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Pequenos Clássicos Modernos

Radiohead
British/Experimental/Alternative
http://radiohead.com/

Por: Cleber Facchi

 

Seria possível derreter a música, modificar suas fórmulas e formatos em busca de um resultado novo, inédito e nunca antes explorado ou ouvido pelo homem? Em outubro de 2000 o quinteto britânico Radiohead não apenas provaria que tais experimentos seriam possíveis como foram capazes de modificar quaisquer possíveis conclusões sobre o que pudesse ser compreendido como música. Experimental e revolucionário até seus últimos acordes (ou ruídos), Kid A é um mergulho profundo na mente instável de seus criadores, um projeto que não apenas derrubou todas as leis do que era compreendido como música, como criou seus próprios paradigmas.

Vindos de uma recepção calorosa mediante o lançamento do também clássico OK Computer em 1997, o Radiohead trilhava o que parecia ser um caminho natural para a consagração. Um tipo de aceitação unânime do público e da crítica que mais do que imediatamente pavimentou um caminho direto para o panteão dos grandes deuses da música. A aceitação, entretanto, pouco agradava ao quinteto de integrantes que compunham a banda, tanto que ao entrarem em estúdio em janeiro de 1999 a decisão do grupo fora unânime: experimentar ao máximo e seguir por uma via totalmente inversa a percorrido no trabalho anterior.

Utilizando dessa lógica prévia para dar movimento ao ainda inédito trabalho, Jonny Greenwood, guitarrista da banda se afundou de vez nas experiências do jazz e da música clássica, explorando cada mínimo espaço da obra como uma possibilidade para desconstruir as embriagadas melodias pop dos discos anteriores. Ao longo do complexo álbum é visível um condensando musical que surge de uma clara herança dos experimentos de Miles Davis, dos entrelaces clássicos de Olivier Messiaen ou da música vanguardista de Krzysztof Penderecki.

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Do outro lado, um melancólico Thom Yorke – afundado em uma profunda depressão e incomodado pelo constante assédio da mídia – foi encontrar nos elementos sintéticos da música eletrônica todas as bases para o registro. Entre audições constantes da obra do duo Autechre, além de uma completa entrega aos trabalhos de Richard David James (Aphex Twin), Yorke encontrou todos os elementos que faltam para o trabalho do grupo, afastando-os do caráter orgânico de outrora – com trabalhos regidos quase integralmente pelas guitarras – e apresentando aos demais integrantes da banda um universo de sensações musicais tomadas pela esquizofrenia.

É dentro desse panorama dicotômico que todo Kid A é desenvolvido, com o grupo abrindo as portas para um universo de sensações musicais inconstantes e faixas que se desfazem e renascem em questão de segundos. Mesmo os versos utilizados ao longo do trabalho são explorados de maneira instrumental e inteiramente orquestrados, com a própria voz de Thom Yorke se transformando em um dos instrumentos que regem a obra. Tudo parecia sintomaticamente posicionado para afastar e confundir o ouvinte, entretanto, não foi essa a recepção que o grupo encontrou logo em sequência ao lançamento do trabalho.

Com fortes vendas e total aceitação, o álbum acabou figurando no primeiro lugar de diversas paradas musicais ao redor do globo, com a banda encontrando uma recepção ainda maior que a obtida em seu último disco. O cultuado trabalho acabaria por caracterizar todos os seguintes lançamentos do grupo, além de abrir as portas para a chegada de novos artistas que transformariam a primeira década do novo século em uma biblioteca de experimentos musicais. Sem dúvidas o registro mais importante dos anos 2000 e um trabalho que faz valer o significado da expressão “obra-prima”.

Kid A (2000, Parlophone/Capitol)

Nota: 10.0
Para quem gosta de: Thom Yorke, Johnny Greenwood e Sigur Rós
Ouça: o disco todo