Pequenos Clássicos Modernos

Grandaddy
Indie/Space Rock/Alternative
http://grandaddymusic.com/

 

Por: Cleber Facchi

Grandaddy

O existencialismo melancólico, o medo da solidão e a vitória do computador sob o próprio homem fizeram de OK Computer a maior obra da década de 1990. Caso Thom Yorke e os parceiros de banda não tivessem lançado o disco em Maio de 1997, e sim três ou quatro anos mais tarde, provavelmente The Sophtware Slum (2000, V2) ocuparia o posto do cultuado projeto. Segundo registro em estúdio do “grupo” norte-americano Grandaddy, o sucessor do também memorável Under the Western Freeway (1997) lida de forma curiosa com a dicotomia entre o bucólico e o urbano, tendência aplicada não apenas na capa emblemática que ilustra a obra-prima da banda de Modesto, California, mas em toda a extensão daquele que é um dos maiores registros da década passada.

Enquanto o quinteto britânico parece lidar com um trabalho que antecede e até mesmo vivencia o período de transformação do homem em máquina, o registro assumido do princípio ao fim pelo multi-instrumentista Jason Lytle parece se encaixar como uma continuação ao trabalho dos ingleses. Tudo se constrói em uma imensa sequência de histórias pós-apocalípticas não raivosas ou demasiado sombrias, mas de quase libertação. É como se depois da invasão das maquinas, da expansão da internet, do pane no sistema Lyte (e os personagens incorporados por ele) vivessem em um cenário que pouco à pouco restabelece os tons de verde e a paisagem ao redor.

Musicalmente bem estabelecido, o registro parece deixar para trás o retrato caseiro que habitava o primeiro álbum da banda, incorporando uma proposta capaz de lidar com a grandiosidade dos sons e a ambientação dos vocais de seu idealizador. Espécie de versão campestre dos mesmos inventos flutuantes que decidiram os rumos de The Soft Bulletin (1999) do The Flaming Lips,  Deserter’s Songs (1998) do Mercury Rev ou Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space (1997) do Spiritualized, o álbum trata de cada composição como um composto individual. Guitarras, vozes, teclados, bateria e demais efeitos que se acomodam em cada uma das canções são explorados de maneira cuidadosa, como uma gigantesca concha de retalhos e que lentamente revela sua real (e bela) forma.

Grandaddy

Parte essencial do acerto que habita as melodias vocais e sons cuidadosamente construídos por Lyte se concentra na maneira como tudo é apresentado em um regime de extrema delicadeza e profunda entrega do compositor. Preferência assumida três anos antes durante o lançamento do primeiro álbum da banda – vide os sons que habitam AM 180 e Summer Here Kids -, a busca por sonorizações límpidas e recheadas por diversos instrumentos ocupa cada canto da obra em um enquadramento poucas vezes encontrado. Tudo se materializa como o prelúdio de uma imensa viagem instrumental orquestrada por sintetizadores pueris, guitarras mergulhadas na mesma essência do Built To Spill e até texturas inéditas que futuramente viriam a influenciar boa parte do cenário independente – principalmente no que viria a ser a nova música canadense.

Consumidas de forma leve pela tristeza, as letras que dão formas ao disco parecem metaforizar os sentimentos de Lyte com cenários fantásticos, personagens tomados pela analogia e toda uma forma quase mágica do compositor em ressaltar as próprias experiências. Mesmo tratando de forma quase messiânica sobre o futuro, o artista fornece material o suficiente para firmar o álbum no presente. À medida em que conta histórias ou assume sentimentos por vezes complexos, o músico estabelece um estranho sentimento de aproximação com o ouvinte, afinal, estaria Jason cantando sobre si próprio em um universo alternativo ou apenas revelando sentimentos e histórias ocultas do próprio espectador?

Delimitado pelo contraste, o álbum espalha samples orgânicos na mesma medida em que sintetizadores eletrônicos edificam imensos paredões sonoros. Um encontro que parece anteceder a homogeneidade do Radiohead na fase Kid A (2000) ao mesmo tempo em que resgata referências fundamentais de tudo o que foi conquistado pelo Beach Boys durante a construção do clássico Pet Sounds (1967). Talvez datado pouco tempo após seu lançamento, ou esquecido por conta da diversidade de outras bandas que ocuparam o cenário norte-americano no começo da década, The Sophtware Slum parece aos poucos restabelecer seu curso. Em um cenário cada vez mais consumido pelo digital, Jason Lytle parece ter pintado o retrato mais coeso de tudo o que ainda está por vir.

 

 

Grandaddy

The Sophtware Slum (2000, V2)


Nota: 9.5
Para quem gosta de: The Flaming Lips, Built To Spill e Radiohead
Ouça: o disco todo

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