Pequenos Clássicos Modernos

Categories Pequenos Clássicos Modernos, Resenhas

Domenico +2
Brazilian/Experimental/Alternative
http://www.myspace.com/morenodomenicokassin2

Na sequência do projeto +2 é Domenico Lancelotti quem assume o comando sobre o álbum. Logo de cara fica a visível predisposição do trio em experimentar novos sons e lançar um trabalho menos contido do que o resultado obtido no álbum de estreia, Máquina de Escrever Música (2000). Com Sincerely Hot (2003) o grupo se aprofunda pelo terreno da música eletrônica e busca novas formas de desenvolver seu som, embora ainda mantenha o foco na música popular brasileira.

O lado funk, dançante e experimental que se mostrava pequeno no trabalho dirigido por Moreno Veloso vem nessa sequência melhor aproveitado e se estende em boa parte das canções. A aproximação dos músicos da nova geração com os artistas que compuseram a música brasileira dos anos 70 tem início aqui. O que anos mais tarde seria intensamente desenvolvido por gente do Cérebro Eletrônico, Marcelo Jeneci, Céu e outros membros da nova MPB têm claro começo dentro do projeto +2. Contudo Lancelotti e seus parceiros não se prendem a possibilidade de imitar o passado e transformam todas as suas referências em algo novo.

Na faixa título do álbum, por exemplo, o trio desenvolve um sambinha bilíngue, repleto de instrumentação distorcida e quase eletrônica, em que a letra maliciosa (“Eu vou tocar nos seus peitos/ eu vou chupar sua nuca/ eu vou ranger os seus dentes/ eu vou comer essas garotas”) faz jus ao título e se mostra verdadeiramente “quente”. As letras irônicas e bem humoradas de Domenico compõem estão em todos os cantos do disco, dando ao álbum um ar de brincadeira séria.

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Lançado no exterior pelo selo Luaka Bop de David Byrne, o álbum arremessou o trio para uma série de apresentações nos Estados Unidos, Europa e Ásia. O som contemporâneo do grupo agradou a crítica internacional de maneira uniforme, até no Brasil onde artistas que crescem lá fora encontram dificuldade para se apresentar aqui (vide o Cansei de Ser Sexy e Sepultura), o disco recebeu o aval favorável por parte dos veículos de comunicação, acabando inclusive nas listas de melhores lançamentos nacionais da década.

A clara força do álbum está na produção de um som heterogêneo em que o trio passeia através de décadas de referências e influências musicais sem de fato se ater a uma. Apesar de a sonoridade eletrônica mostrar prevalência dentro das composições o grupo (que contou com produção do próprio Kassin, um dos membros do +2) há espaço para o trio se utilizar da soul music (Felizes Ficamos na Estrada), experimentalismo puro (Araras Sessions), Jazz (Comigo) e Bossa Nova (Solar).

Sincerely Hot é um dos lançamentos mais excêntricos e ainda assim acessíveis dos últimos anos na música brasileira. O trio +2 consegue não apenas superar os pequenos erros de seu trabalho de estreia, como também apresenta algo profundamente novo e que trouxe um notavel vigor à MPB tradicional, que na época enfileirava fracassos e “novos artistas” que vinham destilando fórmulas repetitivas e indisponíveis de mínima qualidade.

Sincerely Hot (2003)

Nota: 8.7
Para quem gosta de: Los Hermanos, Kassin +2, Moreno +2
Ouça: Tarde de Chegada

Por: Cleber Facchi

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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