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Pequenos Clássicos Modernos

Madvillain
Hip-Hop/Rap/Alternative
http://www.stonesthrow.com/madvillain/

Por: Cleber Facchi

Enquanto alguns trabalhos voltados ao hip-hop se destacam por seus versos, outros concentram todos ou grande parte de seus esforços em cima de um variado uso de samples e beats. Surgem também aqueles que buscam experimentar, testar novas fórmulas e corromper os limites do básico, fácil e tradicional. Existem ainda aqueles que se mesclam a outros gêneros, pervertendo os próprios limites do Rap tal qual como conhecemos. Entretanto, são raros os que conseguem entrelaçar toda essa soma de possibilidades dentro de um único trabalho, sendo ainda mais raros são aqueles que conseguem fazer isso e ainda acertar.

Concentrado essas e diferentes vertentes rítmicas, líricas e instrumentais, em março de 2004 a parceria gerada entre o produtor e músico Madlib e o rapper britânico erradicado nos Estados Unidos, MF DOOM (Daniel Dumile) acabaria resultando em um dos trabalhos mais inovadores de todas as épocas do hip-hop. Experimental, excêntrico, ambicioso e genial, o projeto gerado entre os dois artistas – que acabaram se autodenominando Madvillain – soava como um grande experimento científico, um encontro entre dois vilões clássicos que deram origem a um monstro de proporções imensuráveis, uma “criatura” denominada Madvillainy.

Formado a partir do uso variado de samples – que incluem desde trechos de filmes clássicos, músicas vindas de diferentes cantos do planeta, bem como sons de video games e diálogos aleatórios -, o álbum amarra 22 composições tomadas de puro ineditismo e encaixes certeiros. Cada faixa do disco surge como uma pequena parte do suposto monstro, que tem na capa do trabalho sua imagem representada por Dumile e sua tradicional máscara de Doutor Destino. Sempre curtas e carregadas de poucos versos – em média as músicas contam com menos de dois minutos – as composições vão lentamente evidenciando a demência de seus dois idealizadores.

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Durante as mais de duas dezenas de faixas que compõem o trabalho, a dupla vai aos poucos construindo uma espécie de cenário urbano, sombrio, algo que talvez remeta à uma Gotham dos quadrinhos ou qualquer outra cidade fictícia que abriga um vasto catálogo de vilões. Todos seres fomentados pelo delírio, ditando suas próprias regras e leis, sem que qualquer justiceiro surja para combatê-los. Os versos, sempre desarticulados e embebidos no mesmo nível de demência que já se anuncia no título do álbum, acabam aos poucos se misturando a esse suposto cenário, transformando o trabalho em um registro forte, um enorme bloco cinza de versos, samples e beats.

Esculpido com um cuidado e uma precisão que dificilmente se repetiria nos trabalhos individuais dos dois colaboradores, o álbum revela um arsenal realmente vasto de distintos sons, texturas e vozes que vão aos poucos se incorporando ao resultado final. Entre colagens de Molambo e Mariana, Mariana da cantora Maria Bethânia na faixa Rhinestone Cowboy, trechos do filme Casablanca em Bistro e curtas passagens do jogo Street Fighters II na instrumental Do Not Fire!, por todos os lados despontam pequenas referências variadas, todas encaixadas em uma estrutura instável, flertando com o jazz e diversas outras tendências do rap contemporâneo.

Mesmo que não seja um trabalho de vanguarda – basta olhar para os discos do The Roots ou mesmo o clássico Endtroducing… do DJ Shadow para encontrar as mesmas experiências e estruturas presentes no registro – o disco tem todo o mérito por seu resultado, que se não é capaz de alcançar a perfeição, chega muito próximo dela em diversos momentos. Provavelmente um dos dez melhor discos do gênero lançados na última década, Madvillainy é a melhor prova de que muito próximo da demência reside a genialidade.

Madvillainy (2004, Stones Throw)

Nota: 9.5
Para quem gosta de: MF DOOM, Danger Mouse e Madlib
Ouça: o disco todo