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Pequenos Clássicos Modernos

Portishead
British/Trip-Hop/Electronic
http://www.portishead.co.uk/

Por: Cleber Facchi


Não seria o Trip-Hop um gênero musical específico da década de 1990 e um estilo impossível de ser recriado com perfeição em um ambiente que ultrapassasse os limites temporais daquele período? Esta foi a pergunta que um sem número de publicações e ouvintes fizeram quando em meados de 2008 o trio mais importante de Bristol, o Portishead, anunciou que o terceiro trabalho da banda seria em breve lançado, feito que alvoroçou os seguidores do grupo e entusiastas do estilo musical abordado pelo grupo, que desde o surpreendente registro ao vivo Roseland NYC Live, de 1998, não apresentava mais nenhuma novidade ao público.

De fato, desde que a tríade entrou em recesso ao final de 1999 que o mundo da música não era mais presenteado com um trabalho de tamanha relevância, quanto o proposto pelos ingleses através dos discos Dummy de 1994 e o homônimo álbum de 1997. Mesmo Massive Attack, Tricky, Morcheeba e tantos outros artistas que surgiram no mesmo período (e até no mesmo cenário) pareciam incapazes de alcançar os mesmos resultados de outrora. Era como se o espírito que movimentava o gênero tivesse simplesmente se extinguido, algo que seria finalmente recuperado quando em abril de 2008 o terceiro registro encabeçado por Geoff Barrow, Beth Gibbons e Adrian Utley fosse finalmente lançado.

Sob o nome de Third (terceiro), o álbum parecia resgatar toda a fluidez e as sensações esbanjadas ao longo dos anos 90, reverberando as mesmas camadas de sons abafados, batidas ponderadas e samples condensados que serviam de base para que os vocais de Beth Gibbons pudessem passear de maneira firme pelas faixas. Entretanto, enquanto os dois primeiros trabalhos acabaram pendendo para uma ambientação totalmente jazzística e obscura – como se a banda estivesse em algum clube de jazz dos anos 50 -, com o recente álbum todas essas sensações se alteraram, afinal, Third era um disco de “rock”.

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Menos ponderado que os primeiro registros do grupo, o álbum estabelece logo nos minutos iniciais todas as regras e diretrizes que ditarão os rumos do registro. Das batidas aceleradas projetadas por Barrow ao baixo vigoroso enaltecido por Utley, cada ponto do álbum seria ordenado de forma intensa, expansiva e distante dos minimalismos de outra. Se a faixa inicial Silence estabeleceria os limites do registro, então Machine Gun romperia com todos. Explosiva, suja, densa e sufocante, a composição de quase cinco minutos representa tudo o que seria esse lado “rock” do trabalho, concentrando no uso de batidas sincopadas (e ascendentes) todas as características do Portishead dessa nova e ainda recente fase.

Ao mesmo tempo em que experimentam novas possibilidades musicais, o trio ainda se mantém claramente conectado com os acertos do passado, algo que o clima envolvente de Small, o toque amargo de Plastic (com um sample circular que funciona feito um bumerangue acertando o ouvinte) e a grandiosidade de Hunter (com um pequeno reforço de guitarras) acabam representando. É na experimentação, contudo, que o grupo se concentra, transformando Third em uma sucessão volumosa de faixas marcadas pelo ineditismo e por uma sonoridade instigante em sua totalidade.

Das batidas semi-tribais de Nylon Smile (faixa que cheira a Björk) ao passear rápido pela música folk em Deep Water, Third é um trabalho de direções sempre diferenciadas e não importam quais delas o grupo percorra, há sempre certeza e um resultado assertivo no meio disso. Tão ou mais importante que os primeiros registros do Portishead, o terceiro álbum do grupo britânico é acima de tudo uma resposta: o Trip-Hop está tão vivo e criativo quanto em seus anos iniciais, Third é apenas um mínimo exemplar disso.

Third (2008, Island)

Nota: 9.3
Para quem gosta de: Massive Attack, Björk e Radiohead
Ouça: Machine Gun

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