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Pequenos Clássicos Modernos

Otto
Brazilian/Alternative/Manguebeat
http://www.myspace.com/ottobrasil

Por: Cleber Facchi

Nada melhor (ou pior) do que a perda da pessoa amada para gerar um bom e sincero disco, uma das provas mais recentes da influência dos sentimentos sobre uma produção artística está em Certa Manha Acordei De Sonhos Intranqüilos (2009), quarto álbum de estúdio do pernambucano Otto, em que a melancolia assume formas poucas vezes antes exploradas em solo nacional. A separação da mulher (a atriz Alessandra Negrini) e a perda recente da mãe são os elementos que fazem a cabeça do ex-integrante do Mundo Livre S/A explodir em uma tortuosa criatividade.

O título do trabalho, vindo do primeiro verso encontrado na obra máxima de Franz Kafka, A Metamorfose, ilustra com total propriedade a enorme transformação ocorrida na vida do músico ao longo dos últimos anos. Não apenas as alterações sentimentais, mas a troca de sonoridades, com Otto deixando de lado todas (ou boa parte de) suas influências eletrônicas em prol de um som orgânico e voltado à MPB. Muda também o método de gravação e distribuição do álbum, tendo em selos estrangeiros e numa forma totalmente independente a construção e circulação do álbum.

Se nos momentos de dores são os amigos o grande ponto e sustentação do sofredor, aqui a coisa não é diferente. O pernambucano contou com uma série de colegas para dar vida ao disco, começando pelos conterrâneos Pupilo e Dengue da Nação Zumbi, respectivamente bateria e baixo (lembrando que o primeiro ainda assume a produção do álbum), além de Fernando Catatau do Cidadão Instigado, que assume a responsabilidade pelo belo show de guitarras do trabalho e fornece seu estúdio (Totem) para o registro do trabalho. Otto contou ainda com a instalação artística do artista plástico Tunga, compatriota de Pernambuco.

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A amizade e as participações não cessam aí. Logo na segunda faixa (O Leite) a paulistana Céu chega para dar o ar da graça, naquele que é um dos momentos mais sentimentais de todo o álbum. Para Meu Mundo (uma das poucas que traz de volta a pegada eletrônica) chega Lirinha (ex-Cordel Do Fogo Encantando), mas é na dobradinha com mexicana Julieta Venegas, que o resultado de fato surpreende. Seja na versão de Lágrimas Negras de Jorge Mautner, ou na melancólica Saudade, o resultado é sempre uma surpresa.

Otto se entrega por completo ao longo de todo o registro, seja de corpo, fazendo com que sua voz seja levada aos extremos, ou de alma, através das letras sorumbáticas que compreendem o álbum. Entre as provas de toda essa dor pintam composições como 6 minutos, um dos achados musicais mais sofridos daquele (e de vários outros) anos. Até na regravação de Naquela Mesa (clássico na voz de Nelson Gonçalves), o músico deixa que seu sofrimento assuma formas bem definidas.

É muito provável que Certa Manha Acordei De Sonhos Intranqüilos não tivesse o mesmo significado se não fossem as somatórias de perdas que perpassaram a vida de Otto naquele momento. Porém, reduzir o disco a um mero lamento sonorizado é menosprezar toda a final composição do disco, um conjunto em que som, poesia e sentimento se encontram de maneira bonita e verdadeira.

Certa Manhã Acordei De Sonhos Intranquilos (2009)

Nota: 9.0
Para quem gosta de: Cidadão Instigado, Mundo Livre S/A e Mombojó
Ouça: O Leite

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