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Discografia Comentada: Pato Fu

Pato Fu
Brazilian/Pop/Alternative
http://www.myspace.com/patofu

Por: Cleber Facchi

Há quem possa dizer que música pop é um amontoado de repetições sonoras baseadas em fórmulas pré-testadas que findam em um sucesso praticamente garantido. Dessa linha “pop” surge quase que diariamente uma infinidade de Britneys, Mileys, Justins e afins que se valem de repetições clássicas para suprir as necessidades de um público já acostumado com esses padrões. Há, contudo quem se aventure por essas mesmas camadas de música radiofônica, porém inverta, reconstrua e saiba como de fato trabalhar com tal sonoridade. Desse segundo grupo vêm os mineiros do Pato Fu.

Para entender como a banda e sua musicalidade funcionam basta ouvir o primeiro álbum do grupo lançado em 1993, o experimental e ainda assim pop Rotomusic de Liquidificapum. Um enorme caldeirão (ou liquidificador) de referências em que Sítio do Pica-Pau Amarelo se agrega ao post-punk dos anos 80, enquanto a voz delicada de Fernanda Takai é transpassada por uma bateria eletrônica e as guitarras raivosas de John Ulhoa ou quando o baixo de Ricardo Koctus participa de uma ode irônica à Unimed. Sobra ainda espaço para que Os Flinstons e um amontoado de outras referências possam brilhar através das letras e da sonoridade do até então trio.

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Na época o álbum acabou passando quase despercebido pelo público, que ainda não estava acostumado ao som “estranho” do grupo ou que preferia ainda se aventurar pelo rock nacional dos anos 80. Porém o álbum foi o suficiente para que a banda atraísse os olhares da gravadora BMG e conseguisse um contrato para um segundo disco.

Veio então em 1995 Gol de Quem? o segundo álbum da carreira do grupo em que as mesmas experimentações pop figuravam pelas faixas, embora houvesse agora um maior controle (talvez pressão da gravadora) para que as canções viessem mais acessíveis. Mesmo assim a ironia descarada das letras de Ulhoa ainda se faz presente como em Mamãe ama é o meu revólver, Vida Imbecil (cantada inteira com sotaque mineiro) e através da faixa título. A predisposição do grupo para compor canções mais comerciais tomava um rumo maior a partir desse disco. As faixas Sobre o Tempo e Qualquer Bobagem (um cover dos Mutantes) agradaram tanto que renderam ao grupo uma boa participação nas rádios de todo o país além de dar ao grupo o prêmio de Banda Revelação na primeira edição VMB da MTV Brasil.

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A inspiração do grupo era tanta que já no ano seguinte vinha Tem Mas Acabou (1996) o novo álbum do agora quarteto (Xande Tamietti passava a integrar o grupo como baterista desde uma turnê da banda pelos Estados Unidos em 1995). O resultado é um álbum repleto de faixas criativas em que a banda explora ao máximo tanto as letras quanto a instrumentação. Rock alternativo, música mexicana, Trip Hop, música caipira, Heavy Metal e um agregado de elementos tomam conta das composições do grupo. O resultado se vê nas excelentes Pinga, Capetão (uma espécie de transmissão de rádio do grupo que nos shows se transforma em quase uma celebração religiosa) e Porque Te Vas.

Com Televisão de Cachorro (1998) o grupo parece finalmente firmar sua sonoridade, gerando um disco limpo, repleto de referências e uma instrumentação que lentamente começa a flertar com a música eletrônica ou ais especificamente o Trip Hop do Portishead e Massive Attack. Diferente dos trabalhos anteriores o novo álbum contava com uma maioria de faixas criativas e livre de alguns excessos de outrora. Desse disco escapam diversos singles como A Necrofilia da Arte, Antes Que Seja Tarde, Eu Sei (um cover da Legião Urbana), Vivo Num Morro, O Mundo Não Mudou além da canção que dá nome ao disco.  Mas é pela melancólica Canção Para Você Viver Mais destinada ao pai enfermo de Fernanda Takai que o álbum é sempre lembrado.

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Há essa altura John Ulhoa já havia encontrado sua fórmula como letrista, a voz de Takai era uma das mais conhecidas do país e o grupo sagrava-se como uma das grandes bandas daquela década ao lado de grupos como Skank, Planet Hemp e Nação Zumbi. Para fechar a década o grupo lançava seu quinto disco Isopor (1999) em que se aventurava por experimentalismos eletrônicos e melodias cada vez mais pop. Dele vem Made In Japan (cantada inteiramente em japonês e com direito a um clipe com uma batalha de robôs gigantes), Isopor (que esbanja referências ao Trip Hop), Depois, a sentimental Um Ponto Oito e Perdendo Dentes que garantiram ao grupo uma participação expressiva nas rádios e programas de TV de todo o Brasil.

Adentrando o novo século e a banda lançava Ruído Rosa (2001) em que firmava de vez seu espaço junto do grande público através de um cover inspirado de Ando Meio Desligado dos Mutantes. A faixa que serviu como tema de abertura para uma novela da Rede Globo dominou as rádios do país naquele ano. De fato 2001 foi um ano de conquistas para o grupo. O clipe da faixa Eu, que contava a história de  Lev Sergeivitch Termen o inventor do Teremim (instrumento que é utilizado ativamente na faixa), ganhou o prêmio de melhor videoclipe através do VMB enquanto faixas como Deus, Ninguém e Ruído Rosa eram executadas constantemente nas rádios, além da apresentação do grupo para mais de 250 mil pessoas no Rock In Rio III. O álbum seria o último lançado pelo grupo através da BMG. Em 2002 viria um disco ao vivo ainda pela gravadora, mas dali pra frente o grupo seguiria por uma carreira independente.

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Livre das amarras da gravadora o grupo que agora contava com o ex-Karnak Lulu Camargo nos teclados lançava Toda Cura Para Todo Mal (2005), o melhor álbum de toda sua carreira. Faixas que se valem de um pop perfeito, as letras inspiradas de John Ulhoa e a instrumentação do grupo soando limpa e repleta de detalhes. Cada uma das 13 canções do álbum soavam vivamente radiofônicas, mas para bem além do pop tradicional e batido ao qual o público estava acostumado. Crítica e público aceitaram, e o disco brilhou como um dos favoritos daquele ano.

A excelência do grupo não parava por aí. Em 2007 vinha Daqui Pro Futuro um disco tão inspirado e musicalmente bem construído quanto o trabalho anterior. O resultado se via em faixas como 30.000 pés, Tudo Vai Ficar Bem (com participação da colombiana Andrea Echeverri) e A verdade sobre o Tempo em que as canções de Ulhoa ganham um caráter muito mais existencialista em suas letras.

Para comemorar os quase 20 anos de carreira a banda lança em 2010 Música de Brinquedo, um álbum de regravações em que todas as faixas são todas por instrumentos de brinquedos ou miniaturas. A ideia do grupo já era antiga e se concretiza com eficácia através dos arranjos simpáticos de canções como Primavera do Tim Maia, Todos Estão Surdos de Roberto Carlos ou Love Me Tender do rei Elvis Presley. Embora não seja voltado para o público infantil as canções ganham uma aura nostálgica além de contar com a participação dos filhos e sobrinhos dos membros da banda.

Rotomusic de Liquidificapum (1993)

Nota: 8.4
Ouça: O Processo da Criação Vai de 10 a 100 Mil

Gol de Quem? (1994)

Nota: Gol de quem
Ouça: 7.2

Tem Mas Acabou (1996)

Nota: Capetão
Ouça: 7.0

Televisão de Cachorro (1998)

Nota: 8.0
Ouça: Antes que seja tarde

Isopor (1999)

Nota: 8.2
Ouça: Quase

Ruído Rosa (2001)

Nota: 7.7
Ouça: Eu

Toda Cura Para Todo Mal (2005)

Nota: 8.9
Ouça: Boa Noite

Daqui Pro Futuro (2007)

Nota: 8.7
Ouça:

Música de Brinquedo (2010)

Nota: 8.1
Ouça: Todos Estão Surdos


Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

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