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Pequenos Clássicos Modernos

The National
Indie/Alternative/Alternative Rock
http://www.americanmary.com/

 

Por: Cleber Facchi

The National

Crescer é um exercício doloroso e complexo na maioria das vezes. Não por acaso o ponto de ruptura e transformação dentro da discografia do The National seja justamente a representação mais sombria de toda a carreira da banda. Intitulado Boxer (2007, Beggars Banquet), o quarto registro em estúdio do grupo de Cincinnati, Ohio manifesta o que há de mais sorumbático e ainda assim belo nos sentimentos humanos. Uma homenagem confessa ao abandono inevitável, às noites solitárias e aos versos que escorrem por entre pedaços partidos do coração, restos que o vocalista Matt Berninger tenta a todo o custo montar durante a execução da obra.

Sucessor de dois trabalhos de peso similar – Sad Songs for Dirty Lovers (2003) e  Alligator (2005) -, ao alcançar o quarto álbum Berninger e os irmãos Dessner e Devendorf vão de encontro a um dos retratos mais dolorosos da produção estadunidense pós-11 de Setembro. “Não vamos tentar calcular tudo que queremos/ É difícil manter o controle caindo do céu/ Nós estamos semi-acordados em um falso império”, canta o músico logo na faixa de abertura, Fake Empire, eixo melancólico que conduz o sofrimento nacionalista discutido no restante da obra. Assim como o Wilco em Yankee Hotel Foxtrot (2002) e o TV On The Radio em Dear Science (2008), Berninger parece cantar sobre si próprio, mas com um olhar atento ao que acontece ao redor.

Longe da raiva contida que explodia ocasionalmente nos registros passados – vide a angústia de Murder Me Rachael e Slipping Husband -, em Boxer a uniformidade é o que conduz a tristeza do disco com excelência. Ciente de sua condição e do ambiente que o cerca, o cantor e os parceiros trilham um caminho rodeado pelo abismo, o que transforma cada faixa em uma representação de constante amargura. Por vezes mergulhado no álcool, o músico assume uma postura diferente da apresentada nos trabalhos anteriores, afinal, não se trata mais de um álbum que discute possíveis términos de relacionamento ou particularidades do cantor, mas o desespero em uma sociedade em plena decadência.

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Assumindo uma formatação de seriedade constante, Boxer passeia por uma estrutura de versos quase descritivos. São pequenas observações de Berninger sobre aspectos inevitáveis da vida adulta, como a solidão em Green Gloves (“Perdendo contato com todos meus amigos/ Estão em algum lugar se acabando/ Espero que eles estejam juntos”) ou recortes político-metafóricos, como os que sustentam Start A War (“Você realmente acha que pode simplesmente por em um cofre atrás de uma pintura, trancar e partir? Vá embora agora e você vai começar uma guerra”).

Bem resolvido instrumentalmente, o disco traz no amargor das melodias um exercício sufocante e um apoio inevitável para a proposta que tanto delimita o álbum. Peter Katis, produtor da obra, busca dar ao registro o mesmo acabamento homogêneo que alimenta Turn on the Bright Lights (2002), obra-prima do Interpol e registro que divide diversos aspectos sonoros com o quarto disco do The National. Menos focado nas guitarras e diversificado no uso dos instrumentos (destaque para os pianos de Sufjan Stevens ao longo da obra), Boxer se distancia da postura “rock” dos projetos passados, focando na realização de um som atmosférico e consequentemente amplo.

Projeto fechado mesmo dentro da discografia do The National – em High Violet (2010) é visível o regresso aos sons iniciais que alimentaram o trabalho do grupo -, Boxer se ergue como uma obra única mesmo dentro do rock norte-americano recente. Matt Berninger parece conduzir o ouvinte por um cenário que desmorona lentamente, não apenas de forma metafórica, em seu interior, mas de maneira progressiva em um cotidiano nada lírico e real.

 

Boxer (2007, Beggars Banquet)


Nota: 9.3
para quem gosta de: Interpol, Arcade Fire e The Antlers
Ouça: Fake Empire e Green Gloves


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