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Pequenos Clássicos Modernos

Ludovic
Brazilian/Alternative Rock/Post-Punk
http://www.myspace.com/ludovicbr

 

Por: Cleber Facchi

Quem se depara com a sonoridade branda da carreira solo de Jair Naves talvez desconheça o passado caótico que o músico paulistano desenvolveu através do projeto Ludovic. Em meio a guitarradas ecoando referências ao post-punk e ao rock alternativo dos anos 90, o músico aliado a um instável número de outros integrantes fez de suas canções um refúgio, repartindo com o ouvinte as mesmas dores, melancolias e raivas que se aplacavam sobre sua vida. Oculto por vocais graves e guitarras estrondosas, Idioma Morto (2006), segundo álbum da banda reforça um tipo de sofrimento que parece nunca ter fim.

O mesmo pessimismo (mascarando alguns focos de esperança) que era encontrado em Servil (2004), estreia da banda, aqui se evidencia de forma mais “suavizada”. Versos como os retratados em Você sempre terá alguém a seus pés, CVV e Vane, Vane, Vane parecem distantes desse segundo álbum, com Naves trocando seus rancores, fruto de um coração partido, por temáticas muito mais existencialistas, trazendo aspectos do cotidiano ou outros temas de conteúdo muito mais amplo. A dor, entretanto, permanece a mesma.

Se no primeiro álbum, versos como “Apesar de tudo, você ainda me tem a seus pés/ (grande bosta, grande bosta você sempre terá alguém a seus pés)/ Não me obrigue a implorar” davam ao registro uma fluência dolorosa e por vezes confundida com os gritos de um adolescente apaixonado (um claro erro), em Idioma Morto a poética do trabalho ruma para um caminho mais amplo, buscando suporte em argumentos literários ou que exploram aspectos para além da figura de Naves (ou de seu eu-lírico), propondo faixas como Corpo Santo de Saias ou Eu Fiz Pouco Caso de um Gênio.

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Algumas composições, porém, permanecem ativamente ligadas ao que se propunha de forma crua e sofredora no primeiro álbum da Ludovic. É o caso de Janeiro continua sendo o pior dos meses, em que versos do tipo “E eu, preso no mesmo lugar/ Milhões de cortes para estacar/ Regando flores mortas, beijando fotos/ Ninguém pode me culpar” se derramam em meio aos sons obscuros do disco. O mesmo se propõem na canção de abertura Atrofiando / Recém-Convertido / Ex-Futuro Diplomata ou em Unha e Carne, ambas composições que crescem pela densidade dos vocais de seu interprete.

Assim como a musicalidade proposta no álbum de 2004, as preferências do Ludovic permanecem as mesmas em Idioma Morto. Do rock inglês vem a inegável herança de Ian Curtis e seu Joy Division, dissolvido nas linhas de baixo destacadas e nas guitarras opacas que preenchem o trabalho em sua quase totalidade. Da música norte-americana respingam referências às bandas Sonic Youth e Hüsker Dü, preenchendo os raros espaços do disco com ecos ruidosos e inserções extras de uma distorção acinzentada. Surgem até novos rumos dentro do álbum, feito o exposto em Unha e Carne, com a banda se aconchegando em uma tonalidade puramente acústica e amena.

Embora semelhantes, cada um dos trabalhos da Ludovic se orientam de maneira distinta, como se um completasse o outro. A despedida precoce da banda – o grupo chegou ao fim em 2009 – pôs fim a um dos projetos mais intensos que se manifestaram no rock nacional dos anos 2000, cultivando em suas canções um abrigo para corações partidos, indivíduos tomados pela culpa, nostalgias, sinceros sofrimentos, além de um raro, porém perceptível fio esperançoso.

Idioma Morto (2006)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Jair Naves, Violins e Polara
Ouça: Janeiro Continua Sendo O Pior Dos Meses