos últimos discos do trio, transformação explícita na guitarra de Alan Sparhawk, tão íntima do Blues Rock de gigantes da década de 1970 – caso de Led Zeppelin -, como ainda próxima da sonoridade melancólica exposta pela banda desde o começo dos anos 1990. Uma faixa de sentimentos e arranjos fortes, capaz de prender o ouvinte até o último acorde.

Ones and Sixes (2015) será lançado no dia 11/09 pelo selo Sub Pop.

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Low – No Comprende

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Shura: “White Light” (VÍDEO)

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De toda a nova safra de artistas, Shura parece ser a que mais brinca com as referências. De um lado, o confesso fascínio pelo R&B de Mariah Carey, Whitney Houston e Janet Jackson. No outro oposto, a relação com o som experimental e empoeirado que se estende de novatos como Ariel Pink e Blood Orange, até veteranos como Portishead e Massive Attack. Fragmentos expostos com naturalidade no interior de White Light, mais recente single apresentado pela cantora britânica.

Fuga da sonoridade contida exposta por Shura em faixas como Touch, Just Once e 2Shy, a composição lentamente abre passagem para que a cantora/produtora de Manchester se aproxime das pistas. Difícil não lembrar do trabalho de Blood Orange em Cupid Deluxe (2013) ou mesmo dos primeiros trabalhos de Sky Ferreira. Agora transformada em clipe, a faixa entrega na direção de Noel Paul o encontro de duas criaturas místicas.

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Shura – White Light

 

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Tinashe: “Cold Sweat” (VÍDEO)

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“Inexperiência” é uma palavra que não se aplica ao trabalho de Tinashe. Mesmo que Aquarius(2014, RCA) seja vendido ao público como o primeiro disco da cantora, bastam os minutos iniciais da própria faixa-título para sentir a plenitude da obra. Álbum de estreia dentro de uma grande gravadora – a RCA -, o coeso arsenal de estúdio se divide entre o passado ainda recente da artista e um futuro em plena construção. Uma síntese declarada de cada faixa ou mixtape assinada individualmente na última meia década e, ao mesmo tempo, um princípio de renovação autoral.

Nascida no Zimbabwe, porém, criada em Los Angeles, Califórnia, Tinashe é uma figura ativa no meio artístico há bastante tempo. Atuando como modelo e atriz desde o começo da adolescência, em idos de 2000, a artista apaixonada por Michael Jackson e Christina Aguilera logo encontrou na música um refúgio natural. Em 2007, com o The Stunners, hoje extinto coletivo de Pop/R&B, a cantora deu os primeiros passos oficiais. Todavia, foi ao mergulhar em fase solo e investir em obras independentes que a relação com a música de fato amadureceu. Leia o texto completo.

Dirigido por Stephen Garnett, abaixo você encontra o clipe de Cold Sweat.

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Tinashe – Cold Sweat

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